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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Sobre as minhas recentes leituras

Tenho lido muito sobre o futuro, mas de livros escritos ainda no século 20, de uma colecção intitulada Vintage Futuro da editora Penguin. Não sei o que me deu, mas começou com The Handmaid's Tale e prosseguiu a partir daí. Também foi a partir dos 30 que me deu para ler ficção científica com mais afinco, coisa que até aí era um passatempo irregular, fugaz, e conforme o que estivesse em promoção. O que mais gosto nesses livros é o lado filosófico. Fala-se de tecnologia, de coisas que já estão em uso agora, mas de forma a ponderar sobre o ser humano. Li Dune, que decorre uns 10 mil anos no futuro, e outros em que a linha cronológica é vaga, e em todos eles o ser humano evoluiu de várias formas, mas no fundo permaneceu como eu o conheço.

Em todos os livros encontro questões familiares, desafios conhecidos, perguntas que nos assombram deste sempre, conflitos iguais aos de agora, e previsões que não parecem tão aquém da realidade. Em 1984 o Big Brother, em Brave New World a droga e a promiscuidade o sistema de produção de pessoas, em We ainda não sei bem o quê mas suspeito ser na linha da promiscuidade. Nos três um estado totalitário. Em outros livros menos conhecidos como distopias outros aspectos do futuro. Em Lock In seres humanos que vivem através de máquinas. Em Next mutações genéticas e biotecnologia. E nisto tudo os humanos, sempre com os seus problemas egocêntricos, as suas ânsias, a sua ambição. E nisto tudo, a questão mais importante: liberdade.

Todos os livros sobre o futuro que tenho lido remetem para a necessidade de controlo da liberdade e para um colectivo uníssono. Os protagonistas entram em conflito com a realidade por uma razão ou outra e põem em causa um sistema. Mas nisto, apercebo-me de que o sistema actual é tão bom ou tão mau que dou por mim a ler estes livros de liberdades confiscadas, individualidade espezinhada, até um certo retrocesso, e questiono-me: será assim tão mau viver nesta realidade? E é assim que me dou conta de que o mundo agora está do avesso, porque se calhar o preço da liberdade é a harmonia colectiva. E é assustador pensar assim.

Foi como quando vi o programa de Anthony Bourdain, Parts Unknown, em Singapura. Foi o primeiro episódio da temporada 10. O programa mostrou um país ultra-moderno, ultra sofisticado, com câmaras de vídeo-vigilância e proibições extremas (mastigar pastilha elástica na rua é ilegal), um toque de Big Brother e internet monitorizada, mas onde abundam casinos e bares, onde a prostituição é legal, onde aparentemente as pessoas vivem felizes, as ruas são limpas, as estradas amplas e bem mantidas. Tudo isto num sistema uni-partidário. Uma utopia, disse Bourdain. Disse ainda, "Ao assegurar que os seus cidadãos estão seguros, alojados, saudáveis, e na maioria economicamente bem-sucedidos, o governo de Singapura tem sido eficaz a manter as massas aplacadas o suficiente, dispostas a aceitar restrições à sua liberdade e liberdades cívicas". E eu vi o programa e pensei: será assim tão mau viver nesta realidade? E é assim que me dou conta de que o mundo agora está do avesso, porque a harmonia colectiva parece uma utopia tal que chego a questionar esta liberdade que temos e valorizamos.

Em alguns dos livros que tenho lido somos considerados selvagens, seres ancestrais que não faziam ideia da porcaria que estavam a fazer, que não sabiam como manter todos os humanos alimentados e contentados. Uns bárbaros. As questões minuciosas ultrapassadas, requintes disponíveis para todos. Satisfação quase total. Liberdade nenhuma. Mas tecnologia, uma vivência sustentável, um planeta próspero, harmonia e equilíbrio, mas sem paixão. Seríamos nós capazes de abdicar da liberdade pessoal e da paixão individual em prol da felicidade colectiva? No fundo: temos mesmo de escolher, ou seremos capazes de no futuro termos tudo?

Vanessa

terça-feira, 3 de abril de 2018

Vi Ready Player One e já me esqueci, vi Annihilation e adorei

O mais recente filme de Steven Spielberg, Ready Player One, não me convenceu com o seu ímpeto de futuro revivalista. Assim que começou, capturou com a música. Assim que a narração começou, perdeu-me. Narração num filme é para mim preguiça. São poucos os filmes em que perdoo a narração. Se eu quisesse narração ouvia um livro em áudio, não ia ver um filme. Por outro lado, quando é a personagem principal que está a narrar tem de haver um propósito. O propósito, no entanto, perde-se em grande parte porque se a personagem está a narrar é porque sobreviveu. Por isso, narração é um mini spoiler. Não me vou alongar com a crítica nem com o meu snobismo em relação ao filme, porque o filme ganhou no que toca ao entretenimento.

Resumidamente, o filme passa-se num futuro credível onde parte das nossas vidas passa-se numa realidade virtual, o OÁSIS, mas continuamos escravos de corporações, do sistema, da tecnologia, e continuamos humanos escravos, mas agora com entretenimento em alta definição. Só que o criador do OÁSIS deixou uma competição que pode democratizar o sistema. O maguffin consiste em três chaves que qualquer jogador pode encontrar e que levam a um desafio final onde o vencedor ganha controlo do OÁSIS. Pelo caminho há músicas, referências a jogos, livros, até cenas de filmes que fazem as delícias dos fãs do cultura pop dos anos 80 e 90.

Só que uma estória não se faz de easter eggs (nem mesmo no domingo de Páscoa), de alusões a obras-primas (que até são melhores do que a obra que as referencia), ou de efeitos especiais espectaculares, especialmente vistos num ecrã IMAX 3D. O filme deu para rir, para congregar a nostalgia revivalista no escuro do cinema, ponderar um futuro nada risonho, mas pouco mais. Para a semana não me vou lembrar do filme. Não vou questionar metáforas. Não vou recordar nomes de personagens. Mais depressa vou querer reviver os filmes, os livros e os jogos que Ready Player One usa para avançar o enredo do que a própria película.

Na outra face da moeda está Annihilation, um filme que a Paramount decidiu ser demasiado inteligente para as massas (parafraseando) e que a Netflix foi responsável por democratizar. Vi o filme antes de Ready Player One e continuo a pensar nele. Ambos os filmes me fazem querer ler os livros, mas sei que com Annihilation a experiência vai ser diferente. O conteúdo do filme é multifacetado, de tal forma que ainda o estou a processar e em breve escreverei sobre ele. Para já, é o meu filme preferido do ano. Viva a complexidade.

Em jeito de resumo, em Annihilation Alex Garland, escritor de outro filme que se tornou um preferido meu, Ex-Machina, transpôs em película o primeiro livro da trilogia de Jeff VanderMeer, Southern Reach Trilogy, onde a bióloga Lena se junta a uma missão para explorar uma área secreta onde uma aterragem alienígena provocou um microclima chamado Shimmer. O enredo é intrigante e vai satisfazendo a curiosidade, mas nunca de forma 100% satisfatória. É no fundo um mistério, além de ser um filme de ficção científica. E nunca o filme me desapontou ao longo dos três actos, nem em termos de efeitos visuais, nem em termos de estória.

Tive pena que o filme não tivesse merecido, aos olhos dos big bosses do cinema, um lugar nas salas de cinema, cujos cartazes neste momento me parecem bem deprimentes. Às vezes uma pessoa precisa de mais do que explosões e música e frases feitas. Às vezes o escuro do cinema também é bom para questões complexas.

Ready Player One: 0.
Annihilation: 1.

Vanessa

terça-feira, 14 de novembro de 2017

13 razões pelas quais não gostei da série Por 13 Razões

Quando estagiei no Jornal de Notícias, reportar suicídios era desencorajado. Quando ligávamos para quartéis de bombeiros e para a PJ, tomávamos nota de todo o tipo mortes, mas suicídios raramente eram noticiados. A primeira razão é o facto de que notícias sobre este tipo de morte encorajam os leitores com tendências depressivas. Sempre me disseram, e eu nunca confirmei, que houve sempre picos nas estatísticas de mortalidade após notícias sobre suicídios. Outra razão é o facto de este tipo de fatalidade ser íntimo, e se os jornais publicassem artigos provavelmente teriam de explicar motivos, panorama familiar e profissional, forma de morte, e já se sabe que depois a linha que separa o acto de noticiar do sensacionalismo é muito ténue.

Comecei a ver Por 13 Razões (13 Reasons Why no original), série norte-americana sobre suicídio na adolescência que vi quase de uma assentada. Comecei por gostar e por ficar intrigada, ao longo dos episódios fui ficando apenas intrigada, e acabei a série a detestar as personagens, o enredo, o motivo do e a forma como o suicídio da personagem principal foram representados. Quando mais penso na série, mais a detesto.

Nota: isto é a opinião de uma pessoa que não leu o livro no qual a série se baseou, mas sabe alguns detalhes do original. Possíveis spoilers no desabafo irritado que se segue.

1. Personagens mal desenvolvidas. Vemos apenas personagens a reagir ao que lhes acontece. As atitudes, incluindo muitas das más, não têm explicação lógica. As pessoas são mázinhas só porque sim. Zach é bom aluno, rapaz de família, e um doce de pessoa, até não ser. Só porque sim. Deve ser por gostar de basquetebol. É que normalmente nos filmes, os atletas são sempre cabeças de alho chocho. Um rapaz é pobre, por isso é má pessoa numas ocasiões e passivo noutras, outro é rico, por isso sente que está acima das regras e do bom senso. Pior, não sei nada sobre Hannah Baker, a personagem principal, tirando que quer ser amada e bem tratada. Ah, a sério? Após 13 horas de série, não saberia descrever a moça se me pedissem, o que é um bocado ridículo.

2. Atitudes parvas. A maioria das coisas que levou ao suicídio de Hannah Baker são tolices com excepção, possivelmente, de quatro das razões. Logo a primeira cena, a da foto que parecia algo mais, podia ser justificada. Foi chunga, que foi, mas a foto era péssima e foi tirada por terceiros. Logo, nada diz sobre o carácter da pessoa da foto. Por falar nisso, a foto que o depravado do fotógrafo amador tirou nem dava para perceber quem estava na foto. Ambas são situações de desrespeito, claro, que depois escalam à medida que outras coisas acontecem, mas a moça ou não reage como gente normal. Ninguém numa escola normal se importaria com um poema anónimo, mesmo que o conteúdo fosse vagamente erótico. Há uma lista que objectifica as raparigas da escola, a amiga de Hannah culpa-a (hã?) e ainda lhe dá uma chapada. Hannah nunca se defende como deve ser ou denuncia os (pelo menos três anteriores) eventos para que medidas sejam tomadas. Hannah testemunha uma violação e faz nenhum, mas depois dá na cabeça do namorado que também não fez nada. Hannah é apalpada e não se defende nem denuncia, é violada e não denuncia como deve ser, e reage de formas descabidas.

3. O que seria justificado se Hannah Baker desse sinais de ter uma doença mental. O suicídio é um culminar. Normalmente quem se suicida sobre de ansiedade, depressão, ou outros distúrbios psicológicos. Hannah Baker começa a série como uma jovem inteligente, sarcástica, atraente, às vezes extrovertida. Concluindo, nada que indique ser uma pessoa com possíveis tendências suicidas. A atitude da moça é acumular as emoções sem quase nunca falar com alguém senão no final e depois vingar-se... matando-se e deixando cassetes gravadas com as suas razões. Se isto não é romantizar e até glorificar sentimentos de vingança e o suicídio, não sei o que é.

4. Os bonzinhos da série deviam ser beatificados. Não há uma falha que se lhes aponte. Têm uma moral superior, defendem os injustiçados, e andam cabisbaixos. Clay não tem uma mancha no carácter. Cada lado das cassetes de Hannah representa uma pessoa que contribuiu para o seu suicídio. Clay incluído, mas só para dar um especial drama ao enredo e gerar na audiência curiosidade para continuar a ver a série.

5. As personagens são esteréotipos. Há o nerd Clay, os populares e atraentes, todos atletas e cheerleaders, os populares e sacanas, todos os atletas e principalmente os mais ricos, o artista perturbado e sombrio, o fotógrafo pouco popular, a asiática estudiosa e preocupada com a reputação, o misterioso mais adulto (que por acaso é gay), o gay óbvio da escola, os pouco populares que são saco de pancada. Isto só para resumir.

6. Esta é uma série baseada no diálogo entre personagens, mas o diálogo é péssimo e pouco realista. Nenhum adolescente que eu ouvisse, nem os de documentários e de outras séries e filmes norte-americanos, fala como estas personagens. As personagens soam ao que os adultos acham que os adolescentes de hoje em dia soam.

7. Por falar nisso, muitos dos actores não parecem adolescentes do ensino secundário. Embora seja comum que os actores sejam adultos em filmes sobre jovens, neste caso, a juntar a tudo o resto, isto não dá validade ao enredo, não permite que o público-alvo se identifique mais, e deturpa a mensagem principal, que sim, é válida e necessária, mas não da forma como a séria a capta, que assim no geral se resume a: pessimamente.

8. Toda a gente matou Hannah Baker. É esta uma das mensagens que é directamente dita por Clay. Discordo totalmente. A série é sobre suicídio, não homicídio. É claro que bullying contribui, mas apenas se a pessoa vítima de bullying for predisposta a doenças mentais que levam ao suicídio. E Hannah nunca pareceu predisposta. Não estão lá os sinais, incluindo os mais óbvios, da apatia e tristeza à auto-mutilação, porque há normalmente um crescendo em termos de auto-flagelação antes do suicídio. Depois há belas mensagens como a de Skye, personagem que se auto-mutila, que diz que isso é o que se faz em vez de cometer suicídio, como se a mutilação não fosse por si só um problema grave, como se não fosse tão grave como o suicídio, o que não só minimiza o acto, como até o encoraja como forma de escape. Em retrospectiva, parece-me doentio.

9. Hannah Baker não sabe que não é não. Este assunto é delicado. Na série, Hannah recusa Clay de forma decidida, cinco vezes pela minha contagem, mas sem o querer. O que ela queria era que Clay tivesse ficado, porque claramente ele é a solução para todos os seus problemas (sarcasmo). Mais tarde, Hannah fala com o psicólogo da escola que nada pode fazer porque ela não quer denunciar quem a violou, mas que ainda assim escuta atentamente, recusa chamadas para lhe dar a devida atenção, e Hannah recusa sempre ajuda, mas quando sai porta fora, espera por momentos na esperança de que o psicólogo a vá procurar. A moça espera que as pessoas adivinhem que as suas recusas signifiquem afirmações. Deu-me nervos.

10. O amor cura tudo. Hannah critica constantemente a vida social dos adolescentes, apesar de ela própria participar em todos os rituais típicos. Mais ainda, a vida de Hannah parece centrar-se somente na sua (falta de) popularidade e no facto de ser ou não alvo das atenções dos rapazes. A série dá a entender que se Clay tivesse dito que a amava, as coisas seriam diferentes, o que reduz a mensagem da série de forma destrutiva, fazendo crer que a cura para o suicídio é o amor, ou de forma mais dramática, que a cura é a atenção de um rapaz.

11. As raparigas da série são tolinhas. Preocupam-se com a reputação e com a vida amorosa. São todas atraentes e fúteis. Pouco mais. Não sabemos de quase nada sobre os seus sonhos, ambições, planos. Nada. As únicas mulheres melhor caracterizadas são as mães das personagens principais, e mesmo assim a fasquia continua baixa porque ambas são ingénuas e não vêm o que está à frente do seu nariz.

12. A melhor cena de toda a série, para mim e de um ponto de vista cinematográfico, foi a do suicídio. No livro, Hannah mata-se com comprimidos, mas na série corta os pulsos. A cena foi mostrada ao detalhe e fez impressão, mas pode ser vista como um tutorial para aqueles que estejam a pensar no assunto. Todas as associações que consciencializam e têm como objectivo prevenir suicídios desencorajam retratos deste género e por boa razão. Compreendo que os criadores pudessem pensar que mostrar a violência do acto poderia ser uma forma de deter aqueles que contemplam suicidar-se, mas a forma como romantizam a estória, como glorificam, talvez indirectamente, as escolhas de Hannah e a tornam heroína ou mártir, tudo isto embeleza o acto final.

13. A série dá a entender que pedir ajuda é infrutífero. Nunca vemos alguém ajudar Hannah, nunca a vemos pedir ajuda a sério, quase nunca alguém a compreende. O lado produtivo desta série seria informar e prevenir, mas ao tornar Hannah num puzzle, apenas serve de entretenimento. Os criadores dizerem que as intenções foram boas não valida as intenções. Não vejo na série essas intenções de alertar para o suicídio. Vejo apenas um romance em que uma rapariga se vinga de quem lhe fez mal e que de caminho se torna popular, coisa que não foi em vida, numa de dar uma lição aos maus da fita, que agora na generalidade se culpam, o que retira da pessoa que se suicidou qualquer responsabilidade pelo acto em si. Tudo isto mostrado de forma superficial e com um quê de intriga para manter audiências, e na minha opinião de forma irresponsável.

Vanessa

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A verdade ainda está lá fora

Lembro-me de ter uns 10 anos e de ficar colada ao ecrã da televisão quando a TVI transmitia os Ficheiros Secretos (X-Files no original). Não me lembro de nenhum episódio específico. Apenas me recordo de ver Dana Scully e Fox Mulder em cenários escuros com uma música sinistra no fundo, e disso ficaram as sensações que a série transmitia às segundas-feiras à noite com enredos que envolviam o paranormal e o sobrenatural.

Havia tanto no mundo que desconhecia nessa altura, e ainda hoje. Tenho visto os Ficheiros Secretos desde o início há cerca de um mês. Vou na segunda de dez temporadas, e de vez em quando há cenas que me lembro de ter visto. A maior parte dos temas não me são desconhecidos, porque desde essa altura que me fascinam todas as áreas do oculto, provavelmente devido à influência que a série teve em mim desde criança.

Muitas das teorias da conspiração que guiavam Fox Mulder são agora comprovadas ou pelo menos verificadas. Ficheiros Secretos levava essas teorias ao extremo, mas até ao momento apenas coisas como os monstros, as mutações, e as bactérias milenares soterradas no solo ou no gelo parecem ser mera ficção. 

Fiquei especialmente fascinada com o episódio 21 da primeira temporada quando Scully e Mulder usam um software para reproduzir em 3D dentadas encontradas numa cena de crime de forma a comprovar o culpado, tema que sobre o qual o programa Last Week Tonight se debruçou num episódio recente sobre ciência forense e concluiu ser insuficiente para nos Estados Unidos condenar alguém, mas que é usado na mesma.

Mais ainda, fiquei impressionada com o episódio 10 da segunda temporada, onde a teoria da conspiração do episódio tinha que ver com as hormonas injectadas em vacas e os consequentes efeitos nos humanos, e o episódio envolvia uma seita de veganos. A teoria continua a ser conspiração, mas agora sabemos que o que é injectado nos animais antes do matadouro também tem consequências para a saúde dos humanos.

A cada episódio fico fascinada com o facto de não me lembrar de nada muito específico, pois na memória tenho apenas algumas cenas e sensações de curiosidade (muitas vezes mórbida), mal-estar, perplexidade, mas também com o facto de as minhas horas vagas serem passadas debruçada sobre tópicos semelhantes, às vezes os mesmos, 23 anos passados desde que a primeira temporada passou na televisão portuguesa.

O spot publicitário que a TVI passava usava a frase "A verdade está lá fora" e "Quero acreditar", muito usadas ao longo da série como ímpeto para avançar, e a verdade ainda, está de facto, lá fora, misturada com teorias da conspiração e campanhas de desinformação, e Mulder seria tão feliz com as descobertas que já se fizeram, com os novos casos que a internet propaga, com as conspirações recentes, e com as novas tecnologias.

Vanessa

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Thor: Ragnarok vale a pena

Apesar de estar saturada de filmes com super-heróis, fui à antestreia de Thor: Ragnarok, realizado pelo para mim desconhecido Taika Waititi. Thor é daqueles filmes que nunca me cativou e sempre pensei que fosse por ter demasiada fantasia. Até que vi Doctor Strange e percebi que o problema não era a temática, mas o género.

Isso ficou resolvido em Thor: Ragnarok, que agora abraça a comédia e se transforma num filme muito mais apetecível para mim. A comédia é um género delicado. Quando o filme começou pensei que ia correr mal e que estava prestes a assistir a um desfile de humor fácil, como muitos filmes de acção agora fazem. No entanto, à medida que o enredo avançou, o lado de comédia tornou a estória mais fácil de engolir.

Nos dois filmes anteriores tinha pensado que se os momentos engraçados fossem mais prolongados e frequentes, o enredo seria mais interessante e menos absurdo e aqui tive a confirmação. Houve momentos hilariantes, daqueles de soltar uma lágrima de tanto rir, e nem a quantidade de personagens destronou o papel da comédia. Foi, aliás, muito mais fácil acompanhar cada personagem, até as secundárias, graças ao seu tipo de humor.

O enredo continua um pouco absurdo para mim, ao contrário de outros filmes da Marvel, que apesar de serem fantasiosos, conseguem manter algum sentido e incluir cenas plausíveis dentro do cenário. Por vezes custa-me entrar naquele mundo feito de outros mundos e seguir aquilo a que se chama MacGuffin, o ponto que motiva a acção, mas em Thor a jornada é agora mais agradável. O realizador apurou as motivações de cada personagem, deu-lhes nova vida (nunca gostei do Hulk até este filme), e conseguiu enriquecer todo o cenário, de tal forma que mais de duas horas de filme passaram num ápice, porque muito desse tempo foi passado a rir.

Este Thor vale a pena porque mostra o seu lado de entretenimento cinematográfico. O meu lado feminista também ficou contente com o filme. Mais não digo.

Vanessa

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O Círculo versus The Truman Show

Aviso: Spoilers. Em O Círculo (The Circle em inglês), de 2017, Mae é contratada pela maior empresa de tecnologia e redes sociais do mundo. A empresa investe em aparelhos e software com o intuito de tornar o mundo melhor através da democratização da informação, e da transmissão e cruzamento de dados. Todo o mundo parece achar boa ideia. Mae vai caindo numa teia de ilusões e torna-se porta-voz da empresa, uma influencer, e as suas decisões passam a ter influência não só sobre os que lhe são queridos, mas sobre toda a sua audiência.

Em The Truman Show - A Vida em Directo, de 1998, Truman é uma estrela de televisão sem o saber e não conhece outra realidade senão a que foi criada para o programa no qual a sua vida é transmitida. Todos os que conhece são actores, muitos dos produtos que usa são na verdade patrocínios, todas as decisões estão fora do seu alcance. Todo o mundo parece achar boa ideia assistir à vida de uma pessoa que não sabe que é o protagonista de um programa televisivo. Truman vai saindo da teia de ilusões ao longo do filme.

O Círculo tem uma cotação de 5,3 no IMDb. The Truman Show tem 8,1. O Círculo apresenta-se como drama, ficção científica e thriller. The Truman Show como comédia, drama e ficção científica. À parte isso, por que razão decidiria eu juntar os dois filmes numa única publicação? Para mim, as temáticas são semelhantes. Privacidade. Entretenimento. Informação. Futuro. No entanto, ao primeiro dei uma classificação de 3 e ao segundo dei um 9. Podia ter escolhido A Rede Social ou o livro 1984. Mas pareceu-me que a comparação mais justa seria o Truman Show. Um protagonista, um conflito, uma resolução catártica. No Círculo foi isto mas em mau.

Uma das premissas para que uma obra de ficção seja aclamada é o protagonista ser representante de todos nós. Há que haver algo que nos faça relacionar com a vida, os conflitos internos, ou até mesmo só a aparência do protagonista. Mae, zero. Truman, 1. Mae é aborrecida, apática a maior parte do tempo, demasiado simpática, demasiado ingénua, demasiado cega. Truman é o rosto de todos nós. Mas com carisma.

Círculo quer ser um filme sério. Um drama com proporções plausíveis. Só que não. Alguma vez milhares de pessoas aceitariam perder a sua privacidade da forma que o filme mostra? O filme faz com que a empresa pareça um culto e não uma hipótese, os seguidores como seres sem alma e zero sentido crítico, groupies até. The Truman Show difere no sentido em que se apresenta maioritariamente como uma comédia. É uma versão satírica de um cenário futurista. É intencionalmente exagerado. Torna-se assim uma crítica social com bom gosto.

O conflito é um dos catalisadores de toda a acção. No Círculo, os conflitos não passam de pormenores. A questão da privacidade é constantemente posta de lado em função do bem comum, mas quase sem consequências que causem impacto visível. Os conflitos que decorrem da acção parecem supérfluos, despojados de significado. Até há alguém que morre. Mas minutos depois, a protagonista continua na ilusão. Em Truman o impacto das emoções é gerido com mestria e não só porque Jim Carrey é um actor brilhante. O impacto sente-se muito mais porque as personagens, até as que na ficção são também ficcionadas, estão bem desenvolvidas.

A resolução por isso é muito mais emocionante em Truman Show. No Círculo nem tanto. Em ambos os filmes, o conflito é causado por criadores e a resolução no acto de os desmascarar. No Círculo o acto final é apenas uma coisa que acontece para concluir o filme. Não há um escalar de acontecimentos. A protagonista vai aceitando e até impondo, contribuindo para o conflito em vez de o tentar combater, e depois passa a perna aos criadores. Em Truman Show há toda uma carga simbólica que embrulha o desfecho com um laço bonito quando Truman se revela metaforicamente como o True Man, caminha sobre a água como Jesus e confronta o criador.

Ambos os filmes apresentam possibilidades muito remotas e até absurdas de formas diferentes. Ambos chegam a ser caricaturas. No entanto, um deles leva-se demasiado a sério. O outro satiriza. No fundo, o enredo de Truman Show parece um círculo enquanto que o Círculo parece uma linha em ziguezague.

Vanessa

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O filme It foi um hit

As crianças sabem instintivamente que se se esconderem debaixo de um cobertor estarão protegidas dos assustadores seres nocturnos que invadem o seu quarto. No livro e nos filmes com o nome It, criação de Stephen King, não há disso. A Coisa, como se chama em português, é um ser imune a qualquer subterfúgio e personifica os piores medos das crianças. Não admira que o filme já tenha ultrapassado os lucros mundiais de O Exorcista (mais de 441 milhões de dólares) com mais de 448 milhões de dólares segundo os últimos dados.

O livro e o filme retratam os desafios de um grupo de losers adolescentes, cada um com problemas ou desvantagens mais graves do que as habituais desta fase da vida, que se unem por uma causa comum. Na verdade duas causas. Primeiro são mal-tratados pelos seus pares e depois por um palhaço chamado Pennywise the Dancing Clown. Este último é geralmente o pior. O enredo alicerça-se nos problemas pessoais deste clube de adolescentes rejeitados para depois traçar um cenário bem pior, bem ao estilo de King.

O filme resulta porque chega apenas a uma parte do livro (já há uma sequela confirmada), apesar de pessoalmente não gostar da separação gratuita de partes ou de vários livros para fazer uma série de filmes. Neste caso, é essa a razão pela qual a audiência se pode deixar apaixonar por cada uma das personagens. O meio pior receio era a exploração da violência a que a personagem Beverly Marsh, a única rapariga do grupo, está sujeita no livro. No filme, Bev acaba por ser o pilar do grupo sem perder a dignidade.

Bravo ao realizador Andy Muschietti não só por isso, mas também por ter conseguido replicar os cenários aterrorizantes da mente claramente perturbada (no bom sentido... acho eu) de Stephen King, por ter capturado a aura da cidade ainda que tenha escolhido uma linha temporal diferente, nos anos 80 em vez de nos anos 50, e pela cena inicial que me perturbou ao ponto de não ainda não me ter conseguido esquecer de Georgie.

Não sei se todos os fãs de filmes de terror irão partilhar da mesma opinião, mas acho que vale a pena a tentativa. It é uma das personagens mais icónicas do terror, na minha opinião, por causa do seu passado fascinante e bem desenvolvido. Para quem viu o filme e não leu o livro, o livro contém todas as respostas.

Mais posts sobre Stephen King:
Gerald's Game é um jogo perigoso
Book Review | Doctor Sleep by Stephen King

Vanessa

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Gerald's Game é um jogo perigoso

Gerald's Game, ou Jogo Perigoso em português, foi um daqueles livros que li à socapa. A minha família é composta maioritariamente por pessoas não leitoras e por isso nunca corri o risco de ser apanhada com um livro obsceno nas mãos. Nunca me perguntavam o que estava a ler sequer. Não que Gerald's Game ou qualquer outro livro que tenha consumido durante a adolescência fosse obsceno. Primeiro, não tinha muitos sítios onde os arranjar, e segundo, não teria coragem. Mas é com certeza um livro para adultos e eu ainda não o era.

Em Gerald's Game, um casal decide fazer uma escapadinha para resolver os problemas conjugais. Escolhem uma propriedade do meio de nenhures e ambos se aperaltam para a ocasião. Mas a coisa corre assim para o mal quando Gerald, o marido, algema a esposa Jessie à cama para apimentar o momento. Gerald recorre também aos famosos comprimidos azuis para ganhar ânimo. Nisto, o marido esquece-se do bom senso e decide ser um pouco mais bruto. No livro e no filme de 2017, a forma como a cena decorre é ligeiramente diferente. 

O resultado é que Jessie fica algemada à cama e Gerald jaz morto no chão. Como é habitual, Stephen King, o autor do livro, desenha com mestria um enredo que tem um quê de perturbador só com a estória principal, mas consegue torná-lo ainda mais sombrio com o decorrer dos acontecimentos. É exactamente o que acontece. A casa é isolada. Há um cão com instintos selvagens à solta. Jessie está presa à cama. Jessie põem-se a alucinar. O seu passado vem à tona. Não é bonito. Há um ser talvez imaginário no canto do quarto de noite.

Não há um filme de Mike Flanagan de que eu não goste. Mas este não era um livro muito cinematográfico, na minha opinião, mas o realizador conseguiu transpor para o ecrã todas as cenas macabras e gráficas sem explorar o gratuito e sem recorrer aos sustos instantâneos. Todo o livro é mais psicológico do que visual e a película também. O actor com as cenas mais sinistras, por coincidência é o protagonista de E.T. As cenas em que entra assombram num mau sentido e o brilho no olhar de Henry Thomas é especialmente perturbador.

Tanto o livro como o filme são como um pesadelo. É por isso que recomendo ambos.

Vanessa

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Simbologia e interpretações do filme Mãe! de Darren Aronofsky

Darren Aronofsky é daqueles realizadores que me faz ver filmes sem sequer ter visto o trailer e independentemente do tema. Foi assim que me apanharam na sala de cinema a ver Noé, filme que me desapontou o suficiente para agora ver em Mãe!, o mais recente filme de Aronofsky, e sentir-me vingada.

Façam-me aí uma lista de filmes mainstream dos últimos 10 anos que tenha despertado tanto burburinho e interpretações sobre o seu significado como Mãe! É verdade que quem desgostou, desgostou a sério, mas quem ficou intrigado gerou conteúdo interessante, o que é das coisas mais valiosas que fazemos enquanto humanidade. Que é uma das minhas interpretações do filme, além do teor altamente religioso.

Resumo com spoilers: se a Mãe Natureza casasse com (um) Deus, o resultado seria este: uma relação abusiva e muito desequilibrada. Deus é a única personagem nos créditos finais cujo nome, "Ele", começa com letra maiúscula, mas penso que pode representar qualquer deus e não apenas o judaico/católico. Este facto é reforçado pelo facto de que Ele frequentemente apelida a sua co-protagonista (e força opositora) de deusa.

Neste filme, Mãe é simbólico de criadora nata e progenitora, e Deus representante da criação artística. A casa simboliza o planeta, que pode não ser necessariamente a Terra. Pode ser o Éden ou uma realidade paralela. O intuito da Mãe é torná-lo um paraíso enquanto atende às necessidades de Deus.

Deus, por outro lado, está sempre mais preocupado com a criação e com os seguidores das suas criações. Mãe, também uma das suas criações, como se vê logo no início do filme, é ao mesmo tempo musa inspiradora e criadora por si só. O primeiro homem que visita a sua casa é claramente Adão. Numa das cenas vemos que tem o flanco ferido e pouco depois aparece a sua mulher, que representa Eva, que acaba com a sua solidão. 

O homem e a mulher, símbolos da humanidade, impõem a sua presença na casa e desdenham das preocupações de Mãe. Deus parece tão encantado com a atenção que deixa que façam o que bem lhes entender, excepto tocar no cristal que no início do filme gera a criação de Deus. Mas é claro que o casal também não o leva a sério, tal como aconteceu com o fruto proibido, o que os leva a deixar cair o cristal, que se despedaça.

Mais tarde surgem os dois filhos do casal, que recriam a história de Caim e Abel. O homicídio de Abel deixa na casa uma marca que surge ao longo do filme, tanto quanto o coração da casa vai aparecendo para demonstrar as consequências dos acontecimentos, e abrindo precedente para outros crimes que depois ocorrem.

Todo o primeiro acto do filme é a história do Antigo Testamento, no fundo. A criação artística que leva o Homem a visitar Deus para o idolatrar pode ser interpretada como sendo um dos livros da bíblia. 

O episódio dos convidados a destruírem o lava-loiças, criando uma fuga de água, simboliza o Dilúvio, que trava a vaga de visitantes indesejados por momentos, levando a que a relação da Mãe e de Deus se aprofunde e culmine na criação do filho. Este filho representa Jesus, sim, mas também a criação em si. 

Vemos que a gravidez inspira em Deus a escrita de um poema que se torna sucesso mundial. Talvez símbolo do Novo Testamento. Quando a sua escrita se torna famosa e a casa é de novo invadida, decorrem ao mesmo tempo motins, ataques terroristas, e sinais de fanatismo. São acontecimentos simbólicos de crimes em nome da religião. Vemos também pessoas a abençoar outras em nome de Deus enquanto a casa vai sendo destruída.

O filho que tanto representa Jesus como a criação artística, torna-se mais um fruto do trabalho da Mãe, que tenta em vão proteger a criança. Numa das cenas mais arrepiantes do filme, Deus, deslumbrado, mais uma vez deixa que a humanidade leve a sua avante, o que resulta na morte do bebé às suas mãos.

Quando Mãe se aproxima do local, vemos o bebé desmembrado e a ser consumido pela humanidade. Há aqui uma sátira em relação à comunhão católica, mas a cena pode também ser interpretada como uma crítica ao acto da criação artística, que é depois consumida com fervor e minuciosamente criticada em praça pública.

A casa é uma extensão da Mãe. Vemos mais tarde quando a Mãe se revolta que as suas acções são acompanhadas de sons como trovões, mas que quando a humanidade se rebela contra a mãe, o que ouvimos é sons de fogo de artifício. A humanidade consume a casa, levando pedaços dela para comprovar a presença no local, destruindo para proveito próprio, agindo sem se preocupar com as consequências dos seus actos.

Darren Aronofsky não quis comentar um dos pontos mais intrigantes da película, o medicamento de cor amarela que Mãe toma sempre que se sente mal, por isso a minha interpretação baseia-se em especulação. O medicamento simboliza, a meu ver, o Amor que cura todos os males, uma vez que quando descobre que está grávida, Mãe deita fora o remédio, sabendo que contém em si todo o amor possível, o amor de mãe. É por isso que Mãe se revolta a ponto de destruir a casa, após o fruto do seu amor ter sido destruído.

O medicamento pode também ser interpretado como sendo a ingenuidade ou a ignorância, talvez tendo sido adquirido por Deus, uma vez que Mãe parece fazer um reset sempre que o toma, e tudo fica bem depois do remédio tomado; ou a interpretação pode ser mais literal, como uma crítica ao consumo de medicamentos, que como efeito secundário nos tornam adormecidos e passivos perante a realidade.

No final, Mãe revolta-se a tal ponto que incendeia a casa, pegando fogo aos tanques de petróleo (mais uma crítica?) da casa. Ainda assim sobrevive e consegue oferecer a Deus uma última coisa, apesar de achar que já lhe tinha dado tudo o que podia: o cristal que permite a Deus reiniciar o ciclo, e o filme termina como começou.

Será o ciclo sempre assim, ou será que existe um ciclo diferente para cada um dos livros da bíblia, se assim interpretámos a criação literária de Deus? Será cada ciclo simbólico da realidade que vivemos, ou será que há mais realidades que desconhecemos e cada ciclo representa uma realidade diferente?

Será que Deus está preso no ciclo para sempre, ou existirá a possibilidade de que Mãe consiga perdoar a humanidade pelos seus actos e não gerar a destruição subsequente, terminando a história num final feliz?

A minha interpretação pode estar aquém das intenções de Darren Aronofsky. O filme pode ser uma representação de um vírus, tanto quanto sei, vírus esse que destrói o hóspede, ou pode ser uma crítica directa a relações abusivas, ou uma sátira em relação a doenças mentais. Cada um é livre de encontrar no filme a simbologia que melhor se adequa às suas crenças, tal como numa determinada cena cada leitor viu na obra d'Ele uma interpretação diferente da de outros, e alguém sentiu que as palavras eram dirigidas a si.

Este filme merece ser visto. Pode parecer pretensioso, e se calhar é, mas gera na audiência reacções viscerais e pede interpretação e crítica, acções importantes para a saúde mental e para a sociedade e o mundo.

A única certeza que tenho é a de que este é um filme de terror. Nisso concordo com a mulher que não se calou durante o filme, levada pela filha (daquelas tipas que põem os pés no assento da frente e abanam toda a fila de cadeiras) com a suposição de que ia ver um género diferente. Isto foi um filme de terror.

Porquê? O filme teve três planos, quase nenhum deles aberto, e a maioria centrada na face de Mãe. O filme tem como ponto de vista a Mãe e a audiência vê apenas o que a Mãe vê e ouve apenas o que a Mãe ouve. O mau da fita neste filme de terror é a humanidade. O mau da fita neste filme de terror é a audiência que assiste ao filme.

Há lá coisa mais aterrorizante que isso?

Vanessa

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Wonder Woman foi uma maravilha

Finalmente uma heroína como deve ser. Finalmente uma mulher a realizar um filme de super-heróis. Finalmente um homem como personagem secundário. Finalmente cenas de luta credíveis com uma mulher. Finalmente pernas longas e fortes, não longas e com aspecto de braços. Finalmente emoção, mas também acção.

Já percebi a razão pela qual os homens me parecem sempre tão mais confiantes, entusiasmados e às vezes primitivos em relação às mulheres. Depois de ver uma mulher a dar cabo dos maus da fita em Wonder Woman, Mulher Maravilha em português, também eu me senti confiante, entusiasmada e pronta para qualquer luta.

Felizmente Diana, personagem principal, não é como o Batman e o Super-Homem, tão preocupados com a humanidade que evitam matar pessoas, mas depois nos últimos filmes são hipócritas e andam para ali a dar cabo de cidades inteiras. Diana não tem problemas em desatar à porrada e seja o que deus quiser. Maravilha.

Se quiserem um resumo do filme, aquilo é a estória de uma mulher criada por mulheres, todas fortes, musculadas e inteligentes, num mundo paralelo que é invadido por homens do nosso mundo em tempo de guerra. Essa mulher decide vir para o nosso mundo com um homem que lhe diz aquilo que pode ou não fazer. A mulher está-se nas tintas para o que ele diz e faz na mesma, e o assunto fica resolvido na maioria das vezes.

É pena que só em 2017 tenhamos um filme deste género com uma mulher super-heroína como protagonista. Mas finalmente posso perguntar a um homem, de forma condescendente como se quer, se foi ao cinema com a companheira ver o filme, em vez de ser o contrário porque dantes quase só havia homens em filmes de super-heróis, ou quando a pergunta era dirigida a homens, era porque se tratava de uma comédia romântica.

Generalizações e comentários preconceituosos à parte, este filme merece ser visto por mulheres e homens.

Vanessa

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Pepsi, mas que raio?!

Não sei se viram o último anúncio da Pepsi com Kendall Jenner, mas eu vi e não gostei. A Pepsi usou como temática os protestos que temos vindo a ver nas notícias, juntou-lhe uma Kendall Jenner e umas latas de Pepsi, algumas caras e cartazes genéricos, e depois um momento icónico com a Kendall Jenner a oferecer a bebida a um polícia. O anúncio parece caricaturar questões modernas importantes e quase chega a parecer uma sátira, como se a resolução de um dos problemas em cima da mesa fosse tão simples como beber um refrigerante.

Eu que sou fã de Pepsi fiquei desiludida. Sem conhecer a equipa por detrás do anúncio, arrisco dizer que um dos problemas que os protestos representam na vida real é a falta de igualdade racial, o que ficou comprovado porque com certeza não deve haver um único negro(a) na equipa de marketing que criou esta publicidade. 

Por falar nisso, não há nenhuma mulher negra no anúncio senão aquela que está a fazer de assistente de Kendall Jenner na sua sessão fotográfica fictícia, a mesma que depois leva com a peruca loira que a modelo atira para trás para ir protestar. E por falar em protestar, o que pode uma socialite ter para protestar? Ainda para mais uma celebridade que apenas o é porque uma das irmãs saltou para a ribalta devido a uma indiscrição e que nunca antes se tinha pronunciado acerca de protesto algum? Se houvesse pior pessoa para representar uma geração e suas angústias, a Pepsi tê-la-ia escolhido, com certeza. Foi essa a impressão com que fiquei da marca.

Já agora, para quem não viu:



Vanessa

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Moana é a minha segunda heroína preferida da Disney




A primeira continua a ser a Mulan, mas Moana não lhe fica atrás. 

Nunca me identifiquei muito com a Jasmine, apesar de ser a mais próxima da minha etnia. Com isto já há três heroínas que não são a típica donzela (branca) que é salva por um príncipe e vive feliz (casada) para sempre. 

Quando era pequena não havia muitos desenhos animados com que me identificasse. X-Men era a única banda desenhada com efeito catártico para mim, porque retratava preconceito e racismo de forma abrangente.

Agora há mais diversidade, mas ainda não a suficiente. Passo pelos canais de desenhos animados e quase não vejo outras raças que não a caucasiana representada. Passo pelo corredor dos brinquedos e é o mesmo.

De todas as donzelas da Disney, Moana (ou Vaiana, em português) é a mais parecida fisicamente comigo (bem queria parecer a Jasmine, mas não deu) e a segunda que mais representa valores com que me identifico.

Gosto de como criaram uma personagem forte, de braços trabalhadores e tornozelos que parecem inchados, de como a mostram a trabalhar na aldeia, a apanhar cocos, e dos conflitos por que passa.

A Mulan sempre foi o meu ideal, especialmente porque a mensagem do filme é particularmente forte por se passar num país onde até há pouco tempo ter uma filha mulher era um fardo. Mas saúdo a Disney por ter criado outra personagem com carácter e ambição que vão além da busca pelo príncipe encantado.

Vanessa

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Fantasias

Não sei se sou snobe ou se sou exigente com os filmes. Já agora com os livros também. Não posso dizer que seja da idade, agora que já completei 30 anos de existência. Sempre fui picuinhas com a forma como passo o meu tempo livre e levo a peito se não fico satisfeita com alguma obra de ficção, precisamente porque sendo o tempo livre escasso, valorizo-o mais e não gosto de sentir que estou a perder ou a esbanjar tempo.

Gosto de ficção porque, ainda que goste muito de realismo, ou apesar de gostar, faz com que me abstraia da realidade. É um apego que na verdade nunca compreendi. Não sou fã de filmes ou livros biográficos, precisamente porque prefiro a ficção. Prefiro que um autor mostre os aspectos reais enredados na teia da ficção, ou ver em pormenores fundamentos da realidade, mesmo que só o venha a saber depois.

Tenho tido tendência para gostar mais de fantasia e ficção científica do que é normal, talvez porque a abstracção é maior, mas continuo a valorizar mais a estória do que os efeitos especiais, ainda que seja crítica em relação a efeitos que tornam o filme num jogo de computador dos anos 90. Se a estória não fizer o mínimo sentido ou for incongruente, fico desiludida e até irritada. Por muito HD de ultra realismo que seja a imagem.

Posto isto, devo dizer que gostei muito de La La Land. Não era suposto escrever uma review sobre o filme, mas a minha opinião cabe bem aqui. La La Land tem a dose ideal de fantasia, realismo, com uma cinematografia genial. Queria mais filmes assim, pelo menos uma vez por mês, no cinema. É dinheiro e tempo bem gastos.

Vanessa

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

5 coisas que aprendi com filmes de terror

1. O mundo é um sítio perigoso para viver e por isso estar viva é um enorme privilégio. Com tantos assassinos (em série ou não), animais ameaçadores (dos tubarões aos animais domésticos passando pelas répteis), objectos possuídos pelo demo (bonecos em especial, mas sem esquecer Christine, que é um carro), o demónio em si, espíritos do outro mundo e de mundos paralelos, plantas e vento (obrigado, M. Night Shyamalan), vampiros, lobisomens, zombies, pessoas que enlouquecem, crianças malignas... é de admirar que ainda esteja viva.

2. Senso comum? O que é isso? Nem falemos daquela cena típica de correr aos berros para o segundo andar em vez de se sair pela porta de entrada. Que tal não brincarem com forças sobrenaturais? Tabuleiros de ouija, objectos antigos (especialmente caixas ou espelhos) e TODOS OS BONECOS são objectos do mal, pessoas! Olhem que eu usei ponto de exclamação, coisa que é raro. É porque é mesmo grave. Eu aprendi que essas coisas dão possessão quase certa ou um grande desconforto geral que tem um grande impacto nas nossas vidas.

3. A curiosidade não matou só o gato. Quem tem amor à sua vida não vai explorar edifícios abandonados, especialmente se tiverem fama de serem assombrados, nem sequer a sua própria casa quando as tábuas do chão ou as portas rangem, e muito menos pergunta "Quem está aí?" quando ouve um barulho suspeito seja onde for. O mínimo sinal de curiosidade desperta instintos assassinos seja quem ou qual for o antagonista.

4. Não ser bonita ou branca é morte certa. Normalmente a(s) protagonista(s) são a(s) mais bonita(s). Todas as outras normalmente morrem, independentemente da personalidade ou inteligência. Morrem mais cedo se não forem virgens, se forem especialmente más para as outras pessoas ou se fizerem comentários tolinhos. Morrem também mais cedo os que não são brancos. Africanos, indianos, chineses morrem todos primeiro.

5. Ver filmes de terror é muito má ideia. É uma má ideia que aprendo e também desaprendo. Há filmes e filmes, mas em geral todos eles despertam na imaginação um instinto de auto-mutilação capaz de ver nas sombras um espírito agitado, de suspeitar de qualquer brisa ou som, e de convocar TODOS os terrores para a nossa realidade porque ver filmes de terror não é mau o suficiente; temos também de pensar neles depois e temer pela vida. Voltamos aqui ao início deste post, quando referi que estar viva é um enorme privilégio.

Vanessa

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A ideia de eterno retorno no cinema

Estou irritada. Apesar de querer ver A Bela e o Monstro, sei que a ideia é estúpida. A estória é a mesma e provavelmente apenas alguns detalhes vão mudar. Portanto isto vai ser o chamado remake, só que com pessoas em vez de desenhos animados. Pronto, perdoo a Disney porque é a minha estória preferida.

Mas, mas, mas. Há aqui um grande mas. As produtoras viram que há um imenso potencial em fazer de novo filmes que não só já foram para o ecrã há anos, como tiveram sucesso. Então por isso, até 2020 há uma lista gigante de filmes que ou vão ser refeitos (remakes) ou reintroduzidos com nova vida (reboots).

O que mais me deixa irritada são as novas versões de filmes como o brilhante American Psycho, Os Pássaros de Hitchcock, Scarface Jumanji (desta vez com aquele tipo que se auto-intitula calhau). São filmes geniais que estão bem como estão. Não precisam de ser ressuscitados desta forma. Mas estas produtoras não viram o que aconteceu com os Caça-Fantasmas ou o Ben-Hur? Não têm senso comum?

Alguém me explique a necessidade de voltar a trazer o raio da Police Academy que está bem é lá nos confins dos anos 80, que foi engraçada na altura, mas que hoje em dia não se justifica. Alguém me explique por que razão o filme Cabin Fever vai voltar a ser filmado com o mesmo guião (igual, igual) do original. E A Múmia? E os Anjos de Charlie? E a Mary Poppins? E o Querida, Encolhi os Miúdos? E a cambada de sequelas e prequelas e spin-offs?

Acho que alguém se esqueceu de dizer às produtoras que sai MAIS BARATO voltar a exibir os filmes originais no cinema, ideia que eu até aplaudia entusiasticamente porque muitos dos filmes originais eu não tinha idade para ver no grande ecrã, e que a audiência está farta dos reboots. Tipo, já sei que o Homem Aranha era um miúdo estudioso e desajeitado que foi mordido por uma aranha radioactiva. Passem à frente.

Por mim, vou boicotar a maioria dos remakes e reboots. Sinceramente preferia que canalizassem os fundos para conteúdos originais, novos realizadores, enredos bem desenvolvidos. Quando vi que estão a pensar refazer o Memento, que é só um dos meus cinco filmes preferidos feito pelo meu realizador preferido, quase entrei em ebulição. Não contem com o meu traseiro nos vossos assentos, produtoras. Por mim podem ir à falência.

Vanessa

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Primeira experiência 4DX com Rogue One

Finalmente experimentei a primeira sala 4DX de Lisboa no Fórum Almada com o filme Rogue One. O sistema 4DX é mais ou menos como estar sentado numa cadeira que é tipo um carrossel não muito agressivo (se bem que não aconselho a comer pipocas nestas salas) e ter alguns efeitos que coincidem com o que se passa no filme. 

Neste caso, as cadeiras acompanham as naves espaciais, estremecem com as explosões e a trepidação (boa massagem lombar, digo-vos) há bastante fumo e vento (se bem que no espaço não há vento, mas vá), cheiros e até uns borrifos de água. As coisas ficam mais intensas nas cenas de acção, se ficam.

Posto isto, ficam aqui alguns prós e contras da experiência.

Prós:
1. Sensação envolvente. No princípio estranha-se e todos os extras são até distracção, mas quando os sentidos se acostumam, uma pessoa sente-se envolvida no filme. Objectivo alcançado.

2. Diversão. No fundo, é como voltar aos tempos de infância sem ter de ir à feira popular, que já ouvi dizer estar muito fraquinha. Foi uma boa escolha de filme, com tantas cenas de vôo e tiros.

3. Ajuda à dieta. Como não dá para comer como deve ser com a cadeira sempre a mexer, uma pessoa não se põe a enfardar pipocas e outros aperitivos como se não houvesse amanhã e não arrisca a beber sodas, que o gás com certeza se perde todo com o movimento, nem bebidas quentes, que eles até desaconselham.

4. Não há muitas crianças. Coisa que se teria concretizado se eles fizessem cumprir as suas próprias regras de não deixar entrar pessoas com menos de um metro de altura. Pronto, fica a intenção.

5. Massagem incluída. Já falei da massagem lombar? Aquilo sabe mesmo bem nas costas.

Contras:
1. Pessoas que gostam de andar com o cabelo arranjado e maquilhagem posta, mais vale não se darem ao trabalho. O vento e a água com que levam (dependendo do filme) estraga-vos os planos. Se calhar isto é um benefício. Mas pronto, se insistirem em andar com maquilhagem, ao menos usem uma à prova de água.

2. Não houve intervalo. O traseiro fica assim para o quadrado e as costas ressentem-se. Ao menos uma pessoa não tem tempo para se olhar ao espelho e assustar-se com o efeito das intempéries na cara.

3. Eu sei que pus isto nos prós, mas também é um contra. Gostava de poder comer umas pipocas ou beber qualquer coisinha sem perigo de entornar. Aqui está a prova de que não se pode ter tudo.

4. Os relâmpagos iluminam demasiado o ecrã. Preferia que fosse menos exagerado.

5. Levem uma mantinha. Levar com vento ali na sala dá frio.

Vanessa

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

How to Get Away with Murder

Esta série tem tanto drama que é perfeita para desanuviar. How to Get Away with Murder retrata a vida de uma advogada e professora de direito com métodos extremos e os seus alunos. Há aqui uma mistura de justiça criminal e coisas muito inverosímeis que são twists perfeitos que deixam uma pessoa enervada, mas em bom.

O factor choque é um dos elementos mais usados na série, mas uma pessoa nem fica farta. Para começar, o enredo parte sempre de algo surpreendente, tipo um crime, e depois retrocede para contar os factos que levaram até aí. Cada uma das personagens principais e até as secundárias são super bem desenvolvidas, o que leva uma pessoa a favoritar uns ou outros, porque se percebe perfeitamente os seus motivos.

Acho que não é uma série para ser levada a sério, tipo o Dr. House. A ética é posta de parte, especialmente porque a personagem principal, interpretada pela estupenda Viola Davis, é complexa e não muito dada à moral e bons costumes, o que a leva a defender clientes muito duvidosos e a tomar decisões até bizarras para ganhar os seus casos. How to Get Away with Murder é o nome que a protagonista dá à sua aula de direito, vejam só.

O único senão da série é deixar sempre uma pessoa pendurada e com vontade de mais. Há com cada revelação que não é possível não querer ver mais um episódio, mas depois o ciclo é vicioso. Ainda estou na segunda temporada, mas já tenho pena de quando não tiver mais episódios para ver. Snif.

Vanessa

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Doctor Strange é oficialmente o meu filme preferido da Marvel

Das cenas de acção à estória e passando pelo humor, Doctor Strange é o meu filme preferido de sempre da Marvel e a culpa é do realizador Scott Derrickson, escritor e realizador de outros filmes de que gostei como O Exorcismo de Emily RoseSinister - Entidade do MalDoctor Strange tem o meu universo favorito.

No primeiro acto do filme conhecemos Stephen Strange, um médico com muita habilidade de mãos e tanto sucesso quanto arrogância, que perde a destreza devido a um acidente. À medida que a sua vida se desmorona e Strange recorre àquilo que pensa ser uma terapia alternativa, o rumo da estória muda para o sobrenatural.

Os efeitos especiais estão fantásticos, ainda que por vezes demasiado óbvios, e as cenas de acção contêm das melhores coreografias que já vi. Toda a cinematografia é uma obra de arte, especialmente no que toca às cenas mais abstractas do enredo, que lidam com dimensões paralelas, e tempo e espaço.

O diálogo é dinâmico e bem-humorado. De vez em quando roça o humor fácil e despropositado, mas é geralmente bem colocado nas cenas. Infelizmente o trailer estragou a melhor tirada humorística do filme.

O vilão é convincente, mas é apenas descrito em traços gerais. Gostava de ter visto mais dele. Todas as outras personagens, que não são muitas para um filme da Marvel, são carismáticas e bem desenvolvidas.

Gosto particularmente de Strange como personagem pela sua ambição de conhecimento. Ainda que seja algo ufano e presunçoso, é também movido pela vontade de melhorar o mundo e melhorar-se a si também.

Houvesse mais filmes assim.

Vanessa

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Ghostbusters 2016 e a jogada suja da Sony Pictures



O filme Caça-Fantasmas ou Ghostbusters de 2016, realizado por Paul Feig, é uma mistura de remake e reboot do êxito de bilheteiras da década de 80 do século passado com quatro mulheres como protagonistas numa altura em que remakes e reboots estão na moda e o feminismo e o anti-feminismo também. 

Começo por dizer que o filme é mauzinho. Atenção que o digo sem reservas. A qualidade de um filme não se mede apenas pelo elenco e desgostar de um filme com tantas mulheres não quer dizer que seja uma pessoa misógina. Eu até sou mulher. O filme é mauzinho e pronto. Confesso que foi melhor do que pensei que seria, mas não deixou de ser uma desilusão. Faltou-lhe muitas coisinhas para ser bom.

A maioria das piadas não teve piada. Os homens deste filme são a) burros que dói; b) arrogantes; c) burros e arrogantes. As mulheres são meras caricaturas. Há a cientista de física quântica (que nunca comprovou as suas habilidades) peculiar e púdica; há a cientista louca que constrói armas mortíferas; há a cientista gordinha que nunca fez nada de especial mas bem-humorada; há a negra que parece um estereótipo.

Há cenas de outros trailer que não apareceram no filme. Há piadas demasiado fáceis e humor físico que chega a cansar. Sim, já sabemos, os fantasmas deitam gosma. Sim, já percebemos, o vosso recepcionasta é tão atraente quanto burro. Há também pequenos críticas à sociedade. Por exemplo, o preço das rendas das casas. SPOILER. Não deixa de ser estúpido que um grupo de cientistas depois decida usar dinheiro público para alugar um edifício de que gostaram muito. "Ah, isto é muito caro. Mas se forem os outros a pagar, está bem."

Os efeitos especiais, para um filme de 2016, deixaram a desejar. Percebo que talvez tenham tentado imitar os filmes originais, com espíritos feitos de ectoplasma e cores fluorescentes. Contudo, o principal problema deste filme é guiar-se pelo original em vez de ser... original. Se o filme se tivesse separado dos anteriores e criado um enredo inédito, com uma visão fresca, teria sido bem melhor. Agora assim, foi apenas mais um falhanço.

Não há qualquer reconhecimento pelos eventos dos filmes anteriores, mas há cenas (e aparições) que são certamente homenagens aos Caça-Fantasmas e chegam a copiar elementos, inclusivamente o logótipo do original. Daí que tenha apelidado o filme de remake (filme refeito) e reboot (estória original recomeçada).

O trailer que coloquei aqui teve uma quantidade recorde de desgostos (mais de um milhão) e comentários negativos, alguns dos quais alegadamente apagados pela Sony. Numa manobra de marketing sem precedentes, o filme foi caracterizado como feminista nos meios de comunicação social.

Pegando nalguns dos comentários negativos de fãs dos originais, a Sony Pictures alegadamente fez crer que foi o facto de as protagonistas serem mulheres que originou o negativismo. Não sei como, vários meios de comunicação foram por aí. Por exemplo, o Washington Post: People hate the ‘Ghostbusters’ trailer, and yes, it’s because it stars women (diz o título, As pessoas odeiam o trailer de Ghostbusters e sim, é porque é protagonizado por mulheres), e o Metro britânico: Why does the internet hate the new all-female Ghostbusters? (diz o título, Por que razão a internet detesta o novo e todo feminino Ghostbusters?). Há imensos outros exemplos.

É uma jogada suja para arrecadar lucros de bilheteira com mais um dos remakes, coisa que está tão na moda fazer. Vários outros meios de comunicação apelaram a que se fosse ver o filme como forma de defender a imagem das mulheres e lutar contra o sexismo. Está mais do que claro que o objectivo das produtoras de cinema é fazer render. A maioria dos remakes são preguiçosos e só conseguem fazer que com que voltemos a adorar os originais. Este é um exemplo disso. Mas não é por ser protagonizado por mulheres.


Vanessa

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

2 Broke Girls

Esta é uma série para desanuviar. Há uma jovem loira milionária que fica pobre e uma jovem morena que sempre foi pobre. Há um ucraniano, um negro, um chinês e uma polaca. 2 Broke Girls satiriza dificuldades quotidianas de uma classe média baixa com muito humor negro e humor sujo à mistura.

Os episódios de pouco mais de 20 minutos são a pausa perfeita. As duas raparigas nas lonas (alusão ao título português) desdobram-se em empregos e arriscam um negócio com a ajuda dos amigos. No final de cada episódio aparece um contador que contabiliza quanto ganharam nesse espaço de tempo.

Os trocadilhos e as constantes piadas com eventos reais fazem desta uma série de ânimo leve, mas com muitas questões subjacentes que dão que pensar. As peripécias são sempre únicas e a par dos tempos, do negócio dos cupcakes às questões raciais e de género, passando pela crítica à sociedade.

Por mais tempo que fique sem ver a série, quando vejo os episódios em atraso e volto a acompanhar, 2 Broke Girls nunca desilude. Vale a pena ver, pelas gargalhas que proporciona com humor descabido.

Outras séries:

Vanessa