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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Avaliação Literária | Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie

Em Os Versículos SatânicosSalman Rushdie conta as peripécias de Gibreel Farishta e Saladin Chamcha, dois actores indianos, únicos sobreviventes de um ataque terrorista ao avião em que viajam. Confesso que mais do que isso, pouco percebi do livro em termos de alegorias e metáforas religiosas, uma vez que é disso que se trata esta obra, que causou e ainda causa controvérsia por subverter aspectos da religião islâmica.

Os protagonistas começam a sofrer alterações físicas que os tornam manifestações do bem e do mal. Saladin Chamcha começa a transformar-se num bode e Gibreel Farishta ganha uma auréola. Ambos agem de acordo com as suas características em cenas que desafiam a realidade, mas Gibreel parece perder a noção da realidade a certa altura. Eu própria comecei a perder a noção da realidade do livro a certa altura.

Além da referência no título, que alude aos versículos satânicos retirados do Corão pelo Profeta Maomé, outras referências do livro deturpam o islamismo ao ponto de chegarem à sátira ou, segundo a comunidade muçulmana, à ofensa. Rushdie traçou a estória a partir dos dois protagonistas, ambos perturbados por uma razão ou outra de tal forma que sofrem alucinações ou imaginam alguns dos episódios, desenhando neste livro um quadro de imagens religiosas e profanas, acontecimentos bizarros, e estórias e histórias pontuadas por personagens que servem de muleta ou travão aos conflitos entre Gibreel e Saladin.

Houve com toda a certeza muito que me escapou nesta primeira leitura d'Os Versículos Satânicos, especialmente porque nunca o imaginei tão ficcional e alegórico. Foi o ponto de partida para um estudo mais aprofundado da religião em causa, de crenças e fábulas, e de uma cultura que me é desconhecida. 

Sinto que deveria ter lido este livro em inglês para perceber melhor trocadilhos, que na versão portuguesa vieram explicados, mas que teriam sido melhor compreendidos com a versão original, mas uma vez que me pareceu uma leitura algo maçuda por ser complexa, talvez com o livro em inglês tivesse demorado bem mais a embrenhar-me na estória. Foi um daqueles livros que custou um pouco a engrenar.

Fora isso, foi uma leitura enriquecedora a repetir daqui a alguns anos.

7/10

Vanessa

terça-feira, 25 de julho de 2017

Avaliação Literária | O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

Tinha este livro na estante há anos. Não sei precisar quantos e prefiro não pensar nisso para não ter vergonha. Acontece que já o tinha tentado ler pelo menos duas vezes. Mas agora, tendo já visitado parte da Índia, tive a certeza de que ia terminar de o ler. A verdade é que ainda bem que esperei para ler O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy, porque não o conseguiria apreciar em mais nova como o apreciei agora.

O livro conta a estória de três gerações de uma família em Kerala, na Índia. A narrativa poética desfaz-se nos olhos e prende a imaginação. Pareceu-me uma estória feita de pequenas crueldades e pequenos momentos de felicidade, exorcizada de uma mente estranhamente infantil como se todas as descrições tivessem sido construídas por uma criança extremamente inteligente. Não sei de que outra forma explicar o livro.

Pareceu-me uma estória sobre muito, mas o que para mim mais se fincou foram os amores proibidos. O de Rahel e Estha, gémeos biovulares, o da sua tia-avó por um reverendo, o da sua mãe, Ammu, pelo seu pai, e mais tarde por Velutha, o do tio Chacko por uma britânica, o amor dos humanos pela ordem das castas ou pela revolução. Tudo isto sob o olhar ou sob a sombra do deus das pequenas coisas.

É um livro que exige atenção a cem porcento e, no meu caso, uma folhinha e uma caneta para não me esquecer de todas as personagens e suas ligações. Há obras que valem a pena o esforço.

Por coincidência, fui ontem à Fnac e vi que Arundhati Roy lançou um segundo romance há pouco tempo, 20 anos depois deste. The Ministry Of Utmost Happiness. O nome é muito promissor.

10/10

Vanessa

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Avaliação Literária | Kafka à Beira-Mar de Haruki Murakami

Kafka Tamura, um rapaz de 15 anos que não sabe da mãe e que aparentemente ouve vozes, foge de casa. Nakata, um sessentão analfabeto que fala com gatos, parte à aventura. Pelo meio há umas descrições na primeira ou na terceira pessoa que por vezes ligam as duas narrativas de Kafka e de Nakata, apesar de inicialmente não o parecer, ou que simplesmente causam mais confusão no leitor. Pelo menos nesta leitora.

O livro é abundante em diálogos filosóficos, personagens desenvolvidas de tal ponto que às vezes até lhes conhecemos detalhes mundanos e outros que preferíamos não saber (SPOILER: ficamos a saber que Kafka usa quatro quadrados de papel higiénico para se limpar, por exemplo), e vastas descrições.

Haruki Murakami é um autor de que gostava de gostar, mas que até agora, e especialmente depois deste livro, não me captou mais do que curiosidade porque, de facto, as suas criações são intrigantes. A realidade funde-se com uma ficção que toca no misticismo japonês e roça o fantástico e o sobrenatural.

Não é que não goste desses aspectos literários, mas normalmente distraem-me da narrativa, e porque Murakami neste livro começa com relatos objectivos, inclusivamente documentos oficiais do governo e cartas, ambos ficção, para depois deixar o leitor sem explicação... digamos, que não fiquei satisfeita.

Ao contrário de autores de culturas que me são distantes conseguem cativar a minha atenção com o imaginário de países longínquos, Murakami deixa-me frustrada pela falta de respostas e pela minha própria incapacidade como leitora para me afeiçoar às suas personagens. Nakata caiu-me no goto, mas Kafka nem tanto.

Gostei das várias referências musicais, as quais serviram como barulho de fundo à leitura. Graças a Murakami, tornei-me fã do Trio Arquiduque de Beethoven e ouvi novamente músicas como Kid-A de Radiohead.

Sinto que estou a tentar explicar-me aos eventuais fãs do autor, mas a verdade é que não me arrependo de ter lido o livro, várias questões fizeram-me reflectir e tão cedo não vou esquecer certos momentos. Talvez Murakami ultrapasse as minhas capacidades como leitura, e por mim tudo bem. Não é por isso que vou desistir de voltar à carga um dia. Sputnik Meu Amor não me deixou indiferente, por isso há esperança.

5/10


Vanessa

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Avaliação Literária | A Conjura de José Eduardo Agualusa

A história e as estórias de uma colónia portuguesa, mais precisamente a velha cidade de São Paulo da Assunção de Luanda, numa época "em que todos os sonhos eram ainda possíveis". Várias personagens cruzam caminhos e vários relatos se interligaram em A Conjura. A narrativa é cativante e viciante.

No entanto, tantas eram as personagens que foi difícil acompanhá-las devidamente. Ainda assim, Agualusa é mestre em descrevê-las em mágicas palavras, conjugando termos do dialecto africano e o português.

O imaginário angolense mistura-se com uma prosa viciante, com coloquialismos que embrulham o enredo em fábulas deliciosas. A história enreda-se em tudo isto sob a forma de relatos que abrangem os anos entre 1880 e 1911, até uma tentativa frustrada de independência que termina em tragédia(s).

José Eduardo Agualusa nunca deixa a desejar, a mim pelo menos. 

8/10


Vanessa

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Avaliação Literária | Fazer de Morto de Frederico Pedreira

Nunca tinha lido coisa alguma de Frederico Pedreira ou livros da editora Língua Morta, mas agradou-me o design e logo o primeiro parágrafo. Ainda assim, terminado o livro, não sei como o descrever.

Fazer de Morto conta algumas peripécias de Fernando, um escritor claramente angustiado, que se vê, parece-me, afogado em desânimo e desinspiração. As ilustrações do livro, da autoria de Bruno Dias Vieira, dão algumas pistas entre capítulos, mas ainda assim é difícil por vezes perceber o que é metafórico e o que é real.

O autor do livro já publicou pelo menos três volumes de poesia, o que se percebe pela prosa, sempre poética e algo abstracta, com descrições bizarras de personagens e estados de espírito. Não foi, por isso, um livro fácil de ler, mas muitas das passagens compensaram essa dificuldade com uma atmosfera envolvente.

Gostei da leitura, mas apenas me ficam na memória dois ou três pormenores da estória, traços gerais dos protagonistas, pedaços do enredo. Tudo o resto pareceram-me desabafos, talvez autobiográficos, ou quem sabe divagações poéticas na pele de personagens difíceis de crer ou sequer perceber.

É sempre interessante comprar assim um livro por acaso, especialmente quando não se conhece o autor. Este foi um feliz acaso. Talvez tente ler novamente noutra altura. Há aqui frases que merecem ser saboreadas.

7/10

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Vanessa

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Avaliação Literária | Quantas Madrugadas Tem a Noite de Ondjaki

"Ouve, uí: a noite são as estrelas do céu que caem.
Não caem mesmo; é só de imaginação minha, mundo meu que te partilho ... não tou a falar à toa, são as magias da noite, ou nunca reparaste que os olhos brilham mais bonitos é na escuridão?"

"O amor num é doce tipo melaço que escorrega quente no agarrar dos dedos?"

"A tarde se comia a ela própria na boca do tempo..."

De Ondjaki tinha apenas lido um conto, já há algum tempo e quando fui à feira do livro trouxe este, Quantas Madrugadas Tem a Noite, porque gostei do título e apetecia-me uma leitura exótica.

Foi um palpite literário como os que tinha antes. Quando nos consagramos leitores assíduos, acabamos por seguir os mesmos autores ou pelo menos o mesmo tipo de livro. Dantes havia mais descoberta do que agora e escolher aleatoriamente era a minha forma de descobrir novos mundos.

Por isso, as palavras tiveram um sabor especial. Além disso, foi um tipo de leitura como nunca outro. O português africano de Quantas Madrugadas Tem a Noite requer uma voz de narrador bem específica na mente. Há que formular um certo sotaque angolano para se perceber melhor a estória e os coloquialismos.

O enredo segue a estória contada na primeira pessoa. "Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem". Esta frase logo no início resume bem a experiência. Este é um livro sobre morte, esse é o preâmbulo, mas é especialmente um livro sobre vida e sobre vivências.

Não me é muito possível explicar este livro na verdade. O narrador conta os acontecimentos após a morte de AdolfoDido (digam lá este nome em voz alta) através das acções de uma série de personagens caricatas. O próprio narrador é uma pessoa peculiar que vai bebendo umas ngalas de birra para motivar o desabafo.

Já que não posso desenrolar aqui o fio dos acontecimentos de forma que se perceba sem a mestria e o humor de Ondjaki, posso apenas aconselhar a leitura deste livro. Vale muito a pena.

7/10

Vanessa

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Avaliação Literária | Jerusalém de Gonçalo M. Tavares

A minha opinião vale o que vale, mas considerei que devia criar uma etiqueta exclusiva para as minhas opiniões em relação a livros escritos em português à semelhança da que tenho para livros em inglês. Estreio assim uma etiqueta, o que coincide com a minha estreia literária de um dos livros de Gonçalo M. Tavares. 

Cheguei tarde à festa? Não, que já vi que o homem é escritor prolífero. E ainda bem.

Não sei se este foi o melhor livro para o conhecer como escritor, mas Jerusalém encheu-me as medidas como leitora. Mais ou menos. Confesso que me escapou muito. Tive dificuldade em seguir o fio à meada, como se diz. Talvez esteja a perder a prática da leitura em português. Talvez este não seja um autor de prosa simples. A verdade é que preciso de voltar a este livro daqui a algum tempo. Digestão prolongada, digamos.

A estória foi um tormento, mas no bom sentido. Digamos que um homem que se quer suicidar e uma louca, personagens mais ou menos centrais num elenco de luxo, são ingredientes mágicos para momentos de leitura bem passados. Temos ainda um médico obcecado com questões filosóficas e que as tenta analisar de forma científica e um ex-soldado que claramente ficou com muitas mazelas psicológicas.

O livro durou mais tempo do que esperava, mas quando o li, não só o tempo passou depressa, como as páginas eram corridas num instante. A linha cronológica custou a ser percebida inicialmente, mas depois começou a fazer sentido. Os pedaços de diálogo ou as informações descritas por um narrador mais ou menos omnisciente pareceram-me aleatórias ou despropositadas em alguns casos. Talvez tenha sido esse o intuito.

Preciso de ler mais um livro de Gonçalo M. Tavares para perceber se gosto ou não, se percebo ou não. Dentro de um ano voltarei a ler este para ver se o percebo melhor. Afinal de contas, ganhou o Prémio Literário José Saramago e o Prémio LER e o Público considerou-o o livro da década. Além disso, parece que faz parte de uma temática ou colecção, O Reino. Talvez tenha de ler os outros livros da série.

Eu cá nem sequer percebi concretamente porque razão se chama Jerusalém, mas isso deve ser uma limitação pessoal. Pelo simbolismo percebo a comparação de Jerusalém ao hospício do livro, a dicotomia entre o sagrado e o profano e etc. Confesso que tenho alguma dificuldade em perceber livros muito aclamados e depois isso faz-me sentir um bocadinho ignorante. Ao menos com este, do que percebi até gostei.

6/10