No episódio V de Star Wars, o que diz Darth Vader a Luke Skywalker? "Luke, I am your father"? Não, foi "No, I am your father". O C-3PO é todo dourado? Não, tem uma perna prateada. No mais célebre retrato de Henrique VIII, o monarca segura uma perna de peru na mão esquerda? Não. O chocolate Kit Kat tinha um hífen? Não. A música original dos Queen, We Are The Champions, acaba com "Of the world"? Não, simplesmente acaba com "'Cause we are the champions". O boneco do Monopólio usa um monóculo? Não. A ponta da cauda do Pikachu é preta? Não. No Silêncio dos Inocentes, Hannibal Lecter diz, "Hello, Clarice"? Não, só diz "Good morning".
As falsas memórias colectivas são tão comuns que têm um nome. São o Efeito Mandela. O nome vem da falsa memória de que Nelson Mandela teria morrido enquanto estava na prisão. A explicação para o fenómeno mais relacionada com o Efeito Mandela é a de que existem muitas realidades paralelas e há pontos em que as realidades se fundem, modificando a realidade que conhecemos para aquela de uma realidade paralela.
Por outro lado, uma teoria alternativa (especialmente proveniente de fãs do filme Matrix, com certeza) é a de que há erros na matriz (em inglês, glitch in the matrix) que se tornam óbvios com o passar do tempo. Outra teoria é a de que há pessoas de outras realidades que acordam nesta e lembram-se das coisas como foram na realidade onde cresceram ou espalham falsos factos baseados nessa outra realidade.
Existem ainda outras explicações fantásticas. Por exemplo, a de que alguém viajou ou encontra-se a viajar no tempo e mudou pormenores da história. Para quem acredita nesta ou explicações do género, só assim se pode justificar que tanta gente tenha a certeza de uma coisa que na verdade é diferente.
Eu tenho duas explicações, uma mais racional e outra mais para o conspiracional.
A primeira é a de que o ser humano é impressionável e as lembranças são influenciáveis. Há coisas que foram passando de pessoa para pessoa, sendo que os pormenores mudaram logo na primeira versão ou ao longo do canal de comunicação, e há obras de ficção baseadas em obras anteriores ou com detalhes de anteriores que depois vieram deturpar aquilo que se fez anteriormente ou até factos históricos.
A segunda é para quem leu ou conhece a estória do livro 1984, de George Orwell, portanto cuidado com os SPOILERS. No livro, o Ministério da Verdade, um dos quatro ministérios do governo da Oceania, é um sector que se dedica a falsificar a história para que se conforme com o que é dito pelo Big Brother e pelo governo. Os funcionários modificam ou eliminam notícias de forma a alterar a memória colectiva.
Eu bem disse que esta teoria é conspiracional. Por acaso não a vi em lado algum quando se fala no Efeito Mandela, mas quando li a explicação para o Efeito, lembrei-me imediatamente do livro. Talvez exista um sector secreto de pessoas que em vez de viajarem no tempo para mudar a história, muda simplesmente aquilo que está nos repositórios históricos e deixam as pessoas confusas. Até agora não se mudou nada significativo.
Mas se calhar o objectivo é habituar-nos a essas pequenas alterações de tal forma que daqui a uns anos não achemos estranho outras coisas mudarem. Já vimos coisas mais estranhas acontecerem.
Há quem se lembre de uma Mona Lisa mais séria do que hoje em dia. Será que alguém foi lá pintar um sorriso mais óbvio? Nos fóruns norte-americanos do Efeito Mandela, há quem diga que se lembra de Portugal ser maior, quase tanto como Espanha, ou que certos países estão em sítios diferentes de onde estavam nos tempos de escola. Será que alguém andou a mudar os mapas ou os países realmente mudaram? Há quem se lembre do McDonald’s escrito como MacDonald’s. Será que o A caiu? A resposta oficial é não.
Eu confesso que sofro do Efeito Mandela. Por alguma razão, lembro-me de ver o mapa do mundo na escola e juro, assim como muitas outras pessoas também juram, que havia uma ilha ao lado da Austrália que hoje em dia não está lá. Há pelo menos uma imagem na internet que mostra essa ilha, retirada de um vídeo em que o globo terrestre tinha sido girado (e não parece ser ilusão de óptica), mas não é possível ver o nome da ilha.
Estranho, não?
Vanessa