sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Praia Vasco da Gama, Baía de Sines, Setúbal

A Baía de Sines tem um ar urbano, limpo, e aprazível. Calculo que em Agosto seja muito mais caótico, mas em Setembro estava perfeito. Não experimentei a água e fiquei-me pela paisagem das três vezes que lá fui este ano. Com certeza vou voltar para explorar com mais tempo. O mar estende-se no horizonte em frente o busto de ar corajoso da Estátua de Vasco da Gama, o primeiro homem a fazer uma viagem marítima para a Índia, mesmo ao lado do local onde se acredita que o navegador terá nascido e vivido, junto à Igreja Matriz de S. Salvador e à Casa da Juventude. Gosto muito das cores e da geometria deste lugar que fica tão bem na fotografia.
"Santa Luzia. Água santa para tratamento dos olhos." Fiquei na dúvida se era para beber, se era para esfregar nos olhos. Experimentei ambas as coisas, mas não garanto que veja melhor do que antes.

Fica aqui um postal da viagem. Eu e o Vasco da Gama a chillar ao sol. Contei-lhe que em 2016 visitei outra terra com o nome dele e o Porto de Mormugão. Cores tão diferentes. As fotos estão aqui.

O meu roteiro:
Ilha do Pessegueiro, Porto Covo, Alentejo Litoral
Vila Nova de Milfontes, foz do rio Mira, Praia das Furnas
Barragem de Santa Clara, rio Mira em Odemira, no Alentejo Litoral

Vanessa

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

As idades dos porquês e dos comos

A tecnologia trouxe um fenómeno muito interessante: o regresso à idade dos porquês... dos pais. Os meus pais não são nada info-excluídos. Já foram, mas já tiveram de se render às tecnologias a pouco e pouco. Só que como chegaram mais tarde à festa, ainda têm questões, muitas das quais nunca sequer me ocorreram, e precisam de conceitos, coisa em que nunca me foi preciso focar porque a minha geração e principalmente as que se seguiram simplesmente começaram a utilizar as coisas e pronto e é a utilizar que se aprende, neste caso.

Foi por causa dos trabalhos da escola que aprendi a usar o Word. Com papel e caneta era preciso habilidade para a caligrafia. No Word bastava carregar em botões para ficar tudo bem formatado. Não havia cá corrector, daqueles brancos que implicavam engenho para não ficarem com muito relevo e engolirem a ponta da esferográfica, ou marcas de tinta que passavam de uma folha para a outra ou palavras esborratadas, a não ser que o papel fosse de má qualidade e eu pusesse lá as mãos logo após o produto final sair da impressora.

Depois com a internet foi preciso aprender a pesquisar, a saber esconder o copy/paste com trocas engenhosas de palavras, a contactar os amigos nas horas vagas para combinar sessões de estudo e trabalhos de grupo que não passavam de pretexto para o convívio. Depois veio a época de deslumbramento com os fóruns de discussão, com os jogos, com os vídeos, com coisas proibidas que estavam de repente acessíveis.

Tudo isto implicou que fossemos autodidactas e foi alimentado pela curiosidade natural da infância e da adolescência. A curiosidade é coisa que se perde ou que se desvanece se não for trabalhada. Também implica tempo e dedicação, coisa que na idade adulta, agora sei, não abunda. Não percebo o que mais pode justificar a aparente facilidade para aprender a usar um computador ou um telemóvel que eu tenho em relação aos meus pais. Haverá alguma diferença nos nossos cérebros ou na nossa capacidade corporal? Duvido muito.

Mas agora com ambos a usar o computador e a minha mãe finalmente a usar um smartphone, surgem questões que nunca sequer me ocorreram ou dúvidas que esclareço simplesmente por experimentar. Eu não sei como funcionam todos os aparelhos do mundo, mas pego num e experimento. Às vezes demoro a encontrar o que quero. Às vezes tenho de usar a internet para chegar lá. Mas no processo aprendo sempre alguma coisa.

Eu não cresci com tecnologias. Havia a televisão, mas depois houve os livros. Só na escola secundária é que comecei a utilizar a internet. No meu caso, o uso de tecnologia foi sempre intercalado com coisas analógicas. Até agora continuo a usar dicionários em papel. Ainda hoje em dia tomo notas com papel e caneta. Às vezes escrevo primeiro num papel aquilo que depois é teclado. Sou capaz de ouvir um audiobook enquanto pinto ou prego botões. Mas depois uso a calculadora do telemóvel ou do computador. Também deixo coisas anotadas em rascunhos no blogue ou no email. Recorro a vídeos de receitas quando cozinho.

A tecnologia embrenha-se no quotidiano, se a deixarmos, e isso é uma coisa boa. A tecnologia foi criada para nos facilitar a vida, libertar tempo para outras actividades, tornar o homem num super-homem. Esta idade dos porquês dos meus pais e de todos os adultos que passaram a maior parte da vida num mundo maioritariamente analógico faz parte do processo deles e é um passo para a sua adaptação ao mundo digital.

Depois da idade dos porquês deles vem a idade dos comos. Às vezes é tudo junto. Como e por quê fazer isto, como e por quê fazer aquilo, por quê e como, por quê e como. Agora sei como se sentiram quando eu fazia perguntas sobre tudo na fase infantil. Reverteram-se os papéis, mudou o tipo de dúvida. Um dia não haverá perguntas de todo e eles saberão experimentar em vez de perguntar. E tudo isto, no fundo, é uma experiência.

Vanessa

Eu vi o órix-de-cimitarra, espécie em perigo de extinção

Pensei que fosse um antílope comum, assim uma espécie exótica indígena de África que estava a ter o privilégio de ver em Portugal, no Badoca Safari Park em Santiago do Cacém, no Alentejo. Só quando o guia informou de que se tratava do órix-de-cimitarra é que acordei para a vida. Acredita-se que o órix-de-cimitarra já não existe no meio selvagem. Este antílope branco e elegante foi despojado do seu habitat no Norte de África. 

Hoje, Dia do Animal, lembrei-me desta família de meros seis indivíduos que vi de longe e que apenas consegui fotografar às pressas. Foi de facto um privilégio no sentido de que vi uma criatura rara, há 17 anos pensada extinta do meio selvagem, com habitação apenas em meios artificiais como zoos e parques naturais. Este órix nunca mais foi visto no Norte de África devido à caça, ao uso de terras férteis para produção de gado, mas também à seca e à desertificação, mas pretende-se reintroduzi-lo no seu local de origem.

O órix-de-cimitarra ganhou esse nome devido aos cornos, que se assemelham à cimitarra, uma espada tradicional do Médio Oriente. Os cornos podem chegar aos 1,2 metros de comprimento, sendo que o seu corpo pode chegar até aos 1,5 metros de altura e 200 quilos. Segundo o guia do Badoca Park, este antílope herbívoro ruminante pode passar meses sem beber água pois extrai o líquido dos alimentos que consome.

Ficam aqui as únicas fotos que tenho do órix-de-cimitarra.

Vanessa

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O filme It foi um hit

As crianças sabem instintivamente que se se esconderem debaixo de um cobertor estarão protegidas dos assustadores seres nocturnos que invadem o seu quarto. No livro e nos filmes com o nome It, criação de Stephen King, não há disso. A Coisa, como se chama em português, é um ser imune a qualquer subterfúgio e personifica os piores medos das crianças. Não admira que o filme já tenha ultrapassado os lucros mundiais de O Exorcista (mais de 441 milhões de dólares) com mais de 448 milhões de dólares segundo os últimos dados.

O livro e o filme retratam os desafios de um grupo de losers adolescentes, cada um com problemas ou desvantagens mais graves do que as habituais desta fase da vida, que se unem por uma causa comum. Na verdade duas causas. Primeiro são mal-tratados pelos seus pares e depois por um palhaço chamado Pennywise the Dancing Clown. Este último é geralmente o pior. O enredo alicerça-se nos problemas pessoais deste clube de adolescentes rejeitados para depois traçar um cenário bem pior, bem ao estilo de King.

O filme resulta porque chega apenas a uma parte do livro (já há uma sequela confirmada), apesar de pessoalmente não gostar da separação gratuita de partes ou de vários livros para fazer uma série de filmes. Neste caso, é essa a razão pela qual a audiência se pode deixar apaixonar por cada uma das personagens. O meio pior receio era a exploração da violência a que a personagem Beverly Marsh, a única rapariga do grupo, está sujeita no livro. No filme, Bev acaba por ser o pilar do grupo sem perder a dignidade.

Bravo ao realizador Andy Muschietti não só por isso, mas também por ter conseguido replicar os cenários aterrorizantes da mente claramente perturbada (no bom sentido... acho eu) de Stephen King, por ter capturado a aura da cidade ainda que tenha escolhido uma linha temporal diferente, nos anos 80 em vez de nos anos 50, e pela cena inicial que me perturbou ao ponto de não ainda não me ter conseguido esquecer de Georgie.

Não sei se todos os fãs de filmes de terror irão partilhar da mesma opinião, mas acho que vale a pena a tentativa. It é uma das personagens mais icónicas do terror, na minha opinião, por causa do seu passado fascinante e bem desenvolvido. Para quem viu o filme e não leu o livro, o livro contém todas as respostas.

Mais posts sobre Stephen King:
Gerald's Game é um jogo perigoso
Book Review | Doctor Sleep by Stephen King

Vanessa

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Ilha do Pessegueiro, Porto Covo, Alentejo Litoral

Não existe e talvez nunca tenha existido o pessegueiro na ilha, como canta Rui Veloso, mas na paisagem fóssil da Praia da Ilha do Pessegueiro havia elefantes há 30 mil anos. Fiquei-me por uma praia pequena ao lado, encaixada entre as rochas que serviram de de cata-vento, depois de um pequeno-almoço no restaurante A Ilha, o único ali por perto. Foi uma manhã tardia dedicada ao descanso e a câmara pouco saiu da mala. 

O sol de Setembro já não aquecia, mas tive coragem para um mergulho gelado. Mais tarde, um curto passeio pela arriba. O forte estava fechado, mas vi-o por fora. Parecia mais uma rocha na escarpa, embutido na paisagem como se sempre lá tivesse estado. Ao longe, a famosa ilha quase parecia mover-se ao sabor das ondas.

Paisagens próximas:

Vanessa

Gerald's Game é um jogo perigoso

Gerald's Game, ou Jogo Perigoso em português, foi um daqueles livros que li à socapa. A minha família é composta maioritariamente por pessoas não leitoras e por isso nunca corri o risco de ser apanhada com um livro obsceno nas mãos. Nunca me perguntavam o que estava a ler sequer. Não que Gerald's Game ou qualquer outro livro que tenha consumido durante a adolescência fosse obsceno. Primeiro, não tinha muitos sítios onde os arranjar, e segundo, não teria coragem. Mas é com certeza um livro para adultos e eu ainda não o era.

Em Gerald's Game, um casal decide fazer uma escapadinha para resolver os problemas conjugais. Escolhem uma propriedade do meio de nenhures e ambos se aperaltam para a ocasião. Mas a coisa corre assim para o mal quando Gerald, o marido, algema a esposa Jessie à cama para apimentar o momento. Gerald recorre também aos famosos comprimidos azuis para ganhar ânimo. Nisto, o marido esquece-se do bom senso e decide ser um pouco mais bruto. No livro e no filme de 2017, a forma como a cena decorre é ligeiramente diferente. 

O resultado é que Jessie fica algemada à cama e Gerald jaz morto no chão. Como é habitual, Stephen King, o autor do livro, desenha com mestria um enredo que tem um quê de perturbador só com a estória principal, mas consegue torná-lo ainda mais sombrio com o decorrer dos acontecimentos. É exactamente o que acontece. A casa é isolada. Há um cão com instintos selvagens à solta. Jessie está presa à cama. Jessie põem-se a alucinar. O seu passado vem à tona. Não é bonito. Há um ser talvez imaginário no canto do quarto de noite.

Não há um filme de Mike Flanagan de que eu não goste. Mas este não era um livro muito cinematográfico, na minha opinião, mas o realizador conseguiu transpor para o ecrã todas as cenas macabras e gráficas sem explorar o gratuito e sem recorrer aos sustos instantâneos. Todo o livro é mais psicológico do que visual e a película também. O actor com as cenas mais sinistras, por coincidência é o protagonista de E.T. As cenas em que entra assombram num mau sentido e o brilho no olhar de Henry Thomas é especialmente perturbador.

Tanto o livro como o filme são como um pesadelo. É por isso que recomendo ambos.

Vanessa

Atenção: aqui há muita secura XXVI

O budista foi ao dentista mas recusou tratamento. Queria uma experiência transcen-dental.


Vanessa

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Vila Nova de Milfontes, foz do rio Mira, Praia das Furnas

Pelas oito da noite do dia 7 de Setembro dei o meu primeiro mergulho do ano, na Praia das Furnas em Vila Nova de Milfontes, onde a água é tão salgada que me fez duvidar estar tão perto da foz do rio Mira. O sol punha-se com uma lentidão alentejana, o que me permitiu fotografar nas últimas horas de luz estas cores que não se fazem assim em mais lado algum. Já estava a ficar frio e os meus lábios secavam o sal do mergulho. Num muro estavam sentados dois estrangeiros que na semana anterior tinha visto num museu em Lisboa e que por coincidência até aparecem nas fotos desse dia a olhar para um quadro. O mundo é sempre tão pequeno que sempre que vou para algum lado a mais de 100 quilómetros de distância encontro algum rosto conhecido.

Ao vasculhar estas fotos, que parecem ter sido tiradas há uma eternidade e mais uns dias, fiquei hipnotizada pelas cores. A minha lente manchou-se de maresia e a luz provocou efeitos que jamais seria capaz de reproduzir mesmo que quisesse. Não é costume publicar mais do que 20 e poucas fotos no mesmo post, mas desta vez não havia como escolher. Retirei algumas, mas ficam aqui a maioria das fotos de Vila Nova de Milfontes.
 

Vanessa

Simbologia e interpretações do filme Mãe! de Darren Aronofsky

Darren Aronofsky é daqueles realizadores que me faz ver filmes sem sequer ter visto o trailer e independentemente do tema. Foi assim que me apanharam na sala de cinema a ver Noé, filme que me desapontou o suficiente para agora ver em Mãe!, o mais recente filme de Aronofsky, e sentir-me vingada.

Façam-me aí uma lista de filmes mainstream dos últimos 10 anos que tenha despertado tanto burburinho e interpretações sobre o seu significado como Mãe! É verdade que quem desgostou, desgostou a sério, mas quem ficou intrigado gerou conteúdo interessante, o que é das coisas mais valiosas que fazemos enquanto humanidade. Que é uma das minhas interpretações do filme, além do teor altamente religioso.

Resumo com spoilers: se a Mãe Natureza casasse com (um) Deus, o resultado seria este: uma relação abusiva e muito desequilibrada. Deus é a única personagem nos créditos finais cujo nome, "Ele", começa com letra maiúscula, mas penso que pode representar qualquer deus e não apenas o judaico/católico. Este facto é reforçado pelo facto de que Ele frequentemente apelida a sua co-protagonista (e força opositora) de deusa.

Neste filme, Mãe é simbólico de criadora nata e progenitora, e Deus representante da criação artística. A casa simboliza o planeta, que pode não ser necessariamente a Terra. Pode ser o Éden ou uma realidade paralela. O intuito da Mãe é torná-lo um paraíso enquanto atende às necessidades de Deus.

Deus, por outro lado, está sempre mais preocupado com a criação e com os seguidores das suas criações. Mãe, também uma das suas criações, como se vê logo no início do filme, é ao mesmo tempo musa inspiradora e criadora por si só. O primeiro homem que visita a sua casa é claramente Adão. Numa das cenas vemos que tem o flanco ferido e pouco depois aparece a sua mulher, que representa Eva, que acaba com a sua solidão. 

O homem e a mulher, símbolos da humanidade, impõem a sua presença na casa e desdenham das preocupações de Mãe. Deus parece tão encantado com a atenção que deixa que façam o que bem lhes entender, excepto tocar no cristal que no início do filme gera a criação de Deus. Mas é claro que o casal também não o leva a sério, tal como aconteceu com o fruto proibido, o que os leva a deixar cair o cristal, que se despedaça.

Mais tarde surgem os dois filhos do casal, que recriam a história de Caim e Abel. O homicídio de Abel deixa na casa uma marca que surge ao longo do filme, tanto quanto o coração da casa vai aparecendo para demonstrar as consequências dos acontecimentos, e abrindo precedente para outros crimes que depois ocorrem.

Todo o primeiro acto do filme é a história do Antigo Testamento, no fundo. A criação artística que leva o Homem a visitar Deus para o idolatrar pode ser interpretada como sendo um dos livros da bíblia. 

O episódio dos convidados a destruírem o lava-loiças, criando uma fuga de água, simboliza o Dilúvio, que trava a vaga de visitantes indesejados por momentos, levando a que a relação da Mãe e de Deus se aprofunde e culmine na criação do filho. Este filho representa Jesus, sim, mas também a criação em si. 

Vemos que a gravidez inspira em Deus a escrita de um poema que se torna sucesso mundial. Talvez símbolo do Novo Testamento. Quando a sua escrita se torna famosa e a casa é de novo invadida, decorrem ao mesmo tempo motins, ataques terroristas, e sinais de fanatismo. São acontecimentos simbólicos de crimes em nome da religião. Vemos também pessoas a abençoar outras em nome de Deus enquanto a casa vai sendo destruída.

O filho que tanto representa Jesus como a criação artística, torna-se mais um fruto do trabalho da Mãe, que tenta em vão proteger a criança. Numa das cenas mais arrepiantes do filme, Deus, deslumbrado, mais uma vez deixa que a humanidade leve a sua avante, o que resulta na morte do bebé às suas mãos.

Quando Mãe se aproxima do local, vemos o bebé desmembrado e a ser consumido pela humanidade. Há aqui uma sátira em relação à comunhão católica, mas a cena pode também ser interpretada como uma crítica ao acto da criação artística, que é depois consumida com fervor e minuciosamente criticada em praça pública.

A casa é uma extensão da Mãe. Vemos mais tarde quando a Mãe se revolta que as suas acções são acompanhadas de sons como trovões, mas que quando a humanidade se rebela contra a mãe, o que ouvimos é sons de fogo de artifício. A humanidade consume a casa, levando pedaços dela para comprovar a presença no local, destruindo para proveito próprio, agindo sem se preocupar com as consequências dos seus actos.

Darren Aronofsky não quis comentar um dos pontos mais intrigantes da película, o medicamento de cor amarela que Mãe toma sempre que se sente mal, por isso a minha interpretação baseia-se em especulação. O medicamento simboliza, a meu ver, o Amor que cura todos os males, uma vez que quando descobre que está grávida, Mãe deita fora o remédio, sabendo que contém em si todo o amor possível, o amor de mãe. É por isso que Mãe se revolta a ponto de destruir a casa, após o fruto do seu amor ter sido destruído.

O medicamento pode também ser interpretado como sendo a ingenuidade ou a ignorância, talvez tendo sido adquirido por Deus, uma vez que Mãe parece fazer um reset sempre que o toma, e tudo fica bem depois do remédio tomado; ou a interpretação pode ser mais literal, como uma crítica ao consumo de medicamentos, que como efeito secundário nos tornam adormecidos e passivos perante a realidade.

No final, Mãe revolta-se a tal ponto que incendeia a casa, pegando fogo aos tanques de petróleo (mais uma crítica?) da casa. Ainda assim sobrevive e consegue oferecer a Deus uma última coisa, apesar de achar que já lhe tinha dado tudo o que podia: o cristal que permite a Deus reiniciar o ciclo, e o filme termina como começou.

Será o ciclo sempre assim, ou será que existe um ciclo diferente para cada um dos livros da bíblia, se assim interpretámos a criação literária de Deus? Será cada ciclo simbólico da realidade que vivemos, ou será que há mais realidades que desconhecemos e cada ciclo representa uma realidade diferente?

Será que Deus está preso no ciclo para sempre, ou existirá a possibilidade de que Mãe consiga perdoar a humanidade pelos seus actos e não gerar a destruição subsequente, terminando a história num final feliz?

A minha interpretação pode estar aquém das intenções de Darren Aronofsky. O filme pode ser uma representação de um vírus, tanto quanto sei, vírus esse que destrói o hóspede, ou pode ser uma crítica directa a relações abusivas, ou uma sátira em relação a doenças mentais. Cada um é livre de encontrar no filme a simbologia que melhor se adequa às suas crenças, tal como numa determinada cena cada leitor viu na obra d'Ele uma interpretação diferente da de outros, e alguém sentiu que as palavras eram dirigidas a si.

Este filme merece ser visto. Pode parecer pretensioso, e se calhar é, mas gera na audiência reacções viscerais e pede interpretação e crítica, acções importantes para a saúde mental e para a sociedade e o mundo.

A única certeza que tenho é a de que este é um filme de terror. Nisso concordo com a mulher que não se calou durante o filme, levada pela filha (daquelas tipas que põem os pés no assento da frente e abanam toda a fila de cadeiras) com a suposição de que ia ver um género diferente. Isto foi um filme de terror.

Porquê? O filme teve três planos, quase nenhum deles aberto, e a maioria centrada na face de Mãe. O filme tem como ponto de vista a Mãe e a audiência vê apenas o que a Mãe vê e ouve apenas o que a Mãe ouve. O mau da fita neste filme de terror é a humanidade. O mau da fita neste filme de terror é a audiência que assiste ao filme.

Há lá coisa mais aterrorizante que isso?

Vanessa