sábado, 20 de janeiro de 2018

A demonização do leite

De acordo com o jornal Público, a venda do leite caiu 11% em 2016. O jornal cita Paulo Leite (nome muito adequado), director da Associação Nacional da Indústria dos Lacticínios, que refere "campanhas de difamação do leite sem fundamentação científica" e "modas que, talvez por uma questão de marketing, estão a demonizar os lacticínios" como causa para o declínio do consumo, fenómeno visível em toda a Europa mas mais em Portugal.

Há muito que nas últimas décadas passou de maná dos deuses a veneno. A margarina foi apresentada como sendo uma alternativa saudável à manteiga, por exemplo, quando hoje sabemos o mal que fazem as gorduras hidrogenadas, e tudo o que é composto por químicos e processado no geral. Os cereais de pequeno almoço, tirando os cornflakes e aquelas cenas de trigo que sabem a palha, eram considerados um começo de dia saudável e hoje sabemos que têm tanto ou mais açúcar do que uma sobremesa. Um viva à informação.

Hoje estamos mais atentos aos estudos. Quem os financia acaba por ser um componente importante. Estamos mais informados. Ligamos mais ao senso comum em vez de deixarmos escorregar pela goela aquilo que é publicitado. Em suma, não confiamos tanto. A indústria (ainda) não está habituada a tal acto de rebeldia. Consumidores mais ou menos informados ou pelo menos com curiosidade suficiente para quererem saber mais sobre os produtos são um perigo. Fala aqui uma pessoa que cresceu alimentada a cereais de chocolate com leite ao pequeno-almoço, bolacha Maria à discrição, e tantas outras coisas agora demonizadas.

Hoje tudo pode fazer mal, queixam-se uns. Mas então agora o melhor é comer pedras? Blá, blá, blá. Sim, hoje tudo pode fazer mal, especialmente em excesso. Excepto talvez espinafres. Hoje há estudos disto e daquilo. Muitos ambicionam ser os cadáveres mais saudáveis do cemitério. Mas há quem, como eu, simplesmente procure saber o que faz menos mal e dedique mais tempo a consumir informação. Há quem experimente. Por que não aderir às modas sem extremismos? Por que não variar o que consumimos? Se no fim nos sentimos melhor e não existiram problemas de saúde, por que não? Será melhor o consumo cego?

Nisto entra o leite. Demonizada posso ser eu depois do que vou escrever: nós não somos bezerros. Leite de vaca não é bem essencial. É uma comodidade que consumimos pelo cálcio, proteína, vitaminas, e minerais. Há mais fontes que contêm todos estes elementos que não o leite. Os lacticínios não são demonizados só pela suposta falta de evidência científica. Trata-se também de senso comum. Se há variedade de produtos, o consumo é variado também. Como deve ser. Fala aqui uma pessoa que deixou de consumir leite frequentemente e se sente melhor por isso. O leite é uma comodidade. É uma facilidade. Apresentem uma tigela de leite a qualquer mamífero e é provável que ele o consuma. Mas a diferença é que nós, mamíferos racionais, temos capacidade para digerir informação, extrair da natureza o que queremos, e tomar decisões com um cérebro pensador.

Há quem, como eu, prefira as alternativas que não impliquem a exploração animal. Se as há, por que não? Se há outras formas de obter todos aqueles nutrientes, por que não? Não acredito que existam vacas que produzam leite para consumo humano que sejam felizes. Peguem numa mulher grávida, explorem as suas glândulas mamárias, afastem-na do ser que concebeu e que é o verdadeiro dono do seu leite. Seria ela feliz? É nisto que penso quando vejo um pacote de leite que apregoa a felicidade da vaca que lhe deu origem. São coisas que dantes não valiam tanto como agora. Se calhar não havia tantas outras alternativas. E além disso, foi-nos vendida a mensagem de que precisamos de leite. Mas agora aprendemos que há uma diferença entre precisar e querer.

Logo a seguir a estes argumentos vêm os componentes nocivos potencialmente presentes no leite. Os estudos que fazem correlações entre o leite e doenças actuais. As evidências contrárias ao que antes nos foi dito. Mas no conjunto de argumentos, estes são até os menos importantes para mim. Há variedade como nunca antes existiu. Incluindo de informação. Se calhar é por isso que em 2014 a venda de bebidas vegetais aumentou 19%.  De vez em quando bebo um galão. De vez em quando como queijo. De vez em quando iogurte e natas. Mas tenho sempre aberto um pacote de bebida vegetal em vez de leite e até as natas são maioritariamente vegetais. É uma escolha pessoal com base nos argumentos que descrevi. Graças ao leite, sei desconfiar sempre que uma indústria apregoa os benefícios do produto que põe à venda. No fundo, devo muito ao leite. Foi com ele que cresci. Mas foi também com ele que aprendi a pensar melhor sobre as escolhas que faço. Por isso, sou uma vaca feliz. 

Ah ah.

Vanessa

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