sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Primeira

O primeiro dia da semana não se chama primeira-feira, mas segunda-feira porque antigamente os agricultores faziam uma feira ao domingo e o que restava era vendido na segunda feira, hoje a segunda-feira.

Continua a não me fazer sentido e parece que todas as semanas o primeiro dia é perdido, porque o domingo é alegadamente o fim da semana que passou, não o primeiro dia da semana, e depois vem a segunda.

Isto de não haver uma primeira-feira sempre me desconcertou. Se a segunda-feira é o primeiro dia de trabalho da semana, a primeira-feira devia ser um dia extra de descanso e as semanas deviam ter oito dias.

Onde posso reclamar para ter as primeiras-feiras de volta?

Vanessa

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Receita vegana facílima dedicada ao Wuant

Fazer um arrozinho, de preferência integral (há umas marcas que até têm arroz de fazer no microondas). Juntar um qualquer feijão enlatado. Num prato colocar uma cama de verdes já preparados, retirados de uma embalagem. Despejar para cima o arroz e o feijão. Dicas: juntar uns pickles (neste caso pimentos vermelhos de piquillo) ou um chucrute, condimentar com alho e/ou cebola em pó, molho de soja, chili, ketchup, etc.

Dedico esta receita, que na verdade é só uma questão de somar no prato uns quantos ingredientes já prontos, ao Wuant, YouTuber português com 2,320,151 subscritores (e não, não é daqueles número aleatórios que às vezes escrevo só para exemplificar uma quantidade enorme). Sei que ficaste triste por largar pelo menos temporariamente o vegetarianismo porque te vi chorar naquele vídeo em que falas sobre isso, por isso achei que devia ajudar, especialmente porque a razão principal citada foi a preguiça que deu origem a problemas de saúde. Acredito piamente no direito à preguiça e até no direito ao consumo de proteína animal, mas...

Lamento que uma pessoa tão influente junto do público jovem perpetue mitos como a anemia ser comum na comunidade de vegetarianos e a única solução para a doença ser o consumo de proteína animal ou suplementos médicos. Eu e o feijão, o grão, os frutos secos, a quinoa e até as ervilhas estamos ligeiramente ofendidos com certas declarações. Qualquer um de nós é livre para fazer as escolhas que bem entender e para mudar de ideias quando lhe apetecer, mas neste caso compreendia melhor a decisão se tivesses dito que gostavas do sabor de um churrasco, de um peixinho grelhado, de marisco, ou qualquer coisa do género.

Assinado,
Uma pessoa razoavelmente informada que moralmente faz o melhor que pode, mas que gosta do sabor de um churrasco, de um peixinho grelhado, de marisco e que por vezes até desfruta de algumas destas coisas.

Vanessa

Desaceleramento

Cheguei à conclusão que tenho várias publicações começadas e até fotos que quero publicar que fazem este mês um ano. Estão no limbo. Estão um pouco como eu, à espera de certos dias em que tenho actividades marcadas que me consomem espaço mental, ou simplesmente à espera duma nesga de tempo.

Sinto que estou sempre a falar de tempo e espaço. Einstein, desculpa-me.

Por outro lado, ganhei o hábito de acelerar os vídeos que vejo para 1.25 de velocidade. Uma ligeira alteração, um discurso mais rápido, mas o mesmo resultado. Acho eu. Não sei se absorvo da mesma forma a esta velocidade por comparação à velocidade natural. Mais conteúdo, ligeiramente menos tempo. Parece-me um bom negócio.

Se ao menos também eu conseguisse aumentar a minha velocidade de execução para 1.25...

Vanessa

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Frases expiradoras

Se há coisa que me faz revirar os olhos de tal forma que temo ficar com eles revirados para sempre é estar numa rede social e ver fotos de paisagens ou pessoas aleatórias com frases supostamente profundas, cunhadas por desconhecidos (ou pior, erradamente atribuídas a celebridades). Normalmente são frases como aquela de recolher as pedras do caminho para fazer um castelo ou carpe diem ou indirectas para alguém em especial ou para a sociedade no geral. Normalmente são publicadas por pessoal das gerações que me antecedem, se bem que já vi pessoal da minha idade que fizesse isso. Tudo gente que estava melhor a ler um livro.

Para as últimas frases desse género que li, frases supostamente motivadoras ou inspiradoras, eis uma outra perspectiva. Vou usar aspas porque vou citar as frases como as li, não para respeitar direitos de autor.

"As melhores coisas da vida não têm preço".
As melhores coisas da vida são habitualmente bem caras.

"Todos os dias são uma nova oportunidade".
Todos os dias são uma nova oportunidade... para nos arrependermos de não termos ficado na cama.

"Quem não está comigo no meu pior, não merece estar comigo no melhor."
Quem não está comigo no meu pior não sabe que esse é o meu melhor.

"A vida são dois dias".
Vai aprender a contar.

"Não chores porque já terminou, sorri porque aconteceu". Gabriel García Marquez (?)
Não. Sorri porque terminou.

"Se nunca acreditares em ti, ninguém acreditará."
Se nunca acreditares em ti, também nunca serás desapontado.

Por último...

Foto tirada no Castelo de Santiago do Cacém, no Alentejo.

Vanessa

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Página refrescada

As férias são um estado de espírito. São processo de escape, de fuga, de exílio voluntário. Ir de férias consiste em deixar cair a rotina, levar uma mala com tudo aquilo com que na realidade podíamos viver caso a nossa casa ardesse, esquecer o corre-corre, conhecer novos lugares com uma paz de espírito desencantada sabe-se lá de onde, desentranharmos de nós uma simpatia, que fica tão frequentemente esquecida quando a autoridade da obrigação nos afasta de nós próprios, e que nos desperta sorrisos enterrados, e deixar que a vontade guie acções como se nunca o pudéssemos fazer, quando na verdade nunca nada concreto o proibiu.

Da mesma forma que dizer que estamos de dieta activa no cérebro várias barreiras, dizer que estamos de férias tem o efeito contrário e abre-se caminho para todas as possibilidades que o tempo livre proporciona. No meu caso, nunca fui muito fã de férias quando era mais nova, principalmente porque raramente tinha férias em família, como idas ao Algarve ou à terra, mas também porque me cansava facilmente da liberdade.

Hoje quase me parece sacrilégio. Tirar uns dias é sempre importante para o bom funcionamento mental. Embora seja difícil desligar de tudo, especialmente porque agora tenho um smartphone e há internet em todo o lado, só o facto de ter deitado fora a responsabilidade e os deveres já é suficiente para conseguir respirar fundo.

Agora estou de volta e bem respirada.

Vanessa

Avaliação Literária | Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie

Em Os Versículos SatânicosSalman Rushdie conta as peripécias de Gibreel Farishta e Saladin Chamcha, dois actores indianos, únicos sobreviventes de um ataque terrorista ao avião em que viajam. Confesso que mais do que isso, pouco percebi do livro em termos de alegorias e metáforas religiosas, uma vez que é disso que se trata esta obra, que causou e ainda causa controvérsia por subverter aspectos da religião islâmica.

Os protagonistas começam a sofrer alterações físicas que os tornam manifestações do bem e do mal. Saladin Chamcha começa a transformar-se num bode e Gibreel Farishta ganha uma auréola. Ambos agem de acordo com as suas características em cenas que desafiam a realidade, mas Gibreel parece perder a noção da realidade a certa altura. Eu própria comecei a perder a noção da realidade do livro a certa altura.

Além da referência no título, que alude aos versículos satânicos retirados do Corão pelo Profeta Maomé, outras referências do livro deturpam o islamismo ao ponto de chegarem à sátira ou, segundo a comunidade muçulmana, à ofensa. Rushdie traçou a estória a partir dos dois protagonistas, ambos perturbados por uma razão ou outra de tal forma que sofrem alucinações ou imaginam alguns dos episódios, desenhando neste livro um quadro de imagens religiosas e profanas, acontecimentos bizarros, e estórias e histórias pontuadas por personagens que servem de muleta ou travão aos conflitos entre Gibreel e Saladin.

Houve com toda a certeza muito que me escapou nesta primeira leitura d'Os Versículos Satânicos, especialmente porque nunca o imaginei tão ficcional e alegórico. Foi o ponto de partida para um estudo mais aprofundado da religião em causa, de crenças e fábulas, e de uma cultura que me é desconhecida. 

Sinto que deveria ter lido este livro em inglês para perceber melhor trocadilhos, que na versão portuguesa vieram explicados, mas que teriam sido melhor compreendidos com a versão original, mas uma vez que me pareceu uma leitura algo maçuda por ser complexa, talvez com o livro em inglês tivesse demorado bem mais a embrenhar-me na estória. Foi um daqueles livros que custou um pouco a engrenar.

Fora isso, foi uma leitura enriquecedora a repetir daqui a alguns anos.

7/10

Vanessa

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Atenção: aqui há muita secura XXIV

Ginásio é o nome que dou à minha casa de banho. 

Agora posso dizer que a primeira coisa que faço quando acordo é ir ao ginásio.

O Alentejo é uma região seca. Vou para lá uns dias ver se é. Pode ser que me inspire para mais tiradas secas assim. Ou pode ser que o meu cérebro se desligue. Entretanto, há aqui entretenimento que baste.

Vanessa

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Excertos fantásticos e onde encontrá-los II

"Se alguma vez tentarem explicar-te que este planeta (...) é uma coisa homogénea, composta apenas de elementos conciliáveis, que tudo o que acontece faz sentido, o melhor que tens a fazer é ir a correr telefonar para o alfaiate de camisas de força (...) O mundo é incoerente, nunca te esqueças: gagá. Fantasmas, nazis, santos, todos a viverem ao mesmo tempo; acolá, a felicidade absoluta, e um bocado mais adiante o Inferno. É impossível imaginar um sítio mais disparatado". Em Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie.

Vanessa

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A arte da compreensão ou a compreensão da arte

Esforço-me por ser ambiciosa naquilo que escolho consumir nos tempos livros, mas às vezes é difícil não sentir a frustração que me traz a consciência da minha própria ignorância face à criação alheia. Tive uma professora que dizia que os gostos educam-se, mas os meus são por vezes rebeldes ou apenas difíceis de contentar.

Muitas vezes olho para obras de arte e não as consigo ver. Muitas vezes oiço música clássica que não consigo escutar. Muitas vezes leio livros e vejo filmes que não consigo compreender. Tudo isso causa-me frustração, ainda que não a suficiente para me fazer desistir, mas frustração suficiente para odiar a minha ignorância.

E tento alimentar a ignorância com variedade, ora observando obras fotográficas, porque as sombras são fáceis de analisar, ora quadros dos quais nem por sombras conseguiria extrair significado; ora ouvindo hits de música pop, ora canções indie ou sinfonias clássicas; ora lendo obras de autores de ficção fácil de digerir, ora outros que me fazem crer que deveria antes ver um documentário ou ler outros livros para perceber o que escrevem.

Tenho a mente aberta para a aprendizagem mas fechada para o incompreensível, e a busca de significado acaba por ficar prostrada diante da mera tentativa. Não deixam de ser tentativas legítimas ainda que saiba de princípio que sairão frustradas, porque a beleza não tem de ter o mesmo significado para os que consomem e para os que criam. A beleza não tem de ter significado sequer. Uma aurora boreal há-de ser bonita mesmo que não percebamos o fenómeno que a cria. O mesmo se passa com qualquer criação, natural ou humana.

Com o passar do tempo, descobri que há beleza também na minha ignorância. A beleza alimenta-se de cada tentativa. Aquilo de a viagem ser tão importante como o destino final. Na cultura, e é essa uma das razões da sua importância, o destino final é o receptáculo. Varia consoante os sentidos, a experiência e a consciência do destinatário. Às vezes pode ser apenas um despertar de consciência. Ou ter o efeito contrário.

Foi então que no fim-de-semana fui ao Museu da Electricidade e perante várias obras de arte incompreensíveis ou só bonitas na sua complexidade sem significado ou definição, uma rapazinho aponta para uma peça de porcelana cheia de buracos da colecção de cerâmica Branco e Azul da autoria de Bai Ming e diz à mãe: "Queijo!" Além de me provocar uma gargalhada, o miúdo lembrou-me da sensatez e da sensibilidade criativa que as crianças têm por comparação aos adultos, e a arte pode perfeitamente ser uma forma de nos esquecermos de ser adultos e olharmos como crianças para as obras. Os olhos infantis vêem mais e melhor. Em alternativa, acho que vou passar a seguir as crianças em museus e galerias, e vou ficar atenta aos seus comentários.

Vanessa

Atenção: aqui há muita secura XXIII

O meu amigo partiu o braço esquerdo e a perna esquerda. Ficou um amigo às direitas.

Porque a secura não tira férias.

Vanessa

sábado, 2 de setembro de 2017

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Despejo de divagações

Já não tenho idade para fazer o Cartão Jovem. É assim que a dura realidade às vezes nos acorda para a vida, ou neste caso para a pergunta: para onde foi? O tempo, claro. A juventude, parte dela. Sempre senti que tenho de ser simultaneamente adulta, desde quando não era, e que ao mesmo tempo não tenho direito de crescer como deve ser. Acho que sou uma planta num vaso muito pequeno a tentar sair, com pernas que não tenho, para um jardim. Claramente algo mudou, que eu não costumava criar metáforas tão parvinhas, nem os meus parágrafos costumavam ser tão compridos, nem eu tinha tanta disponibilidade ou vontade para ser sincera.

Hoje é o dia daquela última cena do último filme do Harry Potter. Quando fui ver o filme senti que estava deslocada, porque era só miúdos naquela sala de cinema, e que tinha terminado ali o meu direito de ser jovem. A última cena passava-se a 1 de Setembro de 2017. Hoje. O filme saiu há seis anos. Em seis anos continuo no impasse entre ser jovem e ser adulta. Não me importa o limbo, excepto o facto de ele me lembrar uma idade que sinto que não tenho ou que não devia ter pelo muito que há ainda por fazer. Talvez nos próximos 30.

Recuperei o hábito de escrever cartas. Na verdade, nunca se perdeu. Tem fases. Voltei a ter contacto com uma amiga por correspondência com quem não falava há cinco anos. Ela mandou-me fotos do casamento. Em cinco anos casou, teve um filho, abriu um negócio e está a pensar fazer cerveja artesanal. Ah, e começou finalmente a escrever e já tem 50 mil palavras de um possível livro. Olha, obrigadinho. Olho para os meus últimos cinco anos e agora não sei o que lhe escrever de volta. Há cinco anos ainda era jornalista, já o pavio a queimar no fim dessa vela. Nestes cinco anos que passaram num ápice deixei de ser uma coisa e passei a ser outra.

Mas olha, ainda sou uma pessoa, ainda sou jovem, ainda escrevo cartas, ainda gosto do Harry Potter, ainda escrevo em metáforas, ainda quero fazer o Cartão Jovem, mas já não posso, ainda tenho em mim um lado infantil, ainda acho que um dia vou escrever a sério e ter mais de 50 mil palavras, gosto mais de cerveja artesanal do que da generalista, ainda sou adulta mas com um lado infantil, ainda estou a tentar sair do vaso, e pode ser que não consiga preencher as mesmas 10 páginas A5 para mandar uma carta de volta à que ela enviou do outro lado do Atlântico para esta ponta da Europa, até porque acho que com sonhos e divagações conseguia na boa 50 mil palavras, só tenho é de saber quantas páginas isso dá e depois quantos selos são precisos.

Desculpa a caligrafia. As minhas mãos já só sabem usar o teclado.

Vanessa

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O Senhor das Moscas em versão feminina... feita por homens

William Golding, autor de O Senhor das Moscas, era frequentemente questionado sobre a escolha de ter como protagonistas do seu livro 12 rapazes em vez de raparigas. O escritor dizia que era em parte por ele próprio ser homem. Além disso, "penso que as mulheres são tolas em fingirem que são iguais aos homens. São bastante superiores e sempre foram", disse Golding numa entrevista. No entanto, o escritor sentia que um grupo de rapazes seria um melhor retrato da civilização, o que perfaz a outra parte da razão por detrás da escolha.

O livro publicado em 1954 foi adaptado ao cinema pela primeira vez em 1963 por Peter Brook e depois em 1990 Harry Hook. A estória retrata 12 meninos que tentam sobreviver numa ilha. O enredo é uma sátira e crítica de costumes que termina em violência e caos. Agora em 2017, os produtores Scott McGehee e Evan Siegel assinaram um contrato com a Warner Bros. para refazer o filme, mas com um elenco de raparigas.

Pondo de parte o facto de as grandes produtoras de cinema parecerem gostar tanto de reboots, ou de novas versões de estórias antes criadas, estes produtores que querem reproduzir este enredo parecem não perceber o intuito de William Golding ao escrever este livro, o que se calhar é um aspecto importante para a execução de um filme baseado no livro. Por outro lado, temos aqui dois homens que querem criar um filme protagonizado pelo sexo oposto. Se a ideia for recriar o enredo com raparigas sem modificar as conclusões a que chegam os 12 rapazes, o filme será contrário à ideia pessoal de Golding de que as mulheres são superiores, e não fará muito sentido se for transposto para a mesma época em que o livro foi publicado e seguir os mesmos episódios de violência. Como mulher, duvido que um grupo de 12 meninas chegasse aos extremos dos meninos do livro, e em alguns casos duvido também que chegassem o mesmo grau de eficácia, como o de criar um sistema de comunicação como o que os protagonistas criaram. Nesse caso, o filme será apenas uma vaga adaptação.

No entanto, partindo do pressuposto de que a estória vai ser diferente e a equipa de filmagem vai permanecer com este rácio de homens para mulheres, se calhar o fenómeno vai ser parecido ao do Ghostbusters ou Caça-Fantasmas de 2016 com o elenco feminino, em que o filme era mau, mas depois a culpa era de só terem posto mulheres no elenco principal e não do argumento ou da realização. Eu cá não consigo levar a sério um filme assim realizado por homens a não ser que me venham dizer que vai haver um grupo de mulheres para fazer consultoria. O que seria parvo, porque há muitas mulheres perfeitamente capazes de realizar filmes e se calhar até tornar tudo isto numa boa idea. Parece-me muito mais sensato. Uma estória depende, para mim, das ambições e das motivações das personagens. Logo aí, não faz sentido ter dois homens a realizar.

Para concluir, eu cá até acho que já existe uma versão feminina do Senhor das Moscas. Chama-se Mean Girls (ou em português, Giras e Terríveis). Também esse filme foi realizado por um homem, mas ao menos quem escreveu o guião foi Tina Fey. Chama-se trabalho em equipa, e costuma resultar muito bem.

Vanessa

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Os cães azuis de Bombaim

Segundo várias notícias, desde 11 de Agosto têm-se avistado cães com uma tonalidade azul em Bombaim, na Índia. Alegadamente, a culpa é de uma fábrica de detergentes que despeja no rio Kasadi, frequentado por animais de rua, os resíduos da sua produção. O que inclui corante azul. Atentem à ironia de uma empresa que fabrica produtos de limpeza a sujar um rio e a manchar literalmente a sua própria reputação.



A área em questão, o complexo industrial de Taloja, é habitada por 977 fábricas de produtos químicos, farmacêuticos e alimentares, segundo a organização sem fins lucrativos Watchdog Foundation. A fábrica em questão foi encerrada pelas autoridades e os cães foram analisados pela autoridade protectora dos animais de Mumbai, segundo a qual dois banhos foram suficientes para o corante azul sair e os cães estão aparentemente saudáveis, depois de analisados os níveis de toxicidade do seu pêlo e o seu estado de saúde em geral.

Estima-se que existam 30 milhões de cães na Índia e que mais de metade sejam cães de rua. Em Maio o governo indiano aprovou uma série de leis que protegem vários animais domésticos ou vadios.

Devíamos agradecer a estes cães por lançarem um alerta importante para os indianos e para o resto do mundo ao porem a sua própria pele inadvertidamente em risco. Agora o desafio é outro. O fecho de uma fábrica na Índia pode ter consequências mais graves do que aqui, porque as fábricas funcionam graças a pessoas que delas dependem e muito, e além disso o fecho apenas desta com certeza não será suficiente para reverter os dados de 977 entidades tão perto de uma fonte de água, quer lá despejem directamente resíduos ou não.

Este é um problema com raízes profundas com vários culpados, incluindo o Ocidente. Não esqueçamos que é do outro lado do mundo que se produzem muitos dos bens de consumo daqui, precisamente porque o preço a pagar, literal e metaforicamente, é aparentemente mais baixo para nós. Apenas aparentemente. Afinal de contas, qualquer catástrofe natural ou de origem humana em qualquer parte do mundo... aliás, o mero bater de asas de uma borboleta seja onde for pode ter consequências sérias a quilómetros de distância, diz a Teoria do Caos. Hoje são os cães azuis, que felizmente em princípio são protagonistas de uma história com final feliz.

Mas amanhã o que será?

Vanessa

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Para o menino e para a menina

A Porto Editora comercializa dois blocos de actividades, um azul e outro rosa, para meninos e meninas dos quatro aos seis anos, sendo o azul para eles e o rosa para elas. A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género está a analisá-los porque o bloco rosa alegadamente contém exercícios de resolução mais fácil do que os do bloco azul, e ambos recorrem estereótipos de género. O jornal Público analisou os dois manuais: "No conjunto das 62 actividades propostas, existem seis cuja resolução é mais difícil no (livro) dos rapazes e três que apresentam um grau de dificuldade superior no das meninas. Mas a maior parte das actividades reproduzem uma série de velhos estereótipos. Apenas alguns exemplos: eles brincam com dinossauros, com carrinhos e vão ao futebol, enquanto elas brincam com novelos de lã, ajudam as mães e vão ao ballet (...)" diz o artigo.

Compreendo o marketing envolvente que justifica a existência de manuais para cada género. Mas não concordo. Muito menos concordo com certas associações que se fazem entre actividades, profissões e produtos a determinado género neste século. Mas certos acontecimentos actuais que levam a este debate são ridículos. São quase sempre provenientes de estereótipos em vez de serem construtivos ou de injustiças que ainda acontecem. Acontecem porque ainda existe a ideia de que há coisas para meninos e há coisas para meninas.

Antigamente, pelo menos após o ano 1918, o rosa, cor associada à força, era para os rapazes e o azul, cor associada à delicadeza, era para as raparigas. Depois disso trocaram-se as voltas. Não se trocaram ainda as mentalidades, infelizmente. Continuamos a ter bonecas e jogos de cozinha em rosa para as meninas, e carros e puzzles em cores escuras para os meninos. Para os mais crescidos há produtos escolares em rosa e em azul. Para os adultos, produtos de depilação, desodorizantes, cremes, e produtos de higiene em geral em rosa e azul. 

Todos eles com diferenças de preço, claro. Até produtos considerados essenciais para as necessidades próprias do género são diferentes, da cor ao preço, passando pela taxa de IVA e pela imposição de uso por parte da sociedade, como por exemplo lâminas de barbear para eles (se bem que agora ter barba está na moda) e maquilhagem para elas. Não me vou pôr aqui a analisar qual dos dois, o rosa ou o azul, é o mais barato.

Digo apenas que a separação de género que tenho visto ao longo dos anos tem saído cara.

Vanessa

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Medições

Conheci em Goa uma senhora com idade para ser minha mãe que lia muito, mas que considerou o facto de eu ler tanto como um desperdício da minha juventude. Não aprofundei a questão, por isso presumi que se estaria a referir ao tempo passado a ler em vez de fazer outras coisas, mas pode ser também considerado desperdício em relação à sabedoria que me falta para compreender certas obras literárias ou à perda de oportunidades por se escolher a leitura versus outras actividades. Não quis aprofundar a questão porque não gosto geralmente de debater os meus hábitos com outras pessoas e porque não gosto que me ofereçam argumentos até legítimos que invalidem hábitos que tenho e que me são queridos e que até me melhoram enquanto pessoa.

Ninguém parece falar no assunto no que toca a séries de ficção ou filmes, e isso até considero (um pouco, não muito) desperdício de tempo, apesar de desfrutar desses passatempos. Mas os livros são um à-parte. O que se ganha com a leitura enriquece o tempo supostamente desperdiçado e mesmo que aparentemente nada se ganhe, porque compreendemos apenas parcialmente o lido ou nada de todo, trabalhamos aspectos da vida que estão em vias de extinção como a paciência, ou outros que são amplamente valorizados hoje em dia, como a resiliência e a persistência. Por isso a meu ver, nada se perde, na verdade, e muito se ganha.

Já estou numa idade em que dá para olhar para o passado e perder tempo a analisar coisas que não posso mudar, como o tempo que desperdicei em coisas fúteis, inclusivamente mas não exclusivamente: desgostos, invejas, comparações, memórias, e actividades mundanas como ver televisão e perder-me no computador. Nunca olhei para trás e me arrependi de ter lido, nem mesmo dos livros de que não gostei ou dos quais não me lembro. A leitura é o único aspecto da minha vida que está livre de arrependimentos. Tendo em conta de que até de nascer já me arrependi, e é coisa que por vezes me saltou à consciência nos pontos mais baixos da vida, o facto de haver algo que nunca me causou nem remorso nem pesar nem stress nem angústia, excepto quando o escritor é tão bom que nos faz viver o que vivem personagens, é digno de respeito.

Se eu tivesse de medir, diria que a leitura é tão imensurável quanto o valor que nos traz, tal como um pôr do sol ou um luar, e que em vez de um desperdício, é antes insuficiência permanente, rendimento passivo infinito, retorno sem riscos sobre o investimento. Nota-se que tenho feito muitos trabalhos ultimamente na área dos negócios? Para o que havia de me dar. É do calor. Talvez seja também do livro que estou a ler.

Vanessa

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Jornalixo V ou de como os millennials "optam" por casas pequenas

Recorrendo ao sarcasmo para não chegar ao insulto face ao artigo do Expresso intitulado Millennials optam por casas mais pequenas, e sendo orgulhosamente millennial por opção, já que como é óbvio escolhi a minha data de nascimento, como todos os da minha geração, tenho também a dizer que no meio de tantas outras opções, além de optarmos por casas mais pequenas, nós millennials optamos também pela precariedade. Não satisfeitos com as condições de vida das gerações antecedentes, optamos por algumas condições piores, assim como optámos por habitar este planeta mesmo com as suas crises económicas, aquecimento global e recursos limitados.

Chamar à selecção de casas mais pequenas por parte da minha geração de opção é tão correcto como chamar opção à escolha do planeta Terra em vez de Marte para habitar. É um acto tão opcional quanto: escolher trabalhar a recibos verdes quando a outra opção seria não trabalhar de todo ou trabalhar de borla num estágio, escolher emigrar quando a outra opção é lidar com o que foi referido primeiro, escolher adiar outras opções de vida como casamento e filhos pelo que já foi referido e por várias outras razões. Tantas opções que temos. Não admira que sejamos uns mimados que não querem trabalhar e sair de casa dos pais e etc.

Este tipo de artigos faz parte de uma moda que tenho observado nos meios de comunicação, uma moda que consiste em tornar agradável, trendy e aprazível uma inevitabilidade mascarando-a de escolha ou tendência. Como é óbvio, se nos fosse possível morávamos em casas grandes. Mas não é. Duh.

Optar por casas pequenas é tão inevitável como eu agora pensar que devia ter optado por não ler o artigo.

Vanessa

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A cadeia alimentar moderna

Várias notícias hoje dão conta de que várias espécies de peixe têm confundido plástico com comida e por isso introduziram o plástico na cadeia alimentar. Ora, todos sabemos que na verdade o real responsável pela introdução do plástico na cadeia alimentar é o Homem, aquela criatura que está no topo dessa cadeia.

Por isso agora a cadeia alimentar moderna tem no topo e no fundo, indirectamente, o Homem. Diz a ONU que "se nada for feito e se continuarmos neste ritmo, em 2050 haverá mais restos de plásticos nos oceanos do que peixes." O que na verdade é aquilo que merecemos. Mas não é o que merecem todas as outras criaturas com quem "partilhamos" (aspas porque na realidade somos como um vírus destruidor) o planeta.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, um milhão de aves e 100 mil mamíferos marinhos morrem todos os anos devido à poluição por plástico. Para colocar isto em perspectiva, segundo a Fundação Oceano Azul, são produzidos anualmente no mundo a mesma quantidade de plástico quando pesa toda a humanidade: 300 milhões de toneladas. É estimado que desse belo número, oito milhões acabem por habitar o oceano.

Como tudo o que diz respeito ao mundo moderno, so há pouco tempo começámos a medir as consequências da utilização do plástico, mas ele está aí, nos oceanos e até no nosso sal de mesa, como foi noticiado há pouco tempo. É mais uma das heranças do uso de combustíveis fósseis que se infiltrou no quotidiano. Continuamos, no fundo, como homens das cavernas, ignorantes e impávidos, mas agora com uma grande quota-parte de culpa. Quem semeia ventos, colhe tempestades. Quem semeia plástico, colhe nada. Passo a piada deste nada como substantivo e não como verbo, porque isto não tem graça nenhuma. Assim não há arca de Noé que nos safe.

Vanessa

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

E o sono o vento levou

Podia continuar a queixar-me do vento por si só, do barulho que faz que realmente não ajuda a embalar uma pessoa com insónias, mas entretanto e por ironia — ironia no sentido em que o vento viu-lhe dedicado aqui um post que fala precisamente do sujeito de todo este predicativo que se segue — os estores do meu vizinho de cima foram à vida. Não testemunhei o evento, mas tenho pena. Tenho pena porque hoje fui acordada com uma sinfonia de ferramentas, que não saberia precisar, proveniente do tecto no cimo da minha cama. 

Posto o desassossego que se seguiu, merecia ter estado na primeira fila quando o vento levou os estores aos meus vizinhos, a acreditar que foi mesmo isso que aconteceu. O ruído prolongou-se por espaços de tempo esporádicos ao longo do dia. Estão a ver como nos filmes de terror às vezes colocam uma música assim baixa e vibrante a anteceder fenómenos assustadores e uma pessoa fica em suspense porque nunca sabe quando é que esses fenómenos a vão assustar? Foi assim o meu dia. Sempre à espera da sinfonia, que culminou com uma orquestra, já a tarde ia avançada, de despojos atirados do primeiro andar cá para baixo.

O bom disto tudo é que hoje nem sequer dei pelo vento.

Vanessa

terça-feira, 8 de agosto de 2017

E tudo quer o vento levar

Eu sei que este vento tem explicação meteorológica, um anticiclone com mais um ingrediente qualquer. 

É tudo menos esta explicação aquilo em que penso quando os cabelos se me colam aos lábios de batom e o comprimento do lenço preso ao pescoço, para evitar resfriados que o vento gosta de cultivar na minha garganta, se vai enfiar entre as pernas e fico a parecer uma humana com cauda de cor de laranja.

Enquanto trabalho, o vento bate-me à janela como convite, mas depois é tudo menos convidativo quando meto os pés na rua. As persianas piscam os olhos e nunca ouvi um piscar de olhos tão sonoro como este. Parece-me antes que vou ficar sem persianas e depois lá se vai a privacidade de trabalhar junto à janela e poder espreitar os transeuntes sem eles me verem a mim, de pijama e caneca na mão e cabelo desgrenhado.

Este tem sido um verão muito esquisito, com vento e ar frio que se entranha pela frincha da janela e me faz beber chás. Os dedos gelam ainda antes de conseguirem alcançar o ritmo que o teclado pede. Vejo notícias de sol e praia, mas é tudo o que menos me apetece, porque parece outono ou um inverno em fase final.

É tudo. Só me queria queixar do vento.

Vanessa

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A culpa é toda dos Millennials

Lembro-me que quando era pequena, ainda antes de entrar para a escola primária, tinha queda para a má-criação. O irónico exemplo foi em certa ocasião a minha mãe me ter chamado má-criada e eu ter respondido pronta e atrevidamente: e quem foi que me criou? Lembrei-me eu disto porque dá impressão que todas as semanas há um novo artigo a passar para os Millennials a batata quente e a culpa de ela estar quente.

Os Millennials, geração milénio, Gen Y, ou como nos quiserem chamar, são seres alimentados a tostas de abacate, o que segundo o milionário australiano Tim Gurner (que começou a carreira com um empréstimo de 34 mil dólares do avô) é a razão pela qual não conseguem comprar casa. Seja qual for o sector que esteja a morrer, a culpa é deles. Filmes, guardanapos, golfe, diamantes, restaurantes. Tudo isto e muito mais, como mostra esta lista, está em declínio por causa destes Millennials. É como se eles quisessem acabar com o mundo.

Aquelas crises que precederam a minha geração foram culpa nossa. A inflação que nos impede de ter uma vida de gente crescida também é culpa nossa, porque comemos abacate no pão e vamos ao Starbucks e vamos a concertos e viajamos e compramos engenhocas e não queremos assentar nem ter filhos. Já agora, os cursos superiores que nos venderam como quase obrigatórios para termos o que os nossos pais tiveram com a idade com que acabamos os ditos cursos são afinal só uma forma de vivermos à conta dos pais por mais uns anos.

Não só isso tudo, como a julgar pelas caixas de comentários das notícias (incluindo as de outros temas que nem têm que ver com conflitos geracionais, como concertos e índices económicos sobre a compra de gadgets) a geração milénio é também são arrogante, preguiçosa, demasiado exigente, menos inteligente, mais dependente das tecnologias, e mal-educada. Ao que eu respondo da mesma forma que quando era pequena respondi certa vez:  e quem foi que nos criou? Aqueles da geração anterior que agora os criticam, está claro. Que agora vão chamar-me arrogante. Mas pronto, sou Millennial, por isso tenho as costas largas.

Vanessa

Book Review | Waiting by Ha Jin

Set in the shadow of China's Great Proletarian Cultural Revolution, Waiting is an easy to read novel that describes the journey of Lin Kong, a doctor in the Chinese army that for 18 years tries to divorce his wife Shuyu to be able to turn official his platonic love for the nurse Manna Wu. While every year his attempts conclude in failure and Lin faces a number of setbacks, including his lack of confidence, this novel is more than a love story.

Ha Jin captures in this book the pressures of a political environment that Westerners cannot fathom, the dichotomies between the busy city life and the placid rural existence, human longing and human weakness, as well as the eternal question as to what love really means. Lin is attached to simple-minded, bound-feet Shuyu through an arranged marriage, but he yearns to be free and marry someone whom he loves, though he does not think he ever experienced true passion and I would even say he's the most passionless character I've ever read.

The story turns cruel and bleak at times, testing the main characters' patience and reason. Descriptions were minimal, though not lacking richness. They were mainly about changes in season, with broad strokes about characters and the political climate. Though interesting, I felt the story turned quickly into a satirical view on human desire and developed into an anti-climactic ending. It was an enjoyable read, nonetheless.

6/10

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Vanessa

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Aos avós

Os avós sempre foram para mim míticas criaturas sobre as quais fui ouvindo falar ou sobre as quais li, mas que raramente testemunhei. Sei que os avós são aqueles anciãos que raramente estão a par de como o dinheiro funciona e que por isso oferecem notas para comprar um geladinho, ou que acham que o tempo está sempre mais frio do que realmente está e que por isso aconselham agasalho, que se preocupam constantemente e que por isso admoestam juízo. Por vezes, os seus apelidos são acompanhados de um inho ou uma inha e passam a ser o avôzinho ou a avózinha porque só avô ou só avó não alcançam significado carinhoso suficiente.

O dia dos avós sempre me passou ao lado porque quase não conheci os meus e a avó paterna, a única que sobrevive à idade, está num fuso horário totalmente diferente. Agora com as redes sociais vejo os avós dos amigos e as suas dedicatórias. Tive oportunidade de conhecer os avós de alguns amigos, que me adoptaram temporariamente como neta honorária quando ia às suas casas. Mas em grande parte vivi e vivo em grande parte vicariamente a tradição dos avós, míticas criaturas generosas, experientes e preocupadas.

Tenho também memória de fábulas, como aquela em que a avózinha foi engolida por um lobo mau e sobreviveu, ou livros, como aquele em que a Anita vai de férias com os avós, ou filmes como a Heidi. Ainda assim, os avós são para mim mais do que ficção, mas não deixam de ser criaturas míticas com um dia que lhes é dedicado precisamente por o serem. E eu, que já conheci vários avós, valorizo este dia, porque eles merecem.

Vanessa

Hoje é o dia do escritor, mas não é o meu

É frequente que quem me conhece e me apresenta a outros diga o meu nome e logo a seguir uma profissão. Que não é a minha. Em Goa alguns pensam que sou jornalista, porque já fui e a minha mãe até já levou o meu nome impresso no cabeçalho de artigos que assinei. Por outro lado, outros pensam que sou escritora.

Cheguei à conclusão que é muito mais fácil arredondar os detalhes desta forma e deixei passar. Quando me apresentam como jornalista, não desminto; quando me apresentam como escritora, não desminto. A explicação para o facto de não ser nem uma coisa nem outra implica pisar terreno instável, dar uns pulos num fosso bem fundo, e abraçar a depressão. Logo a seguir, comiseração, consternação, condescendência.

Desde que me lembro que a minha identidade está ligada à escrita. Desde bem pequena que sempre quis escrever. Mas há muito que não me sento a escrever coisas minhas excepto neste blogue, criado para apaziguar certa amargura, abastecer o desejo recalcado, desabafar quanto baste, e de modo geral não ceder à frustração.

Os meus dias são passados a escrever ideias de outros para outros, a produzir conteúdo que não posso assinar, a aperfeiçoar o que não é meu de todo, e vivo muito bem com isso. Eu queria ser escritora porque queria não deixar de aprender e, está claro, não podia andar na escola para sempre. Por isso segui o jornalismo, depois exerci-o, depois exorcizei-o, depois fiz coisas que não têm que ver com jornalismo, para agora escrever coisas que não têm que ver comigo. Mas palavras são palavras e viver das palavras é um luxo.

É muito mais fácil fazer pelos outros aquilo que não posso fazer por mim. Assim não tenho nunca de lidar com a possibilidade de não saber o que escrever, de esgotar ideias, de ter de procurar sinónimos, de pensar no que os outros pensarão quando lerem o que escrevo, e de se calhar nem sequer ter talento.

Já não sei se escrever não terá sido um ideal construído ou se foi alimentado por vocação. Sei, sim, que para se escrever tem de se ler muito e nisso sou campeã. É por isso que hoje celebro o Dia do Escritor. Não por mim, mas por aqueles que me alimentam a imaginação e me fazem temer a ideia de juntar-me a eles.

Vanessa

terça-feira, 25 de julho de 2017

Avaliação Literária | O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

Tinha este livro na estante há anos. Não sei precisar quantos e prefiro não pensar nisso para não ter vergonha. Acontece que já o tinha tentado ler pelo menos duas vezes. Mas agora, tendo já visitado parte da Índia, tive a certeza de que ia terminar de o ler. A verdade é que ainda bem que esperei para ler O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy, porque não o conseguiria apreciar em mais nova como o apreciei agora.

O livro conta a estória de três gerações de uma família em Kerala, na Índia. A narrativa poética desfaz-se nos olhos e prende a imaginação. Pareceu-me uma estória feita de pequenas crueldades e pequenos momentos de felicidade, exorcizada de uma mente estranhamente infantil como se todas as descrições tivessem sido construídas por uma criança extremamente inteligente. Não sei de que outra forma explicar o livro.

Pareceu-me uma estória sobre muito, mas o que para mim mais se fincou foram os amores proibidos. O de Rahel e Estha, gémeos biovulares, o da sua tia-avó por um reverendo, o da sua mãe, Ammu, pelo seu pai, e mais tarde por Velutha, o do tio Chacko por uma britânica, o amor dos humanos pela ordem das castas ou pela revolução. Tudo isto sob o olhar ou sob a sombra do deus das pequenas coisas.

É um livro que exige atenção a cem porcento e, no meu caso, uma folhinha e uma caneta para não me esquecer de todas as personagens e suas ligações. Há obras que valem a pena o esforço.

Por coincidência, fui ontem à Fnac e vi que Arundhati Roy lançou um segundo romance há pouco tempo, 20 anos depois deste. The Ministry Of Utmost Happiness. O nome é muito promissor.

10/10

Vanessa

Determinantes possessivos

Tenho especial apego por artistas e com esse apego um estranho sentimento de posse. É também um misto de orgulho e obsessão. Por exemplo, Paul Auster. Depois de ter lido o Palácio da Lua em adolescente e a Trilogia de Nova Iorque já na idade adulta, passei a consumir os seus livros. Quase literalmente e durante muito tempo quase exclusivamente. Tive a sorte de me apegar a um escritor prolífero. Mais tarde conheci Auster, a esposa (também escritora) e a filha (cantora) no Lisbon & Estoril Film Festival. Não houve grande interacção, excepto este ponto alto: a filha pediu-me lume e eu não tinha. Mas respirámos todos do mesmo ar naquela noite.

Sempre que oiço alguém falar de Paul Auster ou pegar num dos seus livros numa livraria, um pequeno demónio desdenha da pessoa. Olha para ela, nem deve sequer conhecer um quinto do que Paul Auster escreveu. Provavelmente nem sabe que em Oracle Night há uma menção a cadernos azuis portugueses que uma personagem comprou ou que Auster inventou um jogo de cartas. Eu descobri-o primeiro.

Em adolescente vi o filme Drácula 2001 alugado já em DVD num clube de vídeo. Não é o supra-sumo dos filmes de terror, mas deu-me a conhecer um actor, que por acaso me tinha passado ao lado numa mini-série chamada Átila. Nasceu uma fã do actor Gerard Butler. Nos inícios da internet, inscrevi-me num fórum de fãs. Conheci algumas delas. Esperei dois anos pelo Fantasma da Ópera, sem nunca o ter ouvido cantar, sempre atenta a novidades. Passei por toda a fase de reconhecimento de uma fama crescente. De ter de o dividir com outras fãs. De ver as salas de cinema dos seus filmes crescentemente mais cheias. De o ver em êxitos de bilheteira. De ter a sensação de que eu descobri-o primeiro, antes de ser tão famoso, e lhe vi o potencial.

Também em adolescente vi Memento, de Christopher Nolan. Já me desenrascava na internet, por isso encontrei o primeiro filme e o filme a seguir ao Memento, já com actores de calibre. Eu era fã. Agora sou super-fã.  Eu descobri-o primeiro. Nolan agora é famosíssimo. Mas eu descobri-o antes do sucesso da trilogia Dark Knight.  Vi Following sem restrições. Tantas, tantas vezes. Vi Memento de trás para a frente depois de o ver de frente para trás. Agora todos os fãs de Nolan se acotovelam para ver um filme cujo trailer não mostrou quase nada porque agora todos conhecem o seu potencial. Aquele que eu reconheci em primeira-mão.

Estes são alguns dos exemplos. Pode-se dizer que o que tenho são ciúmes e um sentimento de exclusividade que não me pertence. Afinal de contas, estas e outras personalidades alimentam um público e não interessa quem foi o primeiro a chegar à fila da frente. Ainda assim, eu tenho essa sensação de posse. Mas também de orgulho. Conhecia-lhes o potencial. Agora vejo-o nos olhos dos outros. Vejo o seu impacto nas respectivas indústrias. Ainda assim sou mais ciumenta com estes homens, e também mulheres (ficam para um outro post só dedicado a elas), do que o sou com qualquer outra relação que tenha tido ou que ainda tenha.

Na minha mente de fã alucinada, eles são meus primeiro.

Vanessa

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Excertos fantásticos e onde encontrá-los I

Frases aleatórias que fazem uma pessoa voltar atrás na leitura. Tiradas hilariantes, satíricas, profundas, interessantes, tristes, nostálgicas, curiosas. Estórias dentro de estórias que se calhar mereciam um livro próprio. Achei engraçado reunir aqui coisas deste género. São apenas uma amostra, mas merecem destaque. São pedaços de livros tirados de contexto, mas ainda assim cuidado com possíveis spoilers.

"Miss Mitten queixou-se (...) da mania de eles lerem de trás para a frente. Mandaram-nos escrever De hoje em diante não leio de trás para a frente. (...) Poucos meses depois, Miss Mitten foi atropelada por uma carrinha do leite (...) e morreu. Os gémeos viram um secreto sinal de justiça no facto de a carrinha do leite estar a fazer marcha-atrás." Em O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy.

Vanessa

Cinco meses depois

Disse a minha idade pela primeira vez. Desde que fiz 30, cinco meses passaram sem que alguém me tivesse perguntado acerca da minha idade. A semana passada veio cá a casa uma senhora fazer um inquérito e tive oportunidade de dizer que tenho 30 e de desfrutar do impacto que o número tem. A senhora bem que podia ter dito algo do género: "30? Não parece nada." Mas tudo bem. O meu prédio não tem luz automática, por isso estava escuro a maior parte do tempo e ela não conseguiu ver bem a minha cara.

Vanessa

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Jornalixo IV

"Ser vegetariano pode fazer mal à saúde" é o título de um artigo da Sábado que se baseia neste artigo do Independent. O jornal britânico enfatizou a qualidade dos alimentos vegetarianos, referindo que doces, bebidas açucaradas, grãos refinados e batatas podem aumentar o risco de problemas cardíacos.

Os escritores da Sábado decidiram extrapolar e combinaram dois estudos sobre vegetarianismo e o impacto deste estilo de vida em relação a doenças comuns, mas provavelmente nem se aperceberam da mixórdia.

A investigadora do estudo a que provavelmente a Sábado se refere originalmente e que dá título ao artigo, Dra. Ambika Satija, explicou ao Independent: "Quando analisámos as associações de três grupos alimentares ao risco de doenças cardiovasculares, descobrimos que vegetais saudáveis estavam associados a menor riso, enquanto vegetais menos saudáveis e produtos animais estavam associados a maior risco." A Sábado decidiu citar o médico Allan Williams. Que não faz parte deste estudo em específico.

O artigo de Allan Williams foca-se no significado do vegetarianismo e seus efeitos, mas não exclusivamente em relação a doenças cardiovasculares e não com base numa experiência, mas sim na citação de outros estudos. Curiosamente, ao pesquisar a publicação American College of Cardiology com a palavra chave vegetarianismo em inglês, na publicação onde os estudos de ambos os investigadores foram divulgados os estudos aparecem um a seguir ao outro, o que provavelmente levou à confusão dos escritores da Sábado.

A conclusão de ambos os investigadores são parecidas: nem todas as dietas vegetarianas são iguais e há alimentos vegetarianos pouco saudáveis. Parece-me óbvio. Refrigerantes e batatas fritas e pizzas podem ser veganos até. Não significa que sejam saudáveis. Infelizmente, o artigo da Sábado fugiu completamente à mensagem de ambos os estudos com um título sensacionalista e um artigo, a meu ver, tendencioso.

A publicação decidiu também copiar o modelo de artigo do Independent, mas logo no lead induz em erro: "Cientistas descobriram que alguns alimentos de origem vegetal aumentam risco de desenvolver problemas cardíacos. Conheça dez celebridades que, ainda assim, deixaram de comer carne e peixe".

Isto dá a entender que estas celebridades leram os estudos em questão e mesmo assim escolheram a via supostamente menos saudável, e que eliminar peixe e carne da dieta é o que faz do vegetarianismo uma dieta pouco saudável. Ao menos na legenda das fotos a mensagem parece mais positiva em relação ao vegetarianismo do que o título. Não deixa de ser triste esta salgalhada da Sábado, que ainda por cima é da autoria de duas pessoas, não apenas uma. Seria de esperar mais atenção e rigor. Não foi o caso.


Vanessa