quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Castelo, Igreja Matriz e Cemitério de Santiago do Cacém, Alentejo

Com a chegada dos Mouros, em 712, a povoação ganhou o nome de Sant'Iago de Kassen em memória do governador árabe, Kassen, ou segundo reza a lenda, história que prefiro, a princesa Bataça Lascaris, fugida algures do Mediterrâneo, veio para a região e derrotou o governador Kassen e posteriormente baptizou a terra com o nome de Sant'Iago de Kassen. Foram os Mouros que ergueram um castelo nesta localidade que agora se chama Santiago do Cacém, castelo esse quase totalmente preservado até hoje. No século XIII foi construída a Igreja Matriz no local onde anteriormente tinha estado uma mesquita árabe junto ao castelo. Em 1838, a câmara municipal inaugurou dentro do recinto do castelo um cemitério, já que começavam a ser proibidos túmulos dentro das igrejas. Estão por isso concentrados aqui três monumentos interessantes para visitar.

Infelizmente, o castelo não é fácil de fotografar, e sinceramente não me pareceu muito fotogénico. Não fotografei as muralhas senão quando já estava de visita ao cemitério. Depois de conhecer a história da Igreja Matriz, para dizer a verdade, quase me esqueci de que estava dentro de muralhas. Com o terramoto de 1755, a igreja e o castelo sofreram alguns estragos. Em 1895, a igreja foi incendiada por anarquistas no seguimento de distúrbios sociais da época. Depois de reconstruída em 1902, ardeu novamente em 1912. Reabriu em 1924. Sofreu ainda alguns percalços, reconstruções para a manter fiel à história, e renovações várias mas segundo uma gravação na parede, foram os esforços do povo que mantiveram o monumento preservado até à data.
 Nota: toda aquela quantidade de lotes juntos e simétricos são túmulos de crianças. 

O meu roteiro:

Vanessa

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Piropo não é elogio

Se és mulher, sabes que estás sujeita à apreciação alheia mesmo que não a tenhas solicitado. Se és mulher, conheces o frio na barriga quando sentes olhares postos em ti sem a tua autorização, como se fosses mercadoria. Se és mulher, percebes o nervoso miudinho de passar por locais em obras. Se és mulher, temes os cantos escuros das ruas desertas mesmo que estejas tapada dos pés à cabeça. Se és mulher, reconheces que quanto mais deixas à vista, mais estás a pedi-las, por mais errado que seja o conceito. Se és mulher, compreendes que nem sempre um piropo é um galanteio, um gesto de apreciação, um elogio, um comentário inofensivo.

Se és mulher, é provável que já tenhas recebido um piropo algures no teu caminho. É que no mundo em que vivemos estamos constantemente num desfile e somos receptáculo de comentários apreciativos, ou nem tanto, como se fôssemos uma caixa de sugestões numa loja. Independentemente da tua postura, da tua indumentária, da tua atitude, és um objecto. Às vezes és um vaso que os outros querem criticar. Às vezes és um quadro que os outros não entendem e por isso julgam e reprovam. Às vezes és um rosto no qual querem pintar um sorriso mesmo que hoje não esteja a ser um bom dia. Às vezes és apenas a soma de todos os teus orifícios que os outros querem violar mesmo que em pensamento. Por vezes até to dizem explicitamente. Tudo depende, mas nem sempre depende de ti, porque nunca a culpa é tua, por mais sensual que seja a tua roupa.

Independentemente das vezes que te dizem que um piropo é bom sinal, não acredites. A tua beleza não tem nada que ser julgada em praça pública. A tua atitude não é para aqui chamada. O sorriso é teu. Não estás aqui para agradar a alguém. Muito menos a um desconhecido. Um piropo é sempre uma falta de respeito porque quem o atira na tua direcção acha que tem o direito de tecer comentários sobre a tua aparência. Por mais engraçado que seja o piropo, há sempre uma carga negativa associada ao facto de alguém algures ter achado que devia abrir a boca para falar de ti sem o teu consentimento só porque naquele momento partilham o mesmo espaço e o mesmo tempo. E provavelmente ainda acham que te estão a fazer um favor.

Essas pessoas acham que têm o direito. Não compreendem que nós mulheres também temos direito a andar na rua sem ser importunadas. Não compreendem que um piropo pode ser ameaçador. Não compreendem que se ignorarmos podemos ser importunadas ainda mais e que se respondermos, assentirmos ou se simplesmente sorrirmos somos convidativas. No fundo, parece não haver vitória possível para nós mulheres.

Isto foi instigado pela moça que decidiu tirar selfies com todos os homens que lhe mandaram piropos na rua para alertar para o problema. O resultado foi um monte de mulheres a contar as suas experiências, mas também um bando de homens ofendidos por nós mulheres nos sentirmos ofendidas por recebermos supostos elogios e por sermos umas ingratas e por sermos demasiado sensíveis e por não termos mais em que pensar.

Duvido muito que estes homens que acham os piropos inofensivos não tenham mães, irmãs, primas, filhas e amigas, as quais detestariam ver abordadas por desconhecidos na rua. Saberão eles que os piropos começam logo em criança e que pioram assim que as curvas começam a surgir? Saberão eles o que é andar na rua e querer desaparecer para dentro de um buraco para evitar olhares furtivos ou mesmo descarados, comentários despropositados e ordinarices? Saberão eles o que é levar com a mais leve sugestão de que a mulher é um ser inferior ao longo de toda a vida e depois dar de cara com situações em que é evidente que somos de alguma forma inferiores aos olhos dos outros, mas também inferiores fisicamente porque quem nos aborda é um matulão ou está em vantagem numérica? Duvido que saibam, mas neste caso a ignorância ou a burrice não são desculpa porque estamos no século XXI e eu nem sempre me sinto segura a andar na rua.

Vanessa

Precisamente

Muitas vezes confundo querer com precisar. Para dizer a verdade, a maioria das vezes penso que tudo o que faço é porque preciso e nem sempre porque quero. Só aquilo que a sociedade sugere que me faz falta, quer eu queira ou não, dá pano para mangas. Estou constantemente a filtrar pensamentos para perceber se é vontade ou necessidade, ou ambos. E vezes sem conta confundo querer com precisar e precisar com querer.

Por força das circunstâncias aprendi a não precisar de muito ou a esconder de mim aquilo de que realmente quero para manter um nível de satisfação confortável. A verdade é que depois torna-se mais frustrante dar de caras com a percepção dessas necessidades, elas me parecerem tão básicas e mesmo assim serem inalcançáveis. Às vezes é tão simples como pensar que tenho esta idade e ainda não fiz isto ou aquilo.

Outras vezes é ouvir de outras pessoas, mesmo que sem intenção, uma contagem daquilo que me parecem ser as minhas falhas como adulta ou como mulher, coisas de que não falo, mas nas quais penso com mais frequência do que desejaria. Parecendo que não e mesmo não querendo, todos esses caminhos que os outros apontam são internalizados, e por não os seguir, transfiro para dentro de mim o que me é alheio e acabo com frustrações de outrem juntas às outras que já tinha. Tenho a certeza de que isso é coisa de que não preciso.

Eu sei que estou aquém daquilo que a sociedade, os amigos e a família gostavam de me ver fazer, mas estou também aquém de alguns dos meus próprios padrões. Aí está a dificuldade em perceber se é querer ou se é precisar. De um lado, há a vontade, do outro a necessidade. Mas não pode a vontade ser necessidade também? Ou será que por querer, finjo precisar? Poderá a necessidade ser apenas ilusão ou vontade camuflada?

Às vezes nada disso importa porque o que conta é o que se faz e mais vale nem pensar muito nisso. Não há necessidade, como se diz. O problema é que às vezes há vontade, mas pouco mais.

Vanessa

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Praia Vasco da Gama, Baía de Sines, Setúbal

A Baía de Sines tem um ar urbano, limpo, e aprazível. Calculo que em Agosto seja muito mais caótico, mas em Setembro estava perfeito. Não experimentei a água e fiquei-me pela paisagem das três vezes que lá fui este ano. Com certeza vou voltar para explorar com mais tempo. O mar estende-se no horizonte em frente o busto de ar corajoso da Estátua de Vasco da Gama, o primeiro homem a fazer uma viagem marítima para a Índia, mesmo ao lado do local onde se acredita que o navegador terá nascido e vivido, junto à Igreja Matriz de S. Salvador e à Casa da Juventude. Gosto muito das cores e da geometria deste lugar que fica tão bem na fotografia.
"Santa Luzia. Água santa para tratamento dos olhos." Fiquei na dúvida se era para beber, se era para esfregar nos olhos. Experimentei ambas as coisas, mas não garanto que veja melhor do que antes.

Fica aqui um postal da viagem. Eu e o Vasco da Gama a chillar ao sol. Contei-lhe que em 2016 visitei outra terra com o nome dele e o Porto de Mormugão. Cores tão diferentes. As fotos estão aqui.

O meu roteiro:
Ilha do Pessegueiro, Porto Covo, Alentejo Litoral
Vila Nova de Milfontes, foz do rio Mira, Praia das Furnas
Barragem de Santa Clara, rio Mira em Odemira, no Alentejo Litoral

Vanessa