terça-feira, 18 de setembro de 2018

Uma espécie de jornalismo

O jornalismo que eu escolhi não foi este de celebridades a serem entrevistadas durante o telejornal (ou como o da SIC em particular, que interrompeu o telejornal para informar que aquela apresentadora de televisão conhecida tinha chegado ao estúdio), nem o de passar assuntos políticos para segundo plano em prol da forma como as pessoas se vestem, nem o de fazer de concertos de bandas conhecidas assunto para escrever ou mostrar extensivamente segmentos de entretenimento, nem o de comunicados de imprensa pastados tal como foram escritos, nem o de estudos internacionais pouco mais que traduzidos e depois regurgitados sem rigor, nem o de comentar vidas alheias com base no que os protagonistas publicaram nas redes sociais, nem o de conclusões gerais enganadoras com base em dados estatísticos fora de contexto.

Ver este tipo de jornalismo é como adorar um escritor mas vê-lo constantemente publicar livros péssimos, reconhecer a importância da sua existência mas saber que o seu talento é desperdiçado pela procura de mercado, como se ele tivesse um jeito tremendo para escrever romances históricos mas começasse a escrever daqueles livros de eróticos com colecções que são nomes de mulheres, e gostar da sua mentalidade mas saber que aquilo que publica está longe da verdade. Deve ser como (analogia controversa a caminho) adoptar um filho e depois vê-lo ir por maus caminhos. Este jornalismo não foi o que escolhi, mas é este o jornalismo que nos oferecem. E depois, tal como acontece quando começo a ler um mau livro, desisto e vou fazer outra coisa. A vida é demasiado curta para consumir "notícias" como as que temos. E depois há a internet, com tantas outras alternativas, e há livros bons. Entretenimento não falta, por isso não percebo por que razão os canais noticiosos enveredaram precisamente pelo entretenimento para as massas.

Vanessa

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Sobre as minhas recentes leituras

Tenho lido muito sobre o futuro, mas de livros escritos ainda no século 20, de uma colecção intitulada Vintage Futuro da editora Penguin. Não sei o que me deu, mas começou com The Handmaid's Tale e prosseguiu a partir daí. Também foi a partir dos 30 que me deu para ler ficção científica com mais afinco, coisa que até aí era um passatempo irregular, fugaz, e conforme o que estivesse em promoção. O que mais gosto nesses livros é o lado filosófico. Fala-se de tecnologia, de coisas que já estão em uso agora, mas de forma a ponderar sobre o ser humano. Li Dune, que decorre uns 10 mil anos no futuro, e outros em que a linha cronológica é vaga, e em todos eles o ser humano evoluiu de várias formas, mas no fundo permaneceu como eu o conheço.

Em todos os livros encontro questões familiares, desafios conhecidos, perguntas que nos assombram deste sempre, conflitos iguais aos de agora, e previsões que não parecem tão aquém da realidade. Em 1984 o Big Brother, em Brave New World a droga e a promiscuidade o sistema de produção de pessoas, em We ainda não sei bem o quê mas suspeito ser na linha da promiscuidade. Nos três um estado totalitário. Em outros livros menos conhecidos como distopias outros aspectos do futuro. Em Lock In seres humanos que vivem através de máquinas. Em Next mutações genéticas e biotecnologia. E nisto tudo os humanos, sempre com os seus problemas egocêntricos, as suas ânsias, a sua ambição. E nisto tudo, a questão mais importante: liberdade.

Todos os livros sobre o futuro que tenho lido remetem para a necessidade de controlo da liberdade e para um colectivo uníssono. Os protagonistas entram em conflito com a realidade por uma razão ou outra e põem em causa um sistema. Mas nisto, apercebo-me de que o sistema actual é tão bom ou tão mau que dou por mim a ler estes livros de liberdades confiscadas, individualidade espezinhada, até um certo retrocesso, e questiono-me: será assim tão mau viver nesta realidade? E é assim que me dou conta de que o mundo agora está do avesso, porque se calhar o preço da liberdade é a harmonia colectiva. E é assustador pensar assim.

Foi como quando vi o programa de Anthony Bourdain, Parts Unknown, em Singapura. Foi o primeiro episódio da temporada 10. O programa mostrou um país ultra-moderno, ultra sofisticado, com câmaras de vídeo-vigilância e proibições extremas (mastigar pastilha elástica na rua é ilegal), um toque de Big Brother e internet monitorizada, mas onde abundam casinos e bares, onde a prostituição é legal, onde aparentemente as pessoas vivem felizes, as ruas são limpas, as estradas amplas e bem mantidas. Tudo isto num sistema uni-partidário. Uma utopia, disse Bourdain. Disse ainda, "Ao assegurar que os seus cidadãos estão seguros, alojados, saudáveis, e na maioria economicamente bem-sucedidos, o governo de Singapura tem sido eficaz a manter as massas aplacadas o suficiente, dispostas a aceitar restrições à sua liberdade e liberdades cívicas". E eu vi o programa e pensei: será assim tão mau viver nesta realidade? E é assim que me dou conta de que o mundo agora está do avesso, porque a harmonia colectiva parece uma utopia tal que chego a questionar esta liberdade que temos e valorizamos.

Em alguns dos livros que tenho lido somos considerados selvagens, seres ancestrais que não faziam ideia da porcaria que estavam a fazer, que não sabiam como manter todos os humanos alimentados e contentados. Uns bárbaros. As questões minuciosas ultrapassadas, requintes disponíveis para todos. Satisfação quase total. Liberdade nenhuma. Mas tecnologia, uma vivência sustentável, um planeta próspero, harmonia e equilíbrio, mas sem paixão. Seríamos nós capazes de abdicar da liberdade pessoal e da paixão individual em prol da felicidade colectiva? No fundo: temos mesmo de escolher, ou seremos capazes de no futuro termos tudo?

Vanessa

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Praia da Arrifana, Aljezur, Costa Vicentina

Depois de ter estado na Ilha de Faro, no Algarve, conheci uma povoação chamada Arrifana, em Aljezur. Foi uma feliz surpresa, na verdade. Como não tinha rumo nem planos, usei a aplicação da Booking para escolher estadia e filtrar a escolha por aí. Escolhi um hostel barato na Costa Vicentina e calhou de ter encontrado o HI Arrifana Destination Hostel, que estava quase ocupado. Por boa razão. É um hostel convidativo, com uma vibe boa onda, limpo e no meio do (quase) nada. E com pequeno-almoço, por 20 euros, em quarto partilhado.

Há variedade de restaurantes na localidade, ainda que seja afastada do resto do mundo, de tal forma que consegui almoçar no restaurante próximo da entrada da praia, junto à caixa de multibanco (não me lembro do nome, mas não há que enganar), e escolhi sardinhas assadas e ainda um cone de sushi para matar saudades. Sim, é tudo com peixe, mas nunca pensei conseguir desfrutar desta combinação no mesmo lugar.

 (perdoem a qualidade da foto de telemóvel)
 
Mais acima, na noite anterior, num restaurante cuja clientela parece ser composta maioritariamente desportistas do surf comi uns aperitivos de batata doce e um pequeno-almoço (ao jantar) com ovos, bacon, abacate e tomate numa tortilha com pesto e queijo creme e cebolinho.



A Praia da Arrifana fica no fundo de uma encosta e a toda a volta dá impressão de que estamos numa península, porque o mar nos abraça sempre que olhamos o horizonte. Segundo o site Gentes de Mar, que acabei de descobrir, há na Arrifana "vestígios de ocupação humana desta área desde o tempo das comunidades de pescadores e recoletores epipaleolíticos (IX-VIII milénios a.C.). Por outro lado, terá sido aqui, na Ponta da Atalaia, que se localizou o mítico convento militar muçulmano, o Ribat da Arrifana (Al-Rihana)." Está claro que os pais da cantora Rihanna aqui estiveram e decidiram copiar o nome do convento, ela soube disso este ano, e é por isso que a Met Gala de 2018 teve inspirações religiosas e ela foi vestida de papa.

Anyway, a Arrifana faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, rota que pelos vistos vou conhecendo melhor a cada ano, e a praia é um dos mais antigos locais de referência do surf, o que se notou muito (dica para as viajantes solteiras à procura de companhia). De notar aquela pedra que aparece em muitas fotos, já na primeira até, a Pedra da Agulha, pelos vistos assim nomeada por ser vertical, as ruínas da fortaleza, construída no século XVII, era cristã, para proteger a costa dos piratas mouros, e as últimas fotos que mostram o sol a descer em direcção ao mar com cores incríveis.


Mais publicações sobre a Costa Vicentina:
Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha
Museu Municipal de Santiago do Cacém
Castelo, Igreja Matriz e Cemitério de Santiago do Cacém, Alentejo
Ilha do Pessegueiro, Porto Covo, Alentejo Litoral
Vila Nova de Milfontes, foz do rio Mira, Praia das Furnas
Barragem de Santa Clara, rio Mira em Odemira, no Alentejo Litoral

Vanessa

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Book Review | The Curious Incident of the Dog in the Night-Time by Mark Haddon

Christopher Boone likes math and science, but human emotions and social behavior are a mystery to him. He seems to be a genius, and yet fixates on aspects of life and gives them meaning in a particular way. For instance, he dislikes yellow and brown colors in an extreme way, and when he eats curry, it's with food coloring in it for that reason. It's not explicitly written in the book, but clearly Christopher is an autistic boy, and that's what makes The Curious Incident of the Dog in the Night-Time by Mark Haddon a special book.

The boy lives with his father; his mother passed away. He follows his routine. The one night the neighbor's dog, Wellington, is killed, and Christopher becomes obsessing with solving this mystery just like his favorite detective, Sherlock Holmes, would do. That's when his world shifts completely and the order he so likes turns to chaos. Being unable to perceive reality in a way other than literally, Christopher slowly opens his eyes to what was there all along, and soon the mystery of the dog is solved and another arises from the chaos.

The story is written from his perspective, with plenty of detail as to how he portrays the world in his head. There are plenty of curiosities and personality quirks spread throughout the book in drawings, lists, anecdotes. It makes for a pleasant read, but at times tiresome. This is one intense 15-year old. His adventures make him understand adults better, and his writing made me understand the world of autism a bit better too. 

Although its themes are universal, The Curious Incident of the Dog in the Night-Time is a tale like no other because it goes beyond such themes. Love and family and understanding are all wrapped and sometimes hidden inside a mystery story that turns into a personal quest for truth. It's not a universal truth. It's a kid's truth, but nonetheless magical like a fairy tale, because his way of seeing the world is so unique.

All that said, it took me a while to actually finish reading the book. Even though all the details were interesting, they also meant meandering through sometimes convoluted ramblings apart from the main story, and the part about the dog turned out to be just a fraction of the accounts. Maybe what I perceive as flaws in the novel are actually my own barriers to it. Who knows. For all its qualities, the book was almost exhaustive to read at times, and by the middle point forward I was wondering when was it going to end.

I'm certainly glad I chose to read it, though. But maybe I should have read it earlier.
 

Vanessa


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Estado líquido

Não é apenas o meu aspecto que é tropical. O meu organismo parece funcionar melhor em determinadas temperaturas. É por isso muito adequado que o meu termómetro seja o óleo de coco, fruto oriundo de países onde o frio é uma miragem. Para consultar o dito para saber se a temperatura está ideal basta olhar para ele. Se estiver líquido, é um bom dia. Se estiver sólido estou em Portugal, mais vale ficar mais um bocadinho na cama. Pronto, tenho uma resposta mais científica. Até aos 25 graus centrígrados o óleo de coco é sólido. Por isso, se estiver sólido sei que está fresquinho lá fora e vou ter de levar um casaquinho de malha.

Vanessa

terça-feira, 21 de agosto de 2018

O direito à fartura

Todos os anos há preços que sobem, mas agora que Portugal é um país altamente turístico os preços parecem mais inflacionados. Sempre que vou a Lisboa ou a Belém ou a Sintra ou a um desses spots da moda fico com a impressão de que também eu sou turista. Já era habitual dirigirem-me a palavra em inglês, visto que não tenho uma aparência propriamente europeia, mas agora é mais comum não só to offer me something to buy como também essas coisas virem tabeladas como nunca antes tinha visto. No, thank you.

Na verdade, já pouco vou a Lisboa ou a Belém ou a Sintra. Pior, há meses que não piso a calçada da capital. Entre a confusão de pessoas e de trânsito, ou os atrasos e os preços dos comboios, a inflação causada pelo turismo e consequentes menus exorbitantes, os tuk tuks, e a poluição em todos os sentidos causada pelo aglomerado populacional, não há paciência. Um país que quer agradar os outros mas descrimina quem lá vive é uma distopia digna de um daqueles romances para jovens com protagonistas destemidos.

Eu não sou um desses protagonistas. Por isso prefiro passar os tempos livres em locais mais calmos e/ou não tão turísticos. Já não sobram muitos. Há pouco tempo estive na zona da Arrifana em Aljezur. Pouco há para fazer senão praia. Mas havia mais turistas que portugueses por ali. No entanto, foi bem melhor do que sequer um passeio em qualquer local próximo da capital. Até Faro, por onde passei antes de Aljezur, estava melhor do que Lisboa. E estamos a falar do Algarve, o expoente supostamente máximo do turismo português.

Um dos locais ainda seguros para quem quer fugir da confusão provocada pela crescente invasão estrangeira são as festinhas de verão, aquelas nas terriolas onde só se chega de carro. E se o preço de preciosidades gastronómicas como o pão com chouriço já chegou aos três euros em alguns sítios, quando me lembro de ter pago no passado dois euros ou menos, as sardinhas são vendidas a preços variados que chegam aos dois euros porque os humanos ainda não sabem como tornar sustentável a sua produção e é preciso impor restrições e depois uma sardinha assada vale o mesmo que um diamante, e uma pessoa às vezes paga o mesmo que num restaurante para comer de pé em algumas destas festas, as farturas são ainda aquela coisa que me safa.

Edição: "Fartura é um bolo feito de farinha, fermento, bicarbonato de sódio, sal, açúcar, canela e água que é frito em óleo, em forma de rolo, e que normalmente se vende em feiras." Segundo a Wikipédia.

Há anos que se vende cada fartura a um euro. O preço do pão aumenta todos os anos, mas o preço da fartura tem-se mantido para aí há 10 anos. Eu sou fã do glúten e de açúcar e de comidas fritas, o que não é lá muito in nesta altura, mas reservo a falta de decoro e a gula para as festas, por isso é habitual encontrarem-me na fila das farturas. Antes de me verem é provável que sintam o cheiro a óleo adocicado no meu cabelo e roupa.

Mas as manobras chico-espertas do marketing também já chegaram às farturas. Desconfiada que sou, presto sempre muita atenção quando os preços se mantêm, porque normalmente o que acontece para não afugentar a clientela é a redução de produto. Nem as farturas ficaram indiferentes ao fenómeno, e infelizmente um euro compra menos fartura do que há um ano ou dois. São reduções discretas, mas que me saltam à vista. Este paradoxo da fartura que agora deixa mais fome contradiz o ditado de que não há fome que dê em fartura.

Isto aborrece-me. Vai directamente contra o meu direito a contrair diabetes e colesterol, e causa-me distúrbios psicológicos. Quando as empresas, grandes, pequenas ou minis, começam com reduções e podem justificá-lo com os níveis acrescidos de preocupação com a saúde é certo que o farão. E têm feito. E isso é jogo sujo porque, neste caso, não se mexe no direito à fartura. Não é essa a base do capitalismo?

Vanessa

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Ilha de Faro, Algarve

Ainda antes da vaga de calor, em Julho, altura em que tantos queixumes ouvi porque o Verão parecia Inverno, deleitava-me eu com o ar fresco, a roupa de meia estação, os pijamas, os cobertores e as bebidas quentes. Eis senão quando surge uma oportunidade de rumar ao sul do país. Uma pessoa aprende a aceitar convites facilmente quando, muito mais do que do frio, abomina a rotina. A sul estava calor e onde moro chovia. Tanto um como outro me agradavam. Uma pessoa vai aprendendo a conviver com o clima. A minha câmara estava a precisar de sair um pouco e, na verdade, o telemóvel não chegava para capturar as cores tropicais do Algarve.

Em pequena, o Algarve não era destino de férias. Era o destino de ausências. Quando os meus amigos desciam o país e o parque ficava deserto, as ruas silenciosas, o subúrbio deserto, tornava-me introvertida. Calculo que acumulei grande parte dos livros que me ocupam as estantes nessas alturas e no Natal. Houve um Verão em que escrevi numa máquina de escrever. Outros em que escrevi à mão. Ainda tenho uma colectânea de estórias de aventuras que nunca vivi em papel amarelecido. Leituras de Verão, escritas de Verão. Porque toda a gente estava longe. Então, agora, ir para o Algarve é como visitar um país desconhecido. É muito parecido a viajar para longe. Raramente se ouve falar português. Com a minha tez morena, frequentemente me dirigem palavra em inglês.

Uma pessoa sente-se turista. Sente-se alienígena. Sente-se anónima. Ir para o Algarve é como existir discretamente. Observo. De onde vêm? Para onde vão? Então era aqui que os verões aconteciam em rebuliço. Com que então é isto que fazem as pessoas nas férias. Observo um pouco mais. As fotos saem como quero mesmo que às vezes esteja distraída com os meus próprios pensamentos. Entretanto voltei e facilmente podia deixar passar um mês sem olhar para estas imagens, mas elas merecem ser publicadas já.


Vanessa