terça-feira, 23 de agosto de 2016

Aquele em que ela divaga sobre livros

O meu acumular de livros tem uma explicação além da ganância. Um, já que tenho estantes, tenho de as vergar e tombar com o peso de todos os livros que adquiri na vida usar. Dois, já que os comprei ou me foram oferecidos, fico com aqueles de que gosto mais. Três, todos eles são símbolos de bons e maus momentos, de aprendizagem e de prazer, de fases ou de transições ou de preferências, da minha própria evolução como pessoa.

Há um problema nisso de ficar com os de que gosto mais. Aprendi a ser muito eficiente na escolha de livros e autores. É raro errar. Tem vindo a ser raro desde os meus 18 anos. Portanto, já são mais de 10 anos disto. De certeza que comprei o equivalente a mais de um livro por mês. Isso dá 120 livros numa década. 

É raro emprestar livros, porque a maioria dos meus amigos leitores não lê em inglês. Dei alguns livros de que não gostei, mas não o suficiente para compensar aqueles que vêm habitar o meu quarto. Tenho no Facebook alguns livros desesperados por encontrarem novos lares, mas ninguém os quer. Troquei alguns deles por outros num ou outro grupo de trocas e espero um dia voltar a fazê-lo porque vou começar a precisar de espaço.

Porque continuo a adquirir livros e vou continuar enquanto existirem. Não tenho uma biblioteca perto de casa nem preciso de sair de casa para trabalhar, por isso também não passo por nenhuma. Por outro lado, compro livros baratos e que me vêm parar a casa. São em segunda mão, a maioria. Já têm marcas de guerra.

Eu gosto de ter todos os meus livros preferidos por perto. Tenho muitos preferidos. Tantos que as minhas prateleiras já não são horizontais porque toda a sua superfície tem de ser ocupada e o peso tem consequências. Tenho pilhas de livros em outros lugares que não as prateleiras. Enfim.

Não confio em pessoas que conseguem nomear "O" seu livro preferido. Há tantos e tão bons que não é possível escolher apenas um. Ao menos que nos deixem escolher um por género. Nem assim conseguiria.

A minha biblioteca é um reflexo de mim. Durante muito tempo, os livros estiveram arrumados pela ordem em que os li. Isto é, um caos. Já pus um pouco de ordem, mas sem muito afinco. Há espaços dedicados a autores de que gosto muito porque tenho quase todos os seus livros e gosto de os ver juntos. Há outros onde há um género definido e outros onde só há livros em português independentemente do seu género.

Tenho mais livros em inglês, porque sai mais barato lê-los na língua original do que comprar a versão traduzida. Além disso, há muitos mais autores a escrever em inglês do que em português. O nosso mercado parece tão pequenino e às vezes até elitista. Gostava de ler mais em português, mas até por questões profissionais, opto por ler em inglês na maioria das vezes. A maioria do meu trabalho é em inglês.

Há palavras que apenas li e nunca ouvi. Quando oiço uma palavra que apenas conhecia por tê-la lido, fico feliz, especialmente se a pronunciei bem na minha mente. Se não fosse a minha constante leitura em inglês não teria conseguido a maioria do trabalho que faço, em transcrição, a maioria em inglês.

Sou proficiente e razoavelmente rápida e distingo palavras homófonas em diversas áreas, o suficiente para saber que edge não se adequa quando se fala em funds, porque em financês diz-se hedge funds, ou que your é possessivo e you're é uma contracção, ou que o contexto dita se devo escrever arms ou harms, brake ou break, serial ou cereal, coisa que as máquinas não conseguem fazer da mesma forma que os humanos.

Todos os meus livros simbolizam o que aprendi, até aqueles que ainda não li. Tenho na memória centenas e centenas de palavras e não sei o que significam muitas delas. Há algumas que tenho de andar sempre a procurar no dicionário, porque a minha memória as apaga. Há outras que quase me dão arrepios de tão bem que me soam. Saudade, palimpsesto, imbróglio, rúbeo. Luscious, serendipity, oblivion, unleash.

Olho para os livros e vejo mais além da capa, das páginas, da tinta. Vejo palavras, vejo pessoas que a minha imaginação pintou, vejo cenas completas que me assombram. Se estou a fazer alguma coisa particularmente aborrecida, olho para as lombadas e tudo passa. Gosto de percorrer os dedos pelos títulos.

Não sou aquele género de pessoa que repudia livros electrónicos ou áudio e fica escandalizada quando mos recomendam. Estou resignada. Um dia poderão ser a única opção. Mas agora não.

Também já fui extremamente cuidadosa com os livros. Chegava a abri-los em ângulos de 45 graus para não marcar as lombadas. Nunca comia perto deles. Cobria as capas para não ficarem marcadas. Isso dava muito trabalho e era enervante. Agora tenho orgulho nas marcas dos meus livros. Perdi quase todo o esmero pela forma. Valorizo o conteúdo, a experiência. Abro-os completamente e sinto os vincos. Só continuo a não gostar de pontas dobradas ou de virar completamente um lado para ficar apenas com a página em que estou.

Os livros são a melhor e mais preciosa invenção do ser humano. Logo a seguir vem a internet. Os que vêm a seguir a nós vão ter muita sorte. Já acumulámos muito e muito boas coisas.

Vanessa

Book Review | Sharp Objects by Gillian Flynn

I'm a Gillian Flynn addict now. It started with Gone Girl, both the book and the movie script. Both brilliant. Now Flynn's debut novel, Sharp Objects. A sharp read indeed. Now I'm fangirling so hard.

You know you're about to embark on a thriller ride when a debut novel rocks a Stephen Kind review on the back cover. Written in red. "An admirably nasty piece of work," was one of the things he wrote. I agree.

I read this book in less than three days, picking it up whenever I had time to spare and even when I didn't.

Where to begin? Sharp Objects is a first person account where journalist Camille goes back to her hometown to report on a murder and a disappearance. As soon as you get to know Camille, you notice some odd behavior, which then is explained as the plot unfolds. The girl has issues. Getting back home doesn't help.

The novel enveloped me in a sense of dread hard to shake off. It sticks. Maybe the visuals, the vivid descriptions and alliterations, are to blame. They are dark and poignant, especially because they are described in an objective way, as if all of it is normal to Camille. It added to the imagery. It made it all seem morbidly intriguing.

I would recommend Sharp Objects to anyone who enjoys crime novels, thrillers and even horror stories. This book will, I know, haunt me. I know I will keep reading novels with similar themes and compare them to this one. This one will probably be my personal benchmark for contemporary thrillers from now on.

Thank you, Three Rivers Press for including a mention about the font used in this book. I was wondering about it from the beginning and it was a nice surprise to see a note about it at the end. Bauer Bodoni is great.

10/10

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Book Review | Gone Girl by Gillian Flynn

Vanessa

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Núcleo de Interpretação da Duna da Cresmina, Cascais

Quem diria que as dunas são uma coisa tão bonita de se ver? O Núcleo de Interpretação da Duna da Cresmina, Cascais,  "é um espaço criado com o objetivo de dar a conhecer a fauna e flora únicas associadas ao sistema dunar Guincho-Cresmina", diz a Câmara Municipal de Cascais no seu site. Aconselho vivamente a visita.

Juro que estive para publicar apenas algumas das fotos a dizer que tinha visitado o deserto do Saara. Mas acho que este local merece estrelato. Os passadiços são confortáveis para se caminhar e a informação disponível é interessante. Fiquei a conhecer a raiz-divina e a sabina-das-praias, plantas que desconhecia.

Fiquei a saber que as dunas são ecossistemas frágeis, mas cruciais e que este, por exemplo, "avança na direção norte-sul, em alguns sentidos, cerca de 10 metros por ano". Pela sua fragilidade, esperava encontrar mais vigilância. Alguns dos visitantes são tão simpáticos que deixam por ali os presentes dos seus cães. Alguns não hesitam em ignorar os passadiços e caminhar pela areia como se estivessem na praia.

Críticas à parte, gostei da visita e tenciono voltar lá regularmente para ver a evolução da paisagem. Para já, fiquem com as fotos que tirei. Adoro as cores outonais da Duna da Cresmina. Até gosto do nome.

Vanessa

Investigações nas horas vagas: pessoas desaparecidas

O desaparecimento de pessoas sempre me despertou atenção. Não sei quando começou o interesse. Hoje em dia há imensos vídeos no YouTube sobre o assunto. Todas as semanas vejo ou leio sobre este tópico. Não sei ao certo porquê. Tornou-se um passatempo mórbido que o YouTube alimentou através da lista de recomendações.

Acontece que além disso, qualquer dos livros mais recentes que tenho comprado por gostar dos autores ou porque algo nesses livros me captou a atenção, retrata de formas variáveis desaparecimentos. É como quando ouvimos um nome pela primeira vez e de repente vemos ou ouvimos o nome em todo o lado.

Quanto mais peculiar forem os casos, mais tento saber mais sobre eles. Começou certamente com o desaparecimento e posterior morte de Elisa Lam, uma rapariga do Canadá que em 2013 fez uma viagem pelos Estados Unidos e evaporou-se. É um caso bizarro em todos os seus detalhes e associações.

Há um vídeo de Elisa que a polícia divulgou. No vídeo, Elisa estava no elevador do hotel Cecil em Los Angeles, Estados Unidos, onde posteriormente foi encontrada morta num tanque de água de difícil acesso. Saber que aquelas são as últimas imagens de uma jovem de 21 anos é intrigante e assustador.

No vídeo, vê-se a jovem a carregar em vários botões e a gesticular, apesar de não se ver outras pessoas por perto. Nessa noite, Elisa, aparentemente se, se saber como, foi parar ao tanque de água do hotel, onde só foi encontrada cerca de 19 dias depois, depois dos hóspedes se queixarem da cor e da pressão da água. 

O hotel é conhecido por já ter alojado assassinos em série e pessoas perturbadas, assim como suicidas. O caso tem muitas semelhanças com o enredo de um filme chamado Dark Water, incluindo a roupa com que Elisa morreu, roupas essas que estavam a flutuar na água do tanque. No mês em que Elisa foi encontrada morta, houve um surto de tuberculose na área e o teste usado chama-se, por coincidência, LAM-ELISA.

Não fui a única a ficar morbidamente fascinada com o caso. Os produtores da série televisiva American Horror Story basearam ao de leve o enredo da quinta temporada na história e no hotel, com muita ficção à mistura, e alguém em Hollywood está alegadamente a preparar um filme também baseado neste caso.

Entretanto, muitas outras histórias me cativaram. São histórias que fazem com o que o mundo pareça enorme, de tal forma que parece haver um buraco para onde caem várias pessoas todos os anos. O investigador norte-americano David Paulides tem categorizado caso a caso e verificado vários pormenores estranhos, desde a localização ao tipo de pessoa que desaparece aos detalhes destes desaparecimentos.

Em 2015, um artigo do Diário de Notícias dava conta de que a Polícia Judiciária regista anualmente cerca de quatro mil pessoas desaparecidas em Portugal. Nem todos são tão mediáticos quanto o de Rui Pedro ou de Madeleine McCann. Quase todos os desaparecimentos registados são voluntários.

Além da própria Judiciária, que tem uma base de dados online com os detalhes de cada caso recente, há várias páginas amadoras dedicadas ao desaparecimento de pessoas. Quatro mil por ano é um número surpreendente, especialmente porque o nosso país é tão pequeno. Mas foi grande o suficiente para que desaparecessem sem rasto muitas pessoas, como se vê neste blogue, algumas delas há mais de uma década.

Com o avanço da tecnologia, parece ser mais fácil acompanhar pistas para resolver os casos. O uso de câmaras de videovigilância em todo o mundo gera imagens da última ocasião em que pessoas que desapareceram foram vistas e os telemóveis ajudam também na sua localização. Ainda assim, há quem simplesmente se evapore. Há imensos vídeos no YouTube com imagens de pessoas que nunca mais foram vistas entretanto ou com gravações áudio de chamadas durante as quais se ouve a voz dessas pessoas momentos antes de algo acontecer.

Parece-me incrível que desapareçam pessoas neste século, mas acontece e continua a acontecer. O voo MH370 da Malaysia Airlines continua sem rasto. Este mês desapareceu em Cascais, Lisboa, um turista espanhol (entretanto já encontrado), um jovem na praia fluvial de Palheiros, em Coimbra (encontrado morto por afogamento), um emigrante português na cidade francesa de Bordéus (ainda não encontrado).

Mas. Um gato desaparecido há oito anos em Londres foi encontrado em Julho, mas em Paris. O gato árabe, que estava desaparecido dos olhos dos investigadores desde 2005, foi também reencontrado.

O mundo realmente é enorme.

Um pedido de desculpas aos amigos, que devem estar fartos de ser massacrados com estas histórias, sobre as quais lhes vou dando conta quando nos encontramos. Como se vê, nem o meu blogue escapou.

Vanessa

domingo, 21 de agosto de 2016

Book Review | Interview With The Vampire by Anne Rice

Right after reading Bram Stoker's Dracula, I read Anne Rice's Interview With The Vampire. I was barely a teenager and for that I could not completely grasp the subtleties of this novel. Besides, I had read it in Portuguese. Years later and able to read in English, I gave it another go. I wonder why did it take me so long to do so.

In Interview With The Vampire, Louis narrates his life's story to a young reporter, many years after he became a vampire. The somber and eerie ambience is what makes one immerse in his accounts right from the start. He spares no details and bares his surprisingly human emotions while living like a predator.

The movie starring Brad Pitt and Tom Cruise is quite similar to the book, except in the book Lestat, Louis oponent, is the blonde one. Claudia, the child vampire is merely five. In the book, the reader also has a much better sense of how Louis sees the world, given he's the one telling the events. In the movie we get flashbacks as if he was omnipresent. In the book we see the world as he then saw it and felt it, like a tormented soul.

I also read most of the book while listening to the movie's soundtrack, but after a while I switched to Chopin's Nocturnes. The music certainly added another dimension to the plot, wonderfully creepying it out. Yes, I just made out a verb. There is no better way to describe it, really. The melodies fitted the gothic aspects of the narrative, filling in the space left to the imagination, making the horror beautiful.

This is indeed a beautiful novel, yet grim. Louis is a vampire and we know that from the start. However, he keeps his humanity close at heart and he feels the immensity of his immortality through human lenses. I could only wish we got more versions of the story, which the first person account takes away.

I also would like to have known more about the physical aspects of being a vampire and the innuendos of sexuality, which are left out by the platonic nature of Louis' love and search for knowledge.

That being said, I certainly enjoyed the vampire gore and all the details of a novel that spurred so many other vampire tales. Anne Rice was a visionary, much like Bram Stoker. I will find more of her works in the future, and even though she wrote about Lestat in detail and I don't really care for Lestat, I will read those.

Anyone who likes vampire tales should read her books, I think.

8/10

Vanessa

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Arco da Rua Augusta e Praça do Comércio em Lisboa

Baixa de Lisboa. Quarteirões geométricos e largos. Pormenores arquitectónicos recortados na pedra. A correria moderna a par e passo com uma herança histórica fundada a partir do terramoto de 1755.

Lisboa é bonita de se ver. Deixa-se fotografar. Uma das minhas zonas preferidas de Lisboa é a Praça do Comércio. Logo a seguir, a Ribeira das Naus. São locais cuidados. Renovados. Acompanharam os tempos ao mesmo tempo que permaneceram no passado, com o Tejo como testemunha. São símbolos. São emblemas.

Há tempos visitei o Arco da Rua Augusta, mesmo em frente à Praça do Comércio. Mais vezes olhei para o Arco durante os espectáculos de mapeamento de vídeo, confesso. Mas depois de subir ao topo e ver Lisboa de cima, passei a prezá-lo mais. Nesse dia, tirei algumas fotos. Nunca Lisboa me pareceu tão bonita.
Esta imagem estava a caminho do miradouro do Arco da Rua Augusta.

P.S.: Quem quiser, pode fazer uma visita virtual aqui.

Vanessa