quarta-feira, 26 de julho de 2017

Aos avós

Os avós sempre foram para mim míticas criaturas sobre as quais fui ouvindo falar ou sobre as quais li, mas que raramente testemunhei. Sei que os avós são aqueles anciãos que raramente estão a par de como o dinheiro funciona e que por isso oferecem notas para comprar um geladinho, ou que acham que o tempo está sempre mais frio do que realmente está e que por isso aconselham agasalho, que se preocupam constantemente e que por isso admoestam juízo. Por vezes, os seus apelidos são acompanhados de um inho ou uma inha e passam a ser o avôzinho ou a avózinha porque só avô ou só avó não alcançam significado carinhoso suficiente.

O dia dos avós sempre me passou ao lado porque quase não conheci os meus e a avó paterna, a única que sobrevive à idade, está num fuso horário totalmente diferente. Agora com as redes sociais vejo os avós dos amigos e as suas dedicatórias. Tive oportunidade de conhecer os avós de alguns amigos, que me adoptaram temporariamente como neta honorária quando ia às suas casas. Mas em grande parte vivi e vivo em grande parte vicariamente a tradição dos avós, míticas criaturas generosas, experientes e preocupadas.

Tenho também memória de fábulas, como aquela em que a avózinha foi engolida por um lobo mau e sobreviveu, ou livros, como aquele em que a Anita vai de férias com os avós, ou filmes como a Heidi. Ainda assim, os avós são para mim mais do que ficção, mas não deixam de ser criaturas míticas com um dia que lhes é dedicado precisamente por o serem. E eu, que já conheci vários avós, valorizo este dia, porque eles merecem.

Vanessa

Hoje é o dia do escritor, mas não é o meu

É frequente que quem me conhece e me apresenta a outros diga o meu nome e logo a seguir uma profissão. Que não é a minha. Em Goa alguns pensam que sou jornalista, porque já fui e a minha mãe até já levou o meu nome impresso no cabeçalho de artigos que assinei. Por outro lado, outros pensam que sou escritora.

Cheguei à conclusão que é muito mais fácil arredondar os detalhes desta forma e deixei passar. Quando me apresentam como jornalista, não desminto; quando me apresentam como escritora, não desminto. A explicação para o facto de não ser nem uma coisa nem outra implica pisar terreno instável, dar uns pulos num fosso bem fundo, e abraçar a depressão. Logo a seguir, comiseração, consternação, condescendência.

Desde que me lembro que a minha identidade está ligada à escrita. Desde bem pequena que sempre quis escrever. Mas há muito que não me sento a escrever coisas minhas excepto neste blogue, criado para apaziguar certa amargura, abastecer o desejo recalcado, desabafar quanto baste, e de modo geral não ceder à frustração.

Os meus dias são passados a escrever ideias de outros para outros, a produzir conteúdo que não posso assinar, a aperfeiçoar o que não é meu de todo, e vivo muito bem com isso. Eu queria ser escritora porque queria não deixar de aprender e, está claro, não podia andar na escola para sempre. Por isso segui o jornalismo, depois exerci-o, depois exorcizei-o, depois fiz coisas que não têm que ver com jornalismo, para agora escrever coisas que não têm que ver comigo. Mas palavras são palavras e viver das palavras é um luxo.

É muito mais fácil fazer pelos outros aquilo que não posso fazer por mim. Assim não tenho nunca de lidar com a possibilidade de não saber o que escrever, de esgotar ideias, de ter de procurar sinónimos, de pensar no que os outros pensarão quando lerem o que escrevo, e de se calhar nem sequer ter talento.

Já não sei se escrever não terá sido um ideal construído ou se foi alimentado por vocação. Sei, sim, que para se escrever tem de se ler muito e nisso sou campeã. É por isso que hoje celebro o Dia do Escritor. Não por mim, mas por aqueles que me alimentam a imaginação e me fazem temer a ideia de juntar-me a eles.

Vanessa

terça-feira, 25 de julho de 2017

Avaliação Literária | O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

Tinha este livro na estante há anos. Não sei precisar quantos e prefiro não pensar nisso para não ter vergonha. Acontece que já o tinha tentado ler pelo menos duas vezes. Mas agora, tendo já visitado parte da Índia, tive a certeza de que ia terminar de o ler. A verdade é que ainda bem que esperei para ler O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy, porque não o conseguiria apreciar em mais nova como o apreciei agora.

O livro conta a estória de três gerações de uma família em Kerala, na Índia. A narrativa poética desfaz-se nos olhos e prende a imaginação. Pareceu-me uma estória feita de pequenas crueldades e pequenos momentos de felicidade, exorcizada de uma mente estranhamente infantil como se todas as descrições tivessem sido construídas por uma criança extremamente inteligente. Não sei de que outra forma explicar o livro.

Pareceu-me uma estória sobre muito, mas o que para mim mais se fincou foram os amores proibidos. O de Rahel e Estha, gémeos biovulares, o da sua tia-avó por um reverendo, o da sua mãe, Ammu, pelo seu pai, e mais tarde por Velutha, o do tio Chacko por uma britânica, o amor dos humanos pela ordem das castas ou pela revolução. Tudo isto sob o olhar ou sob a sombra do deus das pequenas coisas.

É um livro que exige atenção a cem porcento e, no meu caso, uma folhinha e uma caneta para não me esquecer de todas as personagens e suas ligações. Há obras que valem a pena o esforço.

Por coincidência, fui ontem à Fnac e vi que Arundhati Roy lançou um segundo romance há pouco tempo, 20 anos depois deste. The Ministry Of Utmost Happiness. O nome é muito promissor.

10/10

Vanessa

Determinantes possessivos

Tenho especial apego por artistas e com esse apego um estranho sentimento de posse. É também um misto de orgulho e obsessão. Por exemplo, Paul Auster. Depois de ter lido o Palácio da Lua em adolescente e a Trilogia de Nova Iorque já na idade adulta, passei a consumir os seus livros. Quase literalmente e durante muito tempo quase exclusivamente. Tive a sorte de me apegar a um escritor prolífero. Mais tarde conheci Auster, a esposa (também escritora) e a filha (cantora) no Lisbon & Estoril Film Festival. Não houve grande interacção, excepto este ponto alto: a filha pediu-me lume e eu não tinha. Mas respirámos todos do mesmo ar naquela noite.

Sempre que oiço alguém falar de Paul Auster ou pegar num dos seus livros numa livraria, um pequeno demónio desdenha da pessoa. Olha para ela, nem deve sequer conhecer um quinto do que Paul Auster escreveu. Provavelmente nem sabe que em Oracle Night há uma menção a cadernos azuis portugueses que uma personagem comprou ou que Auster inventou um jogo de cartas. Eu descobri-o primeiro.

Em adolescente vi o filme Drácula 2001 alugado já em DVD num clube de vídeo. Não é o supra-sumo dos filmes de terror, mas deu-me a conhecer um actor, que por acaso me tinha passado ao lado numa mini-série chamada Átila. Nasceu uma fã do actor Gerard Butler. Nos inícios da internet, inscrevi-me num fórum de fãs. Conheci algumas delas. Esperei dois anos pelo Fantasma da Ópera, sem nunca o ter ouvido cantar, sempre atenta a novidades. Passei por toda a fase de reconhecimento de uma fama crescente. De ter de o dividir com outras fãs. De ver as salas de cinema dos seus filmes crescentemente mais cheias. De o ver em êxitos de bilheteira. De ter a sensação de que eu descobri-o primeiro, antes de ser tão famoso, e lhe vi o potencial.

Também em adolescente vi Memento, de Christopher Nolan. Já me desenrascava na internet, por isso encontrei o primeiro filme e o filme a seguir ao Memento, já com actores de calibre. Eu era fã. Agora sou super-fã.  Eu descobri-o primeiro. Nolan agora é famosíssimo. Mas eu descobri-o antes do sucesso da trilogia Dark Knight.  Vi Following sem restrições. Tantas, tantas vezes. Vi Memento de trás para a frente depois de o ver de frente para trás. Agora todos os fãs de Nolan se acotovelam para ver um filme cujo trailer não mostrou quase nada porque agora todos conhecem o seu potencial. Aquele que eu reconheci em primeira-mão.

Estes são alguns dos exemplos. Pode-se dizer que o que tenho são ciúmes e um sentimento de exclusividade que não me pertence. Afinal de contas, estas e outras personalidades alimentam um público e não interessa quem foi o primeiro a chegar à fila da frente. Ainda assim, eu tenho essa sensação de posse. Mas também de orgulho. Conhecia-lhes o potencial. Agora vejo-o nos olhos dos outros. Vejo o seu impacto nas respectivas indústrias. Ainda assim sou mais ciumenta com estes homens, e também mulheres (ficam para um outro post só dedicado a elas), do que o sou com qualquer outra relação que tenha tido ou que ainda tenha.

Na minha mente de fã alucinada, eles são meus primeiro.

Vanessa

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Excertos fantásticos e onde encontrá-los I

Frases aleatórias que fazem uma pessoa voltar atrás na leitura. Tiradas hilariantes, satíricas, profundas, interessantes, tristes, nostálgicas, curiosas. Estórias dentro de estórias que se calhar mereciam um livro próprio. Achei engraçado reunir aqui coisas deste género. São apenas uma amostra, mas merecem destaque. São pedaços de livros tirados de contexto, mas ainda assim cuidado com possíveis spoilers.

"Miss Mitten queixou-se (...) da mania de eles lerem de trás para a frente. Mandaram-nos escrever De hoje em diante não leio de trás para a frente. (...) Poucos meses depois, Miss Mitten foi atropelada por uma carrinha do leite (...) e morreu. Os gémeos viram um secreto sinal de justiça no facto de a carrinha do leite estar a fazer marcha-atrás." Em O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy.

Vanessa

Cinco meses depois

Disse a minha idade pela primeira vez. Desde que fiz 30, cinco meses passaram sem que alguém me tivesse perguntado acerca da minha idade. A semana passada veio cá a casa uma senhora fazer um inquérito e tive oportunidade de dizer que tenho 30 e de desfrutar do impacto que o número tem. A senhora bem que podia ter dito algo do género: "30? Não parece nada." Mas tudo bem. O meu prédio não tem luz automática, por isso estava escuro a maior parte do tempo e ela não conseguiu ver bem a minha cara.

Vanessa

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Jornalixo IV

"Ser vegetariano pode fazer mal à saúde" é o título de um artigo da Sábado que se baseia neste artigo do Independent. O jornal britânico enfatizou a qualidade dos alimentos vegetarianos, referindo que doces, bebidas açucaradas, grãos refinados e batatas podem aumentar o risco de problemas cardíacos.

Os escritores da Sábado decidiram extrapolar e combinaram dois estudos sobre vegetarianismo e o impacto deste estilo de vida em relação a doenças comuns, mas provavelmente nem se aperceberam da mixórdia.

A investigadora do estudo a que provavelmente a Sábado se refere originalmente e que dá título ao artigo, Dra. Ambika Satija, explicou ao Independent: "Quando analisámos as associações de três grupos alimentares ao risco de doenças cardiovasculares, descobrimos que vegetais saudáveis estavam associados a menor riso, enquanto vegetais menos saudáveis e produtos animais estavam associados a maior risco." A Sábado decidiu citar o médico Allan Williams. Que não faz parte deste estudo em específico.

O artigo de Allan Williams foca-se no significado do vegetarianismo e seus efeitos, mas não exclusivamente em relação a doenças cardiovasculares e não com base numa experiência, mas sim na citação de outros estudos. Curiosamente, ao pesquisar a publicação American College of Cardiology com a palavra chave vegetarianismo em inglês, na publicação onde os estudos de ambos os investigadores foram divulgados os estudos aparecem um a seguir ao outro, o que provavelmente levou à confusão dos escritores da Sábado.

A conclusão de ambos os investigadores são parecidas: nem todas as dietas vegetarianas são iguais e há alimentos vegetarianos pouco saudáveis. Parece-me óbvio. Refrigerantes e batatas fritas e pizzas podem ser veganos até. Não significa que sejam saudáveis. Infelizmente, o artigo da Sábado fugiu completamente à mensagem de ambos os estudos com um título sensacionalista e um artigo, a meu ver, tendencioso.

A publicação decidiu também copiar o modelo de artigo do Independent, mas logo no lead induz em erro: "Cientistas descobriram que alguns alimentos de origem vegetal aumentam risco de desenvolver problemas cardíacos. Conheça dez celebridades que, ainda assim, deixaram de comer carne e peixe".

Isto dá a entender que estas celebridades leram os estudos em questão e mesmo assim escolheram a via supostamente menos saudável, e que eliminar peixe e carne da dieta é o que faz do vegetarianismo uma dieta pouco saudável. Ao menos na legenda das fotos a mensagem parece mais positiva em relação ao vegetarianismo do que o título. Não deixa de ser triste esta salgalhada da Sábado, que ainda por cima é da autoria de duas pessoas, não apenas uma. Seria de esperar mais atenção e rigor. Não foi o caso.


Vanessa

terça-feira, 18 de julho de 2017

Nota 10 para Jane Austen

Na comemoração do 200.º aniversário da morte de Jane Austen, a autora de Orgulho e Preconceito torna-se a primeira escritora a figurar numa nota de 10 libras lançada pelo Banco de Inglaterra, que vai entrar em circulação a 14 de Setembro. A nota contém ainda uma citação interessante de uma das personagens criadas pela escritora, a detestável Caroline Bingley. "I declare after all there is no enjoyment like reading!

Só que a personagem de Orgulho de Preconceito nem era a protagonista e esta citação foi uma das suas manobras para conquistar o famoso Mr. Darcy. Já para não dizer que não tem nada a ver com nada num mar de tantas outras citações fantásticas. A prova? A seguinte foto mostra uma caixinha, oferecida pelo meu amigo R. Este tesouro contém 100 postais, cada um deles com uma citação de Jane Austen. Todas elas mais do que dignas para figurar numa nota. Todas elas bem melhores do que a que foi escolhida.

Vanessa

Dúvidas existenciais III

Como é que as mulheres que vão experimentar vestidos com fecho às lojas de roupa fazem para subir o fecho? Chamam uma funcionária? Têm braços de Homem Elástico? Não fecham o vestido?

Fui eu comprar um vestido a uma loja e nos provadores só havia dois homens-funcionários. Lembrei-me que podia prender um alfinete a um fio de nylon ou algo do género, fechar o alfinete na anilha do zip e depois, já com o vestido colocado, subir o fecho puxando o fio. Claro que só me lembrei disto na altura de deslizar o fecho do vestido quando só havia homens-funcionários nos provadores e os meus braços me pareceram curtos.


Vanessa

terça-feira, 11 de julho de 2017

Descubra aqui como transcrever manuscritos de borla e possivelmente ajudar a trazer o fim do mundo

A Biblioteca Newberry em Chicago, nos Estados Unidas, convoca voluntários com jeito para a transcrição de documentos em inglês e latim para que ajudem a tornar acessíveis manuscritos vários, incluindo livros com textos sobre magia, bruxaria, encantação e conjuração de espíritos. Mais informações no site oficial.

Este tipo de transcrição é voluntária. É também uma forma de criar uma interacção especial entre o público e estas raras peças. Muito pessoal de meados do século 15 não queria saber da produção em massa de livros através da tipografia, e manteve viva a cultura do manuscrito, razão pela qual agora os voluntários terão de invocar o seu lado filantropo para ajudarem nesta saga. Por outro lado, coitados, esta era uma forma de não atraírem a atenção da igreja e conseguirem disseminar variantes menos prezadas da religião.

A colecção Newberry conta com o manuscrito Book of Magical Charms, um manuscrito comum (era prática na altura reunir todos os interesses num caderno, e este em especial inclui assuntos do oculto) e Cases of Conscience Concerning Evil Spirits, da autoria do Puritano Increase Mather. As transcrições serão revistas por especialistas. O intuito é deixar os livros acessíveis na internet e na própria biblioteca.

Claro que parte de mim adora a ideia. A outra parte está claramente preocupada com toda esta acessibilidade a textos com o potencial de nos fazerem ter de chamar os Caça-Fantasmas (que ainda por cima agora são mulheres). A linha que separa a convocação de espíritos e a convocação de demónios é tão ténue quanto a que separa o mundo dos vivos do dos mortos. Outro problema é estes manuscritos lidarem com coisas que se calhar são invisíveis, por isso podemos não ter noção do estrago que estamos a fazer até ser tarde.

Esperemos que os demónios do passado permaneçam no passado. Já nos chega os que temos hoje. Mas bom, se o mundo tiver que acabar, que seja com magia, não é? Accio.

Vanessa

Compêndio de respostas contra iscos de cliques I

O meu Facebook volta e meia mostra-me links para artigos que até poderiam ser interessantes, mas como são prefaciados por iscos de cliques (não se esqueça do ponto número cinco ou fique atento a estes sinais) ou só porque urgem resposta, achei que fazia um favor à humanidade se reunisse aqui toda a informação.

Não vou ler os artigos. Vou simplesmente pegar no título como mote e dar seguimento.

Os 5 motivos mais frequentes para ser despedido do Dinheiro Vivo (ainda por cima é uma fotogaleria, ou aquilo a que chamo uma orgia de cliques).

Um. A empresa é portuguesa. 

Dois. Não há dinheiro (pleonasmo, se atendermos ao primeiro ponto).

Três. A pessoa é incompetente.

Quatro. O patrão não gosta na pessoa ou tem uma cunha à espera.

Cinco. O patrão chegou à conclusão que pode pôr um estagiário naquela posição.

Claro que os meus pontos são uma compilação da minha experiência (com a excepção daquilo de ser incompetente). Indubitavelmente, a razão foi quase sempre uma variante da segunda. Não há dinheiro. Nunca há. Numa das empresas onde trabalhei havia dinheiro de sobra para investir no departamento onde trabalhava, mas na semana seguinte já não havia e eu fui o elo mais fraco. Noutra, houve dinheiro para uma viagem de team building para todos os trabalhadores. Um mês depois não havia dinheiro para me terem lá. Se bem que nunca fui despedida. Simplesmente apenas não me renovaram o contrato. Desculpem lá o azedume. Juntei o útil ao agradável: fiz pouco de um artigo, já que não posso ser jornalista neste país, e ainda aliviei as azias do passado.

Vanessa

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Não dei a outra face

O meu tom de pele roça o caramelo e o camelo, mas com um toque amadeirado e uma nuance de mousse de chocolate. No que toca a escolher um cosmético para uniformizar esta estória toda, o caso complica-se, portanto. Quando a minha secretária se transforma em toucador, mais parece na verdade uma mesa de laboratório, porque tenho de e prefiro fazer as minhas próprias mistelas combinações. Tudo isto porque a bem dizer, o intuito é sempre parecer que o esforço foi mínimo e que saltei da cama para a rua com um rosto fresco.

Entretanto estou a cerca de duas semanas para ser madrinha pela segunda vez e decidi comprar um creme bê-bê, mas cheguei a uma loja Kiko e como até creme cê-cê havia (que raios é isto?) fiquei baralhada e pus-me a experimentar várias, mas fiquei confusa e a senhora perguntou-me se precisava de ajuda, e então perguntei se ela achava que o produto em questão me iria assentar bem, e ela disse que não, por isso peguei noutro.

Ela pega numa amostra, retira uma gota de creme, tudo isto em milissegundos, e antes que eu tivesse tempo de reagir, coloca-me aquilo na bochecha e toca de espalhar. Quem me conhece sabe que não gosto dessas confianças e gosto menos ainda que me toquem na cara, especialmente se não me perguntam primeiro se não me importo. Mas não me desviei nem fui mal-educada. Não só isso, como trouxe o produto, que aquilo tinha mesmo um tom caramelo e o camelo, mas com um toque amadeirado e uma nuance de mousse de chocolate, apesar de dizer na embalagem que era neutro e ter um número ao lado. No entanto, pode não ter sido nada assim e o produto pode ser uma porcaria, porque na verdade ainda nem o experimentei no rosto todo.

Continuo frustrada porque a senhora tinha uma plaquinha na mama esquerda a dizer que estava em formação e eu devia ter dito que não se toca nas pessoas sem pedir permissão, e ainda por cima oportunidades não faltaram, porque foi a mesma senhora que me aviou o pedido. Enquanto pensava nisto tudo, lembrei-me das lições de catequese, quando se dizia que temos de dar a outra face, e lembrei-me que vou ser madrinha.

Está bem que temos de dar a outra face, e neste caso devia mesmo ter dado para ver se o produto se adequa às circunstâncias da minha aparência, mas nem uma face nem a outra daria mesmo que me tivesse lembrado do cristianismo e das implicações de ter de dar um exemplo cristão a uma criança. Sou a modos que uma cristã selectiva. Mas como normalmente chego a ser agressiva quando invadem a minha zona de conforto e não fui nada agressiva com a senhora, considero a ausência de uma chapada um acto muito cristão neste caso.

Vanessa

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Os 10 mais lidos de Junho de 2017

A culpa é do ar

Já descobri por que razão não tenho muita sorte em geral. Um exemplo aqui

Fui a uma daquelas lojas com coisas místicas, como incenso, Budas, cristais, e até sabonetes, os mesmos que se vendem no Celeiro (vá-se lá entender). São o meu local preferido para comprar velas, estas lojas, porque sai sempre de lá alguma pérola. Já tive quem me lesse a aura (é púrpura, sinal de criatividade e misticismo), quem me dissesse que a minha alma data centenas de anos, quem me perguntasse se sou pianista (está perto, só que o meu teclado não solta ruídos muito musicais), e até quem previsse que ia chover num dia de sol (aconteceu).

Não sou de atribuir muito significado ao que dizem as velas ou às suas cores. Normalmente sou atraída pelo aroma, pelo formato, e acima de tudo pelo preço. Nesta loja em particular há muitas velas. A senhora tenta sempre explicar a que se destinam as cores e às vezes tenta que eu leve daquelas velas que também estão à venda nas lojas dos chineses, com rótulos como "Abre Caminhos" e "Sorte no Amor" e "Afasta o Mau Olhado".

Eu dessas compro nas lojas dos chineses porque são mais baratas, por isso optei por uma das outras, com umas cores genéricas. Por alguma razão e apesar de já frequentar esta loja há uns anos, assim muito de vez em quando, a lojista decide explicar-me que a vela, azul que era, tinha como intuito trazer tranquilidade e prosperidade, mas que para funcionar eu tinha de declarar a minha prece antes de a acender e depois não a podia apagar, muito menos com um sopro. A vela deveria arder até ao fim para cumprir a prece.

Pelos vistos, não só o sopro afasta o que a vela representa, como pode trazer distúrbios do foro espiritual. What?! Estas coisas deviam vir a vermelho e letras caixa alta no rótulo de todas as velas místicas. Em toda a minha vida, sempre apaguei com um sopro as velas, todas elas, até aquelas que prometem abrir caminhos e sorte no amor e afastar o mau olhado (apesar de não acreditar, são velas baratas e cheirosas, e se atraem coisas boas, por que não?), e só agora soube disto. Não admira que tenha azar no geral. Aliás, não sei como ainda não morri.

Quiçá conseguirei reverter todos estes anos de más práticas espirituais. Perdoem-me deuses, anjos, arcanjos, seres extraterrestres, sobrenaturais no geral. Nunca mais contaminarei as vossas boas vibrações com o ar proveniente dos meus pulmões. Agora preciso de encontrar uma vela para reverter o mal feito.

Vanessa

terça-feira, 27 de junho de 2017

20 Anos de Harry Potter

Recebi o primeiro livro Harry Potter quando ainda ia na primeira edição, tinha eu uns 13 anos fresquinhos, e ainda que tivesse na contracapa uma nota de 1000 contos, coisa que o meu tio fazia frequentemente como se um livro de presente não bastasse, o verdadeiro tesouro estava nas palavras que me cativaram desde logo. 

"O senhor e a senhora Dursley que vivem no número quatro de Privet Drive sempre afirmaram, para quem os quisesse ouvir, ser o mais normal que é possível ser-se, graças a Deus". 

Um minuto de silêncio pela rapariga de 13 anos, que se sentia um alienígena e ambicionava ser o mais normal possível, e que ao ler as palavras com que toda uma saga se desenrola chegou à conclusão que ser normal é aborrecido porque ser normal era ser igual aos senhores Dursley ou aos Muggles sempre alheios ao mundo da magia mesmo que um carro voador ou um hipogrifo planasse à frente dos seus narizes.

Os livros ensinaram-me mais do que os manuais escolares. Não é hipérbole. Anos mais tarde, estudei na mesma cidade portuguesa onde J. K. Rowling viveu e escreveu, o Porto. Usei o traje que inspirou a indumentária de Hogwarts. Vi todos os filmes. As estórias permaneceram comigo. Desde o quase anonimato do primeiro livro até ao sucesso mundial, tornei-me fã e passei a pertencer a uma família global de fãs que começou há 20 anos.

Já quis ser inteligente como Hermione, bem-humorada como Ron e corajosa como Harry Potter. Agora, com esta comemoração, podia sentir-me velha, mas não. O aniversário do Harry Potter dá-me esperanças de um dia ser e parecer tão sábia como a Professora Minerva McGonagall ou Dumbledore.

Vanessa

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Avaliação Literária | Kafka à Beira-Mar de Haruki Murakami

Kafka Tamura, um rapaz de 15 anos que não sabe da mãe e que aparentemente ouve vozes, foge de casa. Nakata, um sessentão analfabeto que fala com gatos, parte à aventura. Pelo meio há umas descrições na primeira ou na terceira pessoa que por vezes ligam as duas narrativas de Kafka e de Nakata, apesar de inicialmente não o parecer, ou que simplesmente causam mais confusão no leitor. Pelo menos nesta leitora.

O livro é abundante em diálogos filosóficos, personagens desenvolvidas de tal ponto que às vezes até lhes conhecemos detalhes mundanos e outros que preferíamos não saber (SPOILER: ficamos a saber que Kafka usa quatro quadrados de papel higiénico para se limpar, por exemplo), e vastas descrições.

Haruki Murakami é um autor de que gostava de gostar, mas que até agora, e especialmente depois deste livro, não me captou mais do que curiosidade porque, de facto, as suas criações são intrigantes. A realidade funde-se com uma ficção que toca no misticismo japonês e roça o fantástico e o sobrenatural.

Não é que não goste desses aspectos literários, mas normalmente distraem-me da narrativa, e porque Murakami neste livro começa com relatos objectivos, inclusivamente documentos oficiais do governo e cartas, ambos ficção, para depois deixar o leitor sem explicação... digamos, que não fiquei satisfeita.

Ao contrário de autores de culturas que me são distantes conseguem cativar a minha atenção com o imaginário de países longínquos, Murakami deixa-me frustrada pela falta de respostas e pela minha própria incapacidade como leitora para me afeiçoar às suas personagens. Nakata caiu-me no goto, mas Kafka nem tanto.

Gostei das várias referências musicais, as quais serviram como barulho de fundo à leitura. Graças a Murakami, tornei-me fã do Trio Arquiduque de Beethoven e ouvi novamente músicas como Kid-A de Radiohead.

Sinto que estou a tentar explicar-me aos eventuais fãs do autor, mas a verdade é que não me arrependo de ter lido o livro, várias questões fizeram-me reflectir e tão cedo não vou esquecer certos momentos. Talvez Murakami ultrapasse as minhas capacidades como leitura, e por mim tudo bem. Não é por isso que vou desistir de voltar à carga um dia. Sputnik Meu Amor não me deixou indiferente, por isso há esperança.

5/10


Vanessa

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Um passito para a frente, dois para trás

Vanessa vai toda contente trocar uma raspadinha, no meio de quatro ou cinco*, que a contemplou com o exorbitante prémio de um euro. Sentia-se milionária, como é óbvio. "Mas, Vanessa, tu não andas sempre a dizer que és uma pessoa azarada?" Calma, amigos. Continuem a seguir a narrativa.

Para não parecer gananciosa e porque os seus instintos estão estragados, Vanessa troca aquela por outra raspadinha e após alguma ponderação ainda compra outra, paga com uma nota de cinco e recebe troco.

Contexto: há uma tabacaria no fundo do supermercado e Vanessa caminhava em direcção à saída quando...

Como sempre, Vanessa faz malabarismos com as mãos e põe as moedas ao calhas na carteira, que diga-se de passagem já não vai para nova e tem uns buracos. Não se sabe se foi de um buraco que caiu ou se foi das mãos que escorregou uma moeda de um euro, claramente na fase rebelde da adolescência, que conseguiu deslizar para debaixo do armário dos medicamentos da primeira caixa do supermercado, junto à porta de saída.

Acontece que o espaço para onde a moeda deslizou é apenas suficiente para lá caber uma moeda ou um prego pequenino ou um bocado de cotão e um pedaço de algo que já fora comestível e muito pó. Vanessa sabe disso porque, por incentivo do polícia que testemunhou o acontecimento, que até pensava que a moeda era de dois euros, pediu à moça da caixa para lhe arranjar um pedaço de cartão e toca de tentar recuperar o investimento. Antes disso, tentou o feito com um panfleto. O investimento não foi de todo recuperável com um ou outro.

Vanessa ficou triste, especialmente porque na indecisão sobre o que vestir nesse dia, tinha-se decidido por umas calças também elas rebeldes, que gostam de deslizar perna abaixo, o que não tornou a tarefa de se agachar lá muito agradável, e pensando no perigo de mostrar partes anatómicas normalmente apoiadas numa cadeira o dia todo versus a perda de um euro, considerou a hipótese de deixar a moeda quieta, que se ela tinha tanto apego pelo armário, claramente era uma moeda em plena crise de identidade e precisava de um tempo.

Pensem nisto, amigos que não acreditam quando vos digo que tenho muito azar. Fui trocar uma raspadinha que tinha um euro, mas que tinha custado um euro. Depois troquei-a por outra e ainda comprei outra. Depois perdi um euro do troco. Junte-se a isto as outras quatro ou cinco raspadinhas das quais apenas uma tinha o prémio, fora as outras todas ao longo da vida compradas na esperança de um dia a sorte me abonar.

Vou ouvir a música do Frozen o dia todo para esquecer.

* Quero apenas explicar que normalmente não sou viciada em raspadinhas. O que acontece é que sempre que saio com amigos e eles pagam alguma coisa, para depois serem casmurros e não aceitarem que eu lhes pague, eu uso o dinheiro para comprar raspadinhas, que assim eles já aceitam. Toda esta série de acontecimentos desafortunados teve portanto como causa a M. não ter aceite que lhe pagasse há duas semanas. Agora a M. está de férias, por isso tive de vir para aqui desabafar o meu desfortúnio, quando devia estar a trabalhar para recuperar aqueles euros todos que já perdi em raspadinhas. "Let it go, let it go..."

Vanessa

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Wonder Woman foi uma maravilha

Finalmente uma heroína como deve ser. Finalmente uma mulher a realizar um filme de super-heróis. Finalmente um homem como personagem secundário. Finalmente cenas de luta credíveis com uma mulher. Finalmente pernas longas e fortes, não longas e com aspecto de braços. Finalmente emoção, mas também acção.

Já percebi a razão pela qual os homens me parecem sempre tão mais confiantes, entusiasmados e às vezes primitivos em relação às mulheres. Depois de ver uma mulher a dar cabo dos maus da fita em Wonder Woman, Mulher Maravilha em português, também eu me senti confiante, entusiasmada e pronta para qualquer luta.

Felizmente Diana, personagem principal, não é como o Batman e o Super-Homem, tão preocupados com a humanidade que evitam matar pessoas, mas depois nos últimos filmes são hipócritas e andam para ali a dar cabo de cidades inteiras. Diana não tem problemas em desatar à porrada e seja o que deus quiser. Maravilha.

Se quiserem um resumo do filme, aquilo é a estória de uma mulher criada por mulheres, todas fortes, musculadas e inteligentes, num mundo paralelo que é invadido por homens do nosso mundo em tempo de guerra. Essa mulher decide vir para o nosso mundo com um homem que lhe diz aquilo que pode ou não fazer. A mulher está-se nas tintas para o que ele diz e faz na mesma, e o assunto fica resolvido na maioria das vezes.

É pena que só em 2017 tenhamos um filme deste género com uma mulher super-heroína como protagonista. Mas finalmente posso perguntar a um homem, de forma condescendente como se quer, se foi ao cinema com a companheira ver o filme, em vez de ser o contrário porque dantes quase só havia homens em filmes de super-heróis, ou quando a pergunta era dirigida a homens, era porque se tratava de uma comédia romântica.

Generalizações e comentários preconceituosos à parte, este filme merece ser visto por mulheres e homens.

Vanessa

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Mas que drama, D.A.M.A.

"Se sim tasse bem, se não tasse bem também" escreveu a banda D.A.M.A. porque, e passo a citar da sua conta no Twitter, "Em Português, o Pretérito Imperfeito no Subjuntivo do verbo é Estasse, abreviado ‘Tasse." O tweet era mais longo, com uma frase em jeito de prefixo de mau humor em resposta à moça que lhes corrigiu o português com um simples "'Tá-se" na rede social: "Olá Sofia. Em que língua?" Como se não bastasse, ainda temperaram o comentário com uma bela de uma hashtag #thinkbeforeyouspeak (pensa antes de falares). 

Com contexto é melhor. Assim é o comentário inteiro: "Olá Sofia. Em que língua? Em Português, o Pretérito Imperfeito no Subjuntivo do verbo é Estasse, abreviado ‘Tasse. #thinkbeforeyouspeak". Verdade seja dita, a banda desculpou-se a Camões e à fã em questão, mas eu não consegui esquecer o caso. Em vez de recalcar o acontecido, a minha memória insiste em lembrar-me que há pessoas que não sabem usar um vocativo.

Um dos detalhes que me assombra foi ter visto uma ou duas notícias sobre todo o escândalo e ficar a saber que D.A.M.A., banda sobre a qual nunca gastei um pensamento, é uma sigla que agora associo a um erro de concordância: Deixa-me Aclarar-te a Mente Amigo. Por esta razão, refiro-me à banda D.A.M.A. em vez de dizer "os" D.A.M.A., caso contrário estou a dizer os Deixa-me Aclarar-te a Mente Amigo, e já basta a confusão que me faz não haver ali uma vírgula antes do amigo e estes moços terem sido arrogantes na sua ignorância.

Volto a referir que a banda pediu desculpas em público, na mesma rede social onde toda a questão se desenrolou na terça-feira, mas volto também a referir, caso não tenha ficado claro a quem lê este blogue, que o mau português me dá nervos gramaticais, facto que explorei neste belo poema e ainda neste.

A moral desta estória é com certeza pensar antes de falar, mas mais importante que isso, que da oralidade só reza a estória quando há pontos acrescentados, ou algo do género que eu também não sou perfeita, bem mais importante é pensar antes de escrever. Especialmente nas internet. Especialmente se forem famosos. Espero ter aclarado a vossa mente, OLHEM PARA ESTA LINDA VÍRGULA QUE SE SEGUE, amigos.

Isto ficou um pouco confuso para quem não acompanhou a estória, por isso está aqui uma notícia com os factos como se aprende na escola de jornalismo, como quês, quandos, comos, quems, etc. 'Tá-se bem?

terça-feira, 6 de junho de 2017

Buddha bowl ou de como o que sempre fiz tem um nome giro

Buddha bowl ou tigela do Buda é o nome que se dá quando se misturam generosamente vários componentes essenciais numa taça, nomeadamente hidratos de carbono, grãos, vegetais e/ou fruta, proteína e etc. 

Sempre o fiz mais ou menos assim, mas gostei do nome. Normalmente, quando faço refeições assim, mantenho-as veganas ou vegetarianas porque acho que ficam mais zen sem produtos animais.

Como preparo os ingredientes em separado e mantenho-os em caixas para construir os pratos, acabo por comer o mesmo com algumas variações ao longo da semana. Esta é a mais recente: arroz jasmim com cominhos, brócolos cozidos, couve lombarda e cenoura e cebola roxa temperados com coentros, feijão de caril, chucrute de compra (este, do Celeiro), meio abacate pequeno, uma pitada de pimentão vermelho e pimenta preta.
Nota: isto é um prato fundo, não uma tigela, porque não tenho tigelas giras nem fundas o suficiente.

Vanessa

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Em crescimento

É quando o nosso cérebro é precoce e nem tem capacidade para o perceber que vivemos os melhores anos das nossas vidas. É uma partida cruel. Um presente envenenado. Só quando chegamos a adultos é que percebemos a ironia do destino. Quando o tempo já foi, queremos é voltar para trás. Mas foi-se.

É o mesmo que termos quem nos diga que já fomos muito felizes, o mais felizes que vamos ser na vida. 

Só que não nos lembramos.

É o mesmo que estarmos a desfrutar da melhor refeição das nossas vidas, para depois vir o chefe de cozinha dizer que já comemos a sobremesa e que gostámos. Só que não nos lembramos. 

É estarmos no potencial criativo quando ainda nem sabemos usar o nosso cérebro na totalidade.

É para esquecer.

Tudo isto é muito deprimente. Está uma pessoa nos 30, não fez nem metade do que previa já ter concluído por esta altura, e calha ser dia da criança. Má onda. Pior: estava a tirar a roupa do estendal, que é virado para um parque infantil, e o meu pai perguntou-me se não queria ir lá abaixo brincar. Engraçadinho.

Para piorar, andei hoje mais do que num mês inteiro e está assim um frescote estranho. Resultado: sinto-me uma velha resmungona que prevê certos estados climatéricos nos ossos. E falhas de memória.

Vanessa

quinta-feira, 1 de junho de 2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

Na Quinta da Pedra Branca com a Associação Bandeira Azul

A Quinta da Pedra Branca fica ali no meio do nada na aldeia de Monte Gordo, em Sobral da Abelheira, Mafra. Querem coordenadas GPS para ser mais fácil? 38.989944, -9.292201. Mais fácil ainda, na verdade,  é visitar o site: quintadapedrabranca.pt, onde lá estão mais informações, de contactos a variadas receitas.

A Associação Bandeira Azul da Europa (ABAE) organizou uma visita guiada com a matriarca da família que criou a quinta, Teresa Soler, que nos levou a conhecer os produtos biológicos que dali saem, que respondeu às nossas perguntas de gente da cidade e que ainda nos ofereceu dois dedos de simpática conversa.

Ficam as fotos. Spoilers: vimos couves várias, incluindo couve-de-bruxelas, alfaces, beterrabas liláses, beldroegas, acelga, alho francês, hortícolas de várias cores e feitios, e acima de tudo com personalidade, morangos, galinhas, porquinhos, gatinhos, mangas e fruta desidratada. O que não se vê aqui é pretexto para visitarem a quinta.
Esta última foto mostra a tal da pedra branca que dá nome à quinta. Toda o terreno da quinta era feito desta pedra branca, mas a família Soler tornou o terreno arável e fértil.

A Quinta da Pedra Branca faz entregas ao domicílio. Mais informações neste link.


Vanessa

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Há um ano

Passei o dia de 25 de Maio de 2016 a atravessar o tempo e o espaço para regressar a casa depois de ter estado em casa. Goa foi uma aventura de quase seis meses que terminou quando aterrei em Portugal a 25 de Maio de 2016, num dia que se prolongou pelo longo mergulho no fuso horário do qual acho que ainda estou a recuperar. Nada mudou deste esse dia até hoje excepto eu. Não faço mais do que fazia mais sei mais do que sabia.

Vanessa

terça-feira, 23 de maio de 2017

Obviamente

Tive um professor que dizia que o óbvio não se diz nem se pergunta. Como é óbvio, a tal declaração sucederam-se vários pedidos de esclarecimento, até porque, sensatos alunos que éramos, já em novos sabíamos que muita coisa no mundo é relativa, incluindo juízos de valor, de quantidade, de obvietude. Que inquietude.

Anos a seguir, que é como quem diz, já eu era bem mais velha do que aquando da declaração, comecei a reparar que o que para mim é óbvio obviamente não o é para a restante humanidade, incluindo e talvez em exclusivo aquilo que para mim, além de óbvio, é também senso comum. Correndo aí o risco de soar condescendente ou imatura por ter de referir o óbvio quando não conheço do indivíduo o que importa saber para adequar o discurso em conformidade, acabo por ter de explicar em minúcia ou solicitar o que já estava implícito.

Tempo mais adiante ainda, hoje em dia o óbvio é apenas adereço. Esqueci o que aprendi, e muito especialmente esqueci o que o professor solicitara, porque hoje em dia dou por mim a ter de repetir o óbvio frequentemente. 

Eu culpo as tecnologias. O acervo tecnológico de uma pessoa é claramente inversamente proporcional à capacidade de essa pessoa compreender senso comum e agir como uma pessoa adulta dos anos 90.

Às mulheres, a tecnologia proliferou a certeza de uma igualdade que ainda não se concretizou. Nessa lógica, a internet mostra-nos exemplos de como ainda falta tanto para evoluirmos ou ideias para conseguirmos chegar ao primórdio da igualdade. Aos homens, a tecnologia abriu caminho a uma imaturidade nunca antes vista, que se multiplica num sem fim de engenhocas. A internet desdobra-se em páginas de possibilidades, olha botões e penduricalhos e tanta coisa que este gadget pode fazer por ti para que tu possas ficar aí sem fazer nada.

Estou confiante na minha própria parcialidade. Arrisco dizer que as circunstâncias estão assim divididas porque as mulheres ainda têm muito para fazer antes de se poderem divertir com gadgets. Há alturas em que uma pessoa precisa de generalizar para poder desfrutar da catarse que é falar mal de outrem. Perdoem-me.

Mas isto do óbvio não é apenas pretexto para falar mal dos homens, que uma pessoa até gostava de o fazer, mas não pode citar nomes e muito menos exemplos, porque agora não tenho um blogue anónimo e depois ficava sem amigos. Posso muito bem agora espetar aqui um exemplo que me contorce as entranhas desde que o fenómeno começou: ter de pedir para colocar manteiga nas sandes. No tempo daquele meu professor que falava do óbvio como se ele fosse óbvio, não era preciso pedir manteiga nas sandes em lado algum.

Obviamente, hoje em dia não compro sandes no café para não ter de pedir o óbvio. Poupa-se dinheiro e poupa-se paciência. Será isto uma metáfora? Obviamente. Dá para adequar ao que for preciso, a bem da sanidade.

Se eu me pusesse para aqui a escrever aquilo que é óbvio, perdia-se o propósito deste texto.

Vanessa

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Espaço precisa-se

Isto não anda a funcionar bem. Refiro-me ao meu teclado. É fácil adivinhar que o considero assunto fascinante o suficiente para escrever sobre ele agora pela terceira vez. Depois de o E ter decido mudar a sua anatomia, tornando-se um F, é agora o espaço que demonstra que decidiu mudar. Tornou-se sedentário.

Não se quer mexer, o dito. Dantes bastava um leve toque do polegar. Agora o polegar tem de ser estrategicamente colocado para embater no sítio onde o espaço verga mais facilmente. Tem sido uma luta constante. Um pouco de violência de vez em quando ajuda. Ele percebe a mensagem e cede.

Seeudeixar,omeuespaçodeixaosmeustextosassim. Teimoso.

Vanessa

terça-feira, 16 de maio de 2017

O local perfeito para a Eurovisão em Portugal

Ocorreu-me ontem. Enquanto as caixas de comentários de tudo quanto é sítio se enchem das disputas do costume (Lisboa versus Porto), com umas minorias a sugerir destinos menos comuns e outros já de si turísticos, inspirei-me eu em acontecimentos recentes e sai de mim a melhor ideia de sempre: a Eurovisão em Portugal devia ser mas é em Fátima. Coube lá um milhão de pessoas. Não haveria de caber o pessoal festivaleiro também? Abençoado já está. Anúncios de alojamento absurdos também. Espaço não falta. 

Para mim a questão está resolvida.

Vanessa

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Tudo normal

Não ligo à maioria das coisas que cativa o que me parece ser o mundo inteiro. Por isso, foi um fim-de-semana normal. Sem efes: sem Fátima, sem futebol, sem festival. Não me livrei dos barulhos de quem vibra por tais fenómenos, de comentários e perguntas sobre o que achei e das buzinas à distância. Ainda dei uma vista de olhos pelos pontos altos, o suficiente para me lembrar de que não sofro de patriotismo. 

Ainda senti um arrepiozinho com a música da Eurovisão, mas porque é bonita; não porque ganhou. Já tinha gostado da música antes. Gosto o mesmo, mas agora com uma pitada de orgulho. O que o moço diz ou que dizem que disse não me interessa muito. Vou continuar a ouvir a música, o que é uma raridade nas andanças do festival, e duvido que seja uma música de passagem. Gosto da tonalidade antiquada e da melodia.

Ao menos com isto uma pessoa sabe que o romance não está morto e que não estamos dormentes de sensacionalismos porque sentimos alguma coisa. O mundo precisa de coisas que nos façam sentir. Eu cá sinto muito não gostar de futebol e de festivais e de religião. Sinto muito e ao mesmo tempo sinto nada.

A isso se chama zen.

Vanessa