terça-feira, 12 de abril de 2016

Grandezas


Em Goa há praias, como a de Calangute, tão vastas que parecem um país por si só. 

Vanessa

O que é um dia mau em Goa?

Quando falta a água e a electricidade e estão 33 graus. Quando se sai de casa e se regressa e a água não voltou. Quando se regressa a suar e se apanha com o fumo do lixo que está a ser queimado. Quando estão estes graus todos e consequentemente a água do tanque está a escaldar. Quando, ainda por cima, a internet não se mantém cinco minutos seguidos. Mas tudo ficou bem quando a L. me deu um coco delicioso.

Eu sei que havia algum cepticismo por parte da minha família em relação à minha estadia tão prolongada e depois surpresa em relação à minha adaptação. Pelos vistos era eu a única a não ter dúvidas. 

Quando me perguntam se gosto de cá estar a resposta é invariavelmente sim e quando me perguntam se gostava de cá viver a minha resposta é variável, porque depende das circunstâncias. Hoje diria que não.

Na verdade isto é um ciclo vicioso. Eu não gostaria de cá viver porque quase não há gente jovem e por isso não há muitas das comodidades que poderiam atrair o público jovem. Mas porque não há jovens que fiquem, não há quem invista nessas comodidades e assim em diante. E olhem que eu contento-me com pouco.

Por outro lado eu gostaria de cá viver precisamente porque Goa é este retiro espiritual que vejo, onde há mais idosos do que gente jovem, onde a partir das nove da noite se ouvem grilos e onde há tempo para ler.

Parece-me que aqui é mais fácil pensar positivo. Em Portugal é difícil ser optimista quando se passa a vida encerrado dentro de quatro paredes com vizinhos dos lados, em cima e em baixo. Em Portugal parece que andamos enjaulados. Se falta a água e a electricidade sobra pouco para fazer.

Mas em Goa ainda há muito para ser feito. Um dia mau em Goa é um dia em que Portugal não nos sai do pensamento e em que comparamos e nos esquecemos do que há de bom onde estamos.

Vanessa

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Tlim tlim, pim pim, pum pum

Aqui na casa em Nagoá de Vernã não se ouve muito barulho. Ruídos, só os da natureza. É a típica vida bucólica. Não passam muitos carros por aqui e quando passam não buzinam tanto como na cidade. As vozes ouvem-se distantes. As pessoas ficam à sombra a conversar. Normalmente querem saber onde vamos ou de onde vimos. São as únicas expressões em konkani que reconheço sem esforço. Depois de noite o silêncio é apenas quebrado por cães a uivar, uns poucos grupos de jovens que passam, zaragatas entre gatos e coisas do género.

Mas, se há coisa que caracteriza bem a vila é o som dos vendedores. O senhor que vende pão na sua bicicleta começa a buzinar pouco depois das cinco da manhã. É uma buzina bem aguda que ele faz tocar três vezes. Pim pim pim. Ao longo do dia a mesma buzina assombra-nos com a promessa de pão fresco. Há os vendedores de peixe e marisco que gritam repetidamente o produto do dia. Blá blá blá. Há os amoladores, os pequenos arranjadores, os vendedores de tecido e arranjos de costura e outros que tais que também circulam por aí a apitar ou a gritar. Há aqui uma autêntica sinfonia de pequenos negócios que chegam às portas.



Fotos tiradas em Loutolim. Aqui em Nagoá de Vernã é raro sair para ver o que vendem estes comerciantes porta-a-porta. É que se lhes damos um bocadinho de confiança (às vezes basta só olhar na direcção deles) eles quase que nos querem vender a roupa que têm no corpo e ainda a avó.

Vanessa

sábado, 9 de abril de 2016

Aqui ali, isto e aquilo

Estas fotos representam lugares, pessoas, ocasiões. São símbolos de felicidade. Pedem bis.









Vanessa

Fila indiana

A expressão "fila indiana" que conhecemos está relacionada com os índios, que seguiam em fila pelos trilhos dos matagais, e não com os indianos. Se não acreditam venham cá ver como são as filas da Índia. Se Goa é exemplo, que é (já perguntei a pessoas que aqui vivem), não há cá filas nem ordem de chegada nem pessoas prioritárias. Aqui reina a anarquia, excepto quando alguém põe umas fitas a circundar o balcão para encaminhar as pessoas (mesmo essas não servem para nada, mas estão lá a fazer de conta que funcionam) ou quando há um funcionário a quem foram dadas as rédeas da ordem de atendimento ou um sistema de senhas.

Eu não entendo, mas quando não há sistema algum, eles lá entendem. Na caixa do supermercado, por exemplo, eles lá vão atendendo de forma coerente, olhando bem para quem está à espera e evitando os que cortam a fila multidão que ali está à espera de ser atendida, a não ser que os cortadores de filas levem coisas extremamente perecíveis com o calor, como leite, iogurtes e gelados. 

Até agora não senti que me tivessem passado à frente injustamente e até e já calhou eu ir ao supermercado comprar apenas um gelado e toda a gente me deixar passar à frente.

Infelizmente, aqui não há um grande sentido de espaço pessoal e é natural as pessoas ficarem tão próximas de nós que lhes sentimos a respiração na pele e até percebermos o que comeram ao almoço.

É especialmente perturbador quando são homens a fazê-lo, que eu sei que fazem, porque os homens daqui, aqueles que não têm aspecto de serem goeses, parecem sedentos de contacto com mulheres. 

Há até aqueles que parece que estão sempre no supermercado e que quando lá estão compram uma coisa de cada vez, tipo uma cebola, um tomate, um sabonete. São esses que olham descaradamente e que sempre que podem lá se vão aproximando de alguma mulher atraente e sozinha. São esses os únicos que não fazem questão de ser atendidos o mais rápido possível e que vão ficando para trás, aproveitando o contacto humano.

Disse-me uma amiga que normalmente são homens das aldeias que vêm para Goa, como tem acontecido frequentemente, e que trazem mentalidades de aldeia mesmo que venham para as cidades daqui.

As aldeias são as grandes culpadas de gerarem populações que não sabem respeitar filas ou o espaço dos outros. Diz quem cá está há muito tempo que isso está a mudar. O problema é que aqui tudo muda devagarinho.

Tão devagarinho como as filas dos serviços públicos demoram a andar.

Vanessa

Adenda

Referi na publicação anterior que tenho família Sena em Loutolim. Não é família Sena, é família Quadros, do lado da minha mãe. Não estou mesmo habituada a estas andanças de ter muita família, está visto.

Vanessa

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Loutolim, Goa

Há zonas de Goa que são feitas disto, a perder de vista:




Tenho família em Loutolim. A minha avó materna, que não conheci, tem uma irmã que vive aqui, com uma casa com vista para estas paisagens. As casas aqui são humildes, mas estar num dos alpendres destas moradias é uma riqueza por si só. Aqui está representada a típica paisagem de Goa.

Vanessa

terça-feira, 5 de abril de 2016

Podia ser noutro sítio qualquer


Mas o brilho que o mar deixa na areia quando se vai embora para mais uma leva e as bolhas que reflectem o sol deixadas pelos crustáceos ali escondidos e a areia que escorre sobre si com a força de cada enxurrada e as pegadas que se desfazem com o compasso do mar e o movimento das ondas, tudo isso também faz Goa e é Goa. Aqui o mar é poesia. Foto tirada na praia de Calangute, onde não deixei pegadas.

Vanessa

Book Review | Elizabeth and Mary: Cousins, Rivals, Queens by Jane Dunn

Two of the most fascinating women in history for me, whose lives have been condensed into a book? Count me in for that read. Jane Dunn's Elizabeth and Mary: Cousins, Rivals, Queens did not disappoint in the little details one wants to know about as well as in historic context to keep one aware of what surrounded such intriguing personalities as these two royal women, cousins and rivals.

It did take me while to finish reading the book though. I found it very dense sometimes, both in historic facts and in quotes from original sources. Of course, that's actually what makes a great biography, but I must have been in the mood for a lighter read or something. I started by being amused, but then all the ancient English bored me and cut the pacing for my reading dynamic.

I wish the book had gone into the gossipy details about why Elizabeth did not marry (for example, all the tales about her being a man in disguise), but I guess there were not enough historic facts that back that up. I was also interested in what turned out to be smaller than expected details such as the practices of prediction, especially astrology, in royal courts as well as suspicions of witchcraft.

I was pleased to read so much about Elizabeth's mother, Anne Boleyn, and also her father, King Henry VIII, both favorites of mine in history lessons at school. Thanks to this book I'm all the more interested in Queen Elizabeth I, as she continues to seem so virginal and at the same time so strong and intelligent in my imagination.

I will certainly try to read more of Jane Dunn's biographies in the future.

07/10

Vanessa

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Razões para continuarem a visitar este blogue


Vêm aí coisas boas. Muito boas.

Vanessa

Santa ignorância

Quem vive no país onde nasceu, que é o país onde quase toda a sua família nasceu também, nunca vai perceber bem o que é não conhecer a maioria dos seus familiares e também nunca vai perceber a sensação de perder a conta ao número de familiares que desconhece ou que não sabe ao certo de onde vem ou que não se lembra em concreto onde está. Quem está habituado a ocasiões de mesa cheia, em cima e em volta, não compreende o que é natais e aniversários e páscoas só com a família mais chegada, que são duas ou três pessoas, e comer nessas ocasiões pratos típicos do país onde está, mas também outros cujas receitas passaram de geração em geração, por quem as aprendeu num outro país onde abundam os ingredientes usados nos pratos.

Quem vive no país onde nasceu, que é o país onde quase toda a sua família nasceu também, não sabe o que é não ter família no interior ou não conhecer ou não se lembrar do que é ir à terra

Há muitas outras coisas que quem não é migrante não compreende por nunca ter sentido na pele, mas que acabam por moldar e influenciar um ser humano que tenha vivido num lugar onde não nasceu e no qual tenha uma aparência ou costumes ou aspectos culturais fora da norma nessa sociedade.

Aqui sou parecida com os locais. Mas se vejo turistas brancos na rua, identifico-me mais com eles. Olho para eles e revejo-me. Olho para eles e vejo-me como igual a eles. Certamente que eles olham para mim e vêem mais uma local com uma cultura diferente, mas eu olho para eles e às vezes até sorrio e tenho de me esforçar por lembrar que eles estão a ver mais uma indiana e não vão perceber que temos mais em comum do que tenho eu em comum com todos os outros indianos. No fundo, eu também sou uma turista.

O problema é que até agora eu vivi em santa ignorância. Nunca me cheguei muito a tradições nem percebi muito bem o espírito familiar que vejo amigos a nutrir. 

Mas agora conheço o que esses amigos conheceram toda a vida e hoje, aos 29 anos, feitos nesta terra que até é um pouco minha, apercebo-me da minha própria ignorância, até agora santa por nunca ter sido desvendada.

Conheci com 29 anos uma irmã do meu pai e as filhas dessa tia e os filhos das filhas dessa tia, mais a irmã da mãe da minha mãe, avó que nunca conheci, e a filha dessa minha tia-avó e ainda as filhas dessa filha.

Há ainda primas e primos e mais tios e mais pessoas do meu sangue que estão noutros países e que se calhar nunca vou conhecer. Há depois aqueles que estão em Portugal que querem vir para Goa. Até os meus pais.

E eu, que até agora vivi em santa ignorância, longe destas andanças, não sei o que fazer ao conhecimento recém adquirido de que sou mais ou menos turista aqui, mas sou também mais ou menos turista em Portugal, assim como sou mais ou menos turista em Moçambique, onde está a outra parte das minhas origens.

Da mesma forma que sou mais ou menos turista sou também pessoa mais ou menos, porque um bocado de mim está aqui, outro bocado está acolá e outro bocado acoli. Nisto virei puzzle, com peças por todo o lado.

Há agora uma parte de mim que gostava de voltar para a santa ignorância. Mas grande parte de mim já se habitou à ideia, ainda que não saiba ao certo o que fazer com ela.

Vanessa

sábado, 2 de abril de 2016

Saudades disto

Colorir. Ver séries descontraídas e colorir. Ver documentários e colorir. Ouvir meditações guiadas, seguir as instruções e colorir. Ouvir narrações de livros e colorir. Ouvi o 1984 e colori tantos desenhos. Ouvi este outro livro e colori outros tantos. Cada capítulo, um espaço pintado. Medir por cores. Medir pelo lilás, pelo rosa, pelo azul. Medir pelos gestos, entre a distância da esquerda para a direita ou de cima para baixo.



Ainda por cima já ia aqui. Um desafio de paciência e destreza. Devia ter trazido para aqui.

Vanessa

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Não é mentira


As praias mais bonitas são as desertas, seja aqui, seja em Portugal. Feliz primeiro de Abril.

Vanessa

E os mendigos?

Por incrível que pareça, não vi muitos. Quero dizer, não vi tantos quanto pensava que ia ver. Quanto aos que vi, foi aquilo que já esperava. Já tinha lido vários artigos sobre aluguer de crianças, por exemplo, para ajudar à generosidade dos samaritanos. Parece que é um negócio obscuro, mas que continua. 

Uma vez, em Margão, uma rapariga com três miúdos pequenos e muito sujos veio pedir junto de nós. Os mendigos fazem normalmente um gesto que leva a mão, com os dedos unidos, à boca para indicar que precisam de dinheiro para comer. Ela fez o gesto, mas não nos convenceu. 

Quero dizer, convenceu-me um bocadinho, claro, por causa das crianças, mas acabei por não dar nada.

Uma das crianças ficou ao meu lado enquanto a senhora ficou parada à nossa frente a ver se mudávamos de ideias. Nisto a criança transforma-se momentaneamente em estátua, como fazem as crianças quando são surpreendidas por uma necessidade biológica, e começa a fazer xixi ali mesmo.

O líquido amarelo escorreu pelas pernas descobertas e criou uma poça mesmo ao meu lado.

Depois foram embora e eu fiquei a vê-los afastarem-se.

Não sei se haverá aqui uma moral ou uma metáfora. 

Deverei eu passar a dar qualquer coisa aos mendigos? Será que faço mal em não dar? Será que se não der, mais necessidades biológicas virão parar ao meu caminho e criar uma poça mesmo ao meu lado?

Há outros tipos de mendigos, desde os cegos que fazem das suas latinhas de peditório tambores para as suas vozes melodiosas aos homens sem pernas que se arrastam pelo chão aos velhos de aspecto louco e longas barbas aos de aspecto normal a quem apenas parece faltar um banho de esfregão.

Nunca sei se devo dar alguma coisa. Não sei se dar alguma coisa é ajudar. Não sei se há alguma hierarquia no negócio destes peditórios e o dinheiro vai parar a algum chulo ou se a falta de dinheiro torna violento o hipotético chulo e acaba em tragédia a vida dos pedintes. São as mesmas dúvidas que tenho em Portugal.

Sou desconfiada em relação à caridade.

Mas já vi mendigos aqui, sim. Obrigado aos que perguntaram e têm perguntado. Deixam-me sempre aqui inquieta, com estas questões, e fazem-me remexer o cérebro em busca de consolo.

Vanessa

quarta-feira, 30 de março de 2016

Maná de Goa: o caju









"Lá em cima está o tiro liro liro" mas se olharem com atenção, aqui em Goa, há muito mais do que isso. O caju é um dos símbolos de Goa, em directa concorrência com as praias e o marisco. Mas o caju é três em um e, por isso, um produto especial. É fruto seco: aquele feijãozinho que depois é retirado da casca e assado, fazendo também parte da lista de ingredientes de doces regionais; é fruto sumarento: aquela pêra vermelha ou verde que curiosamente é chamada de maçã de caju e que atrai todos os macacos da área; e é bebida alcoólica: o feni, aguardente produzida através desse fruto. Para mim o caju é um espectáculo por si só, especialmente o caju desta árvore que está no terreno da família Sena aqui em Goa.

Vanessa

terça-feira, 29 de março de 2016

Cruzes credo

Aprendi que na Índia já foi muito comum pensar-se e que há lugares onde ainda se pensa que a alma de uma pessoa pode escapar num bocejo ou num espirro ou que um demónio pode facilmente entrar no corpo se uma pessoa bocejar ou espirrar. Aqui colocar a mão à frente da boca chega a ser, antes de ser um acto de educação e higiene, uma forma de prevenir que a alma escape ou um demónio entre. Então aqui, quando alguém boceja chama-se deus com a expressão "Marayan" e abençoa-se quem espirra de acordo com o credo de cada um (até já ouvi "Hare Krishna" como forma de "santinho"), não vá o diabo tecê-las. 

Na Europa, foi na Idade Média que se começou a abençoar quem espirrasse com um bless you, porque por alturas da peste negra, o espirro era um muito mau indício do estado de saúde do espirrante e mais valia prevenir o inferno de se cruzar com o provável enfermo com uma extrema unção assim para o informal e executada por qualquer pessoa assim ao desbarato. Como é que a epidemia, a da benção pós-espirro, se propagou até aos dias de hoje eu não faço ideia. Alguém por aí sabe?

Parece que também na Europa, na Idade Média, se pensava que os bocejos eram para ser contidos com uma mão à frente da boca, não porque nessa altura proliferava o mau hálito causado pela higiene duvidosa da época do "água vai" ou porque os dentistas não passavam de arranca-dentes, mas porque uma cavidade assim aberta era meio caminho andado para o diabo fazer das suas e pôr-se a possuir as pessoas.

Ouvi foi dizer que em Portugal o "santinho" em vez da tal bênção tem também uma explicação supersticiosa. Disse-me um senhor, no Porto, há uns anos, que se espirra quando o diabo nos quer sair do corpo e que, por isso, "santinho" era dito à pessoa que espirrasse, para que permanecesse livre de demónios.

Lembrei-me de todas estas coisas porque espirrei três vezes seguidas daquela forma contida de quando estamos em salas de espera ou na igreja. Sabem? Quando o espirro vai para dentro? Logo depois bocejei e estava com as mãos ocupadas, por isso não tapei a boca. Sim, usei o Google para tentar confirmar estes pseudo-factos, mas fiquei na mesma. Que mundo este. Já não sei no que hei-de acreditar.

Vanessa

Modéstia à parte

Esta noite sonhei que todo o meu cabelo se tornava grisalho, depois branco. Sempre considerei os cabelos brancos exemplo de sabedoria. Quer isto dizer que ao meu cérebro falta-lhe modéstia. Sempre considerei a falta de modéstia exemplo de falta de sabedoria. Em que ficamos? Ficamos na mesma, pois claro.

Falando em modéstia, ainda tenho alguma habilidade para jogar Monopólio. Quem me segue no Facebook sabe que comprei um Monopólio de edição indiana. Tenho jogado especialmente com o meu primo. Infelizmente, como no mundo real, só habilidade não chega. É preciso também uma dose de sorte. Ou conhecimentos.

Não vejo o meu melhor amigo há anos. Há quantos, mesmo, R.? Vês a falta de modéstia? Sei bem que lês este blogue. Ainda ontem falámos disso, de ter conhecimentos. Cunhas, portanto. Alavancas.

Nenhum de nós tem. Já vimos que sem nepotismo isto não vai lá facilmente. Mas dificilmente conseguiremos. Digo isto sem negativismo, querendo dizer que mesmo com dificuldade conseguiremos.

A língua portuguesa está cheia de armadilhas. Ainda ontem dizia isso a outro R.

A semana passada uma outra amiga de anos, a J., encontrou uma carta minha na qual eu dizia que eu e dois amigos, incluindo o R., seríamos donos de um casino por esta altura das nossas vidas. Ah!

Ainda ontem comentámos aqui em Goa que o que não faltam são casinos e nós aqui, a jogar com dinheiro falso, rupias de brincar, e a comprar propriedades imaginárias mas com correspondência real.

Já comprei o Mumbai imaginário duas ou três vezes, mas não lá ia agora mesmo que me pagassem. Comprei todas as estações de comboio, certa vez, mas ainda não andei de comboio aqui. Já comprei a estação de Chennai e a própria cidade de Chennai, onde a minha tia-avó, em cuja cama me sento agora, faleceu.

O meu cérebro, que ontem sonhou que a cabeça que ocupa se tornava grisalha e depois branca, tem passado muito tempo a fazer correspondências entre aqui e lá, palavras que ouvi ontem e palavras que ouvi hoje, pessoas que me acompanham fisicamente e pessoas com quem apenas falo digitalmente. Talvez o meu cérebro pense que uma cabeleira branca é uma cabeleira de pessoa cansada e não de pessoa sapiente.

Modéstia à parte, tenho um cérebro muito trabalhador.

Vanessa

segunda-feira, 28 de março de 2016

Book Review | A Fine Balance by Rohinton Mistry

You know how an author gets you so invested in the characters and then keeps you cringing with their turmoiled path? You know how you a novel gets you so alive in your own imagination that you almost have physical reactions to something that's not real? You know how you get so familiar with people that come alive on paper that you feel for them and you curse the author for putting them through misadventures?

That's how it was for me with A Fine Balance by Rohinton Mistry. A recent friend, who's not Indian but is certainly more Indian than me, not only recommended this book, but also lent her precious copy to me, praising it so much with such a hurtful expression and such a heartfelt review that I felt that she was actually recommending me some sort of torture from which I would be scarred forever.

That's exactly what happened. This book scars one's soul in an indescribable way. It's not just the plot and the way the characters' paths intertwine. It's also the real events described in an almost cold way and the pain that perspires through the words that grabs one's heart and keeps tugging at it.

The book tells the story of four main characters, very different in upbringing, in mid 70s India. Political instability creeps into the characters' lives in different ways, shaping their own self mentally and physically.

The only real flaw I could see in this book was that it was too short, even though it was quite long. I wanted more of it. I wanted to see something beautiful at the end, something that would reward the characters and relieve them of their suffering, and something that would make my mind at peace.

There was no such thing and I think that was Mistry's purpose. Being in India, I see some of the things described in this story set in the 70s. I see so much that has not changed and needs to be changed.

That's why I think this book is still needed and someone this Mistry is much needed in the world.

It was such a pleasure reading this novel that I'm even afraid to go read something else and make the temporary spell one feels after finishing a book, that stirs one inside, go away with a book that's not so worthy as this one.

10/10

Vanessa

sexta-feira, 25 de março de 2016

Contagem decrescente

Mas já?! Ah, pois. Se tivessem lido este post percebiam. O tempo aqui não é para brincadeiras e agora que o calor está a apertar, junta-se à lista a minha própria lentidão. Conclusão: dois meses certamente vão voar.

Dentro de dois meses (tanta coisa que cabe aí) vou estar a viajar novamente. Em Maio vou viver um dia duas vezes (não é bem assim, mas deixem-me sonhar). Vou viajar no dia 25, passar um dia a viajar e mesmo assim vou chegar a Portugal no dia 25. Que não se engane o tempo, que eu preciso de cada segundo para matar saudades e de muitos segundos para recuperar seis meses passados neste país tropical.

Por agora tenho de aguentar com o calor e a humidade. É de manhã e estão 26 graus (parecem 30) e 71% de humidade. E eu tenho o portátil ao colo, porque gosto de viver no limite.

Como estamos em época pascal, os católicos estão ocupados. Como estamos às portas da Primavera, os hindus estão ocupados. Há dois dias que não saio à rua e escrevo isto com satisfação. Tenho trabalho, tenho livros, tenho silêncio e tenho de aproveitar tudo isso com fervor religioso.

Tenho medo de ler notícias e fico feliz por já termos aquilo que me parece ser a televisão digital terrestre indiana, porque assim a televisão da sala só mostra uns três canais e não tenho de ver mais más notícias. Até o meu tio A. já transferiu a sua desilusão pelo que acontece em Bruxelas para a RTP Internacional e desliga a sua televisão prematuramente. É preferível estar em silêncio, por agora. Estamos de quarentena.

Desde que cheguei que ando enjoada do Facebook. Ainda não passou.

Os meus hábitos de leitura mantêm-se saudáveis.

Estou na minha terceira dose de vitaminas.

Tenho mais lugares para visitar do que tempo.

Ainda não estou certa de que quero voltar. 

Estou a brincar.

Vanessa

quinta-feira, 24 de março de 2016

Dia triste na casa Sena


A Pish Pish deixou-nos. Só tenho fotos dela a dormir, mas será sempre recordada como uma gata muito ágil, brincalhona e sedutora que vai deixar muitas saudades.

Vanessa

quarta-feira, 23 de março de 2016

A good looking bloke


I got to know the restaurant of a hotel called O Pescador with my family when we visited Dona Paula. A friendly couple returned our greeting when we entered the place. Both had an open book on the table and a peaceful look on their eyes. They looked like they were on holidays and enjoying themselves at that. Soon they inspired us to talk about retirement and especially my parents' retirement because the gentleman reminded us of my dad's good-naturedness and free spirit and the lady reminded us of mom's relaxing looks, and even mom agreed with that. We mimicked the couple when they were welcomed to their order of a large plate of french fries. We nodded and smiled at each other during our stay. It was when I got up to take some photos, when the lady was by the pool, that this gentleman decided to strike a pose for me. I promptly obliged and then showed him this photo. "That's a good looking bloke, ain't it?", he said. We all laughed, at the restaurant. He didn't want me to send the photo. I was trying to figure out what to do with it and since his face is not fully visible I decided to publish it on this blog to show this relaxing, good humored moment that happened between strangers, me and the good looking bloke, both in a foreign country.

Vanessa

sábado, 19 de março de 2016

Postal de Goa

Caros amigos a quem eu solicitei uma morada: não encontro postais à venda. Não, não é uma anedota nem é uma desculpa para a preguiça que realmente tenho de ir para mais uma fila de um serviço público aqui. Não encontro mesmo postais, nem em Pangim, nem Margão, nem em locais supostamente turísticos, tipo a Dona Paula. Aliás, as pessoas a quem perguntei parecem nem sequer reconhecer a palavra postcards. Estou num estado da Índia onde ainda se usam velas porque falta a luz, máquinas de escrever para passar a limpo documentos e folhas de bananeira a fazer de pratos, mas postais não há.

Fica por enquanto a intenção e este postal improvisado:


Vanessa

Uma certeza

Aqui em Goa, em Portugal e provavelmente até na China e nos Pólos deste planeta, um dos maiores prazeres da minha existência é encontrar um cantinho razoavelmente confortável e aí ficar com um livro e ser esquecida e temporariamente esquecer-me de tudo. Neste cenário mudam os lugares, mudam os livros, mudam as canecas que me acompanham e o seu conteúdo, mudam os petiscos, mudam as pessoas que passam e mudam as pessoas que me interrompem com diálogos mundanos e até absurdos. 

É raro ser compreendida nesta peculiaridade, porque parece mesmo uma coisa bizarra. Já houve alturas em que pareceu um crime. Noutras alturas já foi curiosidade e motivo de comentário. Também já foi motivo de chacota. Às vezes faço apenas parte do cenário, que é a minha hipótese preferida, e a minha presença passa despercebida. Podia, aliás, ser sempre assim. Infelizmente, raramente é.

Vanessa

sexta-feira, 18 de março de 2016

Num lugar ao sol







Cocos, para secarem (e mais tarde extrair-se o óleo), piri-piri vermelho e peixe. Produtos que é costume ver-se a apanhar banhos de sol nos quintais das casas em Goa. Vêem-se também chouriços, feijões e arroz. Vou ficar atenta aos quintais e alpendres sol para ver que outros produtos andam a apanhar escaldões.

Vanessa

A primeira vez

Ontem passámos mais uma manhã a tratar de burocracias. Parece mentira, mas andamos há pelo menos dois meses nisto e no entanto tenho a impressão de que os assuntos continuam pendentes e nada é tratado.

Confesso que já tinha ouvido dizer que aqui às vezes é preciso passar dinheiro debaixo da mesa.

Longe de mim querer contribuir para a corrupção de um país alheio, mas já quase me ofereci para pagar a um funcionário público para ser ele a tratar de um documento nosso. Se isso é suborno? Depois de tanto tempo em busca daquilo que parecem ser unicórnios, já não me interessava. Foi quase apenas um pedido de ajuda. Foi qualquer coisa como, "Conhece quem me possa fazer isto?" Não, não conhecia. "Se eu lhe pagar, o senhor faz isto?" Ele disse que não podia. O assunto morreu ali.

Mas ontem, ontem a história foi diferente. Ontem, pela primeira vez um funcionário público ofereceu-se para agilizar um documento de que precisávamos se pagássemos 1000 rupias.

Ontem olhei a corrupção nos olhos. Aquela sobre a qual já tinha ouvido falar tantas vezes.

Bem dizia um amigo recente que fiz em Goa, que é britânico e que já conhece esta terra há uns 20 anos, que em Goa não há corrupção no sistema; em Goa a corrupção é o sistema.

Vanessa

quinta-feira, 17 de março de 2016

Book Review | Snow by Orhan Pamuk

I'm sorry to say I almost couldn't finish this one. Snow by Orhan Pamuk is about a poet who returns to Turkey after being exiled to write about a suicide epidemic among young girls for a newspaper.

I am not accustomed with political novels and I didn't know much about Turkey's history. To have a romance story embedded into an historic event such as the suicide girls and also into politic turmoil was sometimes boring for me. I guess I don't have much of a brain for political drama and its subtleties.

Of course, what I most enjoyed about this book was all the lighter parts on it, from Ka's (main character) path, following his love and his writer's block and all his insights accounted for from a friend's perspective.

Snow was very foreign to me. The dialogs sounded too theatrical and formal at times. I did not get much of it in terms of the religion side of the plot, and religion played a really important part in the novel.

I'm not sure if I'm at fault here or if the book is indeed boring. It was much praised and for that I feel stupid because I did not like it as much as the critics who applauded it. I guess it was beyond me, the whole book.

Maybe I was expecting something much different, with the girls' suicide event, which happened in real life, and the promise of a poet who was working as a journalist. 

By the way, one of the most interested bits in this book was about a particular newspaper (SPOILER) that printed events before they happened, which the editor thought was a way to both predict the future and to make the future, and that, he mentioned, might be the way of the future.

I have to give Snow another try. Yes, in the future.

5/10

Vanessa

domingo, 13 de março de 2016

De passagem


Conselho: se alguma vez visitarem Goa e passearem por estas estradas, olhem para fora de vez em quando. Há sempre muito para ver, especialmente paisagens assim, que dão vontade de parar. Mas estas paisagens às vezes são mais bonitas em movimento. São bonitas de passagem.

Vanessa

sábado, 12 de março de 2016

Bombay Through My Lens II

Bombay to me equals tall buildings, sometimes incomplete, sometimes worn down. Almost always ugly.









You can see more of my photos of Bombay here.

Vanessa

sexta-feira, 11 de março de 2016

Não perca o próximo episódio


Fãs de vida selvagem? Vem aí um petisco para vocês. Um dia destes. Já sabem que aqui não basta vontade. Há muitos factores externos que não dão para contrariar.

Vanessa

Book Review | By the Pricking of My Thumbs by Agatha Christie

Tommy and Tuppence get involved in a mystery because Tuppence can see connections between events and people as no one else can. By The Pricking Of My Thumbs is a sinister story, macabre in many ways, that develops slowly, but steadily into a detective story only Agatha Christie could make up.

The couple Beresford has a way into dark matters and find a way to connect the dots. With a series of quirky characters, bits and pieces come together and it takes the last ten pages for the reader to get to know all the details. This one was one of the most funny of Christie's books I've read so far. 

Maybe I was not paying attention to such things as irony of speech when I was a teenager and devoured these types of novels, but this one really pulled some laughs out of me.

This was not my kind of detective fiction, as the main characters are getting old (they say so themselves) and all the action took off after Tommy and Tuppence visited an elderly home. But I can see myself at an older age finding their love for each other while they're having dangerous adventures and doing detective work so much fun. They are a really sweet couple. I'm tempted to go read the previous books, when they were young and agile and delved into spy work.

Reading Agatha Christie's novels is always so easy and fun it falls into the category of guilty pleasures. I can now see the simplicity in her plots, but at the same time the right kind of information she arranged poetically even to make us follow the main story and get our imagination going about all the rest.

8/10

Vanessa