sábado, 23 de janeiro de 2016

Trabalho hipnotizante

Grande parte do meu trabalho consiste em transcrição. Transcrição é, na verdade, uma das minhas actividades preferidas, excepto quando é obra-prima para depois construir algum artigo, coisa que já não faço algum tempo. Aí é uma obrigação e torna-se uma actividade chata. Gosto de transcrição por si só. Gosto de ouvir um ficheiro de áudio sem saber sobre o que vai ser. Mas os meus trabalhos de transcrição preferidos são sessões de hipnotismo. Sessões no geral, mas as de hipnotismo especialmente. No entanto, espanta-me conseguir teclar sem adormecer. Calculo que as minhas insónias sejam mesmo persistentes. Espanta-me também não ter adquirido ainda nenhum dos benefícios de algumas sessões em específico. Algumas são dedicadas a ajudar a pessoa a ser mais confiante, a ser mais saudável, a ser mais ambiciosa. Nenhuma resultou comigo. Calculo que sejam ossos do ofício. Estou imune ao hipnotismo.

Vanessa

Nem de perto

Há medidas que são subjectivas. Aqui a distância mede-se no contexto de que aqui tudo significa longe para mim. Por isso, quando aqui se diz que um local é perto, essa medida não condiz com a minha. O perto para mim é ao virar da esquina ou a uns cinco minutos a pé ou algo do género. O perto para os goeses pode ser a 10 minutos de carro. Já aconteceu ser mais do que isso. Porque aqui tudo é longe. Porque a Índia é 40 vezes Portugal. Porque aqui anda-se muito para chegar a algum lado.

É por isso que o meu cérebro agora tem dois pesos e duas medidas.

Vanessa

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Problemas de primeiro mundo num país de terceiro mundo

Os pobres dos super-ricos indianos não se podem comportar como os super-ricos normais. Num artigo do The Wall Street Journal, um desses super-ricos queixava-se que não tinha onde andar com o seu Lamborghini laranja aqui na Índia, porque não havia estradas com condições para tal destreza.

A indústria dos automóveis de luxo está em crescimento aqui, mas não tanto como podia estar. Os principais problemas de primeiro mundo que travam o crescimento, além da falta de estradas com condições dignas de um país desenvolvido, são os impostos altos (140%) que acrescem ao valor de tidos veículos e a dificuldade em encontrar locais para a manutenção das máquinas. 

Além disso, os carros de luxo com assentos mais baixos, são um transtorno em locais com o trânsito caótico pela falta de visibilidade. Há que relembrar que aqui há todo o tipo de veículos a circular, vindos de todos os lados.

A conclusão? Os super-ricos da Índia adquirem super-carros, mas só mesmo pelo status (ou porque podem), porque conduzi-los está difícil. Por outro lado, as estradas e o trânsito são tão maus aqui, que nem bons carros nos safam.

Vanessa

Modelitos

Vi-os por aí e a minha lente gostou deles. Excepto este primeiro, que já dispensa apresentações.







Quem conseguir ver este último não precisa de ir ao oftalmologista.

Vanessa

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Proximidade

Aqui convive-se de perto com o lixo que fazemos. A recolha do lixo é coisa recente e é feita uma vez por semana, ao sábado. Só recolhem o lixo sólido. Antes disso e até hoje em dia, a maioria do lixo é queimado nos quintais. O final da tarde é quase sempre marcado pelo odor das queimadas. O fumo faz lembrar o nevoeiro dos dias de Inverno em Portugal, mas tenho que confessar que as fogueiras, inclusivamente na rua, nos locais de escoamento de água, dão um autêntico espectáculo pirotécnico impossível de ignorar.

Aqui não há supermercados como em Portugal, com tudo embalado e regado ou encerado para parecer mais fresco, com produtos já lavados e cortados, com talhos e peixarias cheias de requintes exigidos pela ASAE. Aqui compram-se os produtos a quem os produz ou a pessoas próximas de quem os produz, vê-se galinhas antes de lhes ser cortado o pescoço, compra-se o peixe mesmo ao lado de onde se deitam as tripas e os restantes cortes, de onde emana um cheiro nada agradável. 

Aqui não tenho esquentador e, para não tomar banho de água fria, já sei precisamente quanta água gasta o meu banho diário. Duas cafeteiras de 1,7 litros cada uma, devidamente diluídas com água fria para fazer o morno ideal, se quiser lavar o cabelo; uma se for uma coisa mesmo rápida; duas se estiver mesmo a precisar daqueles banhos de onde saem ideias inspiradoras.

Aqui convive-se com o que queremos e com o que não queremos. O melhor e o pior. Não há grande excepção, a não ser que nos barriquemos e fervamos tudo com mãos protegidas por luvas antes de ter de lidar com o que quer que seja. Acabo por estar num local mais sincero, onde se vê em primeira mão a consequência directa de qualquer coisa que façamos. Não quer dizer que goste.

Vanessa

Golpe de sorte


Não tive de esperar muito tempo com a máquina em riste e os braços a doer. Para esta foto, o que fiz foi literalmente olhar para trás, testemunhar as cores, sacar da máquina, ajustar um detalhe, ver um corvo a passar por mim com uma trajectória que ia embater no meu enquadramento, focar e disparar.

Há muitas fotos que acontecem assim aqui em Goa. Estou num sítio muito fotogénico.

Vanessa

Silêncio

Tenho a impressão de que aqui, tal como em Portugal, as pessoas têm necessidade de preencher o silêncio, mesmo que não tenham nada de muito importante a dizer ou que o rádio não esteja a transmitir música, mas homilias e versículos da bíblia. Não percebo o que há de tão errado com o silêncio, que o abafamos de tal forma que há sempre alguma coisa para ouvir.

Aqui, tal como em Portugal, sinto falta do silêncio. Não do silêncio pesado, do silêncio oco, mas do silêncio em que não há vozes e no qual eu consigo ouvir-me.

Vanessa

Book Review | Digital Fortress by Dan Brown

Super fast paced and easily digestible. Digital Fortress is a techno-thriller written by Dan Brown that combines intrigue, romance and bits of history solved into bits of fiction. It's about a famous US organization, codes, code breaking and, of course, conspiracy theories supported by some facts or fiction.

The plot is always dynamic in its essence, even when narrating romance. The main characters are Susan and David, who are an incredibly handsome and smart couple. He is a professor who knows six or more languages, she is an expert in mathematics and the director of code breaking in said US organization. They are both fit for Sexiest People Alive, apparently, which always seems to happen in Dan Brown's novels. I'm yet to find super smart people that are also super gorgeous in real life, but okay.

It was not at all hard to read this book. I finished it in about four days, mainly because I cannot stand cliffhangers. Brown likes them too much for my taste. However, that's already his style and it does help in these kind of fast paced plots, with something always happening.

What I did not like was the convenience of certain details that moved the plot forward, much like what had happened in previous books like The Da Vinci Code and Angels & Demons. If you do not like deus ex machina instances, you probably don't like Hollywood movies nor Brown's books.

I learned two or three fun facts to break the ice at parties with this book. It also made me research facts that my memory deemed interesting enough to keep for future reference.

The climax and conclusion did not leave me hanging, although they were not entirely satisfying, but the story overall was interesting and fun to read. I mean, I finished it in four days after all.

6/10

Vanessa

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Chuva

Hoje, quando acordei, pensei que estava em Portugal. Estava um dia cinzento e o lençol deixava passar a brisa fria da manhã. Não cheguei a ver a chuva, mas o cheiro da terra húmida era testemunha suficiente.

O clima tem estado ameno. Para os de cá, está frio. Eu, que já me habituei, também acho frio. De noite, quase desde que cheguei, tenho usado um casaco de malha. O lençol é de flanela.

A L. disse que hoje o dia está triste. Eu cá fiquei contente com a falta de sol, para variar um pouco o constante clima de Verão. Continua calor suficiente para usar t-shirt, mas o chá sabe melhor.

Eu raramente falo ou escrevo sobre o tempo, mas hoje pareceu-me indicado.

Vanessa

A trabalhar para o sistema imunitário


Na semana passada estivemos no terreno dos Sena para ir buscar cocos. Enquanto esperávamos que a E. cutucasse os ditos para que caíssem, desatámos a limpar o jardim. Não tinha sido propositado, mas na noite anterior tinha lido que após tomar antibióticos, é sempre bom repor as boas bactérias que possam ter sido também eliminadas do organismo. Tinha lido também que, além de consumir probióticos e iogurtes, uma das melhores formas de fortalecer o sistema imunitário era inocular.

E que uma das melhores formas de inocular era pôr as mãozinhas na terra, hábito cada vez mais em vias de extinção nos nossos dias. Não foi propositado, mas achei por bem agarrar a oportunidade. O exercício físico também não me fez mal nenhum. Teria sido ainda mais útil não comer quase dois cocos a seguir. Ao menos assim repus também os electrólitos ou lá o que são essas coisas.

Entretanto, a minha mãe está uma fotógrafa nata, não?

Vanessa

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Como é conduzir na Índia?

Em Goa pelo menos, posso dizer-vos, é uma experiência assim para o horrível.

Imaginem as piores estradas de Portugal. Daquelas em aldeias ou nos subúrbios que fazem as pessoas questionar para onde vai o dinheiro dos impostos. Aqui, a maioria das estradas são assim.

Há buracos, remendos, mais buracos, obras intermináveis, terra batida que aparece sem aviso.

Imaginem troços de estrada com uma largura que equivale, em Portugal, a vias de sentido único. Aqui a maioria das estradas são assim, mas suportam dois sentidos e às vezes três: o da ultrapassagem.

Além de buracos e tudo o que já foi mencionado, aos quais não podemos fugir porque, lá está, as estradas são apertadas em largura, há ultrapassagens do lado esquerdo e do lado direito, e há ultrapassagens à nossa frente, porque os condutores que vêm no sentido contrário têm sempre muita pressa, mesmo que não haja espaço suficiente para ultrapassar e que haja um embate de frente iminente se um de nós não se desviar, e há ainda as ultrapassagens às ultrapassagens. Há ainda os peões, quando estamos em centros movimentados, assim como riquexós, bicicletas, stands de produtos e vacas.

Imaginem o caos de um grande centro urbano em Portugal, tipo o Marquês de Pombal em Lisboa, ou até uma IC19 em hora de ponta. Aqui parece ser sempre assim e em estradas com piores condições.

Há sempre carros e motas que não ligam a cedências de passagem, peões que se fartam de esperar (e com razão), animais de rua e percalços no geral. Por isso, é preciso ter o pé sempre em cima do travão, porque há sempre muita coisa a atravessar-se à nossa frente durante o pára-arranca.

Imaginem o maior buzinão português que tenham testemunhado. Isso aqui é o pão nosso de cada dia.

Aqui buzina-se antes de se ultrapassar e às vezes durante. Buzina-se para reclamar, claro. Buzina-se para que se desviem. Buzina-se para cumprimentar alguém conhecido. Buzina-se porque sim e porque não.

Imaginem todo este cenário. Agora imaginem que quase todos os carros são topo de gama. Por isso, isto é como estar no meio de uma tribo na selva onde, em vez de trajes minúsculos feitos de folhas, toda a gente se veste como se fosse para um evento formal todos os dias. Foi a analogia que me ocorreu. Não queria ser má-língua, mas não consigo falar bem do trânsito indiano ou da experiência de conduzir em Goa. Quanto ao resto da Índia, é o que se vê naqueles vídeos que andam pelo Youtube.

Vanessa

Lanchinhos

Tivemos a sorte de encontrar uma viagem que nos permitiu trazer 46 quilos de bagagem. Desconfio que no regresso, os 46 quilos vão estar à volta da minha cintura e não no porão. Porque será? Ora:

Laddu de frutos secos e especiarias. O meu preferido.

Um bolo estilo panetone com cobertura de maçapão que a L. me deu.

Um folhado de cogumelos que a minha mãe me trouxe um dia.

Uma goiaba que, pelo tamanho, mais parecia um coco verde.

Romãs. Muitas.

Xéu. O meu aperitivo de eleição. Gosto dos que são doces e têm leguminosas à mistura.

Uvas. As minhas preferidas continuam a ser as pretas.

Sanna. Pãezinhos de arroz e coco, cozidos a vapor. Os castanhos são doces.

Vanessa

domingo, 17 de janeiro de 2016

O que é que se há-de fazer?


Que não se leia desconsolo algum no título. É apenas uma interrogação retórica em jeito de explicação sobre os meus recentes hábitos de leitura e também sobre as minhas recentes escolhas de leitura.

É que, verdade seja dita, não há muito mais para fazer aqui e está fora de questão, para mim, imitar os vizinhos, que se sentam no alpendre a olhar para a atmosfera ou que se reúnem a falar sobre coisas que eu não entendo totalmente, mas que me parecem ser trivialidades. Por outras palavras, coscuvilhices.

Para além das horas de ócio, o trabalho ainda não começou a abundar o suficiente para causar o cansaço intelectual que normalmente me afasta da leitura. Junte-se a esta equação o facto de a biblioteca de Nagoá de Vernã oferecer uma amostra considerável de livros cuja leitura em Portugal tenho adiado por falta de disponibilidade de vários tipos. Junte-se ainda o meu apetite voraz pela ficção.

Estão aí as razões pelas quais me parece que já li mais em pouco mais de um mês em Goa do que em todo o ano de 2015 em Portugal. Tenho também cedido a vários guilty pleasures (falta-me melhor termo), o que pode ser causa e consequência de tal avanço literário da minha parte.

Na minha última visita à biblioteca escolhi um dos enredos conspiratórios e de ritmo apressado de Dan Brown. Como se vê pela foto, esta cópia de Digital Fortress está em avançado estado de utilização. O que não se vê é a lombada quase a desfazer-se e a decomposição que quase acontece quando se abre o livro.

O papel colado na contra-capa indica-me que sou a décima leitora a solicitar este livro. A lista mostra-me que de 2006 a 2012 ninguém o quis ler, assim como de 2012 a 2016. Fico contente por tê-lo escolhido. Coitado, já devia sentir-se sozinho e poeirento. Por uns dias, vamos fazer companhia um ao outro.

Vanessa

sábado, 16 de janeiro de 2016

Praiar









Só imagens. Hoje quase não há texto.

Vanessa

Book Review | Doctor Sleep by Stephen King

Whatever happened to the boy from The Shining? This is, according to his author's note, what prompted Stephen King to write Doctor Sleep. He even goes on to say it would be difficult to top a novel like The Shining, that seem to have left such a strong impression in reader's minds. That's why he decided to just try to write "a kickass story." Well, did he? My biased fangirl's mind thinks he did.

Dan Torrance is now a sort of a caretaker who's dealing with other things other than his shining, including mentoring a girl, Abra, with special abilities similar to his and helping dying old people get on to the other side. On the evil side of things, a group of beings, different to place in the monster spectrum, takes a special interest in the girl.

As Stephen King always does, the plot unravels in two different spins, each with that peculiar character development that makes us understand both sides and even choose one to root for. When those spins cross paths, a climax explodes into a cinematographic experience, much like what happened (for me) with the previous book that follows Dan's childhood on an eerie hotel, that ends with what I thought was a lukewarm finale for a great plot. It was satisfying, but not entirely.

I was happy with the path Dan took after surviving the first book, with all the characters that surrounded him there that followed him to this new book, and with all the little indulging moments in which what I, as a fangirl, wanted to see happen did happen. The dialogs were as fun as usual, with some comedic remarks even in tough situations, and also some special pearls that stuck with me.

It was very, very easy to imagine all that was happening in my mind with such vivid descriptions and development of characters. I enjoyed the arc Dan and Abra followed, as well as all the small details that flew from The Shining into Doctor Sleep. It seems that nothing was forgotten, and all doubts and curiosity I had were explained. I wish there were even more and that this book had 5000 pages.

There were some choices I did not like, but nothing that a fangirl like myself would not forgive from a writer like Stephen King. I would still keep on reading his books even if I did not like this one.

8/10

Vanessa

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Can You See The Puppy?


So cute and sneaky, isn't it?

Vanessa

A terra

Durante pelo menos 12 anos detestei férias. Pausas curtas ou longas. As férias eram horríveis. As férias eram alturas deprimentes. As férias eram um interregno maldito. As férias eram um castigo. Talvez se perceba melhor se eu explicar que ao longo de 12 anos eu divertia-me mais na escola do que nas férias. 

Às vezes até me divertia mais na escola do que em casa.

Salvo raras excepções, férias, as grandes, significavam praia e eu nunca gostei de praia o suficiente para não me importar de ir para a praia por dias seguidos. As férias eram essas viagens diárias de cerca de 30 minutos, alguns mergulhos e muita areia, para depois voltar para casa.

Mas a grande diferença entre férias e o resto do ano, a mais importante de todas, pelo menos, era só uma. Os meus amigos mais chegados iam para a terra nas férias.  Em qualquer pausa de mais de três dias, amigos e colegas iam para a terra e só voltavam quando as aulas retomavam.

Durante muito tempo, mas não todos esses 12 anos, a terra era um sítio que me levava os amigos. Embora todos parecessem entusiasmados por visitar a terra e voltassem com peripécias, presentes e fotos com família e outros amigos, os que eram da terra mas também viviam noutro sítio, a terra era o inimigo.

Quando visitei a minha terra pela primeira vez depois de ter saído, percebi que a minha terra não era verdadeiramente minha, porque eu também vinha de outra terra. Percebam melhor aqui. No fundo eu era uma sem terra, porque era de pelo menos três terras. Foi também nesta altura que começou a surgir (ou eu comecei a reparar) o típico comentário racista do "volta para a tua terra". Nunca o ouvi dirigido a mim, mas sempre foi um daqueles comentários que me deixava pensativa.

Ao longo de 12 anos, a terra passou por vários significados. Começou por ser o nome do planeta onde estamos. O terceiro a contar do sol. Depois começou a ser uma coisa individual. Aquilo que me levava amigos nas férias. Aquilo de onde vinham frutos e bolos e costumes que me eram desconhecidos.

A terra passou a ser uma coisa mais simpática quando amigos começaram a levar-me com eles nas férias. A primeira experiência foi Leiria, com uma amiga que já não se encontra entre nós, que na altura dividiu comigo o seu quarto, os seus costumes e até os seus avós. A avó dela deu-me 200 escudos, que para mim foram uma fortuna. Provei queijo da terra, presunto da terra, batatas da terra, bolos da terra.

Mesmo não gostando de férias, comecei a perceber melhor o significado de ir para a terra. Tive a sorte de conhecer várias delas, certamente quando os amigos se compadeciam da minha tristeza, e até de me apegar a sítios que nem eram meus e a familiares que nem eram os meus.

Mas depois, muitos anos depois, no dia 12 de Dezembro de 2015, enquanto as nuvens se dissipavam e pela primeira vez vi pedaços desta outra minha terra da janela do avião, a terra voltou a ser, para mim, o terceiro planeta a contar do sol. A nossa terra é onde quisermos e onde escolhermos passar o nosso tempo, afinal de contas. Por isso, para mim, a minha terra é um planeta. Gosto de ter muitas opções.

Vanessa

A chicken shawarma que eu não fotografei






Eu estava empolgada com a reportagem fotográfica. Uma vez que pedi para fotografar, é provável que a brilhante execução da minha chicken shawarma tenha sido em parte uma performance. Ainda assim, o senhor tinha uns movimentos fluidos, hipnotizantes. Eu sei que não é desculpa suficiente, mas os aromas, a montagem da shawarma e a fome foram os responsáveis por ter ficado mais empolgada por dar a primeira dentada do que por fotografar o petisco em si. O problema é que depois de uma dentada, não há forma de parar. 

Fica para a próxima, mas não prometo.

Vanessa

Pequenez

A memória é selectiva. Quando ouço falar mal da minha geração, porque sacrifícios eram os que se faziam antigamente, porque dantes era muito pior mas fazia-se mais, parece-me sempre que ninguém se lembra disso da memória ser selectiva. Mais do que isso, parece-me que se está a comparar uma memória (já bem seleccionada, claro) com uma que não existe e que teve de se inventar. 

Comparar gerações só é possível se nascêssemos em mais do que um ano. Quanto muito, seria uma comparação mais legítima se houvesse capacidade para fazer aquela coisa de caminhar nos sapatos de outra pessoa, como se diz em inglês. Nem isso. Mas eu admiro quem insiste em vitimizar o passado e engrandece a vitimização com o rebaixe de outros. Tal capacidade para a ficção é o sonho de qualquer escritor.

O mais irónico é ouvir tais lamúrias de gerações mais antigas cujos actos tiveram consequências que senti(mos, nós jovens,) na pele. Dos idosos que passam a reforma nos bancos de jardim até pessoas que me são mais próximas, fico com a impressão de que cada um de nós se regozija nas injustiças que sofreu, se é que tais injustiças não foram um golpe da imaginação ou não foram floreadas ao longo do tempo.

Estas pessoas que dizem que dantes sofria-se mais estão a medir o sofrimento da minha geração também e a menosprezar as nossas dificuldades sem razão plausível. Até nesse campo funcionamos selectivamente.

O problema é que razões para tudo isto não há e nada de bom isto nos traz. Eu percebo que há pessoas que nada mais têm para fazer senão comentar vidas alheias, mas acontece que comentar pressupõe julgar. 

Quando as pessoas se dão ao direito de julgar os outros sem conhecer totalmente o contexto ou com base nas suas próprias experiências ou com base em juízos de valor enviesados, estamos perante o fenómeno da coscuvilhice. Coscuvilhice é aquilo de que ocupam mentes pequenas.

Mentes pequenas dão azo a um mundo pequeno. Mentes pequenas resultam em mundinhos. Foi assim que nasceu aquela expressão, "Que mundinho este". Sejamos, por isso, responsáveis por um mundo maior, sim? Cuidem da vossa vida. Se estiverem aborrecidos, leiam um livro. Sim, ver televisão também é uma opção.

Vanessa

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Os pássaros goeses








Edição: A última foto em mais detalhe para quem tem ecrãs pequenos.


As boas fotos às vezes são golpes de sorte.

Vanessa

Capital humano


Eu pensei que estivesse muito mal habituada por vir da Europa, mas até o médico da nossa família demonstrou o tipo de frustração que é inevitável sentirmos aqui. Falo do fenómeno do depois de amanhã. Em Portugal, é costume pedir-se coisas para ontem. Aqui, isso é para esquecer. Aqui pedimos para amanhã e só se tivermos muita sorte é que isso se concretiza. Há 15 dias, era suposto vir alguém para medir as nossas janelas. Nunca o vi. O tanque de água demorou três dias para chegar, depois de uma reclamação e uma ameaça de cancelamento do negócio. O que veio montar o tanque apareceu de tarde quando disse que vinha de manhã. Esqueceu-se de não sei quantas ferramentas que teve de ir buscar. Esqueceu-se do berbequim e teve de voltar no dia seguinte. Não tinha cimento para tapar os buracos que ficaram e voltaria no dia seguinte. Isso foi há 3 dias.

Aqui, fecha-se para a sesta. As pessoas levam muito a sério as suas pausas. Se por um lado são vendedores vigorosos e insistentes, daqueles que me fazem desviar muitos metros tal como em Portugal fazia para não cair nas garras dos vendedores de cartões de crédito dos centros comerciais, por outro, no que toca à pausa, não são de todo capitalistas. Não interessa se a praia está cheia de turistas. Se é hora de ir tomar um chá, não há qualquer perspectiva de negócio importante o suficiente. Há alturas em que qualquer proprietário português com contas para pagar escolheria manter aberto o seu negócio. Aqui não tem importância.

Aqui no subúrbio o capital humano é a maior riqueza económica. Há um mecânico, um padeiro, um cabeleireiro, um supermercado que para mim é mini, uma papelaria. Há um de cada e não há muita concorrência nas redondezas. Não sei se por não serem propriamente indianos, mas goeses, os negociantes aqui parecem quase menosprezar os clientes se interferirem com a sua rotina. Os indianos são negociantes natos. São eles que mexem depois a economia, com as poupanças que acumulam. Os goeses investem também, mas porque pelo menos uma pessoas da família está a trabalhar no estrangeiro. Parece-me que estou aqui numa realidade paralela, onde há extremos, mas não meios-termo.

Consigo traçar aqui um paralelo com Portugal, mas de uma forma mais radical. Uma vez que os cérebros acabam por emigrar, aqueles que ficam são dedicados ao local onde ficam, ou então não conseguem ir também embora, ou então estão à sombra de algum tacho. Enquanto aqui estou, é uma questão de sorte encontrar aqueles que ficam por escolha e por dedicação.

Vanessa

Work Versus Criativity

Girls is one of the many television series I enjoy watching in my computer. One particular episode resonated with me. Warning: probable spoilers ahead if you only watched like, three episodes. So Hannah got into this really awesome job after a series of job failures because the economy is tough and blah, blah, blah. It was a great experience for her because she got to work as a copywriter. For those who enjoy writing and want to be writers, this is one of the stepping stones, it seems.

However, Hannah notices all her coworkers had once wanted to be writers like she does. She also notices they all lost the spark that seems to define young, wannabe writers. She becomes curious about the phenomena and wonders what happened. Why did they all stop writing in their spare time?

I won't spoil any further. My point is that I do feel like Hannah's coworkers when it comes to writing for fun, which is something I do enjoy and want to keep doing (hence the blog). The phenomena starts whenever I get a job. 

You know, those activities that provide money in exchange for your time, productivity, patience (in general, your entire life), which in turn is something that allows me to buy food, which in turn is something that keeps my mind active, which is something that allows me to get more work to get more money to get, instead of food, some other things that make life easier so that I can work some more.

It seems my mind can only do one or the other. If I do have stable or at least constant work, I cannot find the time to work on my creative projects. I cannot write something that makes me happy at the same time I am putting some of my time towards work. I started noticing this when I worked in a call center. I thought that it must be the awful work that entailed that was killing my creativity, making me not make the most of the time I got for myself after that horrible part-time speaking non-stop on the phone.

No, it happens on any job. There's not enough space inside my head to write towards two different goals. At least not enough so that the second goal of writing for fun can one day get me a bestseller to allow me to just write for fun forever and ever until I get to do the other things that got shoved to the back of my mind.

I am managing to balance it all these days. I've been slowly including my freelance work into my routine and I am enjoying being a digital nomad. That's what's making me think all of this. I'm not sure I'll be able to keep up the productivity while having time to do things so that I can write about them, while also continuing my healthy routine of sleeping early, going for walks, and so on.

Quite the exercise, this has been.

Vanessa

Nem na praia escapo


Estou em crer que até a areia aqui é picante. Ao menos não tem masala. Um dia faço uma lista de produtos (improváveis) que contêm masala. Eu cá preferia que aqui o senso comum fosse também um tempero. Precisa-se dele em abundância e não só aqui. É dos meus condimentos preferidos, porque não pica.

Vanessa

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Mundo plastificado


Em Goa e provavelmente em toda a Índia, produtos cuja embalagem não é de plástico são notoriamente mais caros do que aqueles que vêm em embalagens de plástico. Exemplo: uma garrafa de 400 ml. de Coca-Cola, Mountain Dew (que em Portugal não há), Fanta e etc. custa umas míseras 20 rupias. Esta garrafa de sumo de maçã (que de maçã tinha uns 3%) numa garrafa de vidro de 200 ml. custou 55 rupias. Só a comprei para ficar com uma garrafa que não seja de plástico. É que um cantil de água daqueles de stainless steel (se são mesmo, não sei) são também caros. Os de meio litro são cerca de 900 rupias. Aqui o plástico é rei.

Auto-retrato


Uma sombra feita de areia. Milhões e milhões de partículas que compõem uma só figura.

Vanessa

Será menino ou menina?

Na Índia é proibido por lei saber o género dos bebés antes do nascimento. É crime, punível com pena de prisão (até 5 anos) para todos os envolvidos, incluindo pessoal médico, e com o pagamento de um laque (cerca de 1400 euros). A razão é simples: nos anos 2000, estima-se que 6 milhões de fetos tenham sido abortados por serem do sexo feminino. A consequência: para cada 1000 homens há, neste momento, 940 mulheres.

Aqui em Goa já vi cartazes. Saber o género antes do nascimento é crime. O aborto selectivo é crime. Mas para muitas mães o que é crime é ter nascido e dar à luz uma mulher. A mulher é considerada um encargo pelas populações humildes. Uma filha requer o pagamento de um dote quando for altura de casar. Uma filha nasce com a promessa de uma prole que simboliza mais encargos para a família. Uma filha é uma vergonha iminente porque aqui tudo o que acontece de mal a uma mulher é culpa dela.

Mas a culpa dos abortos selectivos aqui é primariamente do avanço tecnológico. Desde que a altura em que a ecografia começou a permitir conhecer o género do feto, o número de abortos aumentou. É por isso que agora é proibido dar a conhecer uma coisa que de onde venho é uma informação feliz. Aqui não é.

Aqui significa o possível aborto voluntário de futuras mulheres.

Eu creio que é por isso que o desenvolvimento na Índia tem sido tão lento que estar aqui em Nagoá de Vernã parece ser o mesmo que estar no fim do mundo. Porque aqui há esta mentalidade de que a mulher é inferior ao homem, apesar de sem ela não haver sequer futuro. Porque aqui a mulher nem sempre tem as mesmas oportunidades que o homem. Porque aqui a mulher tem mais dificuldades de chegar onde chega um homem. E, que eu saiba, a falta de igualdade é directamente proporcional à falta de desenvolvimento.

Vanessa

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Masala dosa

Lê-se masála dosá e é o meu lanche preferido até ao momento. É uma especialidade do sul da Índia que se tornou famosa em todo o país. É servida como pequeno-almoço ou snack, ou como acompanhamento de refeições. "O que é a masala dosa?", perguntam vocês. É um crepe salgado, recheado e servido com molhos. Apesar das variações, este é aquele que costumamos pedir.

Até agora, os crepes têm sido mais ou menos da mesma largura que a minha cintura, mas a julgar pela quantidade de vezes que tenho comido coisas assim, sou capaz de superar em muito a largura da dosa.

A dosa é feita com arroz e lentilhas fermentados e moídos até formarem uma massa que é frita numa chapa. É crocante por fora, mas húmida e fofa por dentro. Além disso, os furos do interior da massa são preenchidos pelo molho do recheio, aqui em Goa normalmente feito de batata condimentada (batata bhaji).

A acompanhar vêm dois molhos (chutneys) que variam consoante o restaurante. Um deles é de coco, com coentros ou menta e piri-piri verde, e o outro é vermelho, feito com lentilhas e/ou tomate.

Na imagem está também uma bebida famosa na Índia. A falooda é feita com leite de rosas e sementes de manjericão, e alguns outros ingredientes que mudam consoante quem faz ou a época. É uma bebida doce que acompanha bem pratos condimentados. Experimentei uma vez apenas, mas parece-me demasiado doce e pesado para mim, a não ser que só beba isso ao lanche.

Vanessa

Esconderijo preferido


Sempre que há barulho de foguetes (todos os dias, ultimamente) e/ou sempre que falta a luz. Eu cá acho que ele quer é depois voltar connosco para Portugal e é por isso que fica ali junto das malas. Afinal de contas, vimos da terra dos brancos. Para quem não o conhece, está aqui a apresentação.

Vanessa