quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Prevêem-se imprevistos

Na primeira noite, a internet não funcionou logo. A viagem tinha sido exaustiva, a chegada atribulada e a previsão de uma casa sem internet num fim de mundo como este foi no mínimo deprimente. Até que a electricidade foi abaixo. Aqui acontece muito. Nesse momento pensei na hierarquia das necessidades de Maslow e em como há certas comodidades que estão mal colocadas na hierarquia que fui construindo. 

Não ter internet não me pareceu tão assombroso como não ter luz de todo, por isso tudo correu melhor assim que a sala se iluminou novamente. Hoje, quatro dias depois dessa noite, faltou a água. Caso bem mais grave. Depois de aqui ter escrito de manhã que tinha tomado o primeiro de outros duches, não houve possibilidade de mais duches. Que destino cruel num dia de mais de 30 graus de temperatura.

Quando faltam coisas aqui, faltam também previsões de quando vão regressar. Apostámos que voltaria de certeza hoje e saímos para fazer umas compras que se prolongaram. Se tivéssemos voltado cedo ainda não haveria água. Assim, tudo se compôs. Deve ser assim que os locais pensam. Que tudo vai cair nos eixos porque a gravidade dá uma ajuda. Ou que basta um empurrão, que deus dá o empurrão que falta.

Por enquanto não sei nada dessas coisas. Sei apenas que me soube bem o segundo duche, já de noite e com o jantar feito, apesar de a água não ter pressão. Aqui vive-se numa constante falta, de tal forma que passamos a apreciar o pouco que se vai mantendo ou o pouco que volta depois de uma ausência. Por isso mesmo, estamos sempre à espera do próximo imprevisto. Ele há-de aparecer.

Vanessa

Meio caminho andado


Estou cinco horas e meia à frente da maioria dos meus amigos. As noites custam mais do que as manhãs, porque as manhãs passam depressa numa correria para aproveitar a altura em que o sol ainda não acordou totalmente. Mas aqui não há correrias propriamente. O corpo tem de se habituar aos hábitos alentejanos do ir fazendo para não derreter debaixo do sol e gastar energias preciosas.

Reduzir o ritmo é um desafio por si só, mas o fuso horário é o maior de todos. 

A tarde passa rapidamente, porque nessa altura já os meus amigos estão acordados em Portugal e tenho companhia quando estou ao computador. Quando chega a noite é preciso coordenar as tarefas para conseguir falar com quem quero ainda antes de ir dormir. Há ainda a possibilidade de ir dormir muito mais cedo do que o que estou habituada, para conseguir acordar quando ainda é de noite no país que deixei.

Calculo que as épocas festivas vão acentuar a diferença horária. Vou comemorar mais à frente, mas sempre de pé atrás. Agora é mais fácil lidar com o facto de que estou sempre a meio caminho andado em relação aos que me são mais próximos. De manhã não me importo de esperar até que acordem e de noite sou paciente o suficiente para aguardar que saiam do trabalho. O pior vai ser quando a saudade apertar a sério.

A foto mostra a porta de entrada que vejo quando estou ao computador. O sol já começa a cair como uma cortina. São 11 da manhã e o primeiro de dois ou três duches está tomado.

Vanessa

Jamming

Most radio stations we listen to here play tunes from long ago. This morning I woke up to Saturday Night by Wighfield, got ready while Inner Circle's Sweat blasted the sleepiness away and had breakfast to one of the most recent songs I've heard here... What Makes You Beautiful by One Direction. I have no idea what they say during commercial breaks or on the newscast, but it certainly doesn't matter. It was on the 80s and 90s that most cool songs were created. So I was having cereal for breakfast and thinking of jam. My jam(s).

Vanessa

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Cheira-me a esturro

Como se não bastasse o trânsito agitado, com motas que largam nuvens de fumo preto, carros que fazem barulho de motas e libertam um cheiro ainda mais forte, autocarros que parecem ter sobrevivido a uma guerra mundial e carrinhas de transporte sobrecarregadas, há ainda o constante odor a esturro. 

Aqui as pessoas queimam nos seus quintais o lixo produzido nas suas casas. É habitual verem-se cortinas de fumo quando se passa por residências. O cheiro quente das queimadas domésticas penetra pelas janelas, difundindo-se por todo o lado, especialmente quando há ventoinhas a funcionar.

O ar fica pesado e sufocante, com a brasa do sol a misturar-se com a actividade humana. Aqui vive-se numa bolha onde o ar é sujo e desgastado como as ruas. Quando um dia saí pela porta da cozinha para apanhar ar, reparei que há um mecânico aí em frente. A juntar-se ao constante barulho de motores a serem testados, há ainda as largadas dos tubos de escape que pintam o ar de tons escuros.

A falta de qualidade do ar chega a ser tão atrofiante que me fez pensar que a Índia podia ser um país mais desenvolvido se houvesse ar puro. As pessoas aqui parecem imersas em letargia, exaustão e com queda para a compreensão lenta. É desta forma que me tenho sentido desde que aqui cheguei.

Eu aposto que é do ar. Não me parece possível seres humanos funcionarem em todo o seu potencial num ambiente envenenado como este.

Vanessa

Estou na Índia e gosto de um Branco


O Branco é o cão da casa dos Sena. Não me parece que seja um bom cão de guarda, apesar do sinal "cuidado com o cão" que está no portão. Quando me conheceu não mostrou suspeitas nem agressividade. Pelo contrário. Não só é amoroso como muito esperto. Por exemplo, encosta-se às pessoas, deixa que lhe façam festas e vai-se movendo para que as festas calhem onde lhe convém. Engenhoso, não?

Além disso, parece nunca se fartar de festas e atenção. Aliás, nunca são suficientes. Quando passa por alguém, encosta-se e faz uso da língua para chamar a atenção. Quando a consegue, deita-se de costas e agita as patas para que não esqueçamos as festas na barriga já generosa, uma vez que outro dos seus engenhos é obter pedaços de comida aqui e ali. Quando finalmente se cansa, deita-se a nossos pés.

Há muito que não tinha um animal de estimação. Neste momento há o Branco e uma gata. Ele parece hiperactivo e ela autista. Até agora, cada um afasta-se do caminho do outro e pedem atenção em alturas diferentes. Se calhar é de propósito. Sou uma pessoa de gatos, mas é o Branco que me tem feito mais companhia.

Vanessa

When In Doubt, Choose A Thali


A thali is a plate with a selection of small dishes that one can order when eating out. It's usually inexpensive. This one was 80 rupees, which is a little over 1 euro (1 euro = 73 rupees). I actually chose a simpler one, but the waiter suggested the special version of the one I chose. It's very common to be suggested to try another, more expensive dish when you order something at a cheap place. 

So I went from a 60 rupee (less than 1 euro) thali to this one and I was not disappointed. Dad had told me that this is one of the best ways to have lunch in Goa and that I would enjoy the vegetarian options. This is a veg one, as they call it here. I did enjoy it very much with a cold lime juice.

Unfortunately, I cannot properly grasp Indian English yet, so I almost could not communicate with the waiter with anything but basic English words, pointing at the menu, and some rudimentary sign language. I wish I could have asked about all the things I was eating. They were all delicious and spicy. 

Thalis are a good way to taste a selection of meals in one plate. Rice and chapati (the flat, plain pancake) are always there, but the dishes change according to the region and places one chooses. Curd (yogurt) is a must, as it is eaten last as a palate cleanser and to improve digestion. 

This one included mango pickle (called achar), coleslaw without mayo, and dessert (the orange spiral thing, which is called jalebi). The other dishes had dhal (lentils), chickpeas, potato, eggplant, and cabbage. I wish I knew what that rosy water with cilantro leaves and green chili pepper was. I mixed it with the curd.

Thalis will be my best friends whenever I get to eat out. It's an easy choice, as I love Spanish tapas. Forrest Gump's mom would love thalis as well, since you never know what flavor you're going to get.

Vanessa

Goa é de cortar a respiração


Para a falta de higiene, o trânsito desvairado, os pedintes com bebés ao colo e o calor eu já estava preparada. Ao terceiro dia cá, fomos visitar Margão, com todo o seu esplendor de edifícios decadentes, ruas pegajosas ou húmidas, cartazes com marcas conhecidas em contraste com o terceiro-mundismo das ruas, pó que se prende ao nariz e uma constante neblina de gases que nos abraça como se fôssemos velhos amigos. 

Foi para Margão que andei num autocarro indiano pela primeira vez e foi em Margão que entrei numa farmácia indiana pela primeira vez. Precisava de conseguir respirar melhor.

Desde que cheguei, é como se vivesse em constante falta de oxigénio. No primeiro dia, o jet lag e as muitas horas no avião fizeram-me confundir as vertigens súbitas, o tamborilar nos ouvidos e o nariz entupido com o cansaço da viagem. Depressa percebi que o que se passa é que Goa deixou-me literalmente sem ar.

As noites têm sido interrompidas por despertares em pânico com aquilo que me parecem ser ataques de asma. Acordar no escuro do quarto abafado (a ventoinha só faz circular o ar quente) sem conseguir respirar não é agradável. O cérebro, já de si esgotado devido a dias inteiros sujeito a ar rarefeito, activa o modo de emergência. 

A falta de ar, o escuro, o calor transformam o quarto onde durmo, que é enorme e com um tecto a cerca de quatro metros do chão, num caixão ou num mar onde me pareço afogar. Reconheço a sensação, porque em pequena já quase me afoguei. Não, para isto eu não estava de todo preparada. 

Em Portugal, vivo ao lado de uma serra e há ar puro em abundância. Aqui o nariz tem de filtrar tão desconhecidos aromas e sujidade que não há outra solução senão ficar entupido. Na farmácia sugeriram umas gotas nasais para sinusite e rinite. Resultou nas duas primeiras aplicações e o alívio até tornou mais vivas as cores à minha volta. Contudo, depois disso deixou de funcionar.

Segue-se agora uma consulta no médico. Entretanto, esta experiência fez-me valorizar as pequenas coisas que nunca se destacaram por estarem garantidas. Afinal, seres vivos dependem de oxigénio. Mas aqui vive-se em constante asfixia. Depois de 28 anos de oxigénio em abundância, não me consigo habituar a isto.

Vanessa

P.S.: Ricardo, esta foto é dedicada a ti.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Locais a não perder em Nagoá de Vernã


O subúrbio é sempre uma zona para onde se pode fugir do desvario do centro das localidades. Em Portugal, o meu chega a ser deprimente. É muito difícil que os arrabaldes não se transformem num dormitório sem actividades recreativas. Nagoá de Vernã é um pequeno subúrbio em Goa. No fundo, é uma zona residencial onde todo o charme está concentrado nas vivendas majestosas com detalhes coloniais, cores esbatidas pelo clima e pequenos pormenores que fazem lembrar as casas dos contos de fada. 

O movimento próprio do comércio concentra-se numa rua chamada Pirni. É mesmo quase só uma rua, onde param diversos autocarros, onde pára o trânsito para deixar fluir o trânsito de pessoas, onde as buzinadelas são música de introdução a lojas onde se vendem produtos em embalagens coloridas e onde é preciso explicar o que se quer não só com palavras, como também com gestos para garantir que a mensagem chegou ao destinatário. 

O ponto alto para mim é a chamada biblioteca, ao lado do ginásio. Ambos estão perpendiculares a um campo de futebol que atrai rapazes de calções e bronzeado carregado. O ginásio é um quarto com máquinas de exercício físico, música alta com o baixo a fazer estremecer as janelas e uma mensalidade equivalente a 1,5 euros. Não há balneários, mas aparentemente a música vale a pena e não há horário fixo. Que se saiba. 

A biblioteca é outro quarto com um espaço suficiente para uma prateleira inteira a que gostava de conseguir dar vazão antes de ir embora de Goa. O repertório inclui John Green, John Grisham e Ken Follet. Nada mau para um subúrbio. Em Portugal, o meu subúrbio nem biblioteca tem. Este conta com a colecção Harry Potter e até a das 50 sombras do homem cinzento e mal-humorado. Do lado direito, alguns computadores estão por montar. Com sorte, vão passar a fornecer internet também. Para já, bastam-me aqueles livros. A senhora disse que por conhecer o meu tio eu vou poder requisitar os títulos que quiser para ler em casa.

Os livros são o meu tipo preferido de exercício físico. Do ginásio, vou só aproveitar a música de cada vez que visitar a biblioteca. Tipo todos os dias ou algo do género.

Vanessa

Avulso

A minha família em Goa comprou-me iogurte sem gordura e leite magro. As embalagens são modernas, coloridas e anunciam ingredientes naturais e saudáveis. Quem me conhece sabe que prefiro produtos sem que lhes tirem elementos preciosos como gordura e doçura. O põe aqui, tira dali não me agrada no mundo moderno. 

De qualquer forma, aceitei os produtos, mas em conversa já lhes disse casualmente que o meu objectivo aqui é consumir os produtos locais, da forma que os locais o fazem. Produtos vendidos avulso nos mercados com um preço regateado. Hoje, o meu iogurte sem gordura foi temperado com um fruto que aqui chamam chikoo e com kiwi. Estou a aproveitar o melhor de dois mundos. 

Vanessa

Improvise And Improve

I consider myself Portuguese. Okay, part Portuguese. If there is one thing we, Portuguese people, like doing when talking to foreigners is to brag about the peculiarities of the Portuguese idiom that cannot be grasped by anyone else other than Portuguese natives. Yes, we have a special word for yearning something or someone (saudade) and that is a common theme in many of our cultural outlets. Yes, we enjoy talking about it as if it's one detail that makes us special to others because apparently melancholy is something to be proud of.

This must be one of the elements that defines a Portuguese person, even one that is only an honorary Portuguese, because I caught myself talking about saudade to outsiders, who ended up looking condescendingly or understanding at me while I talked about ancient Portuguese history and deep feelings that can only be understood by adopting a culture like one's own, and embracing what cannot be seen.

Later in life, I learned that the best way to explain the Portuguese culture is by talking about the culture of improvisation. Portuguese people have a bittersweet feeling towards improvising. It's something we do with great skill. However, it indirectly indicates that we leave things until the last minute and therefore have the ability to use whatever means available to still make whatever needs to happen really happen.

We call it desenrascanço (noun), because we do have to make up special words to define things we do in a special way. Desenrascar (verb) is improvising, Portuguese style. It's similar to winging it, you know? We need glue, but there's none. We use chewed bubble gum. We need a screwdriver, we use a key instead. Those sorts of things. 

I like saying I learned to desenrascar when I went to college. Journalists do have to be able to wing it, as if we all had to deal with worst case scenarios. I never had to deal with things other than the crisis, the sudden lay offs, unemployment, difficult bosses and so on. But improvising, Portuguese style made me better equipped to deal with life in general. That I know because, now, living in Goa, India, there is no other way to go by.

Goa was a Portuguese colony. I sure hope those who keep the Portuguese language alive do remember to explain how we use improvisation to improve at least our world. Saudade is not enough to represent the Portuguese culture anymore. There's so much more to us than feelings.

Vanessa

Moçambique-Portugal-Goa

Nasci em Moçambique, vivi desde sempre em Portugal e sou goesa. É mais ou menos isto que depreendi do que a minha família me tem dito ao longo destes 28 anos em que existo. Neste momento é em Goa que estou, desde o dia 12 de Dezembro. Digamos que é uma aventura aqui estar, porque uma mentalidade europeia aqui tende a adorar este sítio ou a definhar. É fácil perceber a razão e choque cultural é algo que está na ponta da língua de muitos viajantes. É mesmo um grande choque passar do ocidente ao oriente.

A minha estadia aqui tem uma validade de pouco menos de seis meses. Não foi uma decisão fácil, nem tão pouco agradou aos que me são mais próximos. Vim porque se estava a tornar ridículo não conhecer as origens da família Sena e porque a curiosidade levou a melhor. Da família Sousa já conhecia um pouco. Moçambique foi um país agradável de se conhecer e permanecer, mas apenas por um curto período de tempo. 

Agora vou conhecer um outro tanto dos Sousas, já que também membros desse lado da família escolheram Goa como destino. Uma característica comum a ambos famílias é os seus descendentes parecerem preferir não ficar no local onde nasceram. Além disso, muitos não nasceram no local de onde é originária a família. Talvez tenham sido os Senas ou os Sousas a inventar isso da globalização. Quem sabe. 

Até agora, a experiência não desiludiu em emoção e comoção. Já desconfiada disso, o primeiro elemento a ser arrumado na mala foi um bloco de notas generoso. Quem me conhece sabe que tirar notas sobre o que observo e contar estórias são as principais razões que me levaram a escolher o jornalismo como profissão. Isso e mudar o mundo, mas felizmente já não sou tão ingénua. É altura de usar o que aprendi e aquilo de que gosto para partilhar curiosidades. De nada vale saber coisas, se depois não as partilhamos, certo?

Vanessa

domingo, 13 de dezembro de 2015

Aquele em que ela se apresenta (mais ou menos)

Poucas vezes escrevi sem ser anónima, excepto em trabalho. Há uma certa descontracção em saber que quem nos lê nem sempre nos conhece. Havia. Por agora é altura de assumir a identidade das minhas palavras. Ao menos na internet há lugar para todos os profissionais e amadores da escrita. Aproveito esta oportunidade para desfrutar do meu, que é aqui mesmo. Bem-vindos ao meu espaço. Sirvam-se de uma bebida e sintam-se em casa.

Já assinei artigos vários com Vanessa Sena Sousa. Geralmente assino tudo o resto com Vanessa Sousa. Os amigos chamam-me apenas Vanessa. Alguns associaram-me apelidos diversos. Resumindo: olá. O meu nome é Vanessa e vou escrever aqui. Estão avisados. (Outro aviso: gosto de informações entre parêntesis and sometimes I enjoy writing in English.) Não posso prometer periodicidades ou temáticas por enquanto. Provavelmente vou escrever sobre tudo e sobre nada. Inspiração, neste momento, não me falta. Até logo.

Vanessa