quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Museu Municipal de Santiago do Cacém

O edifício do Museu Municipal de Santiago do Cacém foi outrora a Cadeia Comarcã. No museu é possível encontrar uma colecção de numismática com exemplares do século III a.c. até à República, uma mostra etnográfica com o contributo dos habitantes do município, e exposições sazonais. Quando visitei o museu, estava exposta uma galeria de pintura de Claude Yersin. No museu prestei especial atenção aos vários retratos da família dos Condes de Avilez, uma vez que vi o meu apelido, Sousa, em grande parte das placas de identificação. A árvore genealógica da família Avilez acrescentou o apelido Sousa Tavares quando D. Maria Francisca Mafalda Rita Salema de Andrade Vila Lobos Guerreiro de Aboim casou com Jorge de Avilez Zuzarte de Sousa Tavares, segundo conde de Avilez. Achei piada à curiosidade, mas a verdade é que Sousa é um apelido muito comum.

Na galeria com os quadros do pintor Claude Yersin houve um quadro em especial de que gostei e fiz questão de fotografar em vez de o comprar pelos 250 euros que vale. Todos os quadros, de longe, parecem fotografias de paisagens ou de momentos quotidianos, mas são trabalhos manuais a pastel, aguarela e óleo.

No jardim em frente ao museu encontrei um frigorífico antigo que serve de biblioteca, improvisada e sem supervisão. Em Porto Covo, onde tinha estado na semana anterior, havia uma cabine telefónica que era também uma biblioteca. É engraçado como estas ideias geniais abundam em cidades do interior, que seria de esperar serem desertos. Há sempre tantas ideias que poderíamos roubar e trazer para os centros populacionais.

Visitei ainda o Sítio Arqueológico de Miróbriga, mas acabei por não fazer o percurso para não pagar a entrada (três euros, penso eu, mas o preço não está indicado em nenhum site oficial). As ruínas são de um povoado que surgiu durante o Bronze Final e a Idade do Ferro (séculos VI-I a.C.). Vi apenas um pouco a partir da entrada.

O meu roteiro:
Castelo, Igreja Matriz e Cemitério de Santiago do Cacém, Alentejo
Praia Vasco da Gama, Baía de Sines, Setúbal
Ilha do Pessegueiro, Porto Covo, Alentejo Litoral
Vila Nova de Milfontes, foz do rio Mira, Praia das Furnas
Barragem de Santa Clara, rio Mira em Odemira, no Alentejo Litoral

Vanessa

A meta arte de Stefan Draschan

O fotógrafo e activista austríaco Stefan Draschan passa horas em museus, em Paris, Berlim e Viena. Como resultado, conseguiu uma série de fotos em que os observadores dos quadros parecem saídos da tela. Quem vê as imagens poderia pensar que as fotos são planeadas, ensaiadas, orquestradas, mas o resultado é mesmo conseguido após horas e até dias à espera do encaixe perfeito: da harmonia, da oposição ou só do humor que a combinação inesperada ou peculiar entre os transeuntes e os quadros transmite.

Na série de imagens intitulada People Matching Artworks há uma correlação entre formas e cores, mas também contexto. O observador torna-se uma extensão da obra, ou vice-versa. Há pessoas a usar roupas parecidas aos dos retratados nos quadros, em situações e poses semelhantes, mas por vezes também em contraste, com obras de séculos idos e detalhes do quotidiano de hoje numa só fotografia que se torna assim meta arte.

Stefan Draschan expõe também fotos de pessoas a dormir em museus, casais com visuais a condizer, e até carros a condizer com casas. O olhar satírico e humorístico do fotógrafo é um exemplo da arte a imitar a vida a imitar a arte, mesmo que seja apenas por coincidência. As fotos que vi são uma ponte entre dois mundos.

Edição: O Bored Panda fez uma compilação de algumas das melhores fotos da série People Matching Artworks.

Vanessa

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Coisas que não mudam

No final de 2014, a campanha do Euromilhões tinha como slogan, "Há coisas que não vão mudar". Mas a memória colectiva frequentemente transforma o slogan em, "Há coisas que nunca mudam". O ano passado, em Agosto, publicava eu um poema de rimas absurdas a sumarizar a questão dos incêndios, intitulado Somatório Escaldado. E agora, um ano passado, um pouco mais tarde, voltamos ao tema pelas piores razões.

O ciclo parece-me o mesmo todos os anos. Há incêndios, perde-se património nacional e pessoal, perdem-se vidas. E depois perde-se tempo, de cabeça quente, com a questão das culpas e uma lista de necessidades para que a situação não se repita. Entretanto, parece que nos perdemos no tempo e no espaço quando estão os ânimos em fase de rescaldo. E damos por nós no ano seguinte com mais incêndios e depois mais culpas, e nada.

Comecei por escrever sobre uma campanha publicitária apenas para questionar de forma retórica se nos ficamos com um "há coisas que nunca mudam" ou um "há coisas que não vão mudar". Ou se passamos ao slogan da Nike e para o ano conseguimos preservar e reproduzir a riqueza que sobrou após anos de incêndios.

Lembro-me agora de uma frase de Tarun Sarathe, frequentemente usada em imagens, sem alusão à autoria, e que em forma de ironia ou sátira resume a chave do nosso problema: "Imagine if trees gave off WiFi signals. We would be planting so many trees and we'd probably save the planet too. Too bad they only produce the oxygen we breathe." Tradução: "Imagine-se que as árvores emitiam sinais WiFi. Plantaríamos tantas árvores e provavelmente também salvaríamos o planet. É pena que elas apenas produzam o oxigénio que respiramos."

Vanessa

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Castelo, Igreja Matriz e Cemitério de Santiago do Cacém, Alentejo

Com a chegada dos Mouros, em 712, a povoação ganhou o nome de Sant'Iago de Kassen em memória do governador árabe, Kassen, ou segundo reza a lenda, história que prefiro, a princesa Bataça Lascaris, fugida algures do Mediterrâneo, veio para a região e derrotou o governador Kassen e posteriormente baptizou a terra com o nome de Sant'Iago de Kassen. Foram os Mouros que ergueram um castelo nesta localidade que agora se chama Santiago do Cacém, castelo esse quase totalmente preservado até hoje. No século XIII foi construída a Igreja Matriz no local onde anteriormente tinha estado uma mesquita árabe junto ao castelo. Em 1838, a câmara municipal inaugurou dentro do recinto do castelo um cemitério, já que começavam a ser proibidos túmulos dentro das igrejas. Estão por isso concentrados aqui três monumentos interessantes para visitar.

Infelizmente, o castelo não é fácil de fotografar, e sinceramente não me pareceu muito fotogénico. Não fotografei as muralhas senão quando já estava de visita ao cemitério. Depois de conhecer a história da Igreja Matriz, para dizer a verdade, quase me esqueci de que estava dentro de muralhas. Com o terramoto de 1755, a igreja e o castelo sofreram alguns estragos. Em 1895, a igreja foi incendiada por anarquistas no seguimento de distúrbios sociais da época. Depois de reconstruída em 1902, ardeu novamente em 1912. Reabriu em 1924. Sofreu ainda alguns percalços, reconstruções para a manter fiel à história, e renovações várias mas segundo uma gravação na parede, foram os esforços do povo que mantiveram o monumento preservado até à data.
 Nota: toda aquela quantidade de lotes juntos e simétricos são túmulos de crianças. 

O meu roteiro:

Vanessa

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Piropo não é elogio

Se és mulher, sabes que estás sujeita à apreciação alheia mesmo que não a tenhas solicitado. Se és mulher, conheces o frio na barriga quando sentes olhares postos em ti sem a tua autorização, como se fosses mercadoria. Se és mulher, percebes o nervoso miudinho de passar por locais em obras. Se és mulher, temes os cantos escuros das ruas desertas mesmo que estejas tapada dos pés à cabeça. Se és mulher, reconheces que quanto mais deixas à vista, mais estás a pedi-las, por mais errado que seja o conceito. Se és mulher, compreendes que nem sempre um piropo é um galanteio, um gesto de apreciação, um elogio, um comentário inofensivo.

Se és mulher, é provável que já tenhas recebido um piropo algures no teu caminho. É que no mundo em que vivemos estamos constantemente num desfile e somos receptáculo de comentários apreciativos, ou nem tanto, como se fôssemos uma caixa de sugestões numa loja. Independentemente da tua postura, da tua indumentária, da tua atitude, és um objecto. Às vezes és um vaso que os outros querem criticar. Às vezes és um quadro que os outros não entendem e por isso julgam e reprovam. Às vezes és um rosto no qual querem pintar um sorriso mesmo que hoje não esteja a ser um bom dia. Às vezes és apenas a soma de todos os teus orifícios que os outros querem violar mesmo que em pensamento. Por vezes até to dizem explicitamente. Tudo depende, mas nem sempre depende de ti, porque nunca a culpa é tua, por mais sensual que seja a tua roupa.

Independentemente das vezes que te dizem que um piropo é bom sinal, não acredites. A tua beleza não tem nada que ser julgada em praça pública. A tua atitude não é para aqui chamada. O sorriso é teu. Não estás aqui para agradar a alguém. Muito menos a um desconhecido. Um piropo é sempre uma falta de respeito porque quem o atira na tua direcção acha que tem o direito de tecer comentários sobre a tua aparência. Por mais engraçado que seja o piropo, há sempre uma carga negativa associada ao facto de alguém algures ter achado que devia abrir a boca para falar de ti sem o teu consentimento só porque naquele momento partilham o mesmo espaço e o mesmo tempo. E provavelmente ainda acham que te estão a fazer um favor.

Essas pessoas acham que têm o direito. Não compreendem que nós mulheres também temos direito a andar na rua sem ser importunadas. Não compreendem que um piropo pode ser ameaçador. Não compreendem que se ignorarmos podemos ser importunadas ainda mais e que se respondermos, assentirmos ou se simplesmente sorrirmos somos convidativas. No fundo, parece não haver vitória possível para nós mulheres.

Isto foi instigado pela moça que decidiu tirar selfies com todos os homens que lhe mandaram piropos na rua para alertar para o problema. O resultado foi um monte de mulheres a contar as suas experiências, mas também um bando de homens ofendidos por nós mulheres nos sentirmos ofendidas por recebermos supostos elogios e por sermos umas ingratas e por sermos demasiado sensíveis e por não termos mais em que pensar.

Duvido muito que estes homens que acham os piropos inofensivos não tenham mães, irmãs, primas, filhas e amigas, as quais detestariam ver abordadas por desconhecidos na rua. Saberão eles que os piropos começam logo em criança e que pioram assim que as curvas começam a surgir? Saberão eles o que é andar na rua e querer desaparecer para dentro de um buraco para evitar olhares furtivos ou mesmo descarados, comentários despropositados e ordinarices? Saberão eles o que é levar com a mais leve sugestão de que a mulher é um ser inferior ao longo de toda a vida e depois dar de cara com situações em que é evidente que somos de alguma forma inferiores aos olhos dos outros, mas também inferiores fisicamente porque quem nos aborda é um matulão ou está em vantagem numérica? Duvido que saibam, mas neste caso a ignorância ou a burrice não são desculpa porque estamos no século XXI e eu nem sempre me sinto segura a andar na rua.

Vanessa