segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Vila Nova de Milfontes, foz do rio Mira, Praia das Furnas

Pelas oito da noite do dia 7 de Setembro dei o meu primeiro mergulho do ano, na Praia das Furnas em Vila Nova de Milfontes, onde a água é tão salgada que me fez duvidar estar tão perto da foz do rio Mira. O sol punha-se com uma lentidão alentejana, o que me permitiu fotografar nas últimas horas de luz estas cores que não se fazem assim em mais lado algum. Já estava a ficar frio e os meus lábios secavam o sal do mergulho. Num muro estavam sentados dois estrangeiros que na semana anterior tinha visto num museu em Lisboa e que por coincidência até aparecem nas fotos desse dia a olhar para um quadro. O mundo é sempre tão pequeno que sempre que vou para algum lado a mais de 100 quilómetros de distância encontro algum rosto conhecido.

Ao vasculhar estas fotos, que parecem ter sido tiradas há uma eternidade e mais uns dias, fiquei hipnotizada pelas cores. A minha lente manchou-se de maresia e a luz provocou efeitos que jamais seria capaz de reproduzir mesmo que quisesse. Não é costume publicar mais do que 20 e poucas fotos no mesmo post, mas desta vez não havia como escolher. Retirei algumas, mas ficam aqui a maioria das fotos de Vila Nova de Milfontes.
 

Vanessa

Simbologia e interpretações do filme Mãe! de Darren Aronofsky

Darren Aronofsky é daqueles realizadores que me faz ver filmes sem sequer ter visto o trailer e independentemente do tema. Foi assim que me apanharam na sala de cinema a ver Noé, filme que me desapontou o suficiente para agora ver em Mãe!, o mais recente filme de Aronofsky, e sentir-me vingada.

Façam-me aí uma lista de filmes mainstream dos últimos 10 anos que tenha despertado tanto burburinho e interpretações sobre o seu significado como Mãe! É verdade que quem desgostou, desgostou a sério, mas quem ficou intrigado gerou conteúdo interessante, o que é das coisas mais valiosas que fazemos enquanto humanidade. Que é uma das minhas interpretações do filme, além do teor altamente religioso.

Resumo com spoilers: se a Mãe Natureza casasse com (um) Deus, o resultado seria este: uma relação abusiva e muito desequilibrada. Deus é a única personagem nos créditos finais cujo nome, "Ele", começa com letra maiúscula, mas penso que pode representar qualquer deus e não apenas o judaico/católico. Este facto é reforçado pelo facto de que Ele frequentemente apelida a sua co-protagonista (e força opositora) de deusa.

Neste filme, Mãe é simbólico de criadora nata e progenitora, e Deus representante da criação artística. A casa simboliza o planeta, que pode não ser necessariamente a Terra. Pode ser o Éden ou uma realidade paralela. O intuito da Mãe é torná-lo um paraíso enquanto atende às necessidades de Deus.

Deus, por outro lado, está sempre mais preocupado com a criação e com os seguidores das suas criações. Mãe, também uma das suas criações, como se vê logo no início do filme, é ao mesmo tempo musa inspiradora e criadora por si só. O primeiro homem que visita a sua casa é claramente Adão. Numa das cenas vemos que tem o flanco ferido e pouco depois aparece a sua mulher, que representa Eva, que acaba com a sua solidão. 

O homem e a mulher, símbolos da humanidade, impõem a sua presença na casa e desdenham das preocupações de Mãe. Deus parece tão encantado com a atenção que deixa que façam o que bem lhes entender, excepto tocar no cristal que no início do filme gera a criação de Deus. Mas é claro que o casal também não o leva a sério, tal como aconteceu com o fruto proibido, o que os leva a deixar cair o cristal, que se despedaça.

Mais tarde surgem os dois filhos do casal, que recriam a história de Caim e Abel. O homicídio de Abel deixa na casa uma marca que surge ao longo do filme, tanto quanto o coração da casa vai aparecendo para demonstrar as consequências dos acontecimentos, e abrindo precedente para outros crimes que depois ocorrem.

Todo o primeiro acto do filme é a história do Antigo Testamento, no fundo. A criação artística que leva o Homem a visitar Deus para o idolatrar pode ser interpretada como sendo um dos livros da bíblia. 

O episódio dos convidados a destruírem o lava-loiças, criando uma fuga de água, simboliza o Dilúvio, que trava a vaga de visitantes indesejados por momentos, levando a que a relação da Mãe e de Deus se aprofunde e culmine na criação do filho. Este filho representa Jesus, sim, mas também a criação em si. 

Vemos que a gravidez inspira em Deus a escrita de um poema que se torna sucesso mundial. Talvez símbolo do Novo Testamento. Quando a sua escrita se torna famosa e a casa é de novo invadida, decorrem ao mesmo tempo motins, ataques terroristas, e sinais de fanatismo. São acontecimentos simbólicos de crimes em nome da religião. Vemos também pessoas a abençoar outras em nome de Deus enquanto a casa vai sendo destruída.

O filho que tanto representa Jesus como a criação artística, torna-se mais um fruto do trabalho da Mãe, que tenta em vão proteger a criança. Numa das cenas mais arrepiantes do filme, Deus, deslumbrado, mais uma vez deixa que a humanidade leve a sua avante, o que resulta na morte do bebé às suas mãos.

Quando Mãe se aproxima do local, vemos o bebé desmembrado e a ser consumido pela humanidade. Há aqui uma sátira em relação à comunhão católica, mas a cena pode também ser interpretada como uma crítica ao acto da criação artística, que é depois consumida com fervor e minuciosamente criticada em praça pública.

A casa é uma extensão da Mãe. Vemos mais tarde quando a Mãe se revolta que as suas acções são acompanhadas de sons como trovões, mas que quando a humanidade se rebela contra a mãe, o que ouvimos é sons de fogo de artifício. A humanidade consume a casa, levando pedaços dela para comprovar a presença no local, destruindo para proveito próprio, agindo sem se preocupar com as consequências dos seus actos.

Darren Aronofsky não quis comentar um dos pontos mais intrigantes da película, o medicamento de cor amarela que Mãe toma sempre que se sente mal, por isso a minha interpretação baseia-se em especulação. O medicamento simboliza, a meu ver, o Amor que cura todos os males, uma vez que quando descobre que está grávida, Mãe deita fora o remédio, sabendo que contém em si todo o amor possível, o amor de mãe. É por isso que Mãe se revolta a ponto de destruir a casa, após o fruto do seu amor ter sido destruído.

O medicamento pode também ser interpretado como sendo a ingenuidade ou a ignorância, talvez tendo sido adquirido por Deus, uma vez que Mãe parece fazer um reset sempre que o toma, e tudo fica bem depois do remédio tomado; ou a interpretação pode ser mais literal, como uma crítica ao consumo de medicamentos, que como efeito secundário nos tornam adormecidos e passivos perante a realidade.

No final, Mãe revolta-se a tal ponto que incendeia a casa, pegando fogo aos tanques de petróleo (mais uma crítica?) da casa. Ainda assim sobrevive e consegue oferecer a Deus uma última coisa, apesar de achar que já lhe tinha dado tudo o que podia: o cristal que permite a Deus reiniciar o ciclo, e o filme termina como começou.

Será o ciclo sempre assim, ou será que existe um ciclo diferente para cada um dos livros da bíblia, se assim interpretámos a criação literária de Deus? Será cada ciclo simbólico da realidade que vivemos, ou será que há mais realidades que desconhecemos e cada ciclo representa uma realidade diferente?

Será que Deus está preso no ciclo para sempre, ou existirá a possibilidade de que Mãe consiga perdoar a humanidade pelos seus actos e não gerar a destruição subsequente, terminando a história num final feliz?

A minha interpretação pode estar aquém das intenções de Darren Aronofsky. O filme pode ser uma representação de um vírus, tanto quanto sei, vírus esse que destrói o hóspede, ou pode ser uma crítica directa a relações abusivas, ou uma sátira em relação a doenças mentais. Cada um é livre de encontrar no filme a simbologia que melhor se adequa às suas crenças, tal como numa determinada cena cada leitor viu na obra d'Ele uma interpretação diferente da de outros, e alguém sentiu que as palavras eram dirigidas a si.

Este filme merece ser visto. Pode parecer pretensioso, e se calhar é, mas gera na audiência reacções viscerais e pede interpretação e crítica, acções importantes para a saúde mental e para a sociedade e o mundo.

A única certeza que tenho é a de que este é um filme de terror. Nisso concordo com a mulher que não se calou durante o filme, levada pela filha (daquelas tipas que põem os pés no assento da frente e abanam toda a fila de cadeiras) com a suposição de que ia ver um género diferente. Isto foi um filme de terror.

Porquê? O filme teve três planos, quase nenhum deles aberto, e a maioria centrada na face de Mãe. O filme tem como ponto de vista a Mãe e a audiência vê apenas o que a Mãe vê e ouve apenas o que a Mãe ouve. O mau da fita neste filme de terror é a humanidade. O mau da fita neste filme de terror é a audiência que assiste ao filme.

Há lá coisa mais aterrorizante que isso?

Vanessa

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Novas mudanças para o Cartão do Cidadão

Em Junho deste ano, a lei 32/2017 tornava obrigatório que as crianças tivessem Cartão do Cidadão nos primeiros 20 dias de vida, e estabelecia multas de 250 a 750 euros para quem fotocopiasse o cartão sem autorização. Agora há mais alterações, com a portaria 287/2017 a entrar em vigor a 2 de Outubro, segunda-feira.

Eis as novas mudanças para o Cartão do Cidadão:

1. Para quem tem mais de 25 anos, o CC passa a ter a validade de 10 anos em vez de cinco.

2. Em vez de 15 euros, passa para 18 euros o custo do cartão, mas para as renovações de cinco em cinco anos mantêm-se os 15. Para estes, o pedido urgente com entrega no máximo de três dias úteis fica em 33 euros, 50 euros para levantamento no dia seguinte, e 53 euros para os cartões com validade de 10 anos.

3. Solicitar ou renovar o CC online vai possível a partir de 2 de Dezembro, através do Portal do Cidadão, mas a entrega é feita em pessoa. Quanto às renovações, apenas podem ser alterados apelidos e ou a morada. Também passa a ser possível cancelar o CC no Portal do Cidadão e pelo telefone, através da Linha de Apoio ao Cidadão.

4. A portaria 291/2017 define "situações de redução, isenção ou gratuitidade" nos casos "em que o requerente comprove insuficiência económica ou se encontre internado em instituição de assistência ou de beneficência."

Era giro, já que se fartam de fazer alterações ao CC, que os vários serviços públicos fossem devidamente equipados com leitores para o chip do dito, coisa que nos dois cartões que já tive de fazer nunca chegaram a ser usados, primeiro porque os museus do meu município não tinham na altura o leitor para comprovar que eu era residente no concelho e concederem acesso gratuito (nunca mais pus os pés num para ver se já há), e segundo porque nem nos locais de voto há leitores de chip para evitar ter de mandar uma SMS a um número oficial, andar com o cartão antigo, ou saber o número de cor. Tão informatizados que somos.

Com as alterações passamos a pagar menos por comparação à modalidade anterior, mas não deixa de ser ridículo uma coisa que é obrigatória ser tão cara, especialmente ali com o potencial do chip por usar. Para aqueles que normalmente usam como argumento de suporte a aspectos assim para o chatinhos negativos da vida em Portugal (tipo coimas, preços em geral e regras) o facto de noutros países as coisas serem assim ou piores, frequentemente desconsiderando aspectos importantes (tipo custo de vida, ordenados médios, inflação), tenho a dizer que segundo a Wikipedia (é favor não desdenhar), o CC é gratuito em países como a França, a Hungria e a Grécia, e há países como a Islândia e a Noruega em que é opcional.

Vanessa

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Barragem de Santa Clara, rio Mira em Odemira, no Alentejo Litoral

A Barragem de Santa Clara fica a quatro quilómetros da freguesia de Odemira e foi construída durante o Estado Novo. "A albufeira cobre uma área de 1986 hectares, sendo considerada uma das maiores da Europa" diz o site oficial de Odemira. Nas águas desta barragem são permitidas práticas como canoagem, remo ou pesca desportiva, mas recentemente a atracção principal é a praia fluvial, devidamente vigiada e com bandeira azul. 

A minha primeira visita à barragem foi há uns cinco anos e durante o inverno. Agora no verão não só as cores são outras, como floresce o convívio neste espaço pequeno e acolhedor, onde foi colocada uma piscina de água doce. Toda a paisagem é convidativa. Em termos de equipamentos, a barragem tem duas áreas com mesas para quem traz a merenda, e casas-de-banho. Há também um único vendedor com uma banca improvisada, e embora a oferta não seja abundante, o senhor é generoso e vende bolinhos, sandes, água, e cerveja fresca. Tudo aquilo serve para consumo próprio também, como fiquei a saber, por isso a oferta é limitada ao stock existente.

O acesso para a praia fluvial não é dos melhores, mas a piscina vale a pena o esforço. A água é agradável, sempre fria para mim, mas tépida por comparação às praias do país, e os peixinhos parecem estar habituados ao convívio com humanos. O pavimento da piscina pode ser escorregadio e aquecer com o sol, por isso aconselho o uso de chinelos. De resto, uma visita à Barragem de Santa Clara recomenda-se. Ora vejam as fotos:

Vanessa