segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Vila Nova de Milfontes, foz do rio Mira, Praia das Furnas

Pelas oito da noite do dia 7 de Setembro dei o meu primeiro mergulho do ano, na Praia das Furnas em Vila Nova de Milfontes, onde a água é tão salgada que me fez duvidar estar tão perto da foz do rio Mira. O sol punha-se com uma lentidão alentejana, o que me permitiu fotografar nas últimas horas de luz estas cores que não se fazem assim em mais lado algum. Já estava a ficar frio e os meus lábios secavam o sal do mergulho. Num muro estavam sentados dois estrangeiros que na semana anterior tinha visto num museu em Lisboa e que por coincidência até aparecem nas fotos desse dia a olhar para um quadro. O mundo é sempre tão pequeno que sempre que vou para algum lado a mais de 100 quilómetros de distância encontro algum rosto conhecido.

Ao vasculhar estas fotos, que parecem ter sido tiradas há uma eternidade e mais uns dias, fiquei hipnotizada pelas cores. A minha lente manchou-se de maresia e a luz provocou efeitos que jamais seria capaz de reproduzir mesmo que quisesse. Não é costume publicar mais do que 20 e poucas fotos no mesmo post, mas desta vez não havia como escolher. Retirei algumas, mas ficam aqui a maioria das fotos de Vila Nova de Milfontes.
 

Vanessa

Simbologia e interpretações do filme Mãe! de Darren Aronofsky

Darren Aronofsky é daqueles realizadores que me faz ver filmes sem sequer ter visto o trailer e independentemente do tema. Foi assim que me apanharam na sala de cinema a ver Noé, filme que me desapontou o suficiente para agora ver em Mãe!, o mais recente filme de Aronofsky, e sentir-me vingada.

Façam-me aí uma lista de filmes mainstream dos últimos 10 anos que tenha despertado tanto burburinho e interpretações sobre o seu significado como Mãe! É verdade que quem desgostou, desgostou a sério, mas quem ficou intrigado gerou conteúdo interessante, o que é das coisas mais valiosas que fazemos enquanto humanidade. Que é uma das minhas interpretações do filme, além do teor altamente religioso.

Resumo com spoilers: se a Mãe Natureza casasse com (um) Deus, o resultado seria este: uma relação abusiva e muito desequilibrada. Deus é a única personagem nos créditos finais cujo nome, "Ele", começa com letra maiúscula, mas penso que pode representar qualquer deus e não apenas o judaico/católico. Este facto é reforçado pelo facto de que Ele frequentemente apelida a sua co-protagonista (e força opositora) de deusa.

Neste filme, Mãe é simbólico de criadora nata e progenitora, e Deus representante da criação artística. A casa simboliza o planeta, que pode não ser necessariamente a Terra. Pode ser o Éden ou uma realidade paralela. O intuito da Mãe é torná-lo um paraíso enquanto atende às necessidades de Deus.

Deus, por outro lado, está sempre mais preocupado com a criação e com os seguidores das suas criações. Mãe, também uma das suas criações, como se vê logo no início do filme, é ao mesmo tempo musa inspiradora e criadora por si só. O primeiro homem que visita a sua casa é claramente Adão. Numa das cenas vemos que tem o flanco ferido e pouco depois aparece a sua mulher, que representa Eva, que acaba com a sua solidão. 

O homem e a mulher, símbolos da humanidade, impõem a sua presença na casa e desdenham das preocupações de Mãe. Deus parece tão encantado com a atenção que deixa que façam o que bem lhes entender, excepto tocar no cristal que no início do filme gera a criação de Deus. Mas é claro que o casal também não o leva a sério, tal como aconteceu com o fruto proibido, o que os leva a deixar cair o cristal, que se despedaça.

Mais tarde surgem os dois filhos do casal, que recriam a história de Caim e Abel. O homicídio de Abel deixa na casa uma marca que surge ao longo do filme, tanto quanto o coração da casa vai aparecendo para demonstrar as consequências dos acontecimentos, e abrindo precedente para outros crimes que depois ocorrem.

Todo o primeiro acto do filme é a história do Antigo Testamento, no fundo. A criação artística que leva o Homem a visitar Deus para o idolatrar pode ser interpretada como sendo um dos livros da bíblia. 

O episódio dos convidados a destruírem o lava-loiças, criando uma fuga de água, simboliza o Dilúvio, que trava a vaga de visitantes indesejados por momentos, levando a que a relação da Mãe e de Deus se aprofunde e culmine na criação do filho. Este filho representa Jesus, sim, mas também a criação em si. 

Vemos que a gravidez inspira em Deus a escrita de um poema que se torna sucesso mundial. Talvez símbolo do Novo Testamento. Quando a sua escrita se torna famosa e a casa é de novo invadida, decorrem ao mesmo tempo motins, ataques terroristas, e sinais de fanatismo. São acontecimentos simbólicos de crimes em nome da religião. Vemos também pessoas a abençoar outras em nome de Deus enquanto a casa vai sendo destruída.

O filho que tanto representa Jesus como a criação artística, torna-se mais um fruto do trabalho da Mãe, que tenta em vão proteger a criança. Numa das cenas mais arrepiantes do filme, Deus, deslumbrado, mais uma vez deixa que a humanidade leve a sua avante, o que resulta na morte do bebé às suas mãos.

Quando Mãe se aproxima do local, vemos o bebé desmembrado e a ser consumido pela humanidade. Há aqui uma sátira em relação à comunhão católica, mas a cena pode também ser interpretada como uma crítica ao acto da criação artística, que é depois consumida com fervor e minuciosamente criticada em praça pública.

A casa é uma extensão da Mãe. Vemos mais tarde quando a Mãe se revolta que as suas acções são acompanhadas de sons como trovões, mas que quando a humanidade se rebela contra a mãe, o que ouvimos é sons de fogo de artifício. A humanidade consume a casa, levando pedaços dela para comprovar a presença no local, destruindo para proveito próprio, agindo sem se preocupar com as consequências dos seus actos.

Darren Aronofsky não quis comentar um dos pontos mais intrigantes da película, o medicamento de cor amarela que Mãe toma sempre que se sente mal, por isso a minha interpretação baseia-se em especulação. O medicamento simboliza, a meu ver, o Amor que cura todos os males, uma vez que quando descobre que está grávida, Mãe deita fora o remédio, sabendo que contém em si todo o amor possível, o amor de mãe. É por isso que Mãe se revolta a ponto de destruir a casa, após o fruto do seu amor ter sido destruído.

O medicamento pode também ser interpretado como sendo a ingenuidade ou a ignorância, talvez tendo sido adquirido por Deus, uma vez que Mãe parece fazer um reset sempre que o toma, e tudo fica bem depois do remédio tomado; ou a interpretação pode ser mais literal, como uma crítica ao consumo de medicamentos, que como efeito secundário nos tornam adormecidos e passivos perante a realidade.

No final, Mãe revolta-se a tal ponto que incendeia a casa, pegando fogo aos tanques de petróleo (mais uma crítica?) da casa. Ainda assim sobrevive e consegue oferecer a Deus uma última coisa, apesar de achar que já lhe tinha dado tudo o que podia: o cristal que permite a Deus reiniciar o ciclo, e o filme termina como começou.

Será o ciclo sempre assim, ou será que existe um ciclo diferente para cada um dos livros da bíblia, se assim interpretámos a criação literária de Deus? Será cada ciclo simbólico da realidade que vivemos, ou será que há mais realidades que desconhecemos e cada ciclo representa uma realidade diferente?

Será que Deus está preso no ciclo para sempre, ou existirá a possibilidade de que Mãe consiga perdoar a humanidade pelos seus actos e não gerar a destruição subsequente, terminando a história num final feliz?

A minha interpretação pode estar aquém das intenções de Darren Aronofsky. O filme pode ser uma representação de um vírus, tanto quanto sei, vírus esse que destrói o hóspede, ou pode ser uma crítica directa a relações abusivas, ou uma sátira em relação a doenças mentais. Cada um é livre de encontrar no filme a simbologia que melhor se adequa às suas crenças, tal como numa determinada cena cada leitor viu na obra d'Ele uma interpretação diferente da de outros, e alguém sentiu que as palavras eram dirigidas a si.

Este filme merece ser visto. Pode parecer pretensioso, e se calhar é, mas gera na audiência reacções viscerais e pede interpretação e crítica, acções importantes para a saúde mental e para a sociedade e o mundo.

A única certeza que tenho é a de que este é um filme de terror. Nisso concordo com a mulher que não se calou durante o filme, levada pela filha (daquelas tipas que põem os pés no assento da frente e abanam toda a fila de cadeiras) com a suposição de que ia ver um género diferente. Isto foi um filme de terror.

Porquê? O filme teve três planos, quase nenhum deles aberto, e a maioria centrada na face de Mãe. O filme tem como ponto de vista a Mãe e a audiência vê apenas o que a Mãe vê e ouve apenas o que a Mãe ouve. O mau da fita neste filme de terror é a humanidade. O mau da fita neste filme de terror é a audiência que assiste ao filme.

Há lá coisa mais aterrorizante que isso?

Vanessa

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Novas mudanças para o Cartão do Cidadão

Em Junho deste ano, a lei 32/2017 tornava obrigatório que as crianças tivessem Cartão do Cidadão nos primeiros 20 dias de vida, e estabelecia multas de 250 a 750 euros para quem fotocopiasse o cartão sem autorização. Agora há mais alterações, com a portaria 287/2017 a entrar em vigor a 2 de Outubro, segunda-feira.

Eis as novas mudanças para o Cartão do Cidadão:

1. Para quem tem mais de 25 anos, o CC passa a ter a validade de 10 anos em vez de cinco.

2. Em vez de 15 euros, passa para 18 euros o custo do cartão, mas para as renovações de cinco em cinco anos mantêm-se os 15. Para estes, o pedido urgente com entrega no máximo de três dias úteis fica em 33 euros, 50 euros para levantamento no dia seguinte, e 53 euros para os cartões com validade de 10 anos.

3. Solicitar ou renovar o CC online vai possível a partir de 2 de Dezembro, através do Portal do Cidadão, mas a entrega é feita em pessoa. Quanto às renovações, apenas podem ser alterados apelidos e ou a morada. Também passa a ser possível cancelar o CC no Portal do Cidadão e pelo telefone, através da Linha de Apoio ao Cidadão.

4. A portaria 291/2017 define "situações de redução, isenção ou gratuitidade" nos casos "em que o requerente comprove insuficiência económica ou se encontre internado em instituição de assistência ou de beneficência."

Era giro, já que se fartam de fazer alterações ao CC, que os vários serviços públicos fossem devidamente equipados com leitores para o chip do dito, coisa que nos dois cartões que já tive de fazer nunca chegaram a ser usados, primeiro porque os museus do meu município não tinham na altura o leitor para comprovar que eu era residente no concelho e concederem acesso gratuito (nunca mais pus os pés num para ver se já há), e segundo porque nem nos locais de voto há leitores de chip para evitar ter de mandar uma SMS a um número oficial, andar com o cartão antigo, ou saber o número de cor. Tão informatizados que somos.

Com as alterações passamos a pagar menos por comparação à modalidade anterior, mas não deixa de ser ridículo uma coisa que é obrigatória ser tão cara, especialmente ali com o potencial do chip por usar. Para aqueles que normalmente usam como argumento de suporte a aspectos assim para o chatinhos negativos da vida em Portugal (tipo coimas, preços em geral e regras) o facto de noutros países as coisas serem assim ou piores, frequentemente desconsiderando aspectos importantes (tipo custo de vida, ordenados médios, inflação), tenho a dizer que segundo a Wikipedia (é favor não desdenhar), o CC é gratuito em países como a França, a Hungria e a Grécia, e há países como a Islândia e a Noruega em que é opcional.

Vanessa

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Barragem de Santa Clara, rio Mira em Odemira, no Alentejo Litoral

A Barragem de Santa Clara fica a quatro quilómetros da freguesia de Odemira e foi construída durante o Estado Novo. "A albufeira cobre uma área de 1986 hectares, sendo considerada uma das maiores da Europa" diz o site oficial de Odemira. Nas águas desta barragem são permitidas práticas como canoagem, remo ou pesca desportiva, mas recentemente a atracção principal é a praia fluvial, devidamente vigiada e com bandeira azul. 

A minha primeira visita à barragem foi há uns cinco anos e durante o inverno. Agora no verão não só as cores são outras, como floresce o convívio neste espaço pequeno e acolhedor, onde foi colocada uma piscina de água doce. Toda a paisagem é convidativa. Em termos de equipamentos, a barragem tem duas áreas com mesas para quem traz a merenda, e casas-de-banho. Há também um único vendedor com uma banca improvisada, e embora a oferta não seja abundante, o senhor é generoso e vende bolinhos, sandes, água, e cerveja fresca. Tudo aquilo serve para consumo próprio também, como fiquei a saber, por isso a oferta é limitada ao stock existente.

O acesso para a praia fluvial não é dos melhores, mas a piscina vale a pena o esforço. A água é agradável, sempre fria para mim, mas tépida por comparação às praias do país, e os peixinhos parecem estar habituados ao convívio com humanos. O pavimento da piscina pode ser escorregadio e aquecer com o sol, por isso aconselho o uso de chinelos. De resto, uma visita à Barragem de Santa Clara recomenda-se. Ora vejam as fotos:

Vanessa

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Atenção: aqui há muita secura XXV

Pedi um peixe na loja de animais. Perguntaram se queria um aquário. Mas que me interessa o signo dele?

Secas fresquinhas sempre à mão aqui. Oxímoros às vezes também.

Vanessa

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Notas sobre procedimentos concursais e provas de conhecimentos

Se há coisa que sei fazer é preencher formulários. Nos procedimentos concursais o preenchimento correcto é logo factor de exclusão  na primeira fase, porque basta uma pessoa não assinar as páginas do currículo anexo (ou esquecer-se de anexar o currículo e certificado de habilitações como aconteceu a alguns candidatos) para ser desclassificada. Recentemente candidatei-me a uma vaga para a junta de freguesia e cheguei à conclusão que mais valia nem sequer saber preencher o formulário. Ao menos não prolongava a ténue esperança de conseguir ser um dos sete cães a sacar o osso. Neste caso devíamos ser uma centena e picos para dois míseros ossos.

Mas uma pessoa pensa naquela máxima do tentar não custa. Só que no caso dos procedimentos concursais, só a impressão da legislação para a prova de conhecimentos, segunda fase do processo, chega a passar a barreira dos 20 euros, e isto se encontrarmos uma daquelas lojas que imprimem a granel. Depois há também o tempo precioso que se perde, o nervoso miudinho que invariavelmente dá cabo da rotina de uma pessoa, e no meu caso, voltar a entrar numa escola onde já fui tão feliz na minha ingenuidade, desta vez com três décadas de existência, e sentir-me idosa, burrinha e estrangeira onde em tempos me senti jovem, inteligente e em casa.

Vi os candidatos do turno anterior da prova saírem confiantes e sorridentes. Alguns dos colegas do meu turno tiveram a sorte de aceder a comentários em primeira-mão sobre o exame e eu não fiz orelhas moucas, porque acredito na igualdade de oportunidades. Mas nenhum dos comentários foi útil.

A prova de conhecimentos pode ser com consulta e ter questões de escolha múltipla, mas isso não facilita de todo o processo no meu caso. A sala escolhida não tinha mesas, mas sim cadeiras com uma pequena tábua que mal dava para meia página. A legislação ficou no colo. Uma resma de papel no colo a ser constantemente manipulada é obra. Quem fez a prova achou por bem misturar os decretos-lei e colocar as questões salteadas, e para isso dava mesmo jeito ter uma mesa, para ter aquilo tudo espalhado e à mão.

Há muito tempo que não me sentia tão desadequada. Apesar de ter lido por alto os temas, 60 minutos são escassos para chegar a todas as palavras-chave e sacar dos decretos a informação necessária. Desconfio que havia uma ou duas perguntas com rasteira, mas não me posso queixar. A prova de conhecimentos não era difícil. Eu é que não tenho habilidade para estas andanças. Convenhamos. Se eu quisesse estudar as leis e argumentar com base nelas tinha ido para direito. Fui para essa área? Não, porque tenho noção do que sou capaz de fazer.

A escolha múltipla até pode parecer uma facilidade. Neste caso, cada resposta errada descontava meio valor, por isso mais valia deixar em branco em caso de dúvida e não responder ao calhas para ver se dá sorte. Zero é melhor do que números negativos. Foi o que aconteceu em algumas questões. Não consegui encontrar as respostas na resma de papel e o tempo estava a esgotar-se. Ainda respondi a duas ao calhas, seguindo o instinto e o senso comum, mas não me parece que algumas das leis se baseiem em senso comum.

As duas perguntas de desenvolvimento eram afirmações às quais me apeteceu responder apenas com um: "Está bem". Numa consegui argumentar porque encontrei a frase num decreto-lei. Basicamente senti que tinha repetido a pergunta quase toda, mas com um contexto legal. A outra pergunta dizia que a junta de freguesia tinha recebido um auto policial porque o dono de um cão o estava a passear sem trela. Aí optei por citar um decreto-lei sobre as competências da autarquia no que respeita aos animais. Quando encontrei um outro mais específico que referia o uso da trela e o estava a rascunhar, o tempo terminou.

Precisava de mais 30 minutos e ficava tudo preenchido e com mais nexo. Nem tive tempo de usar a folha de rascunho. Para relembrar ainda mais os tempos de escola, enquanto arrumava as coisas fiquei a ouvir os comentários de pessoas que se conheciam, e cheguei à conclusão de que devo ter feito tudo mal. Que saudades tinha eu destes momentos no final dos exames, onde me apercebia de que tinha argumentado com base numa parte errada da matéria e que nem o esforço me ia valer de coisa alguma ou que tinha percebido mal uma questão, e daquele sentimento de o estômago se fundar um bocadinho dentro de mim.

Depois de qualquer tipo de actividade que implique estudo fico também a questionar-me sobre a minha capacidade mental actual, que com certeza não é a mesma de quando frequentava a escolaridade mínima. Mas já na altura era assim. A diferença é que era mais fácil estudar quando só tinha isso para fazer.

Ou isso, ou alguns neurónios ficaram pelo caminho quando entrei no mercado de trabalho.

Esta foi a minha segunda experiência num procedimento concursal, que a meu ver está já terminada, porque no melhor dos casos, contando com os descontos das erradas, fico ali com um 9. Mas o que sei eu sobre isto? Contas e leis não são comigo. Espero encontrar outra vaga nos próximos tempos para poder usar novamente esta resma de papel que na verdade merecia ser de imediato reciclada em papel higiénico.

Vanessa

O cúmulo da modernidade

Três mulheres com ar de estarem na faixa etária dos 60/70 anos de idade, no café, a discutirem as últimas cusquices novidades com base no Facebook. Nunca ouvi likes serem levados tão a peito. A discussão sobre os comentários dos amigos virtuais, alguns deles parentes na vida real, é especialmente interessante.

Há também aquela amiga cínica que perdeu parte da reforma, mas fez like à página daquele político.

Há uma outra que foi viajar e só postou fotos tremidas que nem dá para se ver qual foi o destino de sonho. 

E então e aquela que não sabe que só usar o caps lock faz parecer que está a gritar às pessoas?

Três mulheres com ar experiente que não gostam de usar o chat, dizem elas. É tão desumano. Tão impessoal. Uma pessoa até pode usar aquelas carinhas amarelas, mas não é o mesmo que falar face a face.

E eu a sorrir de mim para mim e a pensar que ainda dizem que a tecnologia dá cabo da interacção social.

Vanessa

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Primeira

O primeiro dia da semana não se chama primeira-feira, mas segunda-feira porque antigamente os agricultores faziam uma feira ao domingo e o que restava era vendido na segunda feira, hoje a segunda-feira.

Continua a não me fazer sentido e parece que todas as semanas o primeiro dia é perdido, porque o domingo é alegadamente o fim da semana que passou, não o primeiro dia da semana, e depois vem a segunda.

Isto de não haver uma primeira-feira sempre me desconcertou. Se a segunda-feira é o primeiro dia de trabalho da semana, a primeira-feira devia ser um dia extra de descanso e as semanas deviam ter oito dias.

Onde posso reclamar para ter as primeiras-feiras de volta?

Vanessa

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Receita vegana facílima dedicada ao Wuant

Fazer um arrozinho, de preferência integral (há umas marcas que até têm arroz de fazer no microondas). Juntar um qualquer feijão enlatado. Num prato colocar uma cama de verdes já preparados, retirados de uma embalagem. Despejar para cima o arroz e o feijão. Dicas: juntar uns pickles (neste caso pimentos vermelhos de piquillo) ou um chucrute, condimentar com alho e/ou cebola em pó, molho de soja, chili, ketchup, etc.

Dedico esta receita, que na verdade é só uma questão de somar no prato uns quantos ingredientes já prontos, ao Wuant, YouTuber português com 2,320,151 subscritores (e não, não é daqueles número aleatórios que às vezes escrevo só para exemplificar uma quantidade enorme). Sei que ficaste triste por largar pelo menos temporariamente o vegetarianismo porque te vi chorar naquele vídeo em que falas sobre isso, por isso achei que devia ajudar, especialmente porque a razão principal citada foi a preguiça que deu origem a problemas de saúde. Acredito piamente no direito à preguiça e até no direito ao consumo de proteína animal, mas...

Lamento que uma pessoa tão influente junto do público jovem perpetue mitos como a anemia ser comum na comunidade de vegetarianos e a única solução para a doença ser o consumo de proteína animal ou suplementos médicos. Eu e o feijão, o grão, os frutos secos, a quinoa e até as ervilhas estamos ligeiramente ofendidos com certas declarações. Qualquer um de nós é livre para fazer as escolhas que bem entender e para mudar de ideias quando lhe apetecer, mas neste caso compreendia melhor a decisão se tivesses dito que gostavas do sabor de um churrasco, de um peixinho grelhado, de marisco, ou qualquer coisa do género.

Assinado,
Uma pessoa razoavelmente informada que moralmente faz o melhor que pode, mas que gosta do sabor de um churrasco, de um peixinho grelhado, de marisco e que por vezes até desfruta de algumas destas coisas.

Vanessa

Desaceleramento

Cheguei à conclusão que tenho várias publicações começadas e até fotos que quero publicar que fazem este mês um ano. Estão no limbo. Estão um pouco como eu, à espera de certos dias em que tenho actividades marcadas que me consomem espaço mental, ou simplesmente à espera duma nesga de tempo.

Sinto que estou sempre a falar de tempo e espaço. Einstein, desculpa-me.

Por outro lado, ganhei o hábito de acelerar os vídeos que vejo para 1.25 de velocidade. Uma ligeira alteração, um discurso mais rápido, mas o mesmo resultado. Acho eu. Não sei se absorvo da mesma forma a esta velocidade por comparação à velocidade natural. Mais conteúdo, ligeiramente menos tempo. Parece-me um bom negócio.

Se ao menos também eu conseguisse aumentar a minha velocidade de execução para 1.25...

Vanessa

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Frases expiradoras

Se há coisa que me faz revirar os olhos de tal forma que temo ficar com eles revirados para sempre é estar numa rede social e ver fotos de paisagens ou pessoas aleatórias com frases supostamente profundas, cunhadas por desconhecidos (ou pior, erradamente atribuídas a celebridades). Normalmente são frases como aquela de recolher as pedras do caminho para fazer um castelo ou carpe diem ou indirectas para alguém em especial ou para a sociedade no geral. Normalmente são publicadas por pessoal das gerações que me antecedem, se bem que já vi pessoal da minha idade que fizesse isso. Tudo gente que estava melhor a ler um livro.

Para as últimas frases desse género que li, frases supostamente motivadoras ou inspiradoras, eis uma outra perspectiva. Vou usar aspas porque vou citar as frases como as li, não para respeitar direitos de autor.

"As melhores coisas da vida não têm preço".
As melhores coisas da vida são habitualmente bem caras.

"Todos os dias são uma nova oportunidade".
Todos os dias são uma nova oportunidade... para nos arrependermos de não termos ficado na cama.

"Quem não está comigo no meu pior, não merece estar comigo no melhor."
Quem não está comigo no meu pior não sabe que esse é o meu melhor.

"A vida são dois dias".
Vai aprender a contar.

"Não chores porque já terminou, sorri porque aconteceu". Gabriel García Marquez (?)
Não. Sorri porque terminou.

"Se nunca acreditares em ti, ninguém acreditará."
Se nunca acreditares em ti, também nunca serás desapontado.

Por último...

Foto tirada no Castelo de Santiago do Cacém, no Alentejo.

Vanessa

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Página refrescada

As férias são um estado de espírito. São processo de escape, de fuga, de exílio voluntário. Ir de férias consiste em deixar cair a rotina, levar uma mala com tudo aquilo com que na realidade podíamos viver caso a nossa casa ardesse, esquecer o corre-corre, conhecer novos lugares com uma paz de espírito desencantada sabe-se lá de onde, desentranharmos de nós uma simpatia, que fica tão frequentemente esquecida quando a autoridade da obrigação nos afasta de nós próprios, e que nos desperta sorrisos enterrados, e deixar que a vontade guie acções como se nunca o pudéssemos fazer, quando na verdade nunca nada concreto o proibiu.

Da mesma forma que dizer que estamos de dieta activa no cérebro várias barreiras, dizer que estamos de férias tem o efeito contrário e abre-se caminho para todas as possibilidades que o tempo livre proporciona. No meu caso, nunca fui muito fã de férias quando era mais nova, principalmente porque raramente tinha férias em família, como idas ao Algarve ou à terra, mas também porque me cansava facilmente da liberdade.

Hoje quase me parece sacrilégio. Tirar uns dias é sempre importante para o bom funcionamento mental. Embora seja difícil desligar de tudo, especialmente porque agora tenho um smartphone e há internet em todo o lado, só o facto de ter deitado fora a responsabilidade e os deveres já é suficiente para conseguir respirar fundo.

Agora estou de volta e bem respirada.

Vanessa

Avaliação Literária | Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie

Em Os Versículos SatânicosSalman Rushdie conta as peripécias de Gibreel Farishta e Saladin Chamcha, dois actores indianos, únicos sobreviventes de um ataque terrorista ao avião em que viajam. Confesso que mais do que isso, pouco percebi do livro em termos de alegorias e metáforas religiosas, uma vez que é disso que se trata esta obra, que causou e ainda causa controvérsia por subverter aspectos da religião islâmica.

Os protagonistas começam a sofrer alterações físicas que os tornam manifestações do bem e do mal. Saladin Chamcha começa a transformar-se num bode e Gibreel Farishta ganha uma auréola. Ambos agem de acordo com as suas características em cenas que desafiam a realidade, mas Gibreel parece perder a noção da realidade a certa altura. Eu própria comecei a perder a noção da realidade do livro a certa altura.

Além da referência no título, que alude aos versículos satânicos retirados do Corão pelo Profeta Maomé, outras referências do livro deturpam o islamismo ao ponto de chegarem à sátira ou, segundo a comunidade muçulmana, à ofensa. Rushdie traçou a estória a partir dos dois protagonistas, ambos perturbados por uma razão ou outra de tal forma que sofrem alucinações ou imaginam alguns dos episódios, desenhando neste livro um quadro de imagens religiosas e profanas, acontecimentos bizarros, e estórias e histórias pontuadas por personagens que servem de muleta ou travão aos conflitos entre Gibreel e Saladin.

Houve com toda a certeza muito que me escapou nesta primeira leitura d'Os Versículos Satânicos, especialmente porque nunca o imaginei tão ficcional e alegórico. Foi o ponto de partida para um estudo mais aprofundado da religião em causa, de crenças e fábulas, e de uma cultura que me é desconhecida. 

Sinto que deveria ter lido este livro em inglês para perceber melhor trocadilhos, que na versão portuguesa vieram explicados, mas que teriam sido melhor compreendidos com a versão original, mas uma vez que me pareceu uma leitura algo maçuda por ser complexa, talvez com o livro em inglês tivesse demorado bem mais a embrenhar-me na estória. Foi um daqueles livros que custou um pouco a engrenar.

Fora isso, foi uma leitura enriquecedora a repetir daqui a alguns anos.

7/10

Vanessa

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Atenção: aqui há muita secura XXIV

Ginásio é o nome que dou à minha casa de banho. 

Agora posso dizer que a primeira coisa que faço quando acordo é ir ao ginásio.

O Alentejo é uma região seca. Vou para lá uns dias ver se é. Pode ser que me inspire para mais tiradas secas assim. Ou pode ser que o meu cérebro se desligue. Entretanto, há aqui entretenimento que baste.

Vanessa

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Excertos fantásticos e onde encontrá-los II

"Se alguma vez tentarem explicar-te que este planeta (...) é uma coisa homogénea, composta apenas de elementos conciliáveis, que tudo o que acontece faz sentido, o melhor que tens a fazer é ir a correr telefonar para o alfaiate de camisas de força (...) O mundo é incoerente, nunca te esqueças: gagá. Fantasmas, nazis, santos, todos a viverem ao mesmo tempo; acolá, a felicidade absoluta, e um bocado mais adiante o Inferno. É impossível imaginar um sítio mais disparatado". Em Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie.

Vanessa

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A arte da compreensão ou a compreensão da arte

Esforço-me por ser ambiciosa naquilo que escolho consumir nos tempos livros, mas às vezes é difícil não sentir a frustração que me traz a consciência da minha própria ignorância face à criação alheia. Tive uma professora que dizia que os gostos educam-se, mas os meus são por vezes rebeldes ou apenas difíceis de contentar.

Muitas vezes olho para obras de arte e não as consigo ver. Muitas vezes oiço música clássica que não consigo escutar. Muitas vezes leio livros e vejo filmes que não consigo compreender. Tudo isso causa-me frustração, ainda que não a suficiente para me fazer desistir, mas frustração suficiente para odiar a minha ignorância.

E tento alimentar a ignorância com variedade, ora observando obras fotográficas, porque as sombras são fáceis de analisar, ora quadros dos quais nem por sombras conseguiria extrair significado; ora ouvindo hits de música pop, ora canções indie ou sinfonias clássicas; ora lendo obras de autores de ficção fácil de digerir, ora outros que me fazem crer que deveria antes ver um documentário ou ler outros livros para perceber o que escrevem.

Tenho a mente aberta para a aprendizagem mas fechada para o incompreensível, e a busca de significado acaba por ficar prostrada diante da mera tentativa. Não deixam de ser tentativas legítimas ainda que saiba de princípio que sairão frustradas, porque a beleza não tem de ter o mesmo significado para os que consomem e para os que criam. A beleza não tem de ter significado sequer. Uma aurora boreal há-de ser bonita mesmo que não percebamos o fenómeno que a cria. O mesmo se passa com qualquer criação, natural ou humana.

Com o passar do tempo, descobri que há beleza também na minha ignorância. A beleza alimenta-se de cada tentativa. Aquilo de a viagem ser tão importante como o destino final. Na cultura, e é essa uma das razões da sua importância, o destino final é o receptáculo. Varia consoante os sentidos, a experiência e a consciência do destinatário. Às vezes pode ser apenas um despertar de consciência. Ou ter o efeito contrário.

Foi então que no fim-de-semana fui ao Museu da Electricidade e perante várias obras de arte incompreensíveis ou só bonitas na sua complexidade sem significado ou definição, uma rapazinho aponta para uma peça de porcelana cheia de buracos da colecção de cerâmica Branco e Azul da autoria de Bai Ming e diz à mãe: "Queijo!" Além de me provocar uma gargalhada, o miúdo lembrou-me da sensatez e da sensibilidade criativa que as crianças têm por comparação aos adultos, e a arte pode perfeitamente ser uma forma de nos esquecermos de ser adultos e olharmos como crianças para as obras. Os olhos infantis vêem mais e melhor. Em alternativa, acho que vou passar a seguir as crianças em museus e galerias, e vou ficar atenta aos seus comentários.

Vanessa

Atenção: aqui há muita secura XXIII

O meu amigo partiu o braço esquerdo e a perna esquerda. Ficou um amigo às direitas.

Porque a secura não tira férias.

Vanessa

sábado, 2 de setembro de 2017

Atenção: aqui há muita secura XXII

Quando Schrödinger quis tratar o seu gato, o veterinário disse-lhe: "Tenho boas notícias e más notícias".


Vanessa

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Despejo de divagações

Já não tenho idade para fazer o Cartão Jovem. É assim que a dura realidade às vezes nos acorda para a vida, ou neste caso para a pergunta: para onde foi? O tempo, claro. A juventude, parte dela. Sempre senti que tenho de ser simultaneamente adulta, desde quando não era, e que ao mesmo tempo não tenho direito de crescer como deve ser. Acho que sou uma planta num vaso muito pequeno a tentar sair, com pernas que não tenho, para um jardim. Claramente algo mudou, que eu não costumava criar metáforas tão parvinhas, nem os meus parágrafos costumavam ser tão compridos, nem eu tinha tanta disponibilidade ou vontade para ser sincera.

Hoje é o dia daquela última cena do último filme do Harry Potter. Quando fui ver o filme senti que estava deslocada, porque era só miúdos naquela sala de cinema, e que tinha terminado ali o meu direito de ser jovem. A última cena passava-se a 1 de Setembro de 2017. Hoje. O filme saiu há seis anos. Em seis anos continuo no impasse entre ser jovem e ser adulta. Não me importa o limbo, excepto o facto de ele me lembrar uma idade que sinto que não tenho ou que não devia ter pelo muito que há ainda por fazer. Talvez nos próximos 30.

Recuperei o hábito de escrever cartas. Na verdade, nunca se perdeu. Tem fases. Voltei a ter contacto com uma amiga por correspondência com quem não falava há cinco anos. Ela mandou-me fotos do casamento. Em cinco anos casou, teve um filho, abriu um negócio e está a pensar fazer cerveja artesanal. Ah, e começou finalmente a escrever e já tem 50 mil palavras de um possível livro. Olha, obrigadinho. Olho para os meus últimos cinco anos e agora não sei o que lhe escrever de volta. Há cinco anos ainda era jornalista, já o pavio a queimar no fim dessa vela. Nestes cinco anos que passaram num ápice deixei de ser uma coisa e passei a ser outra.

Mas olha, ainda sou uma pessoa, ainda sou jovem, ainda escrevo cartas, ainda gosto do Harry Potter, ainda escrevo em metáforas, ainda quero fazer o Cartão Jovem, mas já não posso, ainda tenho em mim um lado infantil, ainda acho que um dia vou escrever a sério e ter mais de 50 mil palavras, gosto mais de cerveja artesanal do que da generalista, ainda sou adulta mas com um lado infantil, ainda estou a tentar sair do vaso, e pode ser que não consiga preencher as mesmas 10 páginas A5 para mandar uma carta de volta à que ela enviou do outro lado do Atlântico para esta ponta da Europa, até porque acho que com sonhos e divagações conseguia na boa 50 mil palavras, só tenho é de saber quantas páginas isso dá e depois quantos selos são precisos.

Desculpa a caligrafia. As minhas mãos já só sabem usar o teclado.

Vanessa

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O Senhor das Moscas em versão feminina... feita por homens

William Golding, autor de O Senhor das Moscas, era frequentemente questionado sobre a escolha de ter como protagonistas do seu livro 12 rapazes em vez de raparigas. O escritor dizia que era em parte por ele próprio ser homem. Além disso, "penso que as mulheres são tolas em fingirem que são iguais aos homens. São bastante superiores e sempre foram", disse Golding numa entrevista. No entanto, o escritor sentia que um grupo de rapazes seria um melhor retrato da civilização, o que perfaz a outra parte da razão por detrás da escolha.

O livro publicado em 1954 foi adaptado ao cinema pela primeira vez em 1963 por Peter Brook e depois em 1990 Harry Hook. A estória retrata 12 meninos que tentam sobreviver numa ilha. O enredo é uma sátira e crítica de costumes que termina em violência e caos. Agora em 2017, os produtores Scott McGehee e Evan Siegel assinaram um contrato com a Warner Bros. para refazer o filme, mas com um elenco de raparigas.

Pondo de parte o facto de as grandes produtoras de cinema parecerem gostar tanto de reboots, ou de novas versões de estórias antes criadas, estes produtores que querem reproduzir este enredo parecem não perceber o intuito de William Golding ao escrever este livro, o que se calhar é um aspecto importante para a execução de um filme baseado no livro. Por outro lado, temos aqui dois homens que querem criar um filme protagonizado pelo sexo oposto. Se a ideia for recriar o enredo com raparigas sem modificar as conclusões a que chegam os 12 rapazes, o filme será contrário à ideia pessoal de Golding de que as mulheres são superiores, e não fará muito sentido se for transposto para a mesma época em que o livro foi publicado e seguir os mesmos episódios de violência. Como mulher, duvido que um grupo de 12 meninas chegasse aos extremos dos meninos do livro, e em alguns casos duvido também que chegassem o mesmo grau de eficácia, como o de criar um sistema de comunicação como o que os protagonistas criaram. Nesse caso, o filme será apenas uma vaga adaptação.

No entanto, partindo do pressuposto de que a estória vai ser diferente e a equipa de filmagem vai permanecer com este rácio de homens para mulheres, se calhar o fenómeno vai ser parecido ao do Ghostbusters ou Caça-Fantasmas de 2016 com o elenco feminino, em que o filme era mau, mas depois a culpa era de só terem posto mulheres no elenco principal e não do argumento ou da realização. Eu cá não consigo levar a sério um filme assim realizado por homens a não ser que me venham dizer que vai haver um grupo de mulheres para fazer consultoria. O que seria parvo, porque há muitas mulheres perfeitamente capazes de realizar filmes e se calhar até tornar tudo isto numa boa idea. Parece-me muito mais sensato. Uma estória depende, para mim, das ambições e das motivações das personagens. Logo aí, não faz sentido ter dois homens a realizar.

Para concluir, eu cá até acho que já existe uma versão feminina do Senhor das Moscas. Chama-se Mean Girls (ou em português, Giras e Terríveis). Também esse filme foi realizado por um homem, mas ao menos quem escreveu o guião foi Tina Fey. Chama-se trabalho em equipa, e costuma resultar muito bem.

Vanessa

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Os cães azuis de Bombaim

Segundo várias notícias, desde 11 de Agosto têm-se avistado cães com uma tonalidade azul em Bombaim, na Índia. Alegadamente, a culpa é de uma fábrica de detergentes que despeja no rio Kasadi, frequentado por animais de rua, os resíduos da sua produção. O que inclui corante azul. Atentem à ironia de uma empresa que fabrica produtos de limpeza a sujar um rio e a manchar literalmente a sua própria reputação.



A área em questão, o complexo industrial de Taloja, é habitada por 977 fábricas de produtos químicos, farmacêuticos e alimentares, segundo a organização sem fins lucrativos Watchdog Foundation. A fábrica em questão foi encerrada pelas autoridades e os cães foram analisados pela autoridade protectora dos animais de Mumbai, segundo a qual dois banhos foram suficientes para o corante azul sair e os cães estão aparentemente saudáveis, depois de analisados os níveis de toxicidade do seu pêlo e o seu estado de saúde em geral.

Estima-se que existam 30 milhões de cães na Índia e que mais de metade sejam cães de rua. Em Maio o governo indiano aprovou uma série de leis que protegem vários animais domésticos ou vadios.

Devíamos agradecer a estes cães por lançarem um alerta importante para os indianos e para o resto do mundo ao porem a sua própria pele inadvertidamente em risco. Agora o desafio é outro. O fecho de uma fábrica na Índia pode ter consequências mais graves do que aqui, porque as fábricas funcionam graças a pessoas que delas dependem e muito, e além disso o fecho apenas desta com certeza não será suficiente para reverter os dados de 977 entidades tão perto de uma fonte de água, quer lá despejem directamente resíduos ou não.

Este é um problema com raízes profundas com vários culpados, incluindo o Ocidente. Não esqueçamos que é do outro lado do mundo que se produzem muitos dos bens de consumo daqui, precisamente porque o preço a pagar, literal e metaforicamente, é aparentemente mais baixo para nós. Apenas aparentemente. Afinal de contas, qualquer catástrofe natural ou de origem humana em qualquer parte do mundo... aliás, o mero bater de asas de uma borboleta seja onde for pode ter consequências sérias a quilómetros de distância, diz a Teoria do Caos. Hoje são os cães azuis, que felizmente em princípio são protagonistas de uma história com final feliz.

Mas amanhã o que será?

Vanessa

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Para o menino e para a menina

A Porto Editora comercializa dois blocos de actividades, um azul e outro rosa, para meninos e meninas dos quatro aos seis anos, sendo o azul para eles e o rosa para elas. A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género está a analisá-los porque o bloco rosa alegadamente contém exercícios de resolução mais fácil do que os do bloco azul, e ambos recorrem estereótipos de género. O jornal Público analisou os dois manuais: "No conjunto das 62 actividades propostas, existem seis cuja resolução é mais difícil no (livro) dos rapazes e três que apresentam um grau de dificuldade superior no das meninas. Mas a maior parte das actividades reproduzem uma série de velhos estereótipos. Apenas alguns exemplos: eles brincam com dinossauros, com carrinhos e vão ao futebol, enquanto elas brincam com novelos de lã, ajudam as mães e vão ao ballet (...)" diz o artigo.

Compreendo o marketing envolvente que justifica a existência de manuais para cada género. Mas não concordo. Muito menos concordo com certas associações que se fazem entre actividades, profissões e produtos a determinado género neste século. Mas certos acontecimentos actuais que levam a este debate são ridículos. São quase sempre provenientes de estereótipos em vez de serem construtivos ou de injustiças que ainda acontecem. Acontecem porque ainda existe a ideia de que há coisas para meninos e há coisas para meninas.

Antigamente, pelo menos após o ano 1918, o rosa, cor associada à força, era para os rapazes e o azul, cor associada à delicadeza, era para as raparigas. Depois disso trocaram-se as voltas. Não se trocaram ainda as mentalidades, infelizmente. Continuamos a ter bonecas e jogos de cozinha em rosa para as meninas, e carros e puzzles em cores escuras para os meninos. Para os mais crescidos há produtos escolares em rosa e em azul. Para os adultos, produtos de depilação, desodorizantes, cremes, e produtos de higiene em geral em rosa e azul. 

Todos eles com diferenças de preço, claro. Até produtos considerados essenciais para as necessidades próprias do género são diferentes, da cor ao preço, passando pela taxa de IVA e pela imposição de uso por parte da sociedade, como por exemplo lâminas de barbear para eles (se bem que agora ter barba está na moda) e maquilhagem para elas. Não me vou pôr aqui a analisar qual dos dois, o rosa ou o azul, é o mais barato.

Digo apenas que a separação de género que tenho visto ao longo dos anos tem saído cara.

Vanessa

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Medições

Conheci em Goa uma senhora com idade para ser minha mãe que lia muito, mas que considerou o facto de eu ler tanto como um desperdício da minha juventude. Não aprofundei a questão, por isso presumi que se estaria a referir ao tempo passado a ler em vez de fazer outras coisas, mas pode ser também considerado desperdício em relação à sabedoria que me falta para compreender certas obras literárias ou à perda de oportunidades por se escolher a leitura versus outras actividades. Não quis aprofundar a questão porque não gosto geralmente de debater os meus hábitos com outras pessoas e porque não gosto que me ofereçam argumentos até legítimos que invalidem hábitos que tenho e que me são queridos e que até me melhoram enquanto pessoa.

Ninguém parece falar no assunto no que toca a séries de ficção ou filmes, e isso até considero (um pouco, não muito) desperdício de tempo, apesar de desfrutar desses passatempos. Mas os livros são um à-parte. O que se ganha com a leitura enriquece o tempo supostamente desperdiçado e mesmo que aparentemente nada se ganhe, porque compreendemos apenas parcialmente o lido ou nada de todo, trabalhamos aspectos da vida que estão em vias de extinção como a paciência, ou outros que são amplamente valorizados hoje em dia, como a resiliência e a persistência. Por isso a meu ver, nada se perde, na verdade, e muito se ganha.

Já estou numa idade em que dá para olhar para o passado e perder tempo a analisar coisas que não posso mudar, como o tempo que desperdicei em coisas fúteis, inclusivamente mas não exclusivamente: desgostos, invejas, comparações, memórias, e actividades mundanas como ver televisão e perder-me no computador. Nunca olhei para trás e me arrependi de ter lido, nem mesmo dos livros de que não gostei ou dos quais não me lembro. A leitura é o único aspecto da minha vida que está livre de arrependimentos. Tendo em conta de que até de nascer já me arrependi, e é coisa que por vezes me saltou à consciência nos pontos mais baixos da vida, o facto de haver algo que nunca me causou nem remorso nem pesar nem stress nem angústia, excepto quando o escritor é tão bom que nos faz viver o que vivem personagens, é digno de respeito.

Se eu tivesse de medir, diria que a leitura é tão imensurável quanto o valor que nos traz, tal como um pôr do sol ou um luar, e que em vez de um desperdício, é antes insuficiência permanente, rendimento passivo infinito, retorno sem riscos sobre o investimento. Nota-se que tenho feito muitos trabalhos ultimamente na área dos negócios? Para o que havia de me dar. É do calor. Talvez seja também do livro que estou a ler.

Vanessa

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Jornalixo V ou de como os millennials "optam" por casas pequenas

Recorrendo ao sarcasmo para não chegar ao insulto face ao artigo do Expresso intitulado Millennials optam por casas mais pequenas, e sendo orgulhosamente millennial por opção, já que como é óbvio escolhi a minha data de nascimento, como todos os da minha geração, tenho também a dizer que no meio de tantas outras opções, além de optarmos por casas mais pequenas, nós millennials optamos também pela precariedade. Não satisfeitos com as condições de vida das gerações antecedentes, optamos por algumas condições piores, assim como optámos por habitar este planeta mesmo com as suas crises económicas, aquecimento global e recursos limitados.

Chamar à selecção de casas mais pequenas por parte da minha geração de opção é tão correcto como chamar opção à escolha do planeta Terra em vez de Marte para habitar. É um acto tão opcional quanto: escolher trabalhar a recibos verdes quando a outra opção seria não trabalhar de todo ou trabalhar de borla num estágio, escolher emigrar quando a outra opção é lidar com o que foi referido primeiro, escolher adiar outras opções de vida como casamento e filhos pelo que já foi referido e por várias outras razões. Tantas opções que temos. Não admira que sejamos uns mimados que não querem trabalhar e sair de casa dos pais e etc.

Este tipo de artigos faz parte de uma moda que tenho observado nos meios de comunicação, uma moda que consiste em tornar agradável, trendy e aprazível uma inevitabilidade mascarando-a de escolha ou tendência. Como é óbvio, se nos fosse possível morávamos em casas grandes. Mas não é. Duh.

Optar por casas pequenas é tão inevitável como eu agora pensar que devia ter optado por não ler o artigo.

Vanessa

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A cadeia alimentar moderna

Várias notícias hoje dão conta de que várias espécies de peixe têm confundido plástico com comida e por isso introduziram o plástico na cadeia alimentar. Ora, todos sabemos que na verdade o real responsável pela introdução do plástico na cadeia alimentar é o Homem, aquela criatura que está no topo dessa cadeia.

Por isso agora a cadeia alimentar moderna tem no topo e no fundo, indirectamente, o Homem. Diz a ONU que "se nada for feito e se continuarmos neste ritmo, em 2050 haverá mais restos de plásticos nos oceanos do que peixes." O que na verdade é aquilo que merecemos. Mas não é o que merecem todas as outras criaturas com quem "partilhamos" (aspas porque na realidade somos como um vírus destruidor) o planeta.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, um milhão de aves e 100 mil mamíferos marinhos morrem todos os anos devido à poluição por plástico. Para colocar isto em perspectiva, segundo a Fundação Oceano Azul, são produzidos anualmente no mundo a mesma quantidade de plástico quando pesa toda a humanidade: 300 milhões de toneladas. É estimado que desse belo número, oito milhões acabem por habitar o oceano.

Como tudo o que diz respeito ao mundo moderno, so há pouco tempo começámos a medir as consequências da utilização do plástico, mas ele está aí, nos oceanos e até no nosso sal de mesa, como foi noticiado há pouco tempo. É mais uma das heranças do uso de combustíveis fósseis que se infiltrou no quotidiano. Continuamos, no fundo, como homens das cavernas, ignorantes e impávidos, mas agora com uma grande quota-parte de culpa. Quem semeia ventos, colhe tempestades. Quem semeia plástico, colhe nada. Passo a piada deste nada como substantivo e não como verbo, porque isto não tem graça nenhuma. Assim não há arca de Noé que nos safe.

Vanessa