quarta-feira, 18 de maio de 2016

Carambolas goesas

As carambolas sempre foram um doce festivo para nós em Portugal. Calculo que fosse o doce mais fácil e conveniente de se fazer, pois não leva ingredientes exóticos. É farinha, ovos, açúcar e pouco mais. Normalmente as carambolas enchiam as latas azuis de bolachas de manteiga antes do natal e duravam até ao dia de reis, coisa assim. Lembro-me do seu formato peculiar que aprendi em pequena e que relembrei aqui em Goa e do cheiro a calda de açúcar e a fritos que impregnava a casa. Não vos posso dar a provar, por isso fiquem com as fotos.








Vanessa

terça-feira, 17 de maio de 2016

Saldo positivo

Da minha estadia de 23 semanas e meia em Goa, ou umas 3 860 horas se pensarmos que cada semana tem 168, cerca de 207 horas foram passadas a trabalhar, o que dá para aí uma semana e meia de trabalho se eu fosse uma máquina e não fizesse mais nada ou umas cinco semanas se eu respeitasse as 40 horas de trabalho por semana em vigor em Portugal (ainda assim é, certo?). Não contabilizo, é claro, o tempo passado à procura do trabalho ideal, do cliente ideal e dos temas mais interessantes nem aquele que passei a pensar no trabalho ou a planeá-lo. Também não contabilizo o tempo passado a olhar para o router para ver se o sinal de internet se despachava a mostrar o ícone verde em vez de vermelho ou o que passei a alongar o corpo depois de horas em má posição ou as mil e uma interrupções a que uma pessoa está sujeita quando não tem um escritório.

Não sou pessoa de números, mas às vezes tem de ser. 

Os números não dão margem para subjectividade. 

Ainda que o balanço em termos de trabalho tenha sido positivo pelo contexto da experiência, sou da opinião de que este não é um bom sítio para trabalhar. Falo concretamente de Nagoá de Vernã, onde falta a luz todos os dias (pelo menos tem sido assim no último mês), a água umas quantas vezes por mês e a internet vem aos soluços (quando vem) e é tão instável quanto a vida política em Portugal.

O futuro está no teletrabalho. Acredito mesmo que sim. São já poucas as profissões que não estão automatizadas e informatizadas. Picar o ponto já é quase uma coisa do passado. Mas aqui, aqui ainda se trata de assuntos com papéis e facturas escritas à mão (às vezes em hindi) em pedaços de papel. 

No banco, as transacções são apontadas num caderno enorme. As receitas médicas são escritas em blocos de papel oferecidos por empresas farmacêuticas com um desenho que representa três refeições feito pelo médico, com uma qualquer sinalização para que saibamos em que refeição devemos tomar os medicamentos.

Mas as caixas vêm sem bula. Aí, que faz falta o papel para sabermos efeitos adversos, indicações, ingredientes, o papel não vem. Às vezes nem a uma caixa temos direito. Recebemos as carteiras de comprimidos e já vamos com sorte. Sorte mesmo é quando o farmacêutico sabe o que nos está a dar e oferece umas dicas.

As farmácias, um dos poucos serviços onde a informação está informatizada, ficam paradas quando falha a internet. Aqueles quatro ou cinco dias a semana passada em que faltou a internet devem ter sido um caos na farmácia de Pirni. É por isso que em todo o lado os comerciantes têm os fiéis cadernos.

Papel e caneta. Eu bem que sonhava, quando era mais nova, em viver de papel e caneta. Escrever. Mal sabia eu que o mundo ia evoluir de tal forma que agora me basta premir teclas para formar palavras e o calo do meu dedo do meio, no lugar onde a caneta se apoiou durante tantas horas, já quase desapareceu. Se eu agora quisesse mesmo cumprir o sonho de viver de papel e caneta vinha viver para Goa. Mas depois tinha de enviar o meu trabalho por carta. Isso implica confiar nos serviços postais indianos. Hum, não.

Vanessa

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Caldo de cana

É habitual ver vendedores de caldo de cana aí pelas esquinas. Têm normalmente um carrinho com uma máquina barulhenta que espreme a cana-de-açúcar para um balde. Depois vertem para um copo, que vale umas 20 rupias. Dizia um amigo no Facebook que caldo de cana é o Redbull indiano. Só que a mim não me deu asas. Pai, que me estás sempre a perguntar se já provei, aquilo é doce para caramba e foi bom experimentar. Agora, se nunca mais beber sumo de cana-de-açúcar para o resto da vida também não fico triste.

Vanessa

domingo, 15 de maio de 2016

Mormugão, Vasco da Gama

Mormugão é mar, é água por todo o lado. É cheiro a sal com a brisa, mesmo no meio do trânsito. É frescura de maresia debaixo do sol. É sons de buzinas náuticas à distância. É rebuliço constante. É lojas e bazares coloridos de movimento e aromas bons misturados com maus e encontrões e olhares. É coisas tão feias e logo ao lado coisas tão bonitas. É coisas tão sujas e logo ao lado coisas tão limpas. É muita coisa à venda por todo o lado. É comida boa a cada esquina. É Vasco da Gama no seu melhor. Mais não digo. Só mostro.

















Vanessa

sábado, 14 de maio de 2016

Escolhas de vida

Comer gelados dá-me frio. Mas os gelados daqui (Amul, para quando uma loja em Portugal?) são assim para o bastante deliciosos. Não vos saberia explicar como. São cremosos. Alguns têm pedaços de chocolate, gelatina, gomas, frutos secos (e alguns têm todos os anteriores e chamam-se kulfi). Os gelados dão-me frio mesmo com este calor. Ainda assim, mais depressa usava um casaco em Goa do que parava de comer gelados.

Vanessa

Book Review | Life Before Man by Margaret Atwood

I felt compelled to read this book for its title, but then got distracted by the plot. It was so like, "Wait, what?" that I could not really understand some of the inner dialog parts smeared across some of the chapters, some of the thoughts the characters had and the purpose of some of the scenes. 

It was all like a painting that looks beautiful, with grabbing details, but that one cannot really understand.

The premise seemed interesting. A love triangle or quadrangle involving a married a couple and a woman with a weird name (Lesje, pronounced Lashia) with a weird love for dinosaurs. 

Then it all got intense, but scattered. The characters felt shallow. Their intentions seemed to have no purpose. 

At times they seemed to lack the metaphorical backbone old classics with promiscuous, adventurous people have. Not that I read many of those, but I like to know the intentions, the reasons behind choices when I feel I'm getting to know characters that will be keeping me company for some time.

I wanted to like this book but really couldn't. It was bleak, depressing, some of it felt apathetic. 

After that last book I read, it seemed to me I was either making horrible choices or that I lacked the intelligence to understand these books I was choosing. Maybe a bit of both?

I don't have to like every book I choose, I know that. This one was slightly better, as it had some interesting remarks about dinosaurs and end of the world scenarios that kept me going. 

But then that ending definitely ruined the plot for me.

6/10

Vanessa

Custo de vida em Goa

A opinião generalizada da minha família é a de que o custo de vida em Goa tem vindo a subir muito ao longo dos anos. Há coisas que de ano para ano se tornam descaradamente mais caras e há casos, como os da fruta de quem tem quintais, em que cada um faz o preço que quer. Quando amigos me perguntam quanto é o ordenado mínimo, não sei responder. Encontrei esta tabela que esclarece um pouco a dúvida.

O ordenado mínimo será mais ou menos 300 rupias (uns 4 euros) por dia.

Sei que se paga mais e até menos nalguns casos. Não sei se existe autoridade alguma que controle estas coisas, porque isso insere-se na categoria de muitas das coisas que não faço ideia de como funcionam aqui.

Sei também que é costume dizer-se que não há pobres em Goa. Acho que é uma forma de expressão, porque os goeses parecem todos ter casas grandes e coloridas, aprovisionadas com dinheiro feito no estrangeiro.

Diz-se também que é esse dinheiro trazido de fora que aumenta a inflação e que depois quem se lixa é o mexilhão, que é como quem diz, o indiano que vem de outros estados para trabalhar nesta área e que precisa de tecto, alimento e outras amenidades a preços moderados e não a preços de turismo.

As 300 rupias por dia não dão para muito, não. Os últimos cinco livros em segunda mão que comprei custaram 50 rupias cada um, mas já vi livros novos custarem 300 ou 400 rupias cada. É muito fácil gastar 1000 rupias no supermercado. Um smartphone custa umas 8000 ou até 10 mil se for de marca famosa.

A vida aqui é mais fácil quando se está emigrado e se vem cá de férias.

Vanessa

Book Review | Who Do You Think You Are? by Alice Munro

Ten short stories connected by one character and universal questions such as, you guessed it, Who Do You Think You Are? is what composes Alice Munro's novel, where small details and witty remarks and minimalistic but powerful dialogs make up one single story. It follows Rose and her upbringing, then Rose and her adulthood, and throughout Rose and her thoughts. However, I finished the book feeling I don't know Rose at all.

The prose was compelling enough. It was poetic and romantic. It had many details that make one nod in agreement or silently sigh in relief for seeing on paper some quirk or peculiar habit that until then was only his. You know, how nail polish smells like banana and chemicals (chemical banana!).

Something was missing, though. I felt this was one of those books I could not really fully comprehend and thus I could not really like it. It felt like a collection of chronicles, some of them way more personal than others, with no apparent goal other than describe someone the author admires.

The novel was entertaining and I hadn't read any of Alice Munro's stories before. If this one was the best one to start, I do not know. Maybe I didn't feel connected enough with Rose. A few particular scenes showed how obviously different we are from each other. That doesn't usually make me not like a character, but this was in a sense an unusual read. It flew by, but it did not stick. I'm not surprised if I do not remember the details of this novel in a week from now. It was entertaining while it lasted.

6/10

Vanessa

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Vivências

Continua calor. A linha telefónica, que já estava queimadinha, ardeu de vez num incêndio que ocorreu aí para sábado, o que passou. Ninguém me tira da ideia que foi dos foguetes que atiram depois das novenas em honra de santos aos quais já perdi a conta. Esse interregno sem aviso terminou. Eu é que já não tenho muito tempo. Há cinco meses estava a chegar a Goa. Daqui a menos de quinze dias vou dar de frosques.

Vanessa

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Speechless with Carly Fleischmann

A young woman called Carly Fleischmann left me without words today. She had her wish of being a talk show host come true and her first guest was Channing Tatum. It would be hard getting such a scoop in today's competitive world. Imagine accomplishing that while being a nonverbal autistic woman. That's why I decided to share this interview. It definitely brightened my day and not just because Channing Tatum was there.


Vanessa

Ao cuidado de todas as empresas portuguesas a que me candidatei e as quais nunca se dignaram a enviar uma resposta

Candidatei-me a uma vaga na casa real britânica. Não sei se consigo definir o posto, mas é qualquer coisa como gestor de redes sociais ou, numa tradução mais literal, director de interacção digital. 

Foi um daqueles anúncios aos quais concorri não por ter esperança de ser chamada, mas porque se não concorresse ia ficar sempre com aquilo a ocupar espaço mental. Foi pelo chamado descargo de consciência, essa entidade responsável por tantas acções pelo mundo inteiro. Conhecem?

Tinha recebido um email de confirmação. Só por si já é um acontecimento raro. A maior parte das empresas portuguesas às quais concorri e que acusaram a recepção da minha candidatura tinham como objectivo prestar informações adicionais e/ou indicar que o meu avanço ao longo das fases da candidatura, fases essas que são sempre de mil para cima, seria esclarecido num email posterior, email esse que raramente nos meus 29 anos de vida chegou à minha caixa de correio electrónico, pelo menos não sem incentivo da minha parte.

Não só recebi o email de confirmação como recebi há pouco, menos de um mês após a candidatura, um email a informar que os responsáveis pela vaga já escolheram alguns candidatos e que eu, por exclusão de partes, por haver pessoas que correspondem mais ao que procuram do que eu, fico por aqui. 

Ainda tiveram a amabilidade de agradecer o meu interesse e de desejar sucesso futuro.

Se foi um email gerado automaticamente e distribuído por milhares de outros candidatos? Foi. É por essa razão uma coisa má enviar um email a candidatos possivelmente esperançosos e deixá-los libertar espaço mental para outros oportunidades? Não, não é. É uma cortesia. É um gesto de humanidade.

É, acima de tudo, uma lição para todas as empresas portuguesas que tratam os candidatos como seres inferiores que não merecem resposta alguma. Que estão sempre muito ocupadas para responder a emails. Que pensam que já estão a fazer mais do que a sua obrigação ao criar um anúncio de emprego.

Não me venham cá dizer que a casa real britânica tem mais posses e tempo e que os ingleses estão habituados a estas coisas tipo serem amáveis e cumprirem etiquetas. Sei muito bem que nas empresas há muito tempo desperdiçado e sei também que um email não custa muito a escrever (e pode ser guardado para futura referência ou cópia) e que enviá-lo não requer selos ou idas aos correios. 

Se automatizarem essa cena é muito mais rápido do que ir buscar um café ou abrir o Facebook.

Vanessa

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Maio

O calor e a humidade agarram-se ao corpo com fervor. O torpor dura um dia inteiro e só arrefece à noite. Às vezes o sono é interrompido, uma vez, várias vezes, porque o corpo acorda para o abraço apertado de uma neblina tépida do qual não se consegue libertar. A pele escorre constante e copiosamente.

O chão custa. As pálpebras pesam. Os braços e as pernas cansam. Maio é um verbo passivo. Se não estivesse calor. Se estivesse mais fresco. Se não fosse Maio. As possibilidades vão adormecendo.

O tempo pára, enrolado na quentura. Os dias arrastam-se pesadamente. Ainda assim, o tempo voa.

Vanessa

terça-feira, 3 de maio de 2016

Book Review | Animal Farm by George Orwell

When I first read Animal Farm I could not understand all the metaphors, so I headed on to Google and found websites where all the subtleties were drawn in a simple enough way for me to understand them. Fast forward more than ten years and, while reading an article on something I can't even remember, I spotted a reference to Animal Farm and I decided I should read it again with my current level of maturity *cough cough*.

Orwell's book is quite more fun than my memory of it. However, it is also very sad and tragic when one realizes how much we, humans, lived and still live just like the animals of the farm. Although the book is simple in its narrative, I also found it brilliant. It's very clever in its details, but it also throws certain prompts to the imagination with an irony that surprised me. It made me feel helpless and hopeless sometimes.

The plot starts in a farm owned by a drunkard of a human. The animals decide to rebel and take over the farm so that they can be free and only work for themselves, not for a human, as humans are "the only creature that consumes without producing." What happens next, as I understood it, just shows, in the story itself and through the metaphors, that humans are really the most dumb of creatures.

All history lovers should read this book for sure. I had a great time with it, understanding the hidden complexity of it and also all the references that escaped me when I read this book as a teenager.

10/10

Vanessa

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Nem que me pagassem

Note-se que toda esta publicação é uma fraca tentativa de humor. Nada é para ser levado a sério.

Ofereceram-me a oportunidade e eu não aceitei. Não, obrigado, disse eu. Acrescentei ainda que gosto de ter os pés bem assentes na terra. Subir para o barco com a minha câmara, com o mar revolto, já foi uma grande demonstração de coragem da minha parte. Arriscar (ainda mais) a minha vida por 1000 rupias para andar pelos ares debaixo desse saco paraquedas (ou parapente?) remendado? Nem pensar.

Bom, já me viram andar naqueles carrosséis duvidosos da Feira Popular ou daquelas festas de aldeia onde o cinto mais parece uma fivela de velcro e o nosso centro de gravidade fica mais baralhado do que um cidadão português (eu) que tenha de escolher uma senha para ser atendido em serviços públicos e os sapatos quase saltam e atingem algum transeunte, qual momento estilo Final Destination. Mas não é a mesma coisa.

Primeiro porque estou na Índia. Padrões de qualidade europeus aqui são luxo, só para terem uma ideia de como as coisas aqui funcionam. Segundo porque detesto mar alto e duvido que as aulas de natação me safassem em circunstâncias reais. Não há crawl que aguente as correntes daqui. Terceiro porque não gostaria de pagar (apenas) 1000 rupias para depois me afogar. Convenhamos. A minha morte certamente vale mais do que isso.

Se acham que estou a exagerar, imaginem o seguinte cenário e digam lá se não tenho razão.

O barquinho mal aguenta a força das ondas. Por várias ocasiões pensei que fosse virar. Juro que a minha principal preocupação era a minha câmara. Seis meses num call center para a conseguir comprar. Isso diz tudo. Bastava ali um ventinho mais forte ou uma corrente para o sacrifício ir por água abaixo.

Os homens eram esqueléticos. Prova disso é que mal aguentavam com o dito saco paraquedas quieto.

A única coisa a assegurar que o paraquedas não fugia era uma corda. Daquelas bem finas, já com algumas pontas soltas. Não sou mestre em física, mas gosto de ver robustez. Robustez é sinónimo de segurança.

Não gostaria de ser protagonista de uma piada seca. O que é um pontinho colorido e molhado no céu em alto mar num ângulo muito estranho? Uma Vanessa muito, muito medrosa. Não.

Depois havia esta possibilidade. Testar a água. Isso faço na praia mesmo, obrigado. Estou bem aqui, já disse.

 Hum. Não. É giro de se ver. Eu disse ver. Experimentar não. Fica bem é na fotografia.

Vi no Science of Stupid no National Geographic qualquer coisa sobre conseguir deslizar na água com os pés. É preciso um ângulo específico e não sei quê. Dá muito trabalho. Se parece divertido? Lá isso parece. Dispenso tal diversão, para dizer a verdade. A minha noção de diversão na praia é estar à sombra a ler.

Vanessa

sábado, 30 de abril de 2016

Book Review | Killing Me Softly by Nicci French

I was a teenager when I first read this book, translated into Portuguese. Nicci French quickly became my favorite thriller writer(s), but over the years that faded. My copy of Killing Me Softly was then lost when I lent it to an acquaintance. It was after that that I learned not to lend books to people I didn't fully trust.

It was just last week that I found this novel again, at a book shop in Colva, Goa, where tourists leave their things to be sold to help a charity. Books there are all 50 rupees each. I decided to replace my lost copy with this one, this time in English. Then, as I wanted something entertaining and not too dense to read, I decided to reread this one and see what my own fuss about it was about. Well, I can see why I did like it.

The prose is very to the point and through Alice one discovers a world of obsessive, passionate and even cruel love that escalates and escalates until it climaxes and leaves one sighing for more. I always found her, the narrator, to be somewhat distant at certain moments, summarizing certain details but not the whole picture.

However, that incomplete, partial vision gives this book a chilling voyeuristic perspective, almost like watching it all unfold through a peephole. For some reason, though, reading it feels sadistic, like satisfying a morbid curiosity. One wants to know how this romance gets intense, how much more can happen, and then at times you're left with bits of dialog that leaves it to the imagination. I guess that's one of the reasons why I liked this book so much when I was a teenager, it's because it's so cruel to readers sometimes.

Reading it is a pleasure. I have seen the movie, some time back, and I remember it had a different twist. I still prefer the book. I prefer the Adam my young imagination created and that stuck until now.

8/10

Vanessa

Capela de Jesus de Nazaré, Siridão | Jesus of Nazareth chapel

Ali vista é magnífica, o ar é fresco e impregnado de misticismo como só os lugares cheios de história conseguem ser. A Capela de Jesus de Nazaré em Siridão fica no topo de uma colina com vista para a praia de Siridão, que já tinha visitado logo no início da nossa estadia em Goa, e faz lembrar as igrejas portuguesas.

No entanto, quase de certeza que não foi construída por portugueses, ou pelo menos não por portugueses católicos, já que há diversas provas de que tenha sido uma capela jesuíta. 

Não consegui fotografar a abóbada que fica por trás desta fachada (fachada essa que é uma extensão dessa abóbada), nem o interior com os cinco buracos na parede que se pensa terem sido feitos para guardar os rolos da Torah, nem os detalhes que remetem para a arquitectura das sinagogas.

Ficam estas fotografias superficiais da fachada católica, da forma como o sol se ia escondendo preguiçosamente lançando uma luz especial sobre a paisagem, do Cristo Rei, em miniatura comparado com outros pelo mundo mas que atrai jovens a tirarem selfies, daquela árvore frondosa que me cativou imediatamente e que o meu tio disse ser única em Goa e provavelmente plantada por portugueses, e daquela pequena ruína com ar histórico onde se vê encavalitado um tronco com raízes a abraçar as paredes que mal se sustêm.











Vanessa

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Chineses, onde estão vocês?

Quero uns fones (é assim que se escreve em bom português). Quando vou a lojas de artigos eléctricos ficam a olhar para mim como se estivesse a pedir marijuana. Quero uns fones, simples, peço eu. Trazem-me fones de telemóvel, a maioria com microfone. Não, quero fones simples. Trazem-me headphones daqueles que cobrem os ouvidos e que depois de uma hora com eles postos fazem doer os ouvidos. Não, obrigado.

A minha procura tem sido uma repetição de frustrações. Até que hoje, lá encontrei umas barraquinhas onde se vende de tudo um pouco que tinha uns fones da Sony que até se adaptam ao walkman da Sony. Walkman? O meu primeiro e último tem mais de 10 anos e menos de 20. Mas isto ao menos são fones, dos simples, por 200 rupias porque foi o limite da regateação e porque o rapaz estava lá ocupado a consertar um tablet. Contra a minha habitual conduta, comprei uns fones numa embalagem que não estava selada. Uma pessoa aqui acaba por ter de ceder em algumas coisas. Ao menos passaram recibo.

Vanessa

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Precisão

Nunca gostei de não ter sinalização suficiente pelo caminho para chegar ao destino, como aquelas singelas placas que depois não têm continuidade quando estamos num aperto, isto é, num cruzamento.

Há muito disso em Portugal. Segue-se uma placa com o nome do sítio para onde queremos ir, mas depois nunca mais há placas e temos de ir adivinhando ou perguntando ou activando o GPS para nos safarmos.

Ora que belo país fui escolher para passar seis meses e querer fazer coisas.

Se tivermos sorte o local que queremos visitar tem uma placa. Há casos onde nem isso. Vamos vendo o caminho no Google Maps em casa, porque não vale a pena confiar nos dados móveis quando já estamos em andamento, para nos situarmos na memória geográfica e depois o resto é trabalho de improviso.

O que nos vale é que as pessoas aqui são elas próprias autênticos GPS. Fico encantada com a facilidade com que as pessoas a quem perguntamos caminhos nos conseguem dizer a quantos metros ou a quantos quilómetros fica tal sítio e ainda nos indicam uma ou outra referência para sabermos que estamos a ir bem.

É que não foi uma vez ou duas vezes. Já são vários os exemplos de como aqui as pessoas parecem ter engolido um mapa. Se calhar é assim que os indianos se entretêm quando falta a internet e falta a televisão e falta o telefone (BSNL, que andas a fazer?) e falta a água.

Vanessa

Book Review | Gone Girl by Gillian Flynn

"Gone Girl is a book you'll be begging other people to read, just so you can discuss it with them" wrote the Mail on Sunday. Yep. I can only agree. Please, if you like reading, do read it.

I can't begin to say how much fun this book was. There are no words for it. I have seen the movie and knew more or less how it ended, but I still could not let this book go until I got to the last line and then I had an interview with the author that made me want to read the other two books she wrote as fast as I can.

Gone Girl was wonderfully catching for someone who loves reading, writing and studied communications. Besides both main characters' careers in print, the media frenzy and need to portray a bad guy described in Gillian Flynn's book was a gripping study on how media works these days and how little the public can know about an event before passing judgement and crucifying someone. Yes, this book is biblical.

The novel is narrated by Nick and Amy, two distinct voices that tell their side of the story, always partial and always just one side of things so that the reader can be surprised at all the twists and turns.

There were no boring moments, no lazy subterfuges, no easy ways out. It was all fun, really. There were always thoughts that surprised me, there were always depictions of love both dark and obsessive as interesting and innovative, there were always fearful ideas from a beloved character that made one cringe.

I suspect this book provoked all manners of expressions on my face. I remember I winced and I laughed and I chuckled at how brilliant some remarks were. I guess Flynn caught me early on and for that all the little flaws the book must have, because no book is perfect, were taken as a way to remind me all that I was reading was merely a work of fiction. This book is one of the reasons why I love fiction.

10/10
Vanessa

terça-feira, 26 de abril de 2016

Proporcionado

Estive a ler este artigo sobre porções em termos nutricionais, que é aparentemente um problema gigantesco hoje em dia, roubando ali a metáfora do título do The Guardian. 

É interessante porque parece-me que aqui as pessoas comem imenso coisas que aprendi terem de ser regradas. Arroz, por exemplo. Aqui come-se arroz como nunca vi, tipo o equivalente a mais de duas mãos grandes bem cheias, a transbordar. O artigo indica que a porção recomendada de massa, 150 gramas, é do tamanho de uma bola de ténis e a de batata, 180 gramas, é do tamanho de um rato de computador.

Aqui é normal as bebidas serem açucaradas a preceito. No campo das sobremesas, tudo o que é doce, aqui é super doce e unido em formatos e untado com ghee. Toma lá colesterol e diabetes numa só dose, em pedacinhos coloridos, com um design que faz lembrar as tatuagens de henna em formas de papel.

Aqui o que fazem bem é a dose de proteína animal, que normalmente é pequena comparada com a dose portuguesa. É assim uma palma de mão, mas com muito molho. Legumes nem vê-los. Talvez cenoura e ervilhas, a boiar nos molhos engrossados por coco ou dahl. Falo dos goeses. Os hindus parecem mais saudáveis.

Aqui uma pessoa esquece-se de certas coisas que aprendeu na escola, é verdade. Continuo a não conseguir comer num só dia a dose que os goeses consomem de arroz. Juro. De hidratos prefiro o que os hindus têm para oferecer: chapatis, rotis, naans. Confesso que tenho um carinho especial pelos caris de legumes (ai o veg kolhapuri) e pelas lentilhas à moda hindu. Ainda não me fartei das samosas de legumes, normalmente de batata e lentilhas. Ainda ontem a minha dose ultrapassou a recomendada.

Aqui as proporções são de acordo com a vontade.

As minhas são sempre bem liberais.

Vanessa

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Achados

Encontrei finalmente os tais amendoins de que andava à procura num sítio de beira de estrada chamado Sneak & Snack. Estavam lá pendurados junto a outros pacotes de coisas salgadas e gordurosas, em dois formatos diferentes, com um certo aspecto de abandono que resolvi num instante.

Primeiro levei toda a fila dos pacotes de cinco rupias. Eram 12 no total. Durante o jantar de chicken manchurian e dahl fry e naans assados em lenha pensei melhor. Fui lá comprar toda a fila de seis pacotes de 10 rupias.

Senhora do balcão: You like this very much, no?
Eu: Yes. I do.
Senhora do balcão: Are these all for you?
Eu, a mentir descaradamente: No, my family likes these too. I'm going to share with them.

Não. Todos meus.

Vanessa

Um mês

Nisto tudo, já só falta um mês. Eu, que não costumo usar pontos de exclamação, vou tomar a liberdade: já só falta um mês para regressar a Portugal!!! Descansem que não vos vou aborrecer com contagens decrescentes a partir de agora, até porque é provável que não haja tempo para isso. 

Acreditem, com todo este conjunto de circunstâncias, vou andar a publicar sobre Goa mesmo depois de já ter regressado a Portugal.

Só de pensar que daqui a um mês vou desfrutar de serviços de recolha e tratamento de  lixo até me apetece saltar de alegria. Idas ao caixote de lixo passarão a ser um prazer. 

Perceber o idioma, nem se fala. 

Vai ser um festim tratar de papéis, se o tiver de fazer em Portugal. Ao menos os documentos não precisam de levar carimbos de cada notário que houver na cidade (exagero de quem já passou por poucas e boas). 

A internet com fibra vai ser um autêntico deleite. Já para não falar do café. Ai a bica

Não haverá perigo de apanhar uma intoxicação alimentar em apreciar um bife mal passado. Não mais irei comprar um produto sem poder ler os ingredientes que o compõem. 

Não estou a brincar. Para os indianos a lista de ingredientes está lá só para cumprir normas. É comum uma pessoa comprar queijo e ter nos ingredientes: queijo. Isto se não levar com um etc

Vá lá que as garrafas de Coca-Cola informam o consumidor de que a bebida não contém fruta. Que alívio. Só de pensar em comprar uma bebida e depois ler nos ingredientes a referência a fruta até me enjoo.

Enfim, se há coisa que levo desta viagem é esta nova apreciação pelas pequenas coisas nas quais nunca antes tinha pensado porque pareciam tão normais. Por outro lado, levo também um conjunto novo de coisas longínquas das quais me vou lembrar com alguma saudade ou talvez apenas nostalgia.

Agora tenho um mês para aproveitar, o que é pouco tempo para sequer pensar em saudades de coisas portuguesas, mas porque hoje é dia 25 de Abril, tomo a liberdade de dizer que sinto a falta do frio.

Vanessa

domingo, 24 de abril de 2016

Semelhanças: Goa e Portugal

Goa é parecida com Portugal.

No mapa, por exemplo, Goa é um extenso litoral guardado por mar, com um interior rural e território constantemente visitado por turistas, enquanto que a população mais jovem se vai embora. 

Goa e Portugal são compostos por riqueza bruta, por desenvolver ou só por aproveitar: terra fértil, paisagens virgens, rocha moldável, água pura, pessoas fortes e trabalhadoras, um idioma difícil mas melódico.

O peixe e o marisco são abundantes e saborosos, e servem de inspiração culinária. A doçaria é robusta, feita de farinhas e grãos e açúcar com fartura. Cada região se demarca com pratos distintos, desenvolvidos durante séculos, inspirados pela fartura mas também pela escassez. 

A religião dita o calendário e marca um compasso de festividades e reuniões familiares.

Vêm os políticos e estragam tudo a seu bel-prazer, beneficiando amigos e familiares em detrimento do bem comum. Quando se tenta fazer alguma coisa, uma pessoa perde-se no labirinto burocrático.

Mas as paisagens, as paisagens compensam os contras. As paisagens são um dos prós que faz valer a pena. É uma paisagem que renova o espírito, que acentua o vigor, que faz esquecer os problemas.

Nestas descrições podia estar a referir-me a Goa ou a Portugal.

Há muito que engloba ambos, como se um fosse um reflexo do outro.

Não sou fã de referências populares, mas "Eu tenho dois amores" e estes são muito iguais.

Vanessa

sábado, 23 de abril de 2016

Que gatos












Já tinha prometido fotos de gatinhos. Cá estão elas, mais um bónus.

Vanessa

Book Review | A Thousand Splendid Suns by Khaled Hosseini

A Thousand Splendid Suns is a thousand times splendid. I never got to read The Kite Runner, but this book already made me a fan of Khaled Hosseini, even though it's hard to read his knowing words about the lives of women in Afghanistan, especially the lives of the two main characters in the book.

All the cruelty depicted in the story is haunting because it exemplifies horrors we can only imagine. War and religion and poverty create a subplot that only makes suffering dense, transpiring from the pages.

One finds himself admiring the two women, one quietly, patiently enduring, the other intelligently revolutionary in her own way, and their strength together. One finds himself doubting they're only fictional, hoping they're really not because such women are needed in places like Afghanistan and all over the world.

It's hard not to be moved by A Thousand Splendid Suns. Sometimes it's hard to fight back the tears. It's hard not to think, "What are they doing to these human beings? Why is all this allowed?!"

The book is beautiful, it is. But more importantly, it raises awareness and makes readers think about more than just what's broadcasted on the news about Afghanistan. It reminds us there are people living there.

9/10

Vanessa

sexta-feira, 22 de abril de 2016

É assim a vida

Em Portugal já tive algumas surpresas. Melhor dizendo, em Portugal já pisei algumas surpresas. Um ou outro presente deixado por um animal aflito, um ou outro insecto, um ou outro bocado aleatório de lixo, tudo isso já me passou debaixo das solas e até mas sujou. Aqui estou noutro mundo onde basicamente o chão é invariavelmente uma lixeira a céu aberto, por isso é preciso mais atenção ainda.

Só que acontece que nos passeios ninguém se desvia. Então temos de olhar bem para o chão e bem para a frente e bem para os lados para não só não pisarmos nada, como também para não darmos encontrões. Não nos esqueçamos também que os passeios são estreitos ou inexistentes, por isso temos de prestar atenção aos veículos de duas, três e quatro rodas que passam ao lado mas que nos podem passar por cima, porque aqui não há cerimónias e vai tudo a eito porque os indianos andam todos cheios de pressa.

Achava eu que estava absolutamente preparada, munida de toda a informação de que precisava para andar por essas ruas indianas e chegar a casa segura e inteira. Só que não. Hoje de tarde ia um pouquinho mais distraída pela rua fora e quase que ia sendo atropelada. Por uma vaca.

Vanessa

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Paisagem de passagem


Não tenho termo de comparação. Não sei o que mudou, à excepção do que me conta a família, e não sei como mudou. Tudo é novidade. Tudo é paisagem nova. Tudo é motivo de conversa e de escrita, e tanta que tem havido. Às vezes olho para detalhes como este, uma ilha minúscula, quase sem terra, ali em Vasco da Gama, que não sei se está em água de mar ou em água de rio, e questiono-me sobre as suas origens. Quão grande terá sido, quão pequena ficará? Estará ainda aqui quando e se um dia voltar a Goa? O que mudará entretanto?

Vanessa

terça-feira, 19 de abril de 2016

Book Review | Winter in Madrid by C. J. Sansom

Set in the aftermath of the Spanish Civil War and the beginning of the German invasions that set the Second World War on fire, Winter in Madrid is a novel in which characters deal with the context of hunger and discontent while pursuing their lives and being trapped by their surroundings. Sansom is a new author for me and apparently he specializes in crime novels. Well, then, this was the perfect book to get to know a writer.

Part thriller, part romance, part historical, this novel was quite grabbing, but not at first. I had a hard time attaching to the characters, maybe because they were all so gloomy. Everything was, really. It's hard to think about happy times when it comes to the Spanish Civil War. The little details, like starving dogs and mistreated children, were all haunting. They stay with you throughout the story and even beyond.

I felt this was a quick read, though. Once the story developed, until the climax, everything seemed sudden and a little bit rushed. The conclusion was also bittersweet in the sense that there was a time jump and then you get to know everyone's fate once the dust settled. I wanted to know more, I guess.

I also had a hard time following the historical details and characters. I was not involved in it, I guess. Everyone related to Spain's history seemed so brutal and cruel. For those who do not know much about history, I feel this book would not spark any interest. It's hard to follow political plots when there's no background information and characters keep being added with no development. I wanted to know more in that field too.

I did like the book, but felt I was left hanging for all of the above reasons.

6/10

Vanessa

Todos os anos a mesma coisa

Ano sim, ano sim, desde que comecei a trabalhar, pergunto-me por que razão não se ensina aos miúdos das escolas as coisas necessárias a uma vida adulta saudável. Tipo o quê, perguntam vocês?

Preencher a declaração do IRS. Preencher essa declaração online em browsers que raramente utilizo. Perceber o palavreado financês, escrito à moda desse acordo ortográfico que gerou tanto desacordo, nesse site onde tem de se preencher a declaração do IRS online num dos browsers que raramente utilizo.

Claro que se me tivessem ensinado na escola eu era capaz de já não me lembrar ou a informação já estaria obsoleta, até porque internet, só a tive quando já tinha aprendido os básicos do ABC. Mas ficava a intenção.

Agora a sério, há muita coisa que devia ser ensinada na escola. Tipo senso comum, finanças, política, culinária e principalmente os direitos humanos. Ainda há coisas que decorei aprendi na escola que nunca tive oportunidade de utilizar, como por exemplo a tabela periódica, o teorema de Pitágoras, a história do carvão.

Todos os anos nesta altura ocorre-me que deve haver muito mais informação que não aprendi na escola do que informação que aprendi e utilizei. Toda essa informação que me parece de vez em quando inútil serviu para me enriquecer como pessoa e traçar vários contextos que ainda hoje moldam a minha visão do mundo. É informação com mérito, claro que sim. Mas não teria havido tempo para assuntos mais práticos?

Obrigado pelo tempo que me dispensaram enquanto eu escrevia isto em vez de estar à espera que o Java carregasse na página da entrega da declaração do IRS. Ainda não carregou, para dizer a verdade. Já lá vai uma meia hora, entre escrever aqui e reunir facturas e fazer um cafézinho. Deviam ter ensinado paciência na escola. Ouvi dizer que é uma virtude indispensável à vida adulta, especialmente quando se usa serviços públicos.

Vanessa