sábado, 23 de abril de 2016

Book Review | A Thousand Splendid Suns by Khaled Hosseini

A Thousand Splendid Suns is a thousand times splendid. I never got to read The Kite Runner, but this book already made me a fan of Khaled Hosseini, even though it's hard to read his knowing words about the lives of women in Afghanistan, especially the lives of the two main characters in the book.

All the cruelty depicted in the story is haunting because it exemplifies horrors we can only imagine. War and religion and poverty create a subplot that only makes suffering dense, transpiring from the pages.

One finds himself admiring the two women, one quietly, patiently enduring, the other intelligently revolutionary in her own way, and their strength together. One finds himself doubting they're only fictional, hoping they're really not because such women are needed in places like Afghanistan and all over the world.

It's hard not to be moved by A Thousand Splendid Suns. Sometimes it's hard to fight back the tears. It's hard not to think, "What are they doing to these human beings? Why is all this allowed?!"

The book is beautiful, it is. But more importantly, it raises awareness and makes readers think about more than just what's broadcasted on the news about Afghanistan. It reminds us there are people living there.

9/10

Vanessa

sexta-feira, 22 de abril de 2016

É assim a vida

Em Portugal já tive algumas surpresas. Melhor dizendo, em Portugal já pisei algumas surpresas. Um ou outro presente deixado por um animal aflito, um ou outro insecto, um ou outro bocado aleatório de lixo, tudo isso já me passou debaixo das solas e até mas sujou. Aqui estou noutro mundo onde basicamente o chão é invariavelmente uma lixeira a céu aberto, por isso é preciso mais atenção ainda.

Só que acontece que nos passeios ninguém se desvia. Então temos de olhar bem para o chão e bem para a frente e bem para os lados para não só não pisarmos nada, como também para não darmos encontrões. Não nos esqueçamos também que os passeios são estreitos ou inexistentes, por isso temos de prestar atenção aos veículos de duas, três e quatro rodas que passam ao lado mas que nos podem passar por cima, porque aqui não há cerimónias e vai tudo a eito porque os indianos andam todos cheios de pressa.

Achava eu que estava absolutamente preparada, munida de toda a informação de que precisava para andar por essas ruas indianas e chegar a casa segura e inteira. Só que não. Hoje de tarde ia um pouquinho mais distraída pela rua fora e quase que ia sendo atropelada. Por uma vaca.

Vanessa

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Paisagem de passagem


Não tenho termo de comparação. Não sei o que mudou, à excepção do que me conta a família, e não sei como mudou. Tudo é novidade. Tudo é paisagem nova. Tudo é motivo de conversa e de escrita, e tanta que tem havido. Às vezes olho para detalhes como este, uma ilha minúscula, quase sem terra, ali em Vasco da Gama, que não sei se está em água de mar ou em água de rio, e questiono-me sobre as suas origens. Quão grande terá sido, quão pequena ficará? Estará ainda aqui quando e se um dia voltar a Goa? O que mudará entretanto?

Vanessa

terça-feira, 19 de abril de 2016

Book Review | Winter in Madrid by C. J. Sansom

Set in the aftermath of the Spanish Civil War and the beginning of the German invasions that set the Second World War on fire, Winter in Madrid is a novel in which characters deal with the context of hunger and discontent while pursuing their lives and being trapped by their surroundings. Sansom is a new author for me and apparently he specializes in crime novels. Well, then, this was the perfect book to get to know a writer.

Part thriller, part romance, part historical, this novel was quite grabbing, but not at first. I had a hard time attaching to the characters, maybe because they were all so gloomy. Everything was, really. It's hard to think about happy times when it comes to the Spanish Civil War. The little details, like starving dogs and mistreated children, were all haunting. They stay with you throughout the story and even beyond.

I felt this was a quick read, though. Once the story developed, until the climax, everything seemed sudden and a little bit rushed. The conclusion was also bittersweet in the sense that there was a time jump and then you get to know everyone's fate once the dust settled. I wanted to know more, I guess.

I also had a hard time following the historical details and characters. I was not involved in it, I guess. Everyone related to Spain's history seemed so brutal and cruel. For those who do not know much about history, I feel this book would not spark any interest. It's hard to follow political plots when there's no background information and characters keep being added with no development. I wanted to know more in that field too.

I did like the book, but felt I was left hanging for all of the above reasons.

6/10

Vanessa

Todos os anos a mesma coisa

Ano sim, ano sim, desde que comecei a trabalhar, pergunto-me por que razão não se ensina aos miúdos das escolas as coisas necessárias a uma vida adulta saudável. Tipo o quê, perguntam vocês?

Preencher a declaração do IRS. Preencher essa declaração online em browsers que raramente utilizo. Perceber o palavreado financês, escrito à moda desse acordo ortográfico que gerou tanto desacordo, nesse site onde tem de se preencher a declaração do IRS online num dos browsers que raramente utilizo.

Claro que se me tivessem ensinado na escola eu era capaz de já não me lembrar ou a informação já estaria obsoleta, até porque internet, só a tive quando já tinha aprendido os básicos do ABC. Mas ficava a intenção.

Agora a sério, há muita coisa que devia ser ensinada na escola. Tipo senso comum, finanças, política, culinária e principalmente os direitos humanos. Ainda há coisas que decorei aprendi na escola que nunca tive oportunidade de utilizar, como por exemplo a tabela periódica, o teorema de Pitágoras, a história do carvão.

Todos os anos nesta altura ocorre-me que deve haver muito mais informação que não aprendi na escola do que informação que aprendi e utilizei. Toda essa informação que me parece de vez em quando inútil serviu para me enriquecer como pessoa e traçar vários contextos que ainda hoje moldam a minha visão do mundo. É informação com mérito, claro que sim. Mas não teria havido tempo para assuntos mais práticos?

Obrigado pelo tempo que me dispensaram enquanto eu escrevia isto em vez de estar à espera que o Java carregasse na página da entrega da declaração do IRS. Ainda não carregou, para dizer a verdade. Já lá vai uma meia hora, entre escrever aqui e reunir facturas e fazer um cafézinho. Deviam ter ensinado paciência na escola. Ouvi dizer que é uma virtude indispensável à vida adulta, especialmente quando se usa serviços públicos.

Vanessa

domingo, 17 de abril de 2016

Sobrevivência

aqui tinha dito que conduzir em Goa é horrível. A verdade é que conduzir no resto da Índia deve ser ainda pior. O pouco que daqui uso como exemplo do resto do país é sempre em menores proporções.

Mesmo assim não deixo de me admirar com a forma como se circula nas estradas, com o caos aparente e com os riscos que correm os goeses sempre que saem à rua. 

Com isto digo que é de admirar que a Índia tenha tamanha população.

É inacreditável.

Primeiro porque os indianos parecem não ter grande amor à vida. 

É ver famílias inteiras em cima de uma mota a ultrapassar autocarros em curvas ou manobras extremas que podiam fazer parte daqueles vídeos fantásticos que a Red Bull patrocina com atletas a fazer acrobacias em vales e mergulhos de cortar a respiração ou que podiam entrar no Guinness World Records. 

Todos os dias são uma aventura para os indianos.

Segundo porque já vi por estas estradas tantos golpes de sorte, daqueles que são capazes de tornar qualquer ateu crente em deus ou qualquer supersticioso descrente do azar, que é mesmo de admirar que haja aqui o crescimento populacional de que se houve falar e que não haja aqui mais vacas do que indianos.

As estradas indianas são uma verdadeira selva. Só que às vezes parecem pradarias. É ver vacas e bois, galináceos e porcos, cães e gatos a passar à frente dos carros como se houvesse aqui muitas passadeiras e essas passadeiras fossem feitas para animais passarem e os condutores aqui respeitassem as passadeiras.

Conclusão: na última semana andei a pé, inclusivamente na cidade, andei de carro, de mota, de jipe e de autocarro e sobrevivi. Sinto-me cheia de sorte, para dizer a verdade.

Vanessa

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Vasco da Gama, Goa


Já falei sobre o fantasma da influência portuguesa em Goa aqui e aqui. Continua a ser estranho para mim ver nomes portugueses e pequenos detalhes decorativos de influência portuguesa porque é muito raro ver mais do que isso. Não se ouve português na rua, não se vê dos portugueses tanto quando eu queria ou estava à espera de ver. Um dia fui a uma agência que anunciava orgulhosamente num cartaz que tratava de passaportes portugueses e perguntei se alguém falava português. A resposta foi negativa.

Visitámos Vasco da Gama, na península de Mormugão. Fica relativamente perto de Nagoá de Vernã e como é uma península as paisagens são magníficas. É engraçado perceber uma vez mais que a presença portuguesa é apenas um espectro na cidade cujo nome homenageia uma personalidade tão importante da história de Portugal, cidade essa que só a partir da década de 60 deixou de ser controlada por portugueses.

Tal como em Goa há pessoas com apelidos portugueses (como Rodrigues, Cabral, Guedes, Pereira) que não falam uma palavra de português, há também muitos locais com nomes portugueses que nada têm de português.

Toda a cidade de Vasco da Gama, só Vasco para os amigos, é símbolo disso.

Fotografias em breve.

Vanessa

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Mau maria

Anda mais alguém, em Nagoá de Vernã, a comprar os amendoins da Kurkure. Todos eles. 

Vamos lá ver. Quando cheguei havia carradas deles em todo o lado. Era ver os pacotes quase a ganhar teias de aranha de tanta desconsideração e ignorância que sofriam os pobres amendoins. 

Era ver os namkeens todos a esgotar e os amendoins a deixarem-se ficar nos seus pacotinhos laranja, empilhados nas prateleiras sem terem quem satisfazer com o seu condimento caloroso.

Agora, mal são repostos esgotam. Está bem que eu praticamente compro de dez em dez pacotes, mas isso não justifica que os ditos esgotem assim no espaço de dois ou três dias. Que coisa.

Afeiçoa-se uma pessoa aos namkeens que ninguém quer; porque sim, foi assim que começou esta relação de apego aos karare peanuts, eu vi-os lá abandonados e decidi experimentar sem sequer saber o que karare significava vejam-me só a fé que eu tive; para agora acabar assim com o gostinho de quero mais.

Será que alguém me viu a comprar os ditos e ficou intrigado e decidiu comprar também, começando assim um fenómeno de popularidade que acabou no esgotamento do stock?

Será que houve um ou mais casos de contaminação e todos os pacotes, menos aqueles que eu comprei, foram retirados do mercado e eu não soube de nada e agora estou doente?

O mistério adensa-se.

Entretanto contento-me com os três últimos pacotes que o senhor da esquina tinha lá.

Vanessa

Paladar pouco apurado


Surpreendeu-me desde logo o sabor do marisco de Goa e sinceramente ainda não me habituei. Creio que estou demasiado habituada ao marisco de viveiro e ao marisco congelado. O sabor a mar e o sabor a rio deixam as minhas papilas gustativas confusas. Ainda não aprendi a gostar do marisco goês. O que vale é que aqui tudo é altamente condimentado por fora e por dentro. A quantidade de produtos do mar recheados com temperos aperfeiçoados de geração em geração chega a ser tradição. O meu paladar isso agradece.

Vanessa

terça-feira, 12 de abril de 2016

Grandezas


Em Goa há praias, como a de Calangute, tão vastas que parecem um país por si só. 

Vanessa

O que é um dia mau em Goa?

Quando falta a água e a electricidade e estão 33 graus. Quando se sai de casa e se regressa e a água não voltou. Quando se regressa a suar e se apanha com o fumo do lixo que está a ser queimado. Quando estão estes graus todos e consequentemente a água do tanque está a escaldar. Quando, ainda por cima, a internet não se mantém cinco minutos seguidos. Mas tudo ficou bem quando a L. me deu um coco delicioso.

Eu sei que havia algum cepticismo por parte da minha família em relação à minha estadia tão prolongada e depois surpresa em relação à minha adaptação. Pelos vistos era eu a única a não ter dúvidas. 

Quando me perguntam se gosto de cá estar a resposta é invariavelmente sim e quando me perguntam se gostava de cá viver a minha resposta é variável, porque depende das circunstâncias. Hoje diria que não.

Na verdade isto é um ciclo vicioso. Eu não gostaria de cá viver porque quase não há gente jovem e por isso não há muitas das comodidades que poderiam atrair o público jovem. Mas porque não há jovens que fiquem, não há quem invista nessas comodidades e assim em diante. E olhem que eu contento-me com pouco.

Por outro lado eu gostaria de cá viver precisamente porque Goa é este retiro espiritual que vejo, onde há mais idosos do que gente jovem, onde a partir das nove da noite se ouvem grilos e onde há tempo para ler.

Parece-me que aqui é mais fácil pensar positivo. Em Portugal é difícil ser optimista quando se passa a vida encerrado dentro de quatro paredes com vizinhos dos lados, em cima e em baixo. Em Portugal parece que andamos enjaulados. Se falta a água e a electricidade sobra pouco para fazer.

Mas em Goa ainda há muito para ser feito. Um dia mau em Goa é um dia em que Portugal não nos sai do pensamento e em que comparamos e nos esquecemos do que há de bom onde estamos.

Vanessa

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Tlim tlim, pim pim, pum pum

Aqui na casa em Nagoá de Vernã não se ouve muito barulho. Ruídos, só os da natureza. É a típica vida bucólica. Não passam muitos carros por aqui e quando passam não buzinam tanto como na cidade. As vozes ouvem-se distantes. As pessoas ficam à sombra a conversar. Normalmente querem saber onde vamos ou de onde vimos. São as únicas expressões em konkani que reconheço sem esforço. Depois de noite o silêncio é apenas quebrado por cães a uivar, uns poucos grupos de jovens que passam, zaragatas entre gatos e coisas do género.

Mas, se há coisa que caracteriza bem a vila é o som dos vendedores. O senhor que vende pão na sua bicicleta começa a buzinar pouco depois das cinco da manhã. É uma buzina bem aguda que ele faz tocar três vezes. Pim pim pim. Ao longo do dia a mesma buzina assombra-nos com a promessa de pão fresco. Há os vendedores de peixe e marisco que gritam repetidamente o produto do dia. Blá blá blá. Há os amoladores, os pequenos arranjadores, os vendedores de tecido e arranjos de costura e outros que tais que também circulam por aí a apitar ou a gritar. Há aqui uma autêntica sinfonia de pequenos negócios que chegam às portas.



Fotos tiradas em Loutolim. Aqui em Nagoá de Vernã é raro sair para ver o que vendem estes comerciantes porta-a-porta. É que se lhes damos um bocadinho de confiança (às vezes basta só olhar na direcção deles) eles quase que nos querem vender a roupa que têm no corpo e ainda a avó.

Vanessa

sábado, 9 de abril de 2016

Aqui ali, isto e aquilo

Estas fotos representam lugares, pessoas, ocasiões. São símbolos de felicidade. Pedem bis.









Vanessa

Fila indiana

A expressão "fila indiana" que conhecemos está relacionada com os índios, que seguiam em fila pelos trilhos dos matagais, e não com os indianos. Se não acreditam venham cá ver como são as filas da Índia. Se Goa é exemplo, que é (já perguntei a pessoas que aqui vivem), não há cá filas nem ordem de chegada nem pessoas prioritárias. Aqui reina a anarquia, excepto quando alguém põe umas fitas a circundar o balcão para encaminhar as pessoas (mesmo essas não servem para nada, mas estão lá a fazer de conta que funcionam) ou quando há um funcionário a quem foram dadas as rédeas da ordem de atendimento ou um sistema de senhas.

Eu não entendo, mas quando não há sistema algum, eles lá entendem. Na caixa do supermercado, por exemplo, eles lá vão atendendo de forma coerente, olhando bem para quem está à espera e evitando os que cortam a fila multidão que ali está à espera de ser atendida, a não ser que os cortadores de filas levem coisas extremamente perecíveis com o calor, como leite, iogurtes e gelados. 

Até agora não senti que me tivessem passado à frente injustamente e até e já calhou eu ir ao supermercado comprar apenas um gelado e toda a gente me deixar passar à frente.

Infelizmente, aqui não há um grande sentido de espaço pessoal e é natural as pessoas ficarem tão próximas de nós que lhes sentimos a respiração na pele e até percebermos o que comeram ao almoço.

É especialmente perturbador quando são homens a fazê-lo, que eu sei que fazem, porque os homens daqui, aqueles que não têm aspecto de serem goeses, parecem sedentos de contacto com mulheres. 

Há até aqueles que parece que estão sempre no supermercado e que quando lá estão compram uma coisa de cada vez, tipo uma cebola, um tomate, um sabonete. São esses que olham descaradamente e que sempre que podem lá se vão aproximando de alguma mulher atraente e sozinha. São esses os únicos que não fazem questão de ser atendidos o mais rápido possível e que vão ficando para trás, aproveitando o contacto humano.

Disse-me uma amiga que normalmente são homens das aldeias que vêm para Goa, como tem acontecido frequentemente, e que trazem mentalidades de aldeia mesmo que venham para as cidades daqui.

As aldeias são as grandes culpadas de gerarem populações que não sabem respeitar filas ou o espaço dos outros. Diz quem cá está há muito tempo que isso está a mudar. O problema é que aqui tudo muda devagarinho.

Tão devagarinho como as filas dos serviços públicos demoram a andar.

Vanessa

Adenda

Referi na publicação anterior que tenho família Sena em Loutolim. Não é família Sena, é família Quadros, do lado da minha mãe. Não estou mesmo habituada a estas andanças de ter muita família, está visto.

Vanessa

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Loutolim, Goa

Há zonas de Goa que são feitas disto, a perder de vista:




Tenho família em Loutolim. A minha avó materna, que não conheci, tem uma irmã que vive aqui, com uma casa com vista para estas paisagens. As casas aqui são humildes, mas estar num dos alpendres destas moradias é uma riqueza por si só. Aqui está representada a típica paisagem de Goa.

Vanessa

terça-feira, 5 de abril de 2016

Podia ser noutro sítio qualquer


Mas o brilho que o mar deixa na areia quando se vai embora para mais uma leva e as bolhas que reflectem o sol deixadas pelos crustáceos ali escondidos e a areia que escorre sobre si com a força de cada enxurrada e as pegadas que se desfazem com o compasso do mar e o movimento das ondas, tudo isso também faz Goa e é Goa. Aqui o mar é poesia. Foto tirada na praia de Calangute, onde não deixei pegadas.

Vanessa

Book Review | Elizabeth and Mary: Cousins, Rivals, Queens by Jane Dunn

Two of the most fascinating women in history for me, whose lives have been condensed into a book? Count me in for that read. Jane Dunn's Elizabeth and Mary: Cousins, Rivals, Queens did not disappoint in the little details one wants to know about as well as in historic context to keep one aware of what surrounded such intriguing personalities as these two royal women, cousins and rivals.

It did take me while to finish reading the book though. I found it very dense sometimes, both in historic facts and in quotes from original sources. Of course, that's actually what makes a great biography, but I must have been in the mood for a lighter read or something. I started by being amused, but then all the ancient English bored me and cut the pacing for my reading dynamic.

I wish the book had gone into the gossipy details about why Elizabeth did not marry (for example, all the tales about her being a man in disguise), but I guess there were not enough historic facts that back that up. I was also interested in what turned out to be smaller than expected details such as the practices of prediction, especially astrology, in royal courts as well as suspicions of witchcraft.

I was pleased to read so much about Elizabeth's mother, Anne Boleyn, and also her father, King Henry VIII, both favorites of mine in history lessons at school. Thanks to this book I'm all the more interested in Queen Elizabeth I, as she continues to seem so virginal and at the same time so strong and intelligent in my imagination.

I will certainly try to read more of Jane Dunn's biographies in the future.

07/10

Vanessa

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Razões para continuarem a visitar este blogue


Vêm aí coisas boas. Muito boas.

Vanessa

Santa ignorância

Quem vive no país onde nasceu, que é o país onde quase toda a sua família nasceu também, nunca vai perceber bem o que é não conhecer a maioria dos seus familiares e também nunca vai perceber a sensação de perder a conta ao número de familiares que desconhece ou que não sabe ao certo de onde vem ou que não se lembra em concreto onde está. Quem está habituado a ocasiões de mesa cheia, em cima e em volta, não compreende o que é natais e aniversários e páscoas só com a família mais chegada, que são duas ou três pessoas, e comer nessas ocasiões pratos típicos do país onde está, mas também outros cujas receitas passaram de geração em geração, por quem as aprendeu num outro país onde abundam os ingredientes usados nos pratos.

Quem vive no país onde nasceu, que é o país onde quase toda a sua família nasceu também, não sabe o que é não ter família no interior ou não conhecer ou não se lembrar do que é ir à terra

Há muitas outras coisas que quem não é migrante não compreende por nunca ter sentido na pele, mas que acabam por moldar e influenciar um ser humano que tenha vivido num lugar onde não nasceu e no qual tenha uma aparência ou costumes ou aspectos culturais fora da norma nessa sociedade.

Aqui sou parecida com os locais. Mas se vejo turistas brancos na rua, identifico-me mais com eles. Olho para eles e revejo-me. Olho para eles e vejo-me como igual a eles. Certamente que eles olham para mim e vêem mais uma local com uma cultura diferente, mas eu olho para eles e às vezes até sorrio e tenho de me esforçar por lembrar que eles estão a ver mais uma indiana e não vão perceber que temos mais em comum do que tenho eu em comum com todos os outros indianos. No fundo, eu também sou uma turista.

O problema é que até agora eu vivi em santa ignorância. Nunca me cheguei muito a tradições nem percebi muito bem o espírito familiar que vejo amigos a nutrir. 

Mas agora conheço o que esses amigos conheceram toda a vida e hoje, aos 29 anos, feitos nesta terra que até é um pouco minha, apercebo-me da minha própria ignorância, até agora santa por nunca ter sido desvendada.

Conheci com 29 anos uma irmã do meu pai e as filhas dessa tia e os filhos das filhas dessa tia, mais a irmã da mãe da minha mãe, avó que nunca conheci, e a filha dessa minha tia-avó e ainda as filhas dessa filha.

Há ainda primas e primos e mais tios e mais pessoas do meu sangue que estão noutros países e que se calhar nunca vou conhecer. Há depois aqueles que estão em Portugal que querem vir para Goa. Até os meus pais.

E eu, que até agora vivi em santa ignorância, longe destas andanças, não sei o que fazer ao conhecimento recém adquirido de que sou mais ou menos turista aqui, mas sou também mais ou menos turista em Portugal, assim como sou mais ou menos turista em Moçambique, onde está a outra parte das minhas origens.

Da mesma forma que sou mais ou menos turista sou também pessoa mais ou menos, porque um bocado de mim está aqui, outro bocado está acolá e outro bocado acoli. Nisto virei puzzle, com peças por todo o lado.

Há agora uma parte de mim que gostava de voltar para a santa ignorância. Mas grande parte de mim já se habitou à ideia, ainda que não saiba ao certo o que fazer com ela.

Vanessa

sábado, 2 de abril de 2016

Saudades disto

Colorir. Ver séries descontraídas e colorir. Ver documentários e colorir. Ouvir meditações guiadas, seguir as instruções e colorir. Ouvir narrações de livros e colorir. Ouvi o 1984 e colori tantos desenhos. Ouvi este outro livro e colori outros tantos. Cada capítulo, um espaço pintado. Medir por cores. Medir pelo lilás, pelo rosa, pelo azul. Medir pelos gestos, entre a distância da esquerda para a direita ou de cima para baixo.



Ainda por cima já ia aqui. Um desafio de paciência e destreza. Devia ter trazido para aqui.

Vanessa

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Não é mentira


As praias mais bonitas são as desertas, seja aqui, seja em Portugal. Feliz primeiro de Abril.

Vanessa

E os mendigos?

Por incrível que pareça, não vi muitos. Quero dizer, não vi tantos quanto pensava que ia ver. Quanto aos que vi, foi aquilo que já esperava. Já tinha lido vários artigos sobre aluguer de crianças, por exemplo, para ajudar à generosidade dos samaritanos. Parece que é um negócio obscuro, mas que continua. 

Uma vez, em Margão, uma rapariga com três miúdos pequenos e muito sujos veio pedir junto de nós. Os mendigos fazem normalmente um gesto que leva a mão, com os dedos unidos, à boca para indicar que precisam de dinheiro para comer. Ela fez o gesto, mas não nos convenceu. 

Quero dizer, convenceu-me um bocadinho, claro, por causa das crianças, mas acabei por não dar nada.

Uma das crianças ficou ao meu lado enquanto a senhora ficou parada à nossa frente a ver se mudávamos de ideias. Nisto a criança transforma-se momentaneamente em estátua, como fazem as crianças quando são surpreendidas por uma necessidade biológica, e começa a fazer xixi ali mesmo.

O líquido amarelo escorreu pelas pernas descobertas e criou uma poça mesmo ao meu lado.

Depois foram embora e eu fiquei a vê-los afastarem-se.

Não sei se haverá aqui uma moral ou uma metáfora. 

Deverei eu passar a dar qualquer coisa aos mendigos? Será que faço mal em não dar? Será que se não der, mais necessidades biológicas virão parar ao meu caminho e criar uma poça mesmo ao meu lado?

Há outros tipos de mendigos, desde os cegos que fazem das suas latinhas de peditório tambores para as suas vozes melodiosas aos homens sem pernas que se arrastam pelo chão aos velhos de aspecto louco e longas barbas aos de aspecto normal a quem apenas parece faltar um banho de esfregão.

Nunca sei se devo dar alguma coisa. Não sei se dar alguma coisa é ajudar. Não sei se há alguma hierarquia no negócio destes peditórios e o dinheiro vai parar a algum chulo ou se a falta de dinheiro torna violento o hipotético chulo e acaba em tragédia a vida dos pedintes. São as mesmas dúvidas que tenho em Portugal.

Sou desconfiada em relação à caridade.

Mas já vi mendigos aqui, sim. Obrigado aos que perguntaram e têm perguntado. Deixam-me sempre aqui inquieta, com estas questões, e fazem-me remexer o cérebro em busca de consolo.

Vanessa

quarta-feira, 30 de março de 2016

Maná de Goa: o caju









"Lá em cima está o tiro liro liro" mas se olharem com atenção, aqui em Goa, há muito mais do que isso. O caju é um dos símbolos de Goa, em directa concorrência com as praias e o marisco. Mas o caju é três em um e, por isso, um produto especial. É fruto seco: aquele feijãozinho que depois é retirado da casca e assado, fazendo também parte da lista de ingredientes de doces regionais; é fruto sumarento: aquela pêra vermelha ou verde que curiosamente é chamada de maçã de caju e que atrai todos os macacos da área; e é bebida alcoólica: o feni, aguardente produzida através desse fruto. Para mim o caju é um espectáculo por si só, especialmente o caju desta árvore que está no terreno da família Sena aqui em Goa.

Vanessa

terça-feira, 29 de março de 2016

Cruzes credo

Aprendi que na Índia já foi muito comum pensar-se e que há lugares onde ainda se pensa que a alma de uma pessoa pode escapar num bocejo ou num espirro ou que um demónio pode facilmente entrar no corpo se uma pessoa bocejar ou espirrar. Aqui colocar a mão à frente da boca chega a ser, antes de ser um acto de educação e higiene, uma forma de prevenir que a alma escape ou um demónio entre. Então aqui, quando alguém boceja chama-se deus com a expressão "Marayan" e abençoa-se quem espirra de acordo com o credo de cada um (até já ouvi "Hare Krishna" como forma de "santinho"), não vá o diabo tecê-las. 

Na Europa, foi na Idade Média que se começou a abençoar quem espirrasse com um bless you, porque por alturas da peste negra, o espirro era um muito mau indício do estado de saúde do espirrante e mais valia prevenir o inferno de se cruzar com o provável enfermo com uma extrema unção assim para o informal e executada por qualquer pessoa assim ao desbarato. Como é que a epidemia, a da benção pós-espirro, se propagou até aos dias de hoje eu não faço ideia. Alguém por aí sabe?

Parece que também na Europa, na Idade Média, se pensava que os bocejos eram para ser contidos com uma mão à frente da boca, não porque nessa altura proliferava o mau hálito causado pela higiene duvidosa da época do "água vai" ou porque os dentistas não passavam de arranca-dentes, mas porque uma cavidade assim aberta era meio caminho andado para o diabo fazer das suas e pôr-se a possuir as pessoas.

Ouvi foi dizer que em Portugal o "santinho" em vez da tal bênção tem também uma explicação supersticiosa. Disse-me um senhor, no Porto, há uns anos, que se espirra quando o diabo nos quer sair do corpo e que, por isso, "santinho" era dito à pessoa que espirrasse, para que permanecesse livre de demónios.

Lembrei-me de todas estas coisas porque espirrei três vezes seguidas daquela forma contida de quando estamos em salas de espera ou na igreja. Sabem? Quando o espirro vai para dentro? Logo depois bocejei e estava com as mãos ocupadas, por isso não tapei a boca. Sim, usei o Google para tentar confirmar estes pseudo-factos, mas fiquei na mesma. Que mundo este. Já não sei no que hei-de acreditar.

Vanessa

Modéstia à parte

Esta noite sonhei que todo o meu cabelo se tornava grisalho, depois branco. Sempre considerei os cabelos brancos exemplo de sabedoria. Quer isto dizer que ao meu cérebro falta-lhe modéstia. Sempre considerei a falta de modéstia exemplo de falta de sabedoria. Em que ficamos? Ficamos na mesma, pois claro.

Falando em modéstia, ainda tenho alguma habilidade para jogar Monopólio. Quem me segue no Facebook sabe que comprei um Monopólio de edição indiana. Tenho jogado especialmente com o meu primo. Infelizmente, como no mundo real, só habilidade não chega. É preciso também uma dose de sorte. Ou conhecimentos.

Não vejo o meu melhor amigo há anos. Há quantos, mesmo, R.? Vês a falta de modéstia? Sei bem que lês este blogue. Ainda ontem falámos disso, de ter conhecimentos. Cunhas, portanto. Alavancas.

Nenhum de nós tem. Já vimos que sem nepotismo isto não vai lá facilmente. Mas dificilmente conseguiremos. Digo isto sem negativismo, querendo dizer que mesmo com dificuldade conseguiremos.

A língua portuguesa está cheia de armadilhas. Ainda ontem dizia isso a outro R.

A semana passada uma outra amiga de anos, a J., encontrou uma carta minha na qual eu dizia que eu e dois amigos, incluindo o R., seríamos donos de um casino por esta altura das nossas vidas. Ah!

Ainda ontem comentámos aqui em Goa que o que não faltam são casinos e nós aqui, a jogar com dinheiro falso, rupias de brincar, e a comprar propriedades imaginárias mas com correspondência real.

Já comprei o Mumbai imaginário duas ou três vezes, mas não lá ia agora mesmo que me pagassem. Comprei todas as estações de comboio, certa vez, mas ainda não andei de comboio aqui. Já comprei a estação de Chennai e a própria cidade de Chennai, onde a minha tia-avó, em cuja cama me sento agora, faleceu.

O meu cérebro, que ontem sonhou que a cabeça que ocupa se tornava grisalha e depois branca, tem passado muito tempo a fazer correspondências entre aqui e lá, palavras que ouvi ontem e palavras que ouvi hoje, pessoas que me acompanham fisicamente e pessoas com quem apenas falo digitalmente. Talvez o meu cérebro pense que uma cabeleira branca é uma cabeleira de pessoa cansada e não de pessoa sapiente.

Modéstia à parte, tenho um cérebro muito trabalhador.

Vanessa

segunda-feira, 28 de março de 2016

Book Review | A Fine Balance by Rohinton Mistry

You know how an author gets you so invested in the characters and then keeps you cringing with their turmoiled path? You know how you a novel gets you so alive in your own imagination that you almost have physical reactions to something that's not real? You know how you get so familiar with people that come alive on paper that you feel for them and you curse the author for putting them through misadventures?

That's how it was for me with A Fine Balance by Rohinton Mistry. A recent friend, who's not Indian but is certainly more Indian than me, not only recommended this book, but also lent her precious copy to me, praising it so much with such a hurtful expression and such a heartfelt review that I felt that she was actually recommending me some sort of torture from which I would be scarred forever.

That's exactly what happened. This book scars one's soul in an indescribable way. It's not just the plot and the way the characters' paths intertwine. It's also the real events described in an almost cold way and the pain that perspires through the words that grabs one's heart and keeps tugging at it.

The book tells the story of four main characters, very different in upbringing, in mid 70s India. Political instability creeps into the characters' lives in different ways, shaping their own self mentally and physically.

The only real flaw I could see in this book was that it was too short, even though it was quite long. I wanted more of it. I wanted to see something beautiful at the end, something that would reward the characters and relieve them of their suffering, and something that would make my mind at peace.

There was no such thing and I think that was Mistry's purpose. Being in India, I see some of the things described in this story set in the 70s. I see so much that has not changed and needs to be changed.

That's why I think this book is still needed and someone this Mistry is much needed in the world.

It was such a pleasure reading this novel that I'm even afraid to go read something else and make the temporary spell one feels after finishing a book, that stirs one inside, go away with a book that's not so worthy as this one.

10/10

Vanessa

sexta-feira, 25 de março de 2016

Contagem decrescente

Mas já?! Ah, pois. Se tivessem lido este post percebiam. O tempo aqui não é para brincadeiras e agora que o calor está a apertar, junta-se à lista a minha própria lentidão. Conclusão: dois meses certamente vão voar.

Dentro de dois meses (tanta coisa que cabe aí) vou estar a viajar novamente. Em Maio vou viver um dia duas vezes (não é bem assim, mas deixem-me sonhar). Vou viajar no dia 25, passar um dia a viajar e mesmo assim vou chegar a Portugal no dia 25. Que não se engane o tempo, que eu preciso de cada segundo para matar saudades e de muitos segundos para recuperar seis meses passados neste país tropical.

Por agora tenho de aguentar com o calor e a humidade. É de manhã e estão 26 graus (parecem 30) e 71% de humidade. E eu tenho o portátil ao colo, porque gosto de viver no limite.

Como estamos em época pascal, os católicos estão ocupados. Como estamos às portas da Primavera, os hindus estão ocupados. Há dois dias que não saio à rua e escrevo isto com satisfação. Tenho trabalho, tenho livros, tenho silêncio e tenho de aproveitar tudo isso com fervor religioso.

Tenho medo de ler notícias e fico feliz por já termos aquilo que me parece ser a televisão digital terrestre indiana, porque assim a televisão da sala só mostra uns três canais e não tenho de ver mais más notícias. Até o meu tio A. já transferiu a sua desilusão pelo que acontece em Bruxelas para a RTP Internacional e desliga a sua televisão prematuramente. É preferível estar em silêncio, por agora. Estamos de quarentena.

Desde que cheguei que ando enjoada do Facebook. Ainda não passou.

Os meus hábitos de leitura mantêm-se saudáveis.

Estou na minha terceira dose de vitaminas.

Tenho mais lugares para visitar do que tempo.

Ainda não estou certa de que quero voltar. 

Estou a brincar.

Vanessa

quinta-feira, 24 de março de 2016

Dia triste na casa Sena


A Pish Pish deixou-nos. Só tenho fotos dela a dormir, mas será sempre recordada como uma gata muito ágil, brincalhona e sedutora que vai deixar muitas saudades.

Vanessa

quarta-feira, 23 de março de 2016

A good looking bloke


I got to know the restaurant of a hotel called O Pescador with my family when we visited Dona Paula. A friendly couple returned our greeting when we entered the place. Both had an open book on the table and a peaceful look on their eyes. They looked like they were on holidays and enjoying themselves at that. Soon they inspired us to talk about retirement and especially my parents' retirement because the gentleman reminded us of my dad's good-naturedness and free spirit and the lady reminded us of mom's relaxing looks, and even mom agreed with that. We mimicked the couple when they were welcomed to their order of a large plate of french fries. We nodded and smiled at each other during our stay. It was when I got up to take some photos, when the lady was by the pool, that this gentleman decided to strike a pose for me. I promptly obliged and then showed him this photo. "That's a good looking bloke, ain't it?", he said. We all laughed, at the restaurant. He didn't want me to send the photo. I was trying to figure out what to do with it and since his face is not fully visible I decided to publish it on this blog to show this relaxing, good humored moment that happened between strangers, me and the good looking bloke, both in a foreign country.

Vanessa