terça-feira, 8 de março de 2016

Sinais dos tempos

Tenho vários amigos, em diferentes cidades até (só para não dizerem que uns influenciam os outros), que acreditam em sinais, assim no geral. Uns pelas crenças religiosas, outros pela espiritualidade pagã, outros porque não acreditam em coincidências (ou porque leram aquele célebre livro de Margarida Rebelo Pinto, se bem que se assim fosse não seriam propriamente amigos, mas sim conhecidos apenas), outros porque gostam de juntar os cromos que o universo parece mandar-lhes numa ordem especial.

Não sabendo ao certo se sou do clube dos que acreditam nos sinais, sou facilmente alvo de doutrinação, claro está. Amigos que acreditam em sinais são normalmente inclinados para o ensino e até para o convencimento de outros como eu, que não sabem se acreditam ou que se calhar até acreditam um bocadinho.

Se formos a ver, isso do acreditar um bocadinho nunca foi bem visto. Quando eu andava na catequese, os catequistas insistiam sempre naquele ponto da fé. Tínhamos que ter muita fé. Estão a ver? Não bastava um bocadinho. Tínhamos de acreditar muito.

Eu sei que muito se diz que no meio é que está a virtude, mas sempre me pareceu que a sociedade é de extremos. Temos de ser muito saudáveis e muito bem-sucedidos e muito envolvidos e muito humanos no geral.

Nisto tudo, andei aqui a pensar nos sinais e em como talvez deva acreditar neles. 

Por exemplo, andámos para aqui a tentar tratar de papéis para conseguir um documento e esteve sempre tudo contra nós. Acreditando um bocadinho nisso dos sinais, pensei que talvez não fosse a altura certa para esse documento ser feito. Tanta coisa correr mal pode não ser coincidência.

Depois aprendi também a ser de extremos como a sociedade me parece ser.

Por exemplo, durante dias seguidos a internet portou-se especialmente mal. Nem mesmo desligar o router da tomada resolvia o problema da ligação. Então decidi que isso era um sinal (ainda não decidi que tipo de pessoa que acredita em sinais sou eu, por isso digamos apenas que foi um sinal do universo). Não tenho agora dúvidas de que, por alguma razão, há uma força externa que não quer que eu trabalhe.

Tem sido muito mais fácil acreditar nisso dos sinais agora. Deve ser um sinal dos tempos.

Vanessa

Book Review | A Long Way Down by Nick Hornby

I never noticed this book at the library. It was right on the first shelf with a bright blue cover, but I never saw it until last week. I hardly read what it was about. I knew it might be depressing. But in the end, I loved it. 

I always wanted to read Nick Hornby's books, but I never got to it. This was not one of the books on my list of "to be read" but I couldn't have chosen a better one.

So four people are on the top of a building, famous for being a suicide spot, and they all want to jump to their deaths because they're miserable on New Year's Eve. Yes, quite depressing. They're all different and they all end up talking to each other, even though they're really, really different. That's the premise of A Long Way Down.

I enjoyed the first person approach, with each character talking about their experience. Hornby really managed to speak in four different voices, including some speech peculiarities and bizarre inner thoughts that were hilarious. Seriously, how could a book about suicide be so funny?

Not only that, it was also insightful to the point where one could find a piece of valuable knowledge in each point of view even on weird scenes or on character's misfortunes. It's quite difficult to manage that and still have a book that might be considered a comedy.

All in all, this was a very pleasant experience, reading this book. I didn't even feel time passing by and I wish there was more of it in the end. That's what makes me feel like I've read a good book. Like, you want to know what happens but you don't want the book to end. The reader's paradox, I call it.

10/10

Vanessa

segunda-feira, 7 de março de 2016

Chouriço goês à moda da família Sena

O chouriço goês sempre foi uma das principais lembranças que quem vinha visitar Goa trazia quando regressava a Portugal. Em qualquer ocasião especial na casa Sena de Sousa em Portugal havia pelo menos um prato de origem goesa e muitas vezes o chouriço, trazido por alguém que tinha vindo a Goa, fazia parte do menu. É costumeiro que o gelo dos congeladores dos goeses fique vermelho  e aromático devido aos temperos do chouriço. O nosso ficava e eu lembro-me desse aroma penetrar lentamente em todos os alimentos que púnhamos no congelador se o chouriço não fosse bem acondicionado. Às vezes nem o gelado escapava.

O chouriço goês faz lembrar o português, mas apenas vagamente, porque uma pessoa saboreia os temperos e até se esquece de que terra é. O chouriço feito cá em casa é especialmente saboroso, claro, e eu tive o privilégio de acompanhar o processo. Um dia saí do quarto e senti, bem forte nas narinas, o aroma do chouriço. É avinagrado e especiaria-rizado como só os goeses conhecem e sabem fazer.

Fica o registo fotográfico.







Os chouriços ficam a secar ao sol (neste caso, ao lado de cocos destinados a fazer óleo).

São cozinhados de formas diversas. A forma típica cá de casa e em Portugal é fazer um refogado de cebola e deixar o chouriço cozer até libertar as especiarias para a água, e depois servi-lo com ovo cozido e arroz (neste caso, arroz pulao). Para os amigos portugueses, a resposta à pergunta que com certeza vos vai passar pela cabeça: sim, é picante. Mas é também delicioso.

Vanessa

sábado, 5 de março de 2016

Imagem de arquivo


Utorda Beach. Dava um postal bonito. Fiquei de enviar postais a amigos e ainda nem isso fiz. Está tudo atrasado porque aqui as coisas demoram mais. Junta-se agora um tipo de calor que evapora qualquer tipo de vontade. Uma pessoa dá um passo e a testa escorre. Nasci em clima tropical, mas ainda não me habituei.

Vanessa

Book Review | The Scarecrow By Michael Connelly

Here's a book that made me miss working as a journalist. This was the first Michael Connelly book I read, and I could perfectly see this is an author who was once a reporter.

The Scarecrow is sort of a sequel to The Poet, and follows Jack McEvoy's career as a reporter for the Los Angeles Times after helping catch a serial killer and writing a novel about the experience. 

It turns out, not even that can postpone the sad reality of layoffs in a financial crisis scenario and with all the newbie journalist wannabes who are multitasker ninjas, and can do internet takes and video and audio and are pros at searching on Google, Jack's position is put on the line.

At the same time there's a hacker killer on the loose that has been laying low and blaming his crimes on other people. You can almost see where this is all going, and Connelly does not disappoint.

The stories intersect in a fast pacing way. The plot is very visual, although I felt it lacked more detail and character development for those who haven't read The Poet, and for journalists, it touches sensitive topics.

I liked this one a lot, especially because it felt like a guilty pleasure to read it. I guess it was one of those thrillers, very quick in presenting all the details, filled with little surprises and with an action movie type ending that I choose to read in between novels with in-depth plots, you know?

I will certainly keep reading Michael Connelly's books, especially now that I've seen he's written a series of books on detective stories. Please write more journalism stories, Mr. Connelly.

7/10

Vanessa

quarta-feira, 2 de março de 2016

Ignorância q.b.

A internet passa a vida a albergar pessoas, especialistas de alguma coisa, que insistem na premissa de que temos estado a fazer tudo mal e perpetuam a ideia de que há coisas que fazíamos que temos deixar de fazer para atingir um nirvana qualquer. Os pais têm de deixar de fazer isto sob pena de os seus adorados filhos chegarem aos 18 anos e serem bichos do mato. Mas se os pais fizerem o contrário, correm o risco de que os seus filhos nunca queiram sair de casa e virem agorafóbicos. Os obesos têm de deixar de comer isto e passar a comer aquilo. Mas se só comerem aquilo em vez de comerem isto podem sofrer mais doenças cardiovasculares.

Fazes exercício ao final do dia? Está mal. Tens de fazer de manhã. Fazes exercício em jejum? Está mal. Tens de comer uma frutinha biológica. Vais dormir a essas horas? Está mal. Tens de dormir ao pôr do sol. O teu jantar é a estas horas? Não pode ser. Tens de jantar a estas horas. Os teus hábitos estão todos mal.

No ano seguinte, provavelmente vamos encontrar artigos e vídeos e infografias que contrariam o que aprendemos no ano anterior. Mas a vida é uma aprendizagem! Viver é isto! É aprender e desaprender e continuar a querer saber e continuar a investigar online até chegarmos ao cerne das questões.

A internet é também prolífera em artigos com compilações de hábitos que não o deviam ser e tarefas que não devíamos ter e amigos que devíamos deixar e mimos que não devíamos dar e patrões que devíamos venerar. Cinco Hábitos Que Tem De Perder Se Não Se Quiser Perder. Dez Alimentos Que Não Devia Ter Na Despensa. Vinte Coisas Às Quais Devia Dizer Não. Vinte Coisas Às Quais Devia Dizer Sim. Vinte Coisas Às Quais Devia Dizer Assim-Assim. Vinte Coisas Às Quais Não Devia Dizer Coisa Alguma.

Não sei desde quando a escola da vida desceu nos rankings do ensino obrigatório. Que se danem as avózinhas e as suas mezinhas. A internet é que sabe tudo e agrega todas as respostas hoje em dia. Tenho a impressão de que estive a dormir nessa transição da escola da vida para essa forma de ensino à distância que é o mundo virtual onde tudo o que fazemos está mal e onde a sabedoria é a única virtude que devíamos procurar. Isso e um corpo esbelto com abdominais definidos fruto de uma alimentação super saudável que depois vai-se a ver e é prejudicial, de hábitos que no ano seguinte estão errados, tipo beber leite, e...

Está na altura de se ensinar que a ignorância é uma virtude e não algo a ser temido. Ora, se não fosse a ignorância, como poderíamos ficar satisfeitos com a sabedoria? Se não fosse a ignorância alheia, por exemplo, no âmbito daquela categoria comummente apelidada de burrice, não teríamos motivação para procurarmos o conhecimento e não sermos como o exemplo de burrice que nos levou a tal procura. Rejubilem-se na ignorância, pois ela é a fonte de toda procura de conhecimento.

Ironias à parte, por vezes já não tenho paciência para as páginas nas redes sociais e para as páginas na internet e para os emails com assuntos do género food for thought e chicken soup for the soul e com temas como os acima citados. Por vezes escolho a ignorância e não vejo nada de mal nisso. É que pequenas doses de veneno podem imunizar da mesma forma que grandes doses de remédio podem matar.

Vanessa

terça-feira, 1 de março de 2016

Cenas dos próximos episódios


Não pensem vocês que a fraca regularidade com que actualizo o blogue se deva à ausência de ideias ou à falta de conteúdo pronto para ser escrito. Fica aqui a nota. Isto foi só um post para encher chouriços.

Vanessa

Book Review | The Pillars of the Earth by Ken Follett

If you like history you will like this history book. If you like romance you will like this romance novel. If like intrigue you will like this thriller. The Pillars of the Earth by Ken Follett fits whatever category you like and you will bear through the parts you don't like just to get a glimpse at the characters and events you're interested in. That's how I see it and that's how it happened to me.

Ken Follett is brilliant in making the reader get attached to a character and want to know everything about such person. In this book, so much different from the thrillers he writes, he inserts careful details about construction, architecture, and beauty in general. He made me interested in religious construction, which is a feat in itself. I never really thought about it when I saw churches and cathedrals, but now I want to see more such buildings so that I can see them through Follett's eyes, and not just see them for their general beauty as I did before.

I was more interested in Aliena and Ellen above all. Those two female characters who defied the Middle Age way of thinking, were clever, astute, and powerful in their own way made me want to keep reading all day so that I could get to know them more as the plot developed. Some scenes were quite funny, some were outrageous, some were quite erotic. Whenever Aliena and Ellen made their appearance, I forgot I was reading a book and thought I was meeting the most stunning women on earth, and wanted to be friends with them.

Some of the political and historical intrigues were hard to swallow after a detailed adventure or a romance scene. They slightly cut the pacing and inserted what seemed to me to be useless information. I'm sure I will need a second reading to figure out why certain scenes were included and why certain characters got into the plot, but at the first glance some parts made the book a bit tedious.

It was one of the cases where some of the historical remarks and characters made me enjoy the "lighter" parts even more and even yearn for them so that I could rest my mind.

I have been meaning to read this book for so long that now I feel sad and somewhat empty that I made it through. Readers will understand me. Fortunately I now have a television series to dissect and complain about for not respecting the book or something of the sort... and I have the sequel World Without End to dive into when I get the chance. I'm glad Ken Follett exists. Someone should build a cathedral to honor such man.

8/10

Vanessa

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Memória portuguesa

Fui ao supermercado com o meu primo, comprei petiscos e na caixa, depois de termos estado a conversar, o funcionário perguntou-me se estava a falar francês. Primeiro ri-me. Cá fora, já quase em casa, lembrei-me novamente do comentário e ri ainda mais, às gargalhadas. Depois, veio a tristeza. 

O português, a cultura e o idioma, são apenas espíritos que pairam sobre Goa e que apenas de vez em quando são lembrados pelos entes queridos. 

Conheci hoje um senhor goês no Mr. Baker em Pangim, junto ao Clube Vasco da Gama. Já esteve em Portugal e agora está aqui. Quem sabe português, disse ele, reza em português. 

Pouco oiço falar português na rua. É uma ocasião tão rara também para os outros, que de vez em quando somos abordados por quem sabe também, porque quem sabe e cá vive fica sedento de diálogos na língua de Camões, e quer saber novidades de Portugal e de onde somos e para onde vamos e porque aqui estamos.

O português aqui é uma memória, já aqui o tinha dito, e para quem sabe e gosta do português, é uma memória nostálgica, como o fado, porque de português pouco tem Goa neste momento. 

O primo Joaquim fala orgulhosamente de como houve leis portuguesas que ficaram mesmo depois de vir um governo hindu. De como, em raras instâncias, o senso comum e a racionalidade ultrapassaram a religião.

Mas agora, por agora, o português é uma memória. Um fantasma que paira sobre Goa e que se faz lembrar em pequenos detalhes como apelidos, nomes de lojas, hábitos. Há por aí galos de barcelos e azulejos e gastronomia de fusão. Há pessoas como a minha família, que vão mantendo vivo o idioma aqui.

Ainda assim, há quem oiça falar português e pense que está a ouvir francês.

Vanessa

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Bombay Through My Lens I











A ten photo summary of Bombay through my lens.

Vanessa

O tabu da menstruação

Aqui para nós, que somos todos adultos: todos os meses as mulheres passam por um período chato. Perceberam? Usei a palavra período no sentido de tempo num post sobre o período no sentido de menstruação. Isto para dizer que em Goa e decerto em toda a Índia há assuntos normais que são abordados de forma cautelosa. A menstruação é um desses assuntos. No fundo, é um tabu.

Exemplo: muitos supermercados e mercados oferecem (sim, aqui ainda não se paga) sacos de plástico transparentes. Para quem não sabe, uma coisa transparente não abona a favor da privacidade. Uma pessoa vai pela rua e toda a gente fica a saber o que vai ser o jantar e o segredo para ter uns dentes brancos.

Um dia destes comprei um certo produto indispensável ao tal período chato: fraldas pensos higiénicos. E não é que na caixa, a funcionária me embrulha a embalagem de pensos em papel de jornal? Curiosamente, na mesma compra resolvi trazer um rolo de papel higiénico (aqui vendem-se também às unidades) e aguardei pela altura em que veria tal rolo ser também escondido em papel de jornal. Afinal de contas, ninguém tem de saber que eu sofro desse mal que são as necessidades fisiológicas. Não. O rolo veio à vista mesmo.

Sucede que a prática de enrolar pensos higiénicos em papel de jornal é muito comum na Índia, segundo o que encontrei ali pelo Google. Aqui ninguém gosta de se lembrar que as mulheres são seres altamente reprodutores grandemente responsáveis pela continuação da raça humana no planeta e que isso traz alguns inconvenientes tipo o tal período chato que implica o uso de produtos específicos. Por isso, toca de esconder as embalagens  para que ninguém se lembre da mensalidade feminina.

A meu ver, sai-lhes o tiro pela culatra. É que se só os pensos (presumo que também os tampões, que os há aqui, ainda que com pouca variedade e frequência) são embrulhados em jornal antes de serem colocados no saco, quem vir o tal papel de jornal no saco fica logo a saber que ali vai um produto de higiene feminina. Papel de jornal no saco = pensos higiénicos ou tampões. Duh!

Vanessa

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Na Índia ainda se usam máquinas de escrever


Esta foto foi tirada em Mumbai. Numa rua perto do centro comercial City Centre Mall há várias bancas destas onde é possível imprimir, digitalizar e ter documentos transcritos para o computador. Decerto fazem lá outras coisas, mas pelo que vi estas são as principais actividades. Quase todas as lojinhas dispõem também de uma máquina de escrever porque, penso eu, muitas vezes um só computador não chega e a electricidade pode falhar. Seria inovador se a máquina de escrever dispusesse de serviço self-service. Eu cá não me importava de voltar a sentir os prazeres da escrita analógica de uma máquina de escrever. Adiante. Não consegui fotografar todas as bancas, não consegui fotografar as máquinas de escrever, mas tive pena. Acontece que não tinha forma de atravessar o passeio paralelo para apanhar uma foto com todas as bancas (atravessar a estrada é um desporto radical na Índia) e mais de perto levei uns olhares quase ameaçadores. Pudera. Muitos dos documentos deviam ser confidenciais e eu própria não gostava de estar a tratar de burocracias e ter alguém atrás de mim a fotografar. Fica apenas esta foto para explicar que na Índia ainda se usam máquinas de escrever.

Vanessa

Três razões pelas quais o tempo parece passar mais depressa em Goa

A minha família diz que o tempo em Goa parece passar muito, muito depressa. Depressa do tipo, uma pessoa acorda, despacha-se, toma o pequeno-almoço, sai de casa e de repente já o dia passou.

Eu não sinto que o tempo passe muito mais depressa em Goa. É verdade que sempre disse que com o passar dos anos parece que o tempo sofre ali uma mudança qualquer e deixamos de ter tempo suficiente para tudo, mas sei que isso é apenas uma ilusão causada pela intensidade da vida de hoje em dia.

Quando vimos para Goa estamos mais sujeitos a perceber fenómenos como este do tempo, porque nos tornamos mais observadores. Isso acumula-se às três razões pelas quais o tempo passa mais depressa. É um efeito cumulativo que depois se manifesta na forma como sentimos e vemos o que nos rodeia.

Que três razões são essas? A meu ver:

1. Ninguém percebe nada à primeira. Além de familiares que beneficiariam a sua qualidade de vida se fizessem um rastreio auditivo, há ainda uma outra barreira mais difícil do que a dos tímpanos quando falo com locais que não são familiares: o idioma. Salvo duas ou três excepções, as pessoas nunca, mas N-U-N-C-A me percebem à primeira tentativa. Primeiro porque estão à espera de ouvir falar concani ou hindi ou marathi. Levam comigo a falar inglês e ficam baralhadas. Segundo porque o inglês que conhecem é diferente do meu. Diferente no sentido em que o inglês delas é apenas um mecanismo de ligação entre frases numa outra língua. Terceiro porque o meu sotaque é assim para o europeu e com um toque de pessoa latina que aprendeu inglês há pouco tempo.

Conclusão: uma pessoa repete e acaba por perder tempo assim, a repetir e a tentar fazer-se entender.

2. É tudo longe para burro. Aqui o que me dizem que é perto é longe para mim. Nos meus termos, mais de 15 minutos de caminho é longe e 30 minutos é bastante longe. Na minha mente 30 minutos são uma hora, porque conto com a ida e com a volta. Uma hora dá para fazer muita coisa. Só que não. Aqui uma hora não dá para esticar por diversas actividades, mas uma hora em viagem é muito tempo desperdiçado. Já para não falar que as estradas parecem carreiros de cabras com alcatrão atirado ao calhas por cima. Já para não falar que por onde quer que vamos há sempre o risco de haver um acidente que causa filas intermináveis, não haver espaço suficiente na estrada para passarem dois carros, o que gera aquele pára-arranca que dura vários minutos, ou outra coisa qualquer. Já para não falar na falta de sinalização.

Junte-se a isso o cansaço que é qualquer viagem aqui. Só de saber que vamos andar 10 minutos de carro já cansa. É as buzinas, é os buracos, é as ultrapassagens loucas, é as vacas e os porcos e as galinhas. O cansaço causa lentidão. Lentidão atrasa qualquer actividade. E assim passa o tempo.

3. O subdesenvolvimento. Aqui não há hipermercados. Como tal não há um sítio para comprar todas as coisas que precisamos. Claro que há um ou outro mini-mercado mais composto e bazares, mas não dá para tudo. Comprar peixe, carne, congelados tem de ser bem orquestrado por causa do calor. Tem de ser planeado e executado à risca sob risco de se apanhar uma intoxicação alimentar. É também preciso estômago para ir ao bazar, levar com o cheiro da carne de dias anteriores e dos dejectos dos animais que esperam pela carne desse dia, e ver a carne pendurada sem refrigeração. Com o peixe é a mesma coisa. Aqui não há embalagens com coisas já prontas a consumir excepto batatas fritas e fritos indianos e outras comidas processadas. Por isso perde-se algum tempo a comprar e a arranjar os alimentos e a cozinhá-los.

Quando não sabemos onde comprar algo ou onde fazer algo ou onde cumprir burocracias temos de andar a perguntar. Lá está o ponto 1. Muitas vezes não nos percebem, muitas vezes nem sequer sabem, muitas vezes nem sequer há num raio de 10 quilómetros. Aí vem o ponto 2. Quando lá descobrimos os sítios há a demora do processo ou da compra. Ponto número 3. Aí estão as três razões pelas quais o tempo parece passar mais depressa em Goa. Como podem ver, amigos e familiares, não é à toa que eu me queixo da falta de tempo.

Vanessa

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A preferida


Já me deliciei com muitas iguarias aqui na casa Sena. Muitas mesmo. Mas esta foi a refeição que melhor me soube e lembro-me porque fiz questão de tirar esta fotografia tosca. À esquerda, lentilhas (dhal) cor-de-laranja estufadas, em cima, apas (roti) quentinhas e, por fim, chetnim (ou chutney ou chatni) de coco fresco e piri-piri verde. Foi a minha refeição preferida até ao momento aqui em casa.

Vanessa

Presente imperativo

As pessoas com quem falo na internet dividem-se em duas categorias: aquelas que me perguntam se tenho saudades de Portugal e aquelas que me perguntam se quero ficar em Goa. 

Vamos lá esclarecer as coisas. 

Portugal para mim é passado. Goa é presente, mas eu só cá estou há pouco mais de dois meses e, verdade seja dita, tenho lidado com o pior que Goa e a Índia têm para oferecer, com algumas excepções. 

Ainda não tive tempo (pai, esta é dedicada a ti) para ter saudades de Portugal, mas também ainda não o tive para sequer imaginar viver em Goa. Por outro lado, não gosto de viver no passado e por isso duvido que vá perder tempo (muito) precioso a pensar noutro país, o qual me emprestou uma nacionalidade que até prezo, para o qual vou ter mesmo de voltar quando se me acabar a validade do visto.

Entretanto, adoptei um dos princípios budistas que é o de viver no presente.

Claro que quando lido com as dificuldades da vida indiana sinto falta das facilidades portuguesas, algumas por comparação, outras pelo privilégio que é ser um país desenvolvido. É claro que há paisagens goesas que fazem uma pessoa pensar duas vezes no motivo pelo qual vai ter de sair.

No entanto, para quê pensar muito agora? A saudade é uma palavra muito portuguesa que eu vou fingir que esqueci. Ficar seja onde for é uma decisão muito cheia de coisas para pensar nela neste momento.

Não vou chegar ao cliché de citar aquela frase em latim que virou moda na minha adolescência e servia para qualquer dedicatória. Pronto, está bem. Não me ocorre frase melhor. Carpe diem.

Vanessa

Este calor de 30º graus...


... dá uma soneira que nem vos digo. Boa segunda-feira e boa semana para quem está a passar calor e também para quem está a passar frio e chuva.

Foto tirada no museu Big Foot em Loutolim.

Vanessa

domingo, 21 de fevereiro de 2016

(Con)templando II

O Shri Mangeshi Temple fica perto da estrada Panaji-Ponda em Priol. 

De longe quase que não se consegue vê-lo e, para variar, certas áreas estavam em remodelação. A estrada de terra batida que antecede o templo está cercada de comércio. Roupa, bijuteria, comida, souvenirs variados; cores e aromas e ruído que com certeza contrariam o intuito de um templo.

O templo principal é dedicado a Bhagavan Manguesh, uma encarnação de Shiva.

O templo original estava em Kushasthali Cortalim, em Salcete, Goa, que foi invadido pelos Portugueses em 1540 (diz a Wikipédia em 1543); 20 anos mais tarde, quando os portugueses começaram a implementar o cristianismo, o templo foi movido para onde está agora, por ser um local governado pelo hinduísmo.

O templo é agora um local de oração e também uma atracção turística.

Este é um templo ao qual gostava de voltar, uma vez que a tour deu apenas 15 minutos para visitá-lo e 15 minutos foi só tempo suficiente para ir do parque de estacionamento ao templo e voltar.

Ainda assim, o Shri Mangeshi Temple foi um oásis num dia quente.

À entrada do templo, a grande atracção são os bezerros que por lá andam.

Quem quiser visitar outro templo em Goa, siga este caminho. Não há que enganar.

Vanessa

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

"Voltei, voltei"

"Voltei de lá", de Mumbai. "Diz-se que é confuso, grande, barulhento, poluído", escrevi eu antes de ontem. Pois bem, Mumbai é poluído, barulhento, grande, confuso. Foi a impressão que tive, por esta ordem. As poucas amenidades que tem, como por exemplo centros comerciais (só fui a um), cinemas, McDonald's e KFC (não são bem, bem amenidades, mas tendo em conta o contexto, chega a ser um alívio entrar em restaurantes deste género) não compensam os defeitos da cidade. Os que vi, pelo menos.

Se me pedissem para definir Mumbai diria que é uma favela enorme com uns quantos prédios mais luxuosos e incrivelmente altos a emergir no horizonte. Existem umas zonas mais limpas, ruas alcatroadas de fresco, prédios recém pintados, jardins a florescer, um ou outro parque. Mas tudo isso dilui-se no meio da confusão. 

Há trânsito permanentemente e em vez de utilizarem luzes de sinalização, o meio preferido dos condutores para sinalizar qualquer manobra é buzinar. Por isso, Mumbai dá dores de cabeça.

Mesmo no café mais limpo e arejado se ouvem as buzinas. Bem sei que quando uma pessoa se habitua, o ruído torna-se hábito. Por exemplo, em Portugal vivo em frente a uma escola e já recalquei o ruído da campainha dos intervalos de tal forma que só quando alguém me visita e comenta sobre isso é que me lembro que todos os dias ouço uma campainha de escola, a mesma que ouvia desejosamente quando era aluna nessa escola, ao longo de quatro anos, e queria sair para o pátio e brincar e lanchar.

No entanto, as buzinas parece que são mais penetrantes. Não há mesmo forma de as ignorarmos. Além disso, há buzinas de todos os tipos. Algumas melodiosas, outras com dois ou três tonalidades, umas agudas, outras mais graves como as dos camiões, e todas elas podem ser usadas de forma insistente para sinalizar irritação.

Estivemos pouquíssimo tempo em Mumbai. Depois de uma viagem de mais de 12 horas de autocarro (daqueles com camas) chegámos, tratámos do que tínhamos a tratar (que não ficou tratado, mas não vamos por aí), demos umas voltas e voltámos. A viagem de regresso demorou mais de 14 horas. 

Atrevo-me a dizer que tudo o que podia ter corrido mal correu. Desde um táxi avariar logo à chegada a Mumbai, à burocracia travar os nossos planos, à nossa viagem de regresso ter sido cancelada à última da hora, ao taxista que nos levava para o autocarro alternativo precisar de pôr gasolina, ao autocarro de Mumbai para Goa parar em Pangim em vez de Margão (além de transportar também pequenas mercadorias e ter parado imenso ao longo do percurso), o que nos obrigou a apanhar outro autocarro por cima das 14 horas e tal de viagem. Talvez o cansaço e a irritação me estejam a toldar o juízo e Mumbai seja na verdade uma cidade maravilhosa.

Alguém que tenha ido a Mumbai que se pronuncie, se faz favor, e me diga que eu só vi as partes más e que me faltou ver X, Y e Z porque aí é que se está bem. É que se calhar vou ter de lá voltar.

Vanessa

O direito à doçura

Em Goa, e provavelmente em toda a Índia, os cafés e restaurantes dão-se ao direito de escolher o grau de doçura do chá que consumimos. É também comum termos de pagar se quisermos o chá sem açúcar, porque implica que se tenha de fazer uma dose de chá só para pessoa com a tamanha petulância de querer decidir sobre o que quer consumir. E mais. Chá aqui é açucarado a preceito e contém leite. Muitas vezes tem tantas especiarias como um caril, porque pelos vistos uma refeição bem condimentada tem de ser terminada com uma bebida quente também bem temperada. Há coisas que aqui são assim: em excesso. Lembro-me bem daquele filme, A Viagem dos Cem Passos, no qual  há um diálogo interessante entre o senhor indiano e a senhora francesa:

Senhor indiano: "You seduced his mind with your awful, tasteless, empty sauces! With your pitiful little squashed bits of garlic!"
Senhora francesa: "That is called subtlety of flavor."
Senhor indiano: "It's called meanness of spirit! If you have a spice, use it! Don't sprinkle it. Spoon it in!"

Resumo: para os indianos, o tempero está bom quando é às colheradas e os franceses não percebem nada de culinária. Obviamente que isto é um filme (uma sátira, até), mas por vezes aqui é mesmo assim. O que é bom é para se abusar. Por isso mesmo, o chá é incrivelmente doce para quem, como eu, não costuma usar açúcar em nenhuma bebida (nem na bica). Depois, é claro, uma pessoa habitua-se à doçura e fica viciada.

A verdade é que aqui o chá sabe bem é com açúcar e leite. Nunca me soube tão bem quando a minha família fazia o chá assim em Portugal. Aqui, podia beber uma ou duas chávenas todos os dias, mas restringi o consumo às idas à cidade e a passeios. É que aqui, como em Portugal, muitas vezes prefiro ficar em casa a sair. O chá sempre é um bom incentivo para sair e até querer sair.

Vanessa

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Um pedaço de Portugal em Goa: uma escultura na Basílica do Bom Jesus


"Made in Gaya Portugal by A. Fonseca Lapa in 1906" diz a "legenda". Escultura encontrada na Basílica do Bom Jesus, em Goa Velha, já de si um local que testemunha a influência portuguesa em Goa. Estava num dos vestíbulos da basílica. Presumo que Gaya seja Gaia, no Porto. Infelizmente não encontrei quase nada no Google sobre o escultor. Achei curiosa, a escultura.

Vanessa

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

"Indo eu, indo eu, a caminho de..." Mumbai

Bilhete de ida reservado. Expectativas reduzidas. Diz-se que é confuso, grande, barulhento, poluído. Só podia. É a maior cidade da Índia. É provavelmente por isso que temos de lá ir para tratar de burocracias. Vamos viajar durante a noite, para chegarmos de dia e conseguirmos despachar o que temos de fazer. O autocarro tem cama, mas desconfio, pelo estado das estradas, que não será agradável conseguir dormir durante a viagem. Serão mais de 600 quilómetros. Por isso mesmo escolhi um dos maiores livros que havia na biblioteca, Os Pilares da Terra. Vai ser uma aventura, com certeza. Deixo este texto agendado precisamente para a hora em que supostamente vou embarcar. Mais de 600 quilómetros. Vai ser dose.

Vanessa

Igualdade

Pode não ser em proporção igual, mas em locais de construção vêem-se muitas mulheres hindus a trabalhar em pé de igualdade com os homens. Sempre que as estradas são alargadas, vejo homens e mulheres a trabalhar ao longo das vias, a carregar pedras, a demarcar limites e a cavar. Só não vi ainda mulheres a manobrar máquinas e outros equipamentos. Não percebo se este lado da igualdade de géneros é um sinal de evolução ou se é um sinal de extrema necessidade. Não percebo se é paralelo à igualdade em outras áreas ou se é um caso isolado. 

A meu ver, Goa é ainda retrógrada em relação às mulheres. Exemplo: mais depressa as pessoas se importam com o meu estado civil do que com o facto de ter tirado um curso superior, perguntando frequentemente se tenciono casar e ter filhos. Mais depressa as pessoas parecem importar-se com o meu aspecto físico, comentando sobre a minha silhueta ou detalhes da minha aparência geral, do que com o meu trabalho ou outra coisa qualquer. 

Já fui aconselhada, por família, a sorrir mais, a usar adornos no pescoço e nas orelhas e a ter filhos o mais rápido possível. São tudo aspectos que certamente enervam as mais feministas que conhecem bem o carácter preconceituoso de tais sugestões e que me enervam a mim também, a mim, pessoa que tenta não se deixar afectar pelo movimento feminista mais radical porque insatisfeita no geral já é, mas que não consegue esconder um certo nojo por saber que essas coisas são ditas por ser mulher.

Aqui não se vêem mulheres indianas a beber ou a fumar em público. Não há mulheres de mini-saia ou decotes acentuados. Certamente que não há mulheres a amamentar em público. Aliás, quase não vejo bebés. Os programas de televisão indianos que vi, daqueles estilo os Óscares, mostram um país que não parece este em que estou, com mulheres a dançar sensualmente com roupas justas ou estrategicamente recortadas para mostrar mais pele do que as mulheres que andam pelas ruas de Goa mostram.

Há certamente alturas em que se nota que estou perante uma cultura diferente, mas há outras em que me parece que as coisas estão a mudar mesmo à frente dos meus olhos. Não me parece que a igualdade chegue ainda durante a minha geração. Nem em Portugal há igualdade total, quando mais aqui, um país ainda em desenvolvimento. Espero poder observar mais numa cidade maior. Sempre gostei de estudos antropológicos. Mumbai vai certamente trazer-me mais respostas.

Vanessa

(Con)templando I

Vamos a uma rápida visita pelo Shree Shantadurga Temple em Kavlem, distrito de Ponda, no norte de Goa. 

O sol estava a pique e o templo, que fica também a pique, com uma subida que mantém em forma os hindus mais devotos, foi como um país estrangeiro para mim. Como estava numa tour, limitei-me a seguir os outros e a observar os costumes de oração. Tudo fascinante. Infelizmente foi também muito, muito rápido porque numa tour o tempo é contado ao segundo e os acessos cortam muito do tempo.

Ao longo do caminho há vendedores de flores, de talismãs e de bebidas.

O chão é normalmente acidentado. Por isso nas fotos, os templos parecem tortos e inclinados devido a um peso invisível. Na verdade é o chão, que é muito desnivelado. Há também quase sempre algo em construção. Neste caso, estavam a preparar um evento e, por isso, parte do exterior estava em processo de decoração.

O aspecto pode não ser o melhor por fora, mas dentro é um festival de cores.

À entrada consegui surripiar uma foto do corredor inicial. Não é permitido fotografar dentro dos templos hindus que já visitei. Tendo em conta o que vi em locais turísticos, o abuso é tanto, que é normal que um local de oração e prostração não permita fotografias. Eu cá fui muito discreta.

Um pormenor do lado de fora.

A maioria dos templos hindus tem um lago à entrada. Este é o deste Shree Shantadurga Temple.

A vista da rua. É difícil conseguir tirar uma foto num ângulo onde não existam cabos, postes, letreiros, árvores a tapar e etc. Esta foto aqui foi mesmo um golpe de sorte, porque a seguir fomos a correr para o local de almoço.

Vanessa

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Tempos modernos

Estivemos sem internet e sem telefone por mais de um dia aqui na casa Sena. Felizmente eu tinha mais de metade de um livro para ler e (hoje) tempo suficiente para ir buscar outro à biblioteca. Por fazer ficaram as ligações para Portugal, a socialização digital e até o uso do dicionário. A minha vizinha que é também prima esteve sem internet por três dias. Também ela sobreviveu sem mazelas.

Eu fiz batota e usei os dados do telemóvel para ler emails. Para o Facebook quase não deu. Na verdade, por estranho que pareça, o tempo passou rápido. Parece que antes do aparecimento da internet havia vida. Ouvi dizer. O que se ouve não fica guardado para sempre nas clouds se ninguém tiver gravado. Depois é assim. Uma pessoa tem de se fiar na memória e é o que é.

Aqui parece que voltei atrás no tempo. Como quem diz, voltei atrás na internet, que é a mesma coisa.

Parece que tenho de novo dezasseis ou dezassete anos. Lanço olhares de frustração para o router, como em adolescente olhava para o modem, como se a internet tivesse medo das consequências da sua irregularidade e decidisse estabilizar-se de uma vez por todas para eu não andar a ver a coisinha a rodar.

O problema é que aqui e hoje em dia a internet serve para mais do que andar em fóruns, ver vídeos, pesquisar coisas loucas e essas coisas que em adolescente fazia.

Aqui a internet serve para coisas adultas (não, não é ver vídeos pornográficos ou andar pelo Facebook), como comunicar com o resto do mundo (muito importante hoje em dia), andar atrás das burocracias de Portugal (ai, e-fatura e em breve IRS, e ainda estar a par das coisas do banco) e, acima de tudo, trabalhar.

Tempos modernos é isto. É eu estar em Goa a fazer coisas de Portugal ou estar em Goa e falar e escrever português na internet. É eu poder trabalhar sem ser aos soluços ou comunicar por vídeo-chamada sem cortes.

Os tipos da BSNL (a operadora indiana) é que podiam meter isso na cabeça. Parece-me que ainda estão ocupados lá na sede deles, a pintar gravuras rupestres. Ouvi dizer.

Vanessa

A maior escultura de laterita da Índia

Chama-se The Natural Harmony e mostra Sant Mirabai ou Meerabai (um santo-cantor devoto de Krishna) ao longo de catorze metros de altura por cinco metros de largura. Foi esculpida por Maendra Jocelino Araújo Álvares, responsável ainda pela criação da área Ancestral Goa, da qual faz parte o museu Big Foot. 

Todo o local presta homenagem à influência portuguesa em Goa através de representações da vida quotidiana em tempos coloniais. 

Aquela que é a maior escultura de laterita da Índia (detendo por isso um lugar no Guinness World Records) começou a ser construída em Agosto de 1994 e em 30 dias estava pronta. Foi à sua volta que foi crescendo o parque temático agora chamado Ancestral Goa, que acabou por desenvolver a vila de Loutolim.

A estátua fica num local afastado da zona comercial do parque, ao lado do local de homenagem a Big Foot. 

Reza a lenda que Mahadar era um senhor muito rico que empobreceu a ajudar os desfavorecidos. Os deuses garantiram-lhe um desejo, pelo seu carácter e dedicação e Mahadar pediu apenas um local para rezar. Os deuses deram-lhe uma rocha, onde ele colocou um joelho e um pé para proceder à oração. Os deuses, admirados com a sua devoção, levaram-no para o céu. Ficou apenas a sua pegada (Big Foot) como recordação. O local agora é considerado milagroso e recebe centenas de devotos.

Talvez tenha sido para enaltecer um local lendário que o escultor Araújo Álvares criou depois a escultura de Sant Mirabai, que se juntou à aura de misticismo do local.

Quem viu esta foto no meu Facebook, na qual eu dizia que os meus braços não eram longos o suficiente para fotografar a escultura, e não acreditou, aqui está a prova:

Isto foi o melhor que consegui.

Ainda tive tempo para uma selfie. Havia tantas outras pessoas a tirar selfies que eu fui contagiada.

Vanessa

Book Review | The Modigliani Scandal by Ken Follett

Ken Follett started out by writing thrillers, but history novels were all I had read from him. The Modigliani Scandal was, in that sense, a great surprise. It's one of the earliest Follett has written, although that does not show, and it introduces different characters whose paths cross due to their links with the art world.

It's also the shortest Follett novel I have ever read. Unfortunately, that does impact the novel. Some of the characters, I felt, needed a little more development space. I was particularly interested in the characters Samantha Winacre, a rich and famous actress with a rebel side due to a sudden awakening at the injustices of the world, and Julian, a frustrated man with an intense need to rise in society.

Dee was also a pleasant character, even though one could only get to know her through the eyes of other characters and even side characters. She, too, would benefit from a broader narrative, since she seems to be the one kicking off most of the events with her curiosity and interest for paintings.

I appreciated what I took to be satires and even blunt criticism about the art world and its cruelties and its vanity. The plot seemed to have been told from an insider's perspective, which made it even more capturing.

I was expecting (sort of a spoiler here) that the Modigliani scandal was something from the past with an impact in the present. Instead, it was a modern scandal that only concludes, really, at the last page.

This is certainly not a favorite Follett novel for me, but it will leave a pleasant memory.

6/10

Vanessa

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Vício

Romãs. Frescas. Sumarentas. Doces. Maduras. Como nenhumas outras.


Vanessa

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Why Don't I Just Write In English?

A friend asked me if wouldn't it be better for me to just write in English, especially since probably more Indians speak English rather than Portuguese. The truth is I enjoy writing in Portuguese. 

First of all it's my mother tongue. It comes naturally to me. I like the sound of it in my brain. I like the looks of it when I see the words. It sounds beautiful and looks beautiful to me.

When I created this blog I let go of boundaries and decided I should write in whatever format suits me at the time. That's why I've been writing in English from time to time, at random.

Book reviews, for example, seem a logical choice since I read mostly in English. My opinion on those books comes naturally in English. They even start forming while I'm reading.

Second reason, I'm not good at making choices. I don't like closing doors. I like options. I enjoy expressing many things in many ways. One day I might include graphics, videos, drawings. Who knows? I enjoy variety, diversity, richness of content, clashes of culture, having readers from all over.

Third, why not? I know it's weird answering a 'why' question with a 'why' answer, but that's my best explanation. Why not? There are many, many blogs in English. There are many, many blogs in Portuguese. I'm mixing it up. It fits my purpose, which is to write whatever, whenever. It suits the place I'm at, which was a Portuguese colony, which is now not exactly Portuguese, but not exactly Indian. 

It's a mix, just like me, just like my blog... just like the internet. 

Vanessa

Essa coisa chamada publicidade

Quando fiz um estágio num jornal nacional concretizaram-se todas as teorias em relação à publicidade sobre as quais tinha ouvido falar em aulas. Aliás, materializou-se a pior de todas.

Pouco tempo depois de ter começado a ver o meu nome publicado no jornal e já passada a fase mais crítica do orgulho próprio, do brio que me levava a reler os meus artigos vezes sem conta à caça de erros (que nem sequer podia corrigir porque o jornal já estava publicado) e do encantamento em geral, a editora da secção onde estagiava disse que tinha de editar um artigo de página inteira, marco indiscutível na minha curta carreira, o mais rapidamente possível. Senti uma impressãozinha na boca do estômago enquanto revia mentalmente todos os possíveis erros que poderia ter dado no artigo, mas acontece que quando se escreve numa edição diária não há tempo para grandes explicações logo na altura, por isso fui logo fazer o que me tinham pedido.

O que tinha então acontecido: tinha havido uma troca qualquer do espaço reservado aos anunciantes e era preciso mais espaço para fazer entrar publicidade de última hora. Ah, a tal da ditadura da publicidade sobre a qual me tinham falado tantas vezes durante a faculdade. A pior das teorias sobre a publicidade, a tal que não tinha dó nem piedade, que levava tudo a eito  e que nos obrigava a dizer amén aos seus caprichos.

Não era bem assim. "A publicidade paga os nossos ordenados" ouvi alguém dizer na redacção em jeito de explicação. Pois, mas eu estava a trabalhar de borla. Digo, a trabalhar para ganhar experiência e, como bónus, ver o meu nome num jornal nacional de renome. Não me parecia de todo adequado sacrificar o conteúdo que poderia eventualmente justificar a publicidade da página, por exemplo. Nessa altura prezava-se muito isso de agrupar temáticas. Artigos de desporto com publicidade de marcas de desporto. Assim em diante.

Façamos agora uma prolepse (figure de estilo que não usava desde o secundário). Depois de empregos e biscates, analiso muitas das actividades das quais desfrutei, tantas graças ao usufruto de descontos e outras acções promocionais. Não é que se não fosse a publicidade, eu teria tido uma vida tão mais aborrecida?!

Como poderia eu saber que evento tal estava com 50% de desconto ou que empresa X estava a oferecer vouchers ou que restaurante Y oferecia uma benesse quando o grupo fosse grande?

Acontece que do lado do consumidor, a publicidade é uma grande ajuda. Hoje em dia, com tanta concorrência, é através da publicidade que podemos escolher as melhores opções ou que, pelo menos, podemos estar melhor informados sobre produtos e serviços. Como consumidora, sei que as empresas não querem correr o risco de deixar pessoas descontentes. Sei que as redes sociais têm um impacto grande e que até aí posso reclamar.

Muita publicidade significa variedade, variedade significa concorrência e concorrência significa guerras de preços. Como consumidores, temos muito a ganhar com isso.

Do lado do conteúdo, presumo que a publicidade continue a ser uma dor de cabeça. Para mim não foi, na altura de escolher conteúdos publicitários para o blogue. Sim, este é um artigo em jeito de explicação pelo aparecimento de banners com serviços e produtos. Sim, coloquei publicidade no blogue. As campanhas publicitárias que podem ver aqui não reproduzem a minha opinião, mas podem representar oportunidades interessantes. Não estão totalmente ligadas ao conteúdo em si, mas também não fogem muito aos tópicos sobre os quais escrevo. A publicidade foi a forma que encontrei para rentabilizar o blogue por enquanto.

Logo verei se é uma opção que vale a pena. Por enquanto, não vejo a publicidade com tão maus olhos como há alguns anos e além disso até dá um toque de cor aqui ao meu espacinho.

Vanessa

Amendoins com areia


O título é sensacionalista. Para ser realista seria "Amendoins assados com areia", que é como os amendoins que aqui são vendidos são cozinhados. O sabor levou-me de imediato à infância logo com o primeiro amendoim que comi aqui. Lembrei-me das senhoras de capulana que vendiam pacotinhos de amendoins assados nas beiras de estrada batida em Maputo e até me lembrei do aroma desses amendoins. A memória sensorial tem destas coisas de vez em quando. Os amendoins assados em areia ficam muito mais saborosos porque é usada areia da praia, que contém vestígios de sal, e porque a areia a ferver distribui o calor pelos amendoins, o que os deixa tostados de forma uniforme e aromáticos como nenhuns outros. Só quem já provou amendoins areados é que sabe. Sim, há o inconveniente ocasional de sermos brindados com uma ou outra pedra de areia que nos acorda para a vida, mas tudo aquilo que vale muito a pena conta sempre com uma pequena dose de risco, não é verdade?

Vanessa