domingo, 17 de janeiro de 2016

O que é que se há-de fazer?


Que não se leia desconsolo algum no título. É apenas uma interrogação retórica em jeito de explicação sobre os meus recentes hábitos de leitura e também sobre as minhas recentes escolhas de leitura.

É que, verdade seja dita, não há muito mais para fazer aqui e está fora de questão, para mim, imitar os vizinhos, que se sentam no alpendre a olhar para a atmosfera ou que se reúnem a falar sobre coisas que eu não entendo totalmente, mas que me parecem ser trivialidades. Por outras palavras, coscuvilhices.

Para além das horas de ócio, o trabalho ainda não começou a abundar o suficiente para causar o cansaço intelectual que normalmente me afasta da leitura. Junte-se a esta equação o facto de a biblioteca de Nagoá de Vernã oferecer uma amostra considerável de livros cuja leitura em Portugal tenho adiado por falta de disponibilidade de vários tipos. Junte-se ainda o meu apetite voraz pela ficção.

Estão aí as razões pelas quais me parece que já li mais em pouco mais de um mês em Goa do que em todo o ano de 2015 em Portugal. Tenho também cedido a vários guilty pleasures (falta-me melhor termo), o que pode ser causa e consequência de tal avanço literário da minha parte.

Na minha última visita à biblioteca escolhi um dos enredos conspiratórios e de ritmo apressado de Dan Brown. Como se vê pela foto, esta cópia de Digital Fortress está em avançado estado de utilização. O que não se vê é a lombada quase a desfazer-se e a decomposição que quase acontece quando se abre o livro.

O papel colado na contra-capa indica-me que sou a décima leitora a solicitar este livro. A lista mostra-me que de 2006 a 2012 ninguém o quis ler, assim como de 2012 a 2016. Fico contente por tê-lo escolhido. Coitado, já devia sentir-se sozinho e poeirento. Por uns dias, vamos fazer companhia um ao outro.

Vanessa

sábado, 16 de janeiro de 2016

Praiar









Só imagens. Hoje quase não há texto.

Vanessa

Book Review | Doctor Sleep by Stephen King

Whatever happened to the boy from The Shining? This is, according to his author's note, what prompted Stephen King to write Doctor Sleep. He even goes on to say it would be difficult to top a novel like The Shining, that seem to have left such a strong impression in reader's minds. That's why he decided to just try to write "a kickass story." Well, did he? My biased fangirl's mind thinks he did.

Dan Torrance is now a sort of a caretaker who's dealing with other things other than his shining, including mentoring a girl, Abra, with special abilities similar to his and helping dying old people get on to the other side. On the evil side of things, a group of beings, different to place in the monster spectrum, takes a special interest in the girl.

As Stephen King always does, the plot unravels in two different spins, each with that peculiar character development that makes us understand both sides and even choose one to root for. When those spins cross paths, a climax explodes into a cinematographic experience, much like what happened (for me) with the previous book that follows Dan's childhood on an eerie hotel, that ends with what I thought was a lukewarm finale for a great plot. It was satisfying, but not entirely.

I was happy with the path Dan took after surviving the first book, with all the characters that surrounded him there that followed him to this new book, and with all the little indulging moments in which what I, as a fangirl, wanted to see happen did happen. The dialogs were as fun as usual, with some comedic remarks even in tough situations, and also some special pearls that stuck with me.

It was very, very easy to imagine all that was happening in my mind with such vivid descriptions and development of characters. I enjoyed the arc Dan and Abra followed, as well as all the small details that flew from The Shining into Doctor Sleep. It seems that nothing was forgotten, and all doubts and curiosity I had were explained. I wish there were even more and that this book had 5000 pages.

There were some choices I did not like, but nothing that a fangirl like myself would not forgive from a writer like Stephen King. I would still keep on reading his books even if I did not like this one.

8/10

Vanessa

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Can You See The Puppy?


So cute and sneaky, isn't it?

Vanessa

A terra

Durante pelo menos 12 anos detestei férias. Pausas curtas ou longas. As férias eram horríveis. As férias eram alturas deprimentes. As férias eram um interregno maldito. As férias eram um castigo. Talvez se perceba melhor se eu explicar que ao longo de 12 anos eu divertia-me mais na escola do que nas férias. 

Às vezes até me divertia mais na escola do que em casa.

Salvo raras excepções, férias, as grandes, significavam praia e eu nunca gostei de praia o suficiente para não me importar de ir para a praia por dias seguidos. As férias eram essas viagens diárias de cerca de 30 minutos, alguns mergulhos e muita areia, para depois voltar para casa.

Mas a grande diferença entre férias e o resto do ano, a mais importante de todas, pelo menos, era só uma. Os meus amigos mais chegados iam para a terra nas férias.  Em qualquer pausa de mais de três dias, amigos e colegas iam para a terra e só voltavam quando as aulas retomavam.

Durante muito tempo, mas não todos esses 12 anos, a terra era um sítio que me levava os amigos. Embora todos parecessem entusiasmados por visitar a terra e voltassem com peripécias, presentes e fotos com família e outros amigos, os que eram da terra mas também viviam noutro sítio, a terra era o inimigo.

Quando visitei a minha terra pela primeira vez depois de ter saído, percebi que a minha terra não era verdadeiramente minha, porque eu também vinha de outra terra. Percebam melhor aqui. No fundo eu era uma sem terra, porque era de pelo menos três terras. Foi também nesta altura que começou a surgir (ou eu comecei a reparar) o típico comentário racista do "volta para a tua terra". Nunca o ouvi dirigido a mim, mas sempre foi um daqueles comentários que me deixava pensativa.

Ao longo de 12 anos, a terra passou por vários significados. Começou por ser o nome do planeta onde estamos. O terceiro a contar do sol. Depois começou a ser uma coisa individual. Aquilo que me levava amigos nas férias. Aquilo de onde vinham frutos e bolos e costumes que me eram desconhecidos.

A terra passou a ser uma coisa mais simpática quando amigos começaram a levar-me com eles nas férias. A primeira experiência foi Leiria, com uma amiga que já não se encontra entre nós, que na altura dividiu comigo o seu quarto, os seus costumes e até os seus avós. A avó dela deu-me 200 escudos, que para mim foram uma fortuna. Provei queijo da terra, presunto da terra, batatas da terra, bolos da terra.

Mesmo não gostando de férias, comecei a perceber melhor o significado de ir para a terra. Tive a sorte de conhecer várias delas, certamente quando os amigos se compadeciam da minha tristeza, e até de me apegar a sítios que nem eram meus e a familiares que nem eram os meus.

Mas depois, muitos anos depois, no dia 12 de Dezembro de 2015, enquanto as nuvens se dissipavam e pela primeira vez vi pedaços desta outra minha terra da janela do avião, a terra voltou a ser, para mim, o terceiro planeta a contar do sol. A nossa terra é onde quisermos e onde escolhermos passar o nosso tempo, afinal de contas. Por isso, para mim, a minha terra é um planeta. Gosto de ter muitas opções.

Vanessa

A chicken shawarma que eu não fotografei






Eu estava empolgada com a reportagem fotográfica. Uma vez que pedi para fotografar, é provável que a brilhante execução da minha chicken shawarma tenha sido em parte uma performance. Ainda assim, o senhor tinha uns movimentos fluidos, hipnotizantes. Eu sei que não é desculpa suficiente, mas os aromas, a montagem da shawarma e a fome foram os responsáveis por ter ficado mais empolgada por dar a primeira dentada do que por fotografar o petisco em si. O problema é que depois de uma dentada, não há forma de parar. 

Fica para a próxima, mas não prometo.

Vanessa

Pequenez

A memória é selectiva. Quando ouço falar mal da minha geração, porque sacrifícios eram os que se faziam antigamente, porque dantes era muito pior mas fazia-se mais, parece-me sempre que ninguém se lembra disso da memória ser selectiva. Mais do que isso, parece-me que se está a comparar uma memória (já bem seleccionada, claro) com uma que não existe e que teve de se inventar. 

Comparar gerações só é possível se nascêssemos em mais do que um ano. Quanto muito, seria uma comparação mais legítima se houvesse capacidade para fazer aquela coisa de caminhar nos sapatos de outra pessoa, como se diz em inglês. Nem isso. Mas eu admiro quem insiste em vitimizar o passado e engrandece a vitimização com o rebaixe de outros. Tal capacidade para a ficção é o sonho de qualquer escritor.

O mais irónico é ouvir tais lamúrias de gerações mais antigas cujos actos tiveram consequências que senti(mos, nós jovens,) na pele. Dos idosos que passam a reforma nos bancos de jardim até pessoas que me são mais próximas, fico com a impressão de que cada um de nós se regozija nas injustiças que sofreu, se é que tais injustiças não foram um golpe da imaginação ou não foram floreadas ao longo do tempo.

Estas pessoas que dizem que dantes sofria-se mais estão a medir o sofrimento da minha geração também e a menosprezar as nossas dificuldades sem razão plausível. Até nesse campo funcionamos selectivamente.

O problema é que razões para tudo isto não há e nada de bom isto nos traz. Eu percebo que há pessoas que nada mais têm para fazer senão comentar vidas alheias, mas acontece que comentar pressupõe julgar. 

Quando as pessoas se dão ao direito de julgar os outros sem conhecer totalmente o contexto ou com base nas suas próprias experiências ou com base em juízos de valor enviesados, estamos perante o fenómeno da coscuvilhice. Coscuvilhice é aquilo de que ocupam mentes pequenas.

Mentes pequenas dão azo a um mundo pequeno. Mentes pequenas resultam em mundinhos. Foi assim que nasceu aquela expressão, "Que mundinho este". Sejamos, por isso, responsáveis por um mundo maior, sim? Cuidem da vossa vida. Se estiverem aborrecidos, leiam um livro. Sim, ver televisão também é uma opção.

Vanessa

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Os pássaros goeses








Edição: A última foto em mais detalhe para quem tem ecrãs pequenos.


As boas fotos às vezes são golpes de sorte.

Vanessa

Capital humano


Eu pensei que estivesse muito mal habituada por vir da Europa, mas até o médico da nossa família demonstrou o tipo de frustração que é inevitável sentirmos aqui. Falo do fenómeno do depois de amanhã. Em Portugal, é costume pedir-se coisas para ontem. Aqui, isso é para esquecer. Aqui pedimos para amanhã e só se tivermos muita sorte é que isso se concretiza. Há 15 dias, era suposto vir alguém para medir as nossas janelas. Nunca o vi. O tanque de água demorou três dias para chegar, depois de uma reclamação e uma ameaça de cancelamento do negócio. O que veio montar o tanque apareceu de tarde quando disse que vinha de manhã. Esqueceu-se de não sei quantas ferramentas que teve de ir buscar. Esqueceu-se do berbequim e teve de voltar no dia seguinte. Não tinha cimento para tapar os buracos que ficaram e voltaria no dia seguinte. Isso foi há 3 dias.

Aqui, fecha-se para a sesta. As pessoas levam muito a sério as suas pausas. Se por um lado são vendedores vigorosos e insistentes, daqueles que me fazem desviar muitos metros tal como em Portugal fazia para não cair nas garras dos vendedores de cartões de crédito dos centros comerciais, por outro, no que toca à pausa, não são de todo capitalistas. Não interessa se a praia está cheia de turistas. Se é hora de ir tomar um chá, não há qualquer perspectiva de negócio importante o suficiente. Há alturas em que qualquer proprietário português com contas para pagar escolheria manter aberto o seu negócio. Aqui não tem importância.

Aqui no subúrbio o capital humano é a maior riqueza económica. Há um mecânico, um padeiro, um cabeleireiro, um supermercado que para mim é mini, uma papelaria. Há um de cada e não há muita concorrência nas redondezas. Não sei se por não serem propriamente indianos, mas goeses, os negociantes aqui parecem quase menosprezar os clientes se interferirem com a sua rotina. Os indianos são negociantes natos. São eles que mexem depois a economia, com as poupanças que acumulam. Os goeses investem também, mas porque pelo menos uma pessoas da família está a trabalhar no estrangeiro. Parece-me que estou aqui numa realidade paralela, onde há extremos, mas não meios-termo.

Consigo traçar aqui um paralelo com Portugal, mas de uma forma mais radical. Uma vez que os cérebros acabam por emigrar, aqueles que ficam são dedicados ao local onde ficam, ou então não conseguem ir também embora, ou então estão à sombra de algum tacho. Enquanto aqui estou, é uma questão de sorte encontrar aqueles que ficam por escolha e por dedicação.

Vanessa

Work Versus Criativity

Girls is one of the many television series I enjoy watching in my computer. One particular episode resonated with me. Warning: probable spoilers ahead if you only watched like, three episodes. So Hannah got into this really awesome job after a series of job failures because the economy is tough and blah, blah, blah. It was a great experience for her because she got to work as a copywriter. For those who enjoy writing and want to be writers, this is one of the stepping stones, it seems.

However, Hannah notices all her coworkers had once wanted to be writers like she does. She also notices they all lost the spark that seems to define young, wannabe writers. She becomes curious about the phenomena and wonders what happened. Why did they all stop writing in their spare time?

I won't spoil any further. My point is that I do feel like Hannah's coworkers when it comes to writing for fun, which is something I do enjoy and want to keep doing (hence the blog). The phenomena starts whenever I get a job. 

You know, those activities that provide money in exchange for your time, productivity, patience (in general, your entire life), which in turn is something that allows me to buy food, which in turn is something that keeps my mind active, which is something that allows me to get more work to get more money to get, instead of food, some other things that make life easier so that I can work some more.

It seems my mind can only do one or the other. If I do have stable or at least constant work, I cannot find the time to work on my creative projects. I cannot write something that makes me happy at the same time I am putting some of my time towards work. I started noticing this when I worked in a call center. I thought that it must be the awful work that entailed that was killing my creativity, making me not make the most of the time I got for myself after that horrible part-time speaking non-stop on the phone.

No, it happens on any job. There's not enough space inside my head to write towards two different goals. At least not enough so that the second goal of writing for fun can one day get me a bestseller to allow me to just write for fun forever and ever until I get to do the other things that got shoved to the back of my mind.

I am managing to balance it all these days. I've been slowly including my freelance work into my routine and I am enjoying being a digital nomad. That's what's making me think all of this. I'm not sure I'll be able to keep up the productivity while having time to do things so that I can write about them, while also continuing my healthy routine of sleeping early, going for walks, and so on.

Quite the exercise, this has been.

Vanessa

Nem na praia escapo


Estou em crer que até a areia aqui é picante. Ao menos não tem masala. Um dia faço uma lista de produtos (improváveis) que contêm masala. Eu cá preferia que aqui o senso comum fosse também um tempero. Precisa-se dele em abundância e não só aqui. É dos meus condimentos preferidos, porque não pica.

Vanessa

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Mundo plastificado


Em Goa e provavelmente em toda a Índia, produtos cuja embalagem não é de plástico são notoriamente mais caros do que aqueles que vêm em embalagens de plástico. Exemplo: uma garrafa de 400 ml. de Coca-Cola, Mountain Dew (que em Portugal não há), Fanta e etc. custa umas míseras 20 rupias. Esta garrafa de sumo de maçã (que de maçã tinha uns 3%) numa garrafa de vidro de 200 ml. custou 55 rupias. Só a comprei para ficar com uma garrafa que não seja de plástico. É que um cantil de água daqueles de stainless steel (se são mesmo, não sei) são também caros. Os de meio litro são cerca de 900 rupias. Aqui o plástico é rei.

Auto-retrato


Uma sombra feita de areia. Milhões e milhões de partículas que compõem uma só figura.

Vanessa

Será menino ou menina?

Na Índia é proibido por lei saber o género dos bebés antes do nascimento. É crime, punível com pena de prisão (até 5 anos) para todos os envolvidos, incluindo pessoal médico, e com o pagamento de um laque (cerca de 1400 euros). A razão é simples: nos anos 2000, estima-se que 6 milhões de fetos tenham sido abortados por serem do sexo feminino. A consequência: para cada 1000 homens há, neste momento, 940 mulheres.

Aqui em Goa já vi cartazes. Saber o género antes do nascimento é crime. O aborto selectivo é crime. Mas para muitas mães o que é crime é ter nascido e dar à luz uma mulher. A mulher é considerada um encargo pelas populações humildes. Uma filha requer o pagamento de um dote quando for altura de casar. Uma filha nasce com a promessa de uma prole que simboliza mais encargos para a família. Uma filha é uma vergonha iminente porque aqui tudo o que acontece de mal a uma mulher é culpa dela.

Mas a culpa dos abortos selectivos aqui é primariamente do avanço tecnológico. Desde que a altura em que a ecografia começou a permitir conhecer o género do feto, o número de abortos aumentou. É por isso que agora é proibido dar a conhecer uma coisa que de onde venho é uma informação feliz. Aqui não é.

Aqui significa o possível aborto voluntário de futuras mulheres.

Eu creio que é por isso que o desenvolvimento na Índia tem sido tão lento que estar aqui em Nagoá de Vernã parece ser o mesmo que estar no fim do mundo. Porque aqui há esta mentalidade de que a mulher é inferior ao homem, apesar de sem ela não haver sequer futuro. Porque aqui a mulher nem sempre tem as mesmas oportunidades que o homem. Porque aqui a mulher tem mais dificuldades de chegar onde chega um homem. E, que eu saiba, a falta de igualdade é directamente proporcional à falta de desenvolvimento.

Vanessa

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Masala dosa

Lê-se masála dosá e é o meu lanche preferido até ao momento. É uma especialidade do sul da Índia que se tornou famosa em todo o país. É servida como pequeno-almoço ou snack, ou como acompanhamento de refeições. "O que é a masala dosa?", perguntam vocês. É um crepe salgado, recheado e servido com molhos. Apesar das variações, este é aquele que costumamos pedir.

Até agora, os crepes têm sido mais ou menos da mesma largura que a minha cintura, mas a julgar pela quantidade de vezes que tenho comido coisas assim, sou capaz de superar em muito a largura da dosa.

A dosa é feita com arroz e lentilhas fermentados e moídos até formarem uma massa que é frita numa chapa. É crocante por fora, mas húmida e fofa por dentro. Além disso, os furos do interior da massa são preenchidos pelo molho do recheio, aqui em Goa normalmente feito de batata condimentada (batata bhaji).

A acompanhar vêm dois molhos (chutneys) que variam consoante o restaurante. Um deles é de coco, com coentros ou menta e piri-piri verde, e o outro é vermelho, feito com lentilhas e/ou tomate.

Na imagem está também uma bebida famosa na Índia. A falooda é feita com leite de rosas e sementes de manjericão, e alguns outros ingredientes que mudam consoante quem faz ou a época. É uma bebida doce que acompanha bem pratos condimentados. Experimentei uma vez apenas, mas parece-me demasiado doce e pesado para mim, a não ser que só beba isso ao lanche.

Vanessa

Esconderijo preferido


Sempre que há barulho de foguetes (todos os dias, ultimamente) e/ou sempre que falta a luz. Eu cá acho que ele quer é depois voltar connosco para Portugal e é por isso que fica ali junto das malas. Afinal de contas, vimos da terra dos brancos. Para quem não o conhece, está aqui a apresentação.

Vanessa

Um mês de Goa

Cheguei há um mês. Era sábado. Estavam 30 graus. Tínhamos estado em Mumbai e passado por umas três filas diferentes sem perceber ao certo o que queriam de nós. Foi um papel com dados que me pareceram irrelevantes escritos pela segunda vez, mas de formas diferentes, porque o papel que nos tinham dado para preencher no avião não era o correcto. Tínhamos esperado que imprimissem o segundo papel. Tínhamos visto as horas para o segundo avião passar por nós com a certeza de que mais depressa chegariam elas a Goa do que nós. No meio da barafustação, encontrámos portugueses que também não sabiam ao certo o que fazer. 

Tínhamos procurado a bagagem para o segundo check-in. Tínhamos desesperado à procura da bagagem que não estava em lado nenhum senão no lugar para onde só nos mandaram depois de muitas voltas. Tínhamos estado num autocarro apinhado para chegar à pista de descolagem onde conheci uma americana simpática da qual me despedi com uma troca de contactos que depois não foi desenvolvida. Tínhamos ido para um dos gates no fim do aeroporto já depois de terem decidido mudar para o gate do início.

Mas conseguimos chegar. Foram várias as peripécias e depois muitas mais. As primeiras impressões foram as esperadas. Quase tudo como me tinham descrito ao longo de tantos anos. O choque inicial transformou-se em hábito. Da qualidade do ar, aos problemas pessoais, passando pelos costumes tão estrangeiros para mim. Há também muitas coisas boas aqui. Tudo isso pode ser visto na etiqueta Photo Album e a outra, a da gastronomia. Foram as fotos possíveis, mas vêm aí muitas mais com certeza.

Neste mês mudei de ano depois de ter mudado de continente e de hábitos (alguns). Li dois livros e mais de metade de outro. Trabalhei menos do que o habitual, mas consegui estabelecer uma rotina (quase). Voltei a escrever num blogue, mas também num diário. Provavelmente passei mais tempo offline do que em todo o ano que passou. Comecei a tomar o pequeno-almoço todos os dias sem excepção. O que quer também dizer que agora acordo sempre de manhã e já não trabalho pela noite dentro.

Tem sido um bom desfecho para mim, agora que se aproxima o meu aniversário. A despedida dos 28 anos em Goa é o culminar de uma mão cheia de anos em que o meu aniversário deixou de ser assim tão especial por calhar a dias de semana, por não conseguir reunir toda a gente e por achar que já estava a ficar mais adulta demais. Entretanto decidi que não há problema nenhum em relação a isso.

Começo a acreditar mesmo a sério naquela minha amiga que diz que os 30 são os novos 20.

Vanessa

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Assim foi hoje


A minha mãe apanhou na foto o momento em que levantei vôo. Foi uma boa descolagem. Conduzi pela primeira vez aqui no tráfego indiano. Não houve fatalidades. A praia de Velsão estava quase deserta. Na esplanada falava-se alemão e inglês. Bebi uma coca-cola num dia de semana como forma de recompensa por ser segunda-feira. Caminhámos no areal. O entardecer não se demorou. Pus-me a pensar no David Bowie de forma intermitente. Por causa disso, ou graças a, consegui não pensar em parvoíces e/ou em trabalho. A morte põe sempre uma boa perspectiva nas coisas. Perspectivada que baste por hoje, pus-me a ler de novo Dr. Sleep. O Stephen King é o escritor que eu gostava de ser. O serão passou num instante. É a altura do dia que parece escoar mais depressa. Um dia destes tento tapar o ralo, a ver se acumulo uma boa banheira de tempo. Já não escrevo coisa com coisa. Acho que foi da aterragem. Ou do sol que apanhei na moleira.

Vanessa

Interrogação

Posso não perceber muito de konkani, mas percebo sempre quando não me percebem. O tom da interrogação é invariavelmente o mesmo. É aquele que já conhecia em Portugal. "Hum?" 

Aquele "hum?" de quem no fundo quer exprimir um "que raio acabaste de dizer?" Aquele "hum?" acompanhado de um franzir de sobrancelhas e de nariz.

Até agora vi poucas coisas em comum entre Goa e Portugal. Mas esse som interrogativo é quase igual. 

É o som de algo que se perdeu ali no meio da tentativa de comunicação. É o som de algo que não chegou da forma correcta. É o dialecto em comum entre dois sujeitos com códigos de comunicação diferentes.

É preferível grunhir um "hum?" do que mandar um "sorry?" em tom de "faz lá o favor de repetir isso". "Can you repeat that?", então, é para esquecer. Em caso de dúvida, é melhor usar o "hum?" mesmo.

Vanessa

Paradoxical hoaxes

Now, it seems to be a hoax to say something is a hoax. David Bowie died today. The news came out just minutes ago. At first, my Facebook feed hinted at a death hoax. You know how so many celebrities have falsely died at the hands of internet trolls. This was supposedly one of those.

Unfortunately, this was a paradoxical hoax. Maybe an inceptional hoax. The real hoax was to say this news is a hoax. So carefully detailed it was, that there were false (were they, really?) confirmations about this being a hoax from Bowie's rep. I'm still shocked and hoping this is a true hoax.

Vanessa

Os homens de mãos dadas na Índia


Os dois rapazes à minha frente entrelaçaram os dedos descontraidamente. Estou num país onde demonstrações de afecto em público são reprovadas e a homossexualidade não é a forma de vida mais popular na opinião pública. O gesto, por isso, intrigou-me e eu não consegui desviar o olhar.

Nesse mesmo dia vi dois rapazes a caminhar enquanto se seguravam pelo dedo mindinho. Outro com um braço à volta da cintura de outro. Mais comum ainda, o braço em cima dos ombros. 

Sempre com pessoas do mesmo género. Homens e homens. Raramente, mas visível, mulheres e mulheres.

Aqui na Índia só não é bem aceite que um homem e uma mulher demonstrem sentimentos amorosos um pelo outro. Dois homens podem perfeitamente exprimir a sua amizade de forma física e andar de mãos dadas pela rua, da forma como em Portugal os pais dão as mãos aos filhos ou da forma como o fazem os namorados. 

Já vi vários pararem para conversar, dar uma das mãos e ficarem a abaná-las como se os braços fossem uma corda de saltar. Já vi abraços sem pudores, braços dados sem restrições.

É uma escolha feita especialmente por rapazes das zonas rurais ou dos subúrbios como Nagoá de Vernã. Não existe uma explicação, porque aqui é normal que os rapazes andem de mãos dadas, da mesma forma que em Portugal é normal os rapazes trocarem um aperto de mão como cumprimento.

Eu tenho algumas teorias sobre o assunto, porque para mim é um fenómeno fascinante ver dois rapazes de dedos entrelaçados. Eu penso que por ser tão mal encarado que um rapaz e uma rapariga o façam, os rapazes decidiram extrair manifestações físicas de carinho dos amigos.

Afinal de contas, todos nós precisamos de conforto físico.

Desconfio também que alguns deles sejam de facto homossexuais e que aproveitem a abébia para poderem exprimir-se livremente sem olhares de reprovação. Talvez até tenha começado como forma de camuflar aqueles que são mesmo homossexuais. Se assim fosse, seria um gesto bonito.

Mas bonito, bonito. é mesmo ver os rapazes indianos de mãos dadas assim, sem pudores e sem receio de retaliações. Dá a impressão de que há aqui, neste país ainda em vias de desenvolvimento e ainda com tanto por fazer, uma evolução social que ainda não chegou a Portugal.

Vanessa

domingo, 10 de janeiro de 2016

Montanhas de coisas boas

 Eu não queria transformar isto num blogue de fotografia, mas há coisas que "é ver para crer". Aqui estão mais imagens da Festa dos Reis em Cuelim no dia 6 de Janeiro. 








Mais sobre a Festa dos Reis em Cuelim.

Vanessa

Eu bem que gostava de pôr aqui fotos minhas...


... que até é coisa que amigos me têm pedido, mas é isto que acontece quando a minha Canon fica entregue a mãos alheias. Há depois que relembrar a mãe que a máquina fotográfica não é de rolo e que, por isso, pode tirar várias fotos à vontade. Ou isso, ou voltar a explicar como usar a máquina. Aquele truque de premir o botão ao de leve primeiro para a máquina focar e essas coisas. Pode ser que lá para Maio tenha duas ou três fotos que se aproveitem. Estou a brincar. Já há algumas. O problema é a modelo.

Vanessa

Ser freelancer

Houve uma altura em que eu estar à frente do computador significava lazer. Os meus pais assumiam que eu estava a brincar. A jogar qualquer coisa. Hoje em dia, significa trabalhar. Os meus pais e todos os que me conhecem assumem que se estou ao computador, estou a trabalhar.

Ser freelancer é um pouco isso. É estar sempre ao computador e quase sempre a trabalhar, digo. É também haver lazer e trabalho à mistura se tivermos sorte no projecto que perseguimos ou aceitamos. É aproveitar todas as oportunidades porque nunca se sabe quando haverá um período de seca. 

Mas, pelo menos pelo que percebo de expressões e conversas e coisas que me dizem, ser freelancer é também não ter um trabalho a sério, especialmente porque as pessoas que eu conheço medem o sucesso pelo número e tamanho das aquisições, e os freelancers que eu conheço não costumam adquirir muito.

Aqui sentem-se essas coisas ainda mais, porque os valores são muito diferentes, assim como acontece na outra terra de onde venho, Moçambique. Os ideais de sucesso para uma mulher são o casamento e os filhos. Por isso, de todas as vezes que falei com primos e tios de cá e de lá as perguntas foram sempre relacionadas com isso.

Imagino que aos olhos da minha família mais afastada eu seja um bicho muito estranho. É que para além de não ter casado, de não ter filhos e de não ter a pretensão de atingir tais objectivos num futuro tão próximo, ainda tenho uma profissão que não se sabe bem o que é a fazer coisas que não se sabe bem o que são.

Por isso é que é frequente ouvir os meus pais dizer: "Ah, ela faz aí umas traduções na internet" ou, "Ela trabalha no computador". Eu cá vou aproveitar a oportunidade de vir de uma família de pescadores, do lado dos Sousa, para dizer que costumo pescar na internet. Ser freelancer é isso mesmo, afinal de contas.

Vanessa

sábado, 9 de janeiro de 2016

Mercado de Pangim

À medida que os olhos conseguem adaptar-se à penumbra depois da luz da rua (forte nas imediações, porque os edifícios não são muito altos e o sol consegue acariciar-nos o cocuruto), o mercado de Pangim é, como todos os eventos que eu já aqui vi em Goa, um emaranhado de cores, vozes e aromas. Por isso mesmo, eu deixo aqui um cheirinho da experiência:






O mercado é sempre uma experiência tumultuosa, mas interessante. É preciso ter cuidado com empurrões, com pisadelas e com odores menos agradáveis do que os da fruta fresca. Tudo isto faz parte. Aqui sabe-se mais e lida-se com mais. Aqui vemos a galinha a ser morta, se quisermos mesmo carne fresca. Aqui passamos pela peixaria e somos cumprimentados pelo odor da pescaria do dia anterior, que ficou nas goteiras e no escoamento de água. Aqui, muitas vezes, negociamos com quem cultivou o que vamos comprar. Aqui não há muitos hipermercados como em Portugal, por isso tem mesmo de ser assim quando queremos produtos frescos.

Vanessa

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Tudo incluído


Tenho que me lembrar que não estou em Portugal, mas às vezes distraio-me e fico ali entre o surpresa e o chocada quando coisas muito indianas acontecem. Por exemplo, quando embrulham pastéis quentes em papel de jornal. Raramente andamos sem um saco de pano, caso contrário temos umas chamuças, por exemplo, com topping de tinta incluído. Foi o caso no dia desta foto. Ao menos o total foi à volta de 20 rupias.

Vanessa

Book Review | A Place Called Here by Cecelia Ahern

Once in a while I need a fairy tale type story to lighten the mood and I thought Cecelia Ahern's A Place Called Here would do the trick, as I had previously enjoyed her P.S.: I Love You

I did finish the book, but it lost me halfway through, as I suspected I wouldn't get any real answers. I was right. The plot had potential, with the story of a really tall woman called Sandy Shortt (meh) who's obsessed with things going missing, and who later decides the perfect career for her would be to find missing people. Then she goes missing. My favorite irony until the place where she was was introduced.

Whenever bouts of reality were intertwined in the story, I was quite entertained. I enjoyed all the aspects about one losing oneself while trying to find things and people. The metaphorical and existential questions. All that was very interesting. The romance bits were entertaining enough. Not as passionate as I was expecting, but at least movie-like, with dialogs that played wonderfully inside my head.

However, sometimes those dialogs and even character actions started to feel cliché-like.

When fantasy took an impacting role in the story, it all began to feel boring. Underwhelming. There were no real plot twists and no explanations. Just dots to be connected and gaps to be filled by my own mind.

The plot introduced a place (called Here) where all things missing end up being at. It was confusing and, instead of whimsical, it became a little too much as there were not always links to the real world so that the fantasy world made sense. It was like the book promised but didn't deliver.

I also didn't like that some parts were written in the first person and others were not.

Oh, and the comma splices were very distracting. I wasn't sure if it was Ahern's style of writing, but they really felt like comma splices. They should go away to that place called Here.

5/10

Vanessa

Uma questão de tamanhos

Já vi aqui à venda embalagens que seriam consideradas amostras em Portugal e já aqui falei das doses unitárias vendidas. Há produtos que disponibilizam três ou quatro tamanhos diferentes e há outros que só são vendidos, ou eu só os vejo, no tamanho mais pequeno. Vi uma garrafa de azeite de 100 mililitros e outra que me pareceu ser de 50 mililitros. Às vezes os rótulos não estão em condições e não dá para ler bem as quantidades e os ingredientes. Isto quando eles vêm todos descritos. Já vi embalagens individuais de papel higiénico à venda. Deve ser para um aperto. Já vi aqui em Goa miniaturas de quase tudo.

Por outro lado, há pelo menos um tamanho que aqui é distintamente maior do que em Portugal. O tamanho dos manequins das lojas. Aqui manequins femininas são sempre curvilíneas, de busto farto e coxas generosas. Eles também são mais cheios, mas elas são mais. Aqui os manequins são brancos. Ainda não vi manequins mais escuros que o bege. Parece-me mais uma vez uma questão de ocidentalidade.

Identifico-me com os manequins daqui, porque todos eles, na sua rigidez de objecto inanimado, têm ar de pessoas que comem normalmente. Nenhum deles me parece ter um distúrbio alimentar. Parecem mais humanos, o que chega a ser um pouco assustador. Um dia destes tenho de fotografar um.

Vanessa

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cansaço de final de semana

Há dias em que falta a água e depois volta a faltar. Há dias em que chega a faltar uma terceira vez. Há dias em que a luz se vai de rompante. Há dias em que se vai de mansinho e só notamos pelas horas a saltitar no relógio como que a chamar a atenção. Há dias em que falta tudo e até a vontade. Mas depois há dias em que falta a internet. Aí, parece que falta tudo. Estão actualizadas, as minhas prioridades, não estão?

Vanessa