terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Um mês de Goa

Cheguei há um mês. Era sábado. Estavam 30 graus. Tínhamos estado em Mumbai e passado por umas três filas diferentes sem perceber ao certo o que queriam de nós. Foi um papel com dados que me pareceram irrelevantes escritos pela segunda vez, mas de formas diferentes, porque o papel que nos tinham dado para preencher no avião não era o correcto. Tínhamos esperado que imprimissem o segundo papel. Tínhamos visto as horas para o segundo avião passar por nós com a certeza de que mais depressa chegariam elas a Goa do que nós. No meio da barafustação, encontrámos portugueses que também não sabiam ao certo o que fazer. 

Tínhamos procurado a bagagem para o segundo check-in. Tínhamos desesperado à procura da bagagem que não estava em lado nenhum senão no lugar para onde só nos mandaram depois de muitas voltas. Tínhamos estado num autocarro apinhado para chegar à pista de descolagem onde conheci uma americana simpática da qual me despedi com uma troca de contactos que depois não foi desenvolvida. Tínhamos ido para um dos gates no fim do aeroporto já depois de terem decidido mudar para o gate do início.

Mas conseguimos chegar. Foram várias as peripécias e depois muitas mais. As primeiras impressões foram as esperadas. Quase tudo como me tinham descrito ao longo de tantos anos. O choque inicial transformou-se em hábito. Da qualidade do ar, aos problemas pessoais, passando pelos costumes tão estrangeiros para mim. Há também muitas coisas boas aqui. Tudo isso pode ser visto na etiqueta Photo Album e a outra, a da gastronomia. Foram as fotos possíveis, mas vêm aí muitas mais com certeza.

Neste mês mudei de ano depois de ter mudado de continente e de hábitos (alguns). Li dois livros e mais de metade de outro. Trabalhei menos do que o habitual, mas consegui estabelecer uma rotina (quase). Voltei a escrever num blogue, mas também num diário. Provavelmente passei mais tempo offline do que em todo o ano que passou. Comecei a tomar o pequeno-almoço todos os dias sem excepção. O que quer também dizer que agora acordo sempre de manhã e já não trabalho pela noite dentro.

Tem sido um bom desfecho para mim, agora que se aproxima o meu aniversário. A despedida dos 28 anos em Goa é o culminar de uma mão cheia de anos em que o meu aniversário deixou de ser assim tão especial por calhar a dias de semana, por não conseguir reunir toda a gente e por achar que já estava a ficar mais adulta demais. Entretanto decidi que não há problema nenhum em relação a isso.

Começo a acreditar mesmo a sério naquela minha amiga que diz que os 30 são os novos 20.

Vanessa

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Assim foi hoje


A minha mãe apanhou na foto o momento em que levantei vôo. Foi uma boa descolagem. Conduzi pela primeira vez aqui no tráfego indiano. Não houve fatalidades. A praia de Velsão estava quase deserta. Na esplanada falava-se alemão e inglês. Bebi uma coca-cola num dia de semana como forma de recompensa por ser segunda-feira. Caminhámos no areal. O entardecer não se demorou. Pus-me a pensar no David Bowie de forma intermitente. Por causa disso, ou graças a, consegui não pensar em parvoíces e/ou em trabalho. A morte põe sempre uma boa perspectiva nas coisas. Perspectivada que baste por hoje, pus-me a ler de novo Dr. Sleep. O Stephen King é o escritor que eu gostava de ser. O serão passou num instante. É a altura do dia que parece escoar mais depressa. Um dia destes tento tapar o ralo, a ver se acumulo uma boa banheira de tempo. Já não escrevo coisa com coisa. Acho que foi da aterragem. Ou do sol que apanhei na moleira.

Vanessa

Interrogação

Posso não perceber muito de konkani, mas percebo sempre quando não me percebem. O tom da interrogação é invariavelmente o mesmo. É aquele que já conhecia em Portugal. "Hum?" 

Aquele "hum?" de quem no fundo quer exprimir um "que raio acabaste de dizer?" Aquele "hum?" acompanhado de um franzir de sobrancelhas e de nariz.

Até agora vi poucas coisas em comum entre Goa e Portugal. Mas esse som interrogativo é quase igual. 

É o som de algo que se perdeu ali no meio da tentativa de comunicação. É o som de algo que não chegou da forma correcta. É o dialecto em comum entre dois sujeitos com códigos de comunicação diferentes.

É preferível grunhir um "hum?" do que mandar um "sorry?" em tom de "faz lá o favor de repetir isso". "Can you repeat that?", então, é para esquecer. Em caso de dúvida, é melhor usar o "hum?" mesmo.

Vanessa

Paradoxical hoaxes

Now, it seems to be a hoax to say something is a hoax. David Bowie died today. The news came out just minutes ago. At first, my Facebook feed hinted at a death hoax. You know how so many celebrities have falsely died at the hands of internet trolls. This was supposedly one of those.

Unfortunately, this was a paradoxical hoax. Maybe an inceptional hoax. The real hoax was to say this news is a hoax. So carefully detailed it was, that there were false (were they, really?) confirmations about this being a hoax from Bowie's rep. I'm still shocked and hoping this is a true hoax.

Vanessa

Os homens de mãos dadas na Índia


Os dois rapazes à minha frente entrelaçaram os dedos descontraidamente. Estou num país onde demonstrações de afecto em público são reprovadas e a homossexualidade não é a forma de vida mais popular na opinião pública. O gesto, por isso, intrigou-me e eu não consegui desviar o olhar.

Nesse mesmo dia vi dois rapazes a caminhar enquanto se seguravam pelo dedo mindinho. Outro com um braço à volta da cintura de outro. Mais comum ainda, o braço em cima dos ombros. 

Sempre com pessoas do mesmo género. Homens e homens. Raramente, mas visível, mulheres e mulheres.

Aqui na Índia só não é bem aceite que um homem e uma mulher demonstrem sentimentos amorosos um pelo outro. Dois homens podem perfeitamente exprimir a sua amizade de forma física e andar de mãos dadas pela rua, da forma como em Portugal os pais dão as mãos aos filhos ou da forma como o fazem os namorados. 

Já vi vários pararem para conversar, dar uma das mãos e ficarem a abaná-las como se os braços fossem uma corda de saltar. Já vi abraços sem pudores, braços dados sem restrições.

É uma escolha feita especialmente por rapazes das zonas rurais ou dos subúrbios como Nagoá de Vernã. Não existe uma explicação, porque aqui é normal que os rapazes andem de mãos dadas, da mesma forma que em Portugal é normal os rapazes trocarem um aperto de mão como cumprimento.

Eu tenho algumas teorias sobre o assunto, porque para mim é um fenómeno fascinante ver dois rapazes de dedos entrelaçados. Eu penso que por ser tão mal encarado que um rapaz e uma rapariga o façam, os rapazes decidiram extrair manifestações físicas de carinho dos amigos.

Afinal de contas, todos nós precisamos de conforto físico.

Desconfio também que alguns deles sejam de facto homossexuais e que aproveitem a abébia para poderem exprimir-se livremente sem olhares de reprovação. Talvez até tenha começado como forma de camuflar aqueles que são mesmo homossexuais. Se assim fosse, seria um gesto bonito.

Mas bonito, bonito. é mesmo ver os rapazes indianos de mãos dadas assim, sem pudores e sem receio de retaliações. Dá a impressão de que há aqui, neste país ainda em vias de desenvolvimento e ainda com tanto por fazer, uma evolução social que ainda não chegou a Portugal.

Vanessa

domingo, 10 de janeiro de 2016

Montanhas de coisas boas

 Eu não queria transformar isto num blogue de fotografia, mas há coisas que "é ver para crer". Aqui estão mais imagens da Festa dos Reis em Cuelim no dia 6 de Janeiro. 








Mais sobre a Festa dos Reis em Cuelim.

Vanessa

Eu bem que gostava de pôr aqui fotos minhas...


... que até é coisa que amigos me têm pedido, mas é isto que acontece quando a minha Canon fica entregue a mãos alheias. Há depois que relembrar a mãe que a máquina fotográfica não é de rolo e que, por isso, pode tirar várias fotos à vontade. Ou isso, ou voltar a explicar como usar a máquina. Aquele truque de premir o botão ao de leve primeiro para a máquina focar e essas coisas. Pode ser que lá para Maio tenha duas ou três fotos que se aproveitem. Estou a brincar. Já há algumas. O problema é a modelo.

Vanessa

Ser freelancer

Houve uma altura em que eu estar à frente do computador significava lazer. Os meus pais assumiam que eu estava a brincar. A jogar qualquer coisa. Hoje em dia, significa trabalhar. Os meus pais e todos os que me conhecem assumem que se estou ao computador, estou a trabalhar.

Ser freelancer é um pouco isso. É estar sempre ao computador e quase sempre a trabalhar, digo. É também haver lazer e trabalho à mistura se tivermos sorte no projecto que perseguimos ou aceitamos. É aproveitar todas as oportunidades porque nunca se sabe quando haverá um período de seca. 

Mas, pelo menos pelo que percebo de expressões e conversas e coisas que me dizem, ser freelancer é também não ter um trabalho a sério, especialmente porque as pessoas que eu conheço medem o sucesso pelo número e tamanho das aquisições, e os freelancers que eu conheço não costumam adquirir muito.

Aqui sentem-se essas coisas ainda mais, porque os valores são muito diferentes, assim como acontece na outra terra de onde venho, Moçambique. Os ideais de sucesso para uma mulher são o casamento e os filhos. Por isso, de todas as vezes que falei com primos e tios de cá e de lá as perguntas foram sempre relacionadas com isso.

Imagino que aos olhos da minha família mais afastada eu seja um bicho muito estranho. É que para além de não ter casado, de não ter filhos e de não ter a pretensão de atingir tais objectivos num futuro tão próximo, ainda tenho uma profissão que não se sabe bem o que é a fazer coisas que não se sabe bem o que são.

Por isso é que é frequente ouvir os meus pais dizer: "Ah, ela faz aí umas traduções na internet" ou, "Ela trabalha no computador". Eu cá vou aproveitar a oportunidade de vir de uma família de pescadores, do lado dos Sousa, para dizer que costumo pescar na internet. Ser freelancer é isso mesmo, afinal de contas.

Vanessa

sábado, 9 de janeiro de 2016

Mercado de Pangim

À medida que os olhos conseguem adaptar-se à penumbra depois da luz da rua (forte nas imediações, porque os edifícios não são muito altos e o sol consegue acariciar-nos o cocuruto), o mercado de Pangim é, como todos os eventos que eu já aqui vi em Goa, um emaranhado de cores, vozes e aromas. Por isso mesmo, eu deixo aqui um cheirinho da experiência:






O mercado é sempre uma experiência tumultuosa, mas interessante. É preciso ter cuidado com empurrões, com pisadelas e com odores menos agradáveis do que os da fruta fresca. Tudo isto faz parte. Aqui sabe-se mais e lida-se com mais. Aqui vemos a galinha a ser morta, se quisermos mesmo carne fresca. Aqui passamos pela peixaria e somos cumprimentados pelo odor da pescaria do dia anterior, que ficou nas goteiras e no escoamento de água. Aqui, muitas vezes, negociamos com quem cultivou o que vamos comprar. Aqui não há muitos hipermercados como em Portugal, por isso tem mesmo de ser assim quando queremos produtos frescos.

Vanessa

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Tudo incluído


Tenho que me lembrar que não estou em Portugal, mas às vezes distraio-me e fico ali entre o surpresa e o chocada quando coisas muito indianas acontecem. Por exemplo, quando embrulham pastéis quentes em papel de jornal. Raramente andamos sem um saco de pano, caso contrário temos umas chamuças, por exemplo, com topping de tinta incluído. Foi o caso no dia desta foto. Ao menos o total foi à volta de 20 rupias.

Vanessa

Book Review | A Place Called Here by Cecelia Ahern

Once in a while I need a fairy tale type story to lighten the mood and I thought Cecelia Ahern's A Place Called Here would do the trick, as I had previously enjoyed her P.S.: I Love You

I did finish the book, but it lost me halfway through, as I suspected I wouldn't get any real answers. I was right. The plot had potential, with the story of a really tall woman called Sandy Shortt (meh) who's obsessed with things going missing, and who later decides the perfect career for her would be to find missing people. Then she goes missing. My favorite irony until the place where she was was introduced.

Whenever bouts of reality were intertwined in the story, I was quite entertained. I enjoyed all the aspects about one losing oneself while trying to find things and people. The metaphorical and existential questions. All that was very interesting. The romance bits were entertaining enough. Not as passionate as I was expecting, but at least movie-like, with dialogs that played wonderfully inside my head.

However, sometimes those dialogs and even character actions started to feel cliché-like.

When fantasy took an impacting role in the story, it all began to feel boring. Underwhelming. There were no real plot twists and no explanations. Just dots to be connected and gaps to be filled by my own mind.

The plot introduced a place (called Here) where all things missing end up being at. It was confusing and, instead of whimsical, it became a little too much as there were not always links to the real world so that the fantasy world made sense. It was like the book promised but didn't deliver.

I also didn't like that some parts were written in the first person and others were not.

Oh, and the comma splices were very distracting. I wasn't sure if it was Ahern's style of writing, but they really felt like comma splices. They should go away to that place called Here.

5/10

Vanessa

Uma questão de tamanhos

Já vi aqui à venda embalagens que seriam consideradas amostras em Portugal e já aqui falei das doses unitárias vendidas. Há produtos que disponibilizam três ou quatro tamanhos diferentes e há outros que só são vendidos, ou eu só os vejo, no tamanho mais pequeno. Vi uma garrafa de azeite de 100 mililitros e outra que me pareceu ser de 50 mililitros. Às vezes os rótulos não estão em condições e não dá para ler bem as quantidades e os ingredientes. Isto quando eles vêm todos descritos. Já vi embalagens individuais de papel higiénico à venda. Deve ser para um aperto. Já vi aqui em Goa miniaturas de quase tudo.

Por outro lado, há pelo menos um tamanho que aqui é distintamente maior do que em Portugal. O tamanho dos manequins das lojas. Aqui manequins femininas são sempre curvilíneas, de busto farto e coxas generosas. Eles também são mais cheios, mas elas são mais. Aqui os manequins são brancos. Ainda não vi manequins mais escuros que o bege. Parece-me mais uma vez uma questão de ocidentalidade.

Identifico-me com os manequins daqui, porque todos eles, na sua rigidez de objecto inanimado, têm ar de pessoas que comem normalmente. Nenhum deles me parece ter um distúrbio alimentar. Parecem mais humanos, o que chega a ser um pouco assustador. Um dia destes tenho de fotografar um.

Vanessa

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cansaço de final de semana

Há dias em que falta a água e depois volta a faltar. Há dias em que chega a faltar uma terceira vez. Há dias em que a luz se vai de rompante. Há dias em que se vai de mansinho e só notamos pelas horas a saltitar no relógio como que a chamar a atenção. Há dias em que falta tudo e até a vontade. Mas depois há dias em que falta a internet. Aí, parece que falta tudo. Estão actualizadas, as minhas prioridades, não estão?

Vanessa

Eu vi um sapo

Ou uma rã. Aqui perto de Nagoá de Vernã, em Nuvem, há um complexo de eventos chamado The Village. É aqui que mora a Froggyland, um sítio estilo Slide & Splash no Algarve. Não cheguei a entrar, mas deu para espreitar o que há por lá. Pareceu-me muito engraçado. Espreitem também:

À entrada somos cumprimentados pelo Froggy.

A vista das bilheteiras (já agora, o bilhete fica em 250 rupias para um dia inteiro). Ali o rapaz estava à espera que o balde vermelho vertesse a água que se acumulava. À direita e à esquerda estavam mais escorregas.

Um dos lados é uma praia artificial com direito a areia e rede de voleibol.

A página de Facebook da Froggyland tem muitas e melhores fotos para verem.

Vanessa

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Festa dos Reis em Cuelim

A multidão aguardava pacientemente a passagem dos Três Reis Magos, como acontece todos os anos a 6 de Janeiro junto à Capela de Nossa Senhora dos Remédios numa colina de 100 metros de altitude em Cuelim, em Cansaulim. É aqui ao lado de Nagoá de Vernã.

Tal como todos os anos, as pessoas vestem-se a preceito, deslocam-se como podem colina acima, aguardam a passagem e depois tentam tocar pelo menos um dos três rapazes, escolhidos das vilas de Cuelim, Cansaulim e Arossim para interpretarem cada um dos Reis Magos, numa tentativa de angariarem bênçãos. Alguns tiveram sorte. Outros acabaram por se resignar a um sinal da cruz ou a uma prece silenciosa.

O evento é o ponto alto (até literalmente) e ao mesmo tempo o culminar da época de Natal. Em torno da capela, espiralando pela colina acima, há um festival de cores e aromas impossível de ignorar.

Das cinco da manhã às nove houve uma missa por hora. Nos intervalos da religiosidade, as pessoas lanchavam nos espaços destinados a refeições ou pelo caminho.

O movimento tornou-se viciante, com uns a empurrar outros até cada um conseguir chegar onde queria e foi, por isso, uma tarefa hercúlea conseguir ficar parada o tempo suficiente para conseguir tirar uma foto bem focada. Misturei-me com os fotógrafos e os jornalistas no local e foi assim que consegui alguns detalhes interessantes, ainda que não tão focados como queria.

Factos curiosos: não se sabe ao certo como foi a capela parar ao topo de uma colina. A capela terá sido fundada por um padre jesuíta, Gonsalo Carvalho, em meados de 1599. 

Há teorias de que a capela foi construída pelos jesuítas num local remoto o suficiente para que não fossem apanhados pela perseguição de Marquês de Pombal. Há pelo menos um túnel subterrâneo debaixo da capela, por onde se diz que os jesuítas se deslocavam para cerimónias religiosas.

Há lendas que dizem que no lugar da capela estava antes um templo hindu. Será essa uma das razões pelas quais os hindus se juntam liberalmente a esta festividade católica e são fervorosos à Nossa Senhora dos Remédios. Junte-se a isso os supostos poderes curativos desta região e há aqui o ponto de encontro ideal entre duas das principais religiões de Goa.

Vamos agora às fotos:






Por onde andassem os Três Reis, a música acompanhava.

Estas flores amarelas e laranja estão presentes em todas as cerimónias religiosas que já vi.

As batatas assadas ou cozidas fazem tanto sucesso que há imensas vendedoras por todo o lado.

A vista da colina. De vários ângulos dá mesmo a impressão de que não há nada à volta.

Há várias outras fotos, mas ficam para outra altura.

Vanessa

Enganar o cérebro

Li num sítio qualquer que quando dormimos mal podemos enganar o cérebro facilmente se fingirmos para nós próprios que dormimos bem

Basta fingir que, em vez de termos andando a rebolar na cama em busca de uma posição ou, como esta noite, a rebolar na cama a ver se os lençóis camuflavam a pele para as melgas desistirem da sua ceia, dormimos um sono refastelado. Pelos vistos o nosso cérebro tem a idade daquelas crianças que acreditam que lhes conseguimos tirar o nariz sem elas darem conta e que depois não percebem a diferença entre um dedo e uma penca.

Eu sempre acreditei que podia enganar o cérebro se o distraísse. Se houver um compromisso ou a promessa de algo interessante não tenho problemas em acordar. A questão muda de figura se o despertar está associado a algo aborrecido e/ou rotineiro. Mas hoje usei as duas estratégias e enganei o meu cérebro.

Sim, querido, hoje dormiste melhor do que a Bela Adormecida. Não, esta noite não houve melgas a importunar nem falta de posição nem sonos leves. Olha, querido, acorda que vamos passear. Hoje é Dia de Reis e vai haver muita coisa gira para fazer. Sim, são oito da manhã, mas se acordares agora não vais perder um segundo da animação que vai ser hoje. Depois recuperas esta noite, vais ver.

Por enquanto está a resultar. É meio-dia e eu já vi muita coisa. Tudo isto só com uma colher de Nescafé de manhã. Quanta cafeína tem uma colher? Não sei. Agora ia mas é uma bica. Como se engana o cérebro nessa matéria? É que o chá só disfarça a vontade de vez em quando.

Vanessa

Pornografia gastronómica

Masala dosa. Um crepe salgado recheado de batata bem condimentada.

Uma espécie de club sandwich e caril de peixe com acompanhamentos.

Tigelinhas com coisas boas é muito comum aqui.

Uma refeição aleatória aqui por casa com sobras variadas.

O chouriço goês é famoso aqui. É costume ser uma das proteínas de eleição.

Aqui também se comem saladas. Posso dizer que são das melhores que provei.

Tanto que repeti. Ao lado, chacuti de cabrito.

O ponto de encontro. Close-ups de comida dão sempre água na boca.

As fotos com pior qualidade são normalmente tiradas com o telemóvel. Nem sempre é possível usar a câmara e nem sempre o apetite permite ir buscar a câmara. Agora com licença que vou lanchar.

Vanessa

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Saudades de uma bica

Primeiro o aroma que dá as boas-vindas ainda antes do encontro. O som da máquina e o fumo. Uma chávena quente pousada debaixo do fio negro que se acomoda à loiça e se espalha. Três dedos de aroma e sabor entrelaçados. O calor torrado e o paladar perfumado na língua. O choque térmico. O despertar sentido e o sentidos a despertar. Um gole. Dois goles. Uma pausa. Olhar pela janela e sentir a asa da chávena em três dedos. Terceiro gole. Pousar a chávena e poupar o prazer. O sabor expande-se. O calor conforta-se por dentro. O amargo no céu da boca e na língua sente-se melhor com os lábios presos um no outro. É por isso que o café sabe melhor em silêncio. Só de vez em quando. Conversas entre cafés são um gosto à parte. Entretanto ficou morno. A dúvida prende-se. Um gole cheio ou dois goles poupados? Chávena pousada na indecisão. 

Nota. Estou há menos de um mês sem tomar uma bica e já a saudade se instalou. Não há aqui bicas. Um espresso é uma raridade. Aqui bebe-se chá. É um outro prazer. Desconfio que as bicas sabem melhor no país onde aprendi a gostar de bicas. Aqui há o que chamamos de carioca. Há o apelidado de abatanado. Há o chamado café da avó. Há a banheira. Há o Nescafé. Há galões. Mas esses sabem mesmo ao galão que sempre conheci. Só o café é que não sabe ao café português. Sabe a menos. Fica a vontade. Bebe-se o café daqui e metade do desejo fica na chávena. Não é propriamente uma desilusão. É uma habituação. A Índia não é um país de bons cafés. Mas eu desconfio que me consigo habituar ao chá. "Em Roma, sê romano".

À beira-mar


As esplanadas à beira-mar de Goa são mesmo à beira do mar. Não há calçadas que atravessam a costa com miradouros e bancos para sentar. Não há passeios sem fim que unem várias praias ao longo dessa costa. Não há desses calçadões por onde podemos caminhar por quilómetros ou por onde podemos passar de carro quando só nos apetece ver o mar, mas não interagir com ele, ou ficar com a roupa cheia de areia. Aqui, cada praia é um nicho e as esplanadas à beira-mar povoam a areia. Aqui toma-se um refresco ou prova-se um petisco com os pés enterrados na areia. Aqui, passear perto do mar é passear mesmo perto do mar. Aqui não há meias-medidas.

Vanessa

Eles estão por todo o lado


E fazem chinfrim e sujam o chão. Onde andam as gaivotas indianas?

Vanessa

Five Days Are Gone

I changed a lot throughout last year's last month and I didn't even have any say in it.

It's not just that I changed continents. The change changed me and brought up the worst things possible. From anxiety, to panic attacks, to bouts of claustrophobia even in large rooms.

It seemed as though my mind was rejecting change and reacting to living healthier. 

Sleeping much earlier than midnight after being a night owl for too many years seemed to make me wake up in the middle of the night gasping for air and sensing the ceiling right next to my nose and the walls embracing me, even in a room that's so much larger than the one I've been sleeping in for years.

At least that's the doctor's theory as to why I had so much trouble sleeping. It was all in my head, he said.

That's the worst possible diagnosis.

I always dreaded taking drugs, but that's what I had to resort to for the first three weeks here. I had a chest infection, a skin condition and a wound that's still healing. The last drug I took was an anxiolytic, because I couldn't calm myself down sometimes. I'm off of it now for almost a week.

Everyone still says everything was caused by the big change. I know I'm an expert at adapting myself. I know I was the one unconsciously causing all the reactions that made me a different person.

I still think it was caused by all the things I carried with me from Portugal. I don't want to sound cliché by saying my baggage, but that's what it is. My baggage caused me to freak out for some reason.

I thought I'd write about all this in English. I already explained some of it in Portuguese, but there are things that sound better or make more sense in other languages.

Anyway. Even with so many annoying things bothering me, time flew. I got to visit places, meet family members I had only heard about, and plan other visits. 

I just noticed that five days from January are gone. I haven't made any goals for this year yet.

One goal I cannot change, though, is that I'll celebrate by birthday in one month.

Vanessa

Época balnear


Aqui a época balnear é eterna se houver por perto turistas. 

Nós, que vimos da Europa, não nos importamos se estiverem apenas 20 graus mesmo depois de meses de calor tórrido, porque 20 graus dão perfeitamente para um dia bem passado na praia, porque 20 graus até é uma boa temperatura, porque já sentimos pior que isso e sobrevivemos.

A água do mar aqui não chega a ser morna, pelo menos para mim. Os meus padrões costumam ser altos, porque tenho sempre frio. Exemplo: aqui, à noite, eu uso uma camisolinha de lã. Não estou sozinha. Há aqui locais que andam em mangas de camisa, casaco e até roupa polar. Às vezes tudo isso. Já vi.

Mas a água do mar aqui é melhor do que a de Portugal, que nunca apanhei acima de gélida. Mas lá está. Eu sou uma pessoa com necessidades térmicas acima da média.

Ultimamente as temperaturas rondam os 30 graus, mas de noite estão uns 20 e tal. Aceitável para mim. Aqui é inverno, mas continua aberta a época balnear. 

Estamos para a Índia como Portugal está para a Europa. É um sítio ameno, bom para o turismo pelas praias e pelos pedaços de história deixados pelos antepassados.

Mas aqui é mais quente e não há praias com bandeira azul. Na verdade, nenhuma das que visitei seria sequer candidata a uma bandeira azul. Nem mesmo a praia de Colva (na foto), a mais turística daqui.

Disse-me a minha mãe que, no entanto, estão muito melhores. A minha família tem mais termos de comparação do que eu, mas vendo o que vejo, é muito raro experimentar a água sem receio ou passear descontraidamente à beira-mar descalça. Ao menos há nadadores-salvadores em todas as praias que visitei. Já dá alguma segurança.

Vanessa

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Esta jornalista tirou férias

Prova disso: só soube que hoje houve um sismo na Índia quando alguém me perguntou se estava tudo bem comigo e se por acaso não estava perto do epicentro. Há já algum tempo que não ando em cima das notícias, confesso. A verdade é que esta jornalista tirou férias da profissão há muito, muito tempo. Ou foi a profissão que tirou férias da jornalista. Mas o que interessa agora é que estou viva e longe do sismo.

Vanessa

Falta de apreço


Já vi o meu nome escrito de quatro formas diferentes. Nenhuma era a forma correcta. A foto de um menu de um restaurante daqui de Goa aqui acima exemplifica esta falta de apreço pela coerência e a falta de brio gramatical que tantas vezes já testemunhei. Nota-se que a intenção era escrever "Recheado". Foram duas tentativas falhadas para acertar na palavra. E este menu é de um sítio com origens supostamente portuguesas, que ostenta orgulhosamente um mapa de Portugal como se isso significasse alguma coisa importante.

Aqui escreve-se sem cuidados. Não há esmero. Ninguém se importa. As facturas vêm com moradas escritas de formas diferentes, em nome de pseudónimos (ou heterónimos), porque pedir para soletrar nomes não parece ser costume aqui, então às vezes escreve-se só como o nome soa. Já vi gralhas e erros em cartazes e em panfletos. É, aliás, muito raro, encontrar algo escrito em público que não contenha pelo menos um erro.

Muitos dos nomes portugueses perderam acentos ou letras. São agora um fantasma dos originais. Tudo o que é de inspiração portuguesa não passa de um espírito. Ficam as intenções. Mas não há apreço. Há coisas mais importantes para ocupar a categoria das preocupações. A ortografia e a gramática são luxos.

Vanessa

O meu pai perguntou se já tinha visto esquilos


Ver, já vi. Mas eles não são propriamente modelos fotográficos, que sorriem para a câmara e ficam quietos num só sítio. Segundo o Branco, são os piores inquilinos de sempre.

Vanessa

Egoísmo

Escrevo mais para mim do que para uma audiência. Escrevo para reviver, pelo menos recordar, e para me lembrar. Escrevo aquilo que não me importo que seja público. Não quer dizer que o que publico seja algo que não me importa. Também não quer dizer que o que publico seja para um público. O que escrevo é 90% para mim, 10% para quem quiser ler. A proporção vai-se alterando, mas o egoísmo é sempre esse: escrevo primeiro para mim. Um dia vai apetecer-me ler o que escrevi.

Vanessa

domingo, 3 de janeiro de 2016

Vou ser ruim para quem está em Portugal

Tenho saudades de tardes de chuva, de roupa quente para tapar o frio, de mantas e chocolate, de leituras à luz do sol gélido, de chá reconfortante, de botijas de água quente, de ficar com o nariz frio, de estar na rua e depois de chegar ao calor de casa, de usar o forno, de mantas polares, de chinelos confortáveis, de ver filmes uma tarde inteira enquanto a chuva não pára, de passear junto ao mar em dias cinzentos.

São só saudades domingueiras. Isto passa.

Vanessa

Texturas de Goa

O bom do coco.

É sempre bom olhar para cima. Nunca se sabe o que podemos encontrar.

Maré vazia no rio Mandovi.

Caution: Weak Structure.

A caminho de casa.

Foram três de uma vez.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição. A visita ficou guardada para mais tarde.

Vanessa

Leituras em dia

Tinha-me custado a decidir trazer o Dr. Sleep, de Stephen King, para cá, principalmente porque na última semana em Portugal tinha conseguido encontrar livros bons, baratos, e compridos o suficiente para talvez durarem meses. Mas este era compacto e interessante, porque o The Shining tinha sido um fascínio na adolescência, e agora este, a sequela, tão disponível, tão apetecível, à espera que eu a lesse.

Depois das atribulações, o livro ficou de lado, porque a temática podia não estar a ajudar à festa e porque se calhar já era altura de ler livros mais optimistas, especialmente porque ia desfrutar de férias depois de muito tempo, e porque ia ter muito tempo livre, e porque livros com entretantos felizes além de finais felizes também fazem falta, e porque já que ia ser uma mudança, que fosse em grande.

Seguiu-se Paper Towns, que encontrei na biblioteca aqui em Nagoá de Vernã. Não foi assim tão optimista, mas foi um bom começo. Por coincidência, sabia sobre a temática porque tinha ouvido o próprio autor falar de como tinha encontrado a ideia para a estória, mas desconhecia que o livro se debruçava tanto sobre uma pessoa desaparecida. Simplesmente vi-o, lembrei-me de que o queria ler, e levei-o.

Terminado esse, voltei à biblioteca para o devolver e escolhi outro. Desta vez foi mais às cegas. Escolhido. A Place Called Here, de Cecelia Ahern. Lembrei-me de que recorro a esta autora quando me apetece uma leitura despreocupada e sentimental. Também faz falta de vez em quando. Extrema coincidência. Também este livro se encaixa na temática de pessoas desaparecidas. Mais do que o anterior, até.

O balanço aqui tem sido positivo em termos de leituras e parece-me que também me vou dedicar mais ao passatempo de escolher livros assim ao calhas, a ver se me calha um seguimento interessante. Até ao momento, não sei bem o que quer o acaso dizer-me, mas fico preocupada. É que tenho ideias de explorar um pouco mais esta terra onde estou e dar com livros sobre desaparecimentos não me parece bom augúrio.

Vanessa

sábado, 2 de janeiro de 2016

Em Goa também há taxas e taxinhas


A qualidade aqui paga-se e a preceito. Esta taça no Café Coffee Day (cadeia de cafés famosa na Índia), por exemplo, custava inicialmente 156 rupias, o que já de si é caro. O funcionário perguntou se queria chantili e eu aquiesci sem perguntar quanto seria cobrado. Foram 41 rupias a mais. Pelos vistos o IVA é à parte. Daí foram 12.50%, ou seja, 24,62 rupias. Em cima disso, o service tax, que eu presumo ser o equivalente à gorjeta americana. Estava a 5,800%, ou seja, 11,43 rupias. 

Total: 233 rupias. Por. Uma. Taça. De. Gelado.

Valeu pelo café limpo, o ar condicionado, a clientela selecta e, pronto, pelo gelado de chocolate com sabor a chocolate a sério (tema para mais tarde), circundado por brownies com sabor a chocolate a sério e com um molho de chocolate com sabor a chocolate a sério. Mas foi uma experiência a não repetir.

Foi neste café que um rapaz se aproximou de mim com a sua Nikon ("Ai, que ele me vai perguntar coisas técnicas, tipo abertura do diafragma ou balanceamento de brancos, ou vai querer comparar a sua câmara com a minha Canon e iniciar uma disputa".) para me perguntar como se activava o foco manual e eu portei-me bem, e consegui responder mesmo sem perceber muito de coisas técnicas e depois senti o ego a apanhar o avião e a ultrapassar as primeiras camadas da atmosfera. Foi um dia caro, mas bom.

Vanessa