sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Book Review | A Place Called Here by Cecelia Ahern

Once in a while I need a fairy tale type story to lighten the mood and I thought Cecelia Ahern's A Place Called Here would do the trick, as I had previously enjoyed her P.S.: I Love You

I did finish the book, but it lost me halfway through, as I suspected I wouldn't get any real answers. I was right. The plot had potential, with the story of a really tall woman called Sandy Shortt (meh) who's obsessed with things going missing, and who later decides the perfect career for her would be to find missing people. Then she goes missing. My favorite irony until the place where she was was introduced.

Whenever bouts of reality were intertwined in the story, I was quite entertained. I enjoyed all the aspects about one losing oneself while trying to find things and people. The metaphorical and existential questions. All that was very interesting. The romance bits were entertaining enough. Not as passionate as I was expecting, but at least movie-like, with dialogs that played wonderfully inside my head.

However, sometimes those dialogs and even character actions started to feel cliché-like.

When fantasy took an impacting role in the story, it all began to feel boring. Underwhelming. There were no real plot twists and no explanations. Just dots to be connected and gaps to be filled by my own mind.

The plot introduced a place (called Here) where all things missing end up being at. It was confusing and, instead of whimsical, it became a little too much as there were not always links to the real world so that the fantasy world made sense. It was like the book promised but didn't deliver.

I also didn't like that some parts were written in the first person and others were not.

Oh, and the comma splices were very distracting. I wasn't sure if it was Ahern's style of writing, but they really felt like comma splices. They should go away to that place called Here.

5/10

Vanessa

Uma questão de tamanhos

Já vi aqui à venda embalagens que seriam consideradas amostras em Portugal e já aqui falei das doses unitárias vendidas. Há produtos que disponibilizam três ou quatro tamanhos diferentes e há outros que só são vendidos, ou eu só os vejo, no tamanho mais pequeno. Vi uma garrafa de azeite de 100 mililitros e outra que me pareceu ser de 50 mililitros. Às vezes os rótulos não estão em condições e não dá para ler bem as quantidades e os ingredientes. Isto quando eles vêm todos descritos. Já vi embalagens individuais de papel higiénico à venda. Deve ser para um aperto. Já vi aqui em Goa miniaturas de quase tudo.

Por outro lado, há pelo menos um tamanho que aqui é distintamente maior do que em Portugal. O tamanho dos manequins das lojas. Aqui manequins femininas são sempre curvilíneas, de busto farto e coxas generosas. Eles também são mais cheios, mas elas são mais. Aqui os manequins são brancos. Ainda não vi manequins mais escuros que o bege. Parece-me mais uma vez uma questão de ocidentalidade.

Identifico-me com os manequins daqui, porque todos eles, na sua rigidez de objecto inanimado, têm ar de pessoas que comem normalmente. Nenhum deles me parece ter um distúrbio alimentar. Parecem mais humanos, o que chega a ser um pouco assustador. Um dia destes tenho de fotografar um.

Vanessa

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cansaço de final de semana

Há dias em que falta a água e depois volta a faltar. Há dias em que chega a faltar uma terceira vez. Há dias em que a luz se vai de rompante. Há dias em que se vai de mansinho e só notamos pelas horas a saltitar no relógio como que a chamar a atenção. Há dias em que falta tudo e até a vontade. Mas depois há dias em que falta a internet. Aí, parece que falta tudo. Estão actualizadas, as minhas prioridades, não estão?

Vanessa

Eu vi um sapo

Ou uma rã. Aqui perto de Nagoá de Vernã, em Nuvem, há um complexo de eventos chamado The Village. É aqui que mora a Froggyland, um sítio estilo Slide & Splash no Algarve. Não cheguei a entrar, mas deu para espreitar o que há por lá. Pareceu-me muito engraçado. Espreitem também:

À entrada somos cumprimentados pelo Froggy.

A vista das bilheteiras (já agora, o bilhete fica em 250 rupias para um dia inteiro). Ali o rapaz estava à espera que o balde vermelho vertesse a água que se acumulava. À direita e à esquerda estavam mais escorregas.

Um dos lados é uma praia artificial com direito a areia e rede de voleibol.

A página de Facebook da Froggyland tem muitas e melhores fotos para verem.

Vanessa

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Festa dos Reis em Cuelim

A multidão aguardava pacientemente a passagem dos Três Reis Magos, como acontece todos os anos a 6 de Janeiro junto à Capela de Nossa Senhora dos Remédios numa colina de 100 metros de altitude em Cuelim, em Cansaulim. É aqui ao lado de Nagoá de Vernã.

Tal como todos os anos, as pessoas vestem-se a preceito, deslocam-se como podem colina acima, aguardam a passagem e depois tentam tocar pelo menos um dos três rapazes, escolhidos das vilas de Cuelim, Cansaulim e Arossim para interpretarem cada um dos Reis Magos, numa tentativa de angariarem bênçãos. Alguns tiveram sorte. Outros acabaram por se resignar a um sinal da cruz ou a uma prece silenciosa.

O evento é o ponto alto (até literalmente) e ao mesmo tempo o culminar da época de Natal. Em torno da capela, espiralando pela colina acima, há um festival de cores e aromas impossível de ignorar.

Das cinco da manhã às nove houve uma missa por hora. Nos intervalos da religiosidade, as pessoas lanchavam nos espaços destinados a refeições ou pelo caminho.

O movimento tornou-se viciante, com uns a empurrar outros até cada um conseguir chegar onde queria e foi, por isso, uma tarefa hercúlea conseguir ficar parada o tempo suficiente para conseguir tirar uma foto bem focada. Misturei-me com os fotógrafos e os jornalistas no local e foi assim que consegui alguns detalhes interessantes, ainda que não tão focados como queria.

Factos curiosos: não se sabe ao certo como foi a capela parar ao topo de uma colina. A capela terá sido fundada por um padre jesuíta, Gonsalo Carvalho, em meados de 1599. 

Há teorias de que a capela foi construída pelos jesuítas num local remoto o suficiente para que não fossem apanhados pela perseguição de Marquês de Pombal. Há pelo menos um túnel subterrâneo debaixo da capela, por onde se diz que os jesuítas se deslocavam para cerimónias religiosas.

Há lendas que dizem que no lugar da capela estava antes um templo hindu. Será essa uma das razões pelas quais os hindus se juntam liberalmente a esta festividade católica e são fervorosos à Nossa Senhora dos Remédios. Junte-se a isso os supostos poderes curativos desta região e há aqui o ponto de encontro ideal entre duas das principais religiões de Goa.

Vamos agora às fotos:






Por onde andassem os Três Reis, a música acompanhava.

Estas flores amarelas e laranja estão presentes em todas as cerimónias religiosas que já vi.

As batatas assadas ou cozidas fazem tanto sucesso que há imensas vendedoras por todo o lado.

A vista da colina. De vários ângulos dá mesmo a impressão de que não há nada à volta.

Há várias outras fotos, mas ficam para outra altura.

Vanessa

Enganar o cérebro

Li num sítio qualquer que quando dormimos mal podemos enganar o cérebro facilmente se fingirmos para nós próprios que dormimos bem

Basta fingir que, em vez de termos andando a rebolar na cama em busca de uma posição ou, como esta noite, a rebolar na cama a ver se os lençóis camuflavam a pele para as melgas desistirem da sua ceia, dormimos um sono refastelado. Pelos vistos o nosso cérebro tem a idade daquelas crianças que acreditam que lhes conseguimos tirar o nariz sem elas darem conta e que depois não percebem a diferença entre um dedo e uma penca.

Eu sempre acreditei que podia enganar o cérebro se o distraísse. Se houver um compromisso ou a promessa de algo interessante não tenho problemas em acordar. A questão muda de figura se o despertar está associado a algo aborrecido e/ou rotineiro. Mas hoje usei as duas estratégias e enganei o meu cérebro.

Sim, querido, hoje dormiste melhor do que a Bela Adormecida. Não, esta noite não houve melgas a importunar nem falta de posição nem sonos leves. Olha, querido, acorda que vamos passear. Hoje é Dia de Reis e vai haver muita coisa gira para fazer. Sim, são oito da manhã, mas se acordares agora não vais perder um segundo da animação que vai ser hoje. Depois recuperas esta noite, vais ver.

Por enquanto está a resultar. É meio-dia e eu já vi muita coisa. Tudo isto só com uma colher de Nescafé de manhã. Quanta cafeína tem uma colher? Não sei. Agora ia mas é uma bica. Como se engana o cérebro nessa matéria? É que o chá só disfarça a vontade de vez em quando.

Vanessa

Pornografia gastronómica

Masala dosa. Um crepe salgado recheado de batata bem condimentada.

Uma espécie de club sandwich e caril de peixe com acompanhamentos.

Tigelinhas com coisas boas é muito comum aqui.

Uma refeição aleatória aqui por casa com sobras variadas.

O chouriço goês é famoso aqui. É costume ser uma das proteínas de eleição.

Aqui também se comem saladas. Posso dizer que são das melhores que provei.

Tanto que repeti. Ao lado, chacuti de cabrito.

O ponto de encontro. Close-ups de comida dão sempre água na boca.

As fotos com pior qualidade são normalmente tiradas com o telemóvel. Nem sempre é possível usar a câmara e nem sempre o apetite permite ir buscar a câmara. Agora com licença que vou lanchar.

Vanessa

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Saudades de uma bica

Primeiro o aroma que dá as boas-vindas ainda antes do encontro. O som da máquina e o fumo. Uma chávena quente pousada debaixo do fio negro que se acomoda à loiça e se espalha. Três dedos de aroma e sabor entrelaçados. O calor torrado e o paladar perfumado na língua. O choque térmico. O despertar sentido e o sentidos a despertar. Um gole. Dois goles. Uma pausa. Olhar pela janela e sentir a asa da chávena em três dedos. Terceiro gole. Pousar a chávena e poupar o prazer. O sabor expande-se. O calor conforta-se por dentro. O amargo no céu da boca e na língua sente-se melhor com os lábios presos um no outro. É por isso que o café sabe melhor em silêncio. Só de vez em quando. Conversas entre cafés são um gosto à parte. Entretanto ficou morno. A dúvida prende-se. Um gole cheio ou dois goles poupados? Chávena pousada na indecisão. 

Nota. Estou há menos de um mês sem tomar uma bica e já a saudade se instalou. Não há aqui bicas. Um espresso é uma raridade. Aqui bebe-se chá. É um outro prazer. Desconfio que as bicas sabem melhor no país onde aprendi a gostar de bicas. Aqui há o que chamamos de carioca. Há o apelidado de abatanado. Há o chamado café da avó. Há a banheira. Há o Nescafé. Há galões. Mas esses sabem mesmo ao galão que sempre conheci. Só o café é que não sabe ao café português. Sabe a menos. Fica a vontade. Bebe-se o café daqui e metade do desejo fica na chávena. Não é propriamente uma desilusão. É uma habituação. A Índia não é um país de bons cafés. Mas eu desconfio que me consigo habituar ao chá. "Em Roma, sê romano".

À beira-mar


As esplanadas à beira-mar de Goa são mesmo à beira do mar. Não há calçadas que atravessam a costa com miradouros e bancos para sentar. Não há passeios sem fim que unem várias praias ao longo dessa costa. Não há desses calçadões por onde podemos caminhar por quilómetros ou por onde podemos passar de carro quando só nos apetece ver o mar, mas não interagir com ele, ou ficar com a roupa cheia de areia. Aqui, cada praia é um nicho e as esplanadas à beira-mar povoam a areia. Aqui toma-se um refresco ou prova-se um petisco com os pés enterrados na areia. Aqui, passear perto do mar é passear mesmo perto do mar. Aqui não há meias-medidas.

Vanessa

Eles estão por todo o lado


E fazem chinfrim e sujam o chão. Onde andam as gaivotas indianas?

Vanessa

Five Days Are Gone

I changed a lot throughout last year's last month and I didn't even have any say in it.

It's not just that I changed continents. The change changed me and brought up the worst things possible. From anxiety, to panic attacks, to bouts of claustrophobia even in large rooms.

It seemed as though my mind was rejecting change and reacting to living healthier. 

Sleeping much earlier than midnight after being a night owl for too many years seemed to make me wake up in the middle of the night gasping for air and sensing the ceiling right next to my nose and the walls embracing me, even in a room that's so much larger than the one I've been sleeping in for years.

At least that's the doctor's theory as to why I had so much trouble sleeping. It was all in my head, he said.

That's the worst possible diagnosis.

I always dreaded taking drugs, but that's what I had to resort to for the first three weeks here. I had a chest infection, a skin condition and a wound that's still healing. The last drug I took was an anxiolytic, because I couldn't calm myself down sometimes. I'm off of it now for almost a week.

Everyone still says everything was caused by the big change. I know I'm an expert at adapting myself. I know I was the one unconsciously causing all the reactions that made me a different person.

I still think it was caused by all the things I carried with me from Portugal. I don't want to sound cliché by saying my baggage, but that's what it is. My baggage caused me to freak out for some reason.

I thought I'd write about all this in English. I already explained some of it in Portuguese, but there are things that sound better or make more sense in other languages.

Anyway. Even with so many annoying things bothering me, time flew. I got to visit places, meet family members I had only heard about, and plan other visits. 

I just noticed that five days from January are gone. I haven't made any goals for this year yet.

One goal I cannot change, though, is that I'll celebrate by birthday in one month.

Vanessa

Época balnear


Aqui a época balnear é eterna se houver por perto turistas. 

Nós, que vimos da Europa, não nos importamos se estiverem apenas 20 graus mesmo depois de meses de calor tórrido, porque 20 graus dão perfeitamente para um dia bem passado na praia, porque 20 graus até é uma boa temperatura, porque já sentimos pior que isso e sobrevivemos.

A água do mar aqui não chega a ser morna, pelo menos para mim. Os meus padrões costumam ser altos, porque tenho sempre frio. Exemplo: aqui, à noite, eu uso uma camisolinha de lã. Não estou sozinha. Há aqui locais que andam em mangas de camisa, casaco e até roupa polar. Às vezes tudo isso. Já vi.

Mas a água do mar aqui é melhor do que a de Portugal, que nunca apanhei acima de gélida. Mas lá está. Eu sou uma pessoa com necessidades térmicas acima da média.

Ultimamente as temperaturas rondam os 30 graus, mas de noite estão uns 20 e tal. Aceitável para mim. Aqui é inverno, mas continua aberta a época balnear. 

Estamos para a Índia como Portugal está para a Europa. É um sítio ameno, bom para o turismo pelas praias e pelos pedaços de história deixados pelos antepassados.

Mas aqui é mais quente e não há praias com bandeira azul. Na verdade, nenhuma das que visitei seria sequer candidata a uma bandeira azul. Nem mesmo a praia de Colva (na foto), a mais turística daqui.

Disse-me a minha mãe que, no entanto, estão muito melhores. A minha família tem mais termos de comparação do que eu, mas vendo o que vejo, é muito raro experimentar a água sem receio ou passear descontraidamente à beira-mar descalça. Ao menos há nadadores-salvadores em todas as praias que visitei. Já dá alguma segurança.

Vanessa

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Esta jornalista tirou férias

Prova disso: só soube que hoje houve um sismo na Índia quando alguém me perguntou se estava tudo bem comigo e se por acaso não estava perto do epicentro. Há já algum tempo que não ando em cima das notícias, confesso. A verdade é que esta jornalista tirou férias da profissão há muito, muito tempo. Ou foi a profissão que tirou férias da jornalista. Mas o que interessa agora é que estou viva e longe do sismo.

Vanessa

Falta de apreço


Já vi o meu nome escrito de quatro formas diferentes. Nenhuma era a forma correcta. A foto de um menu de um restaurante daqui de Goa aqui acima exemplifica esta falta de apreço pela coerência e a falta de brio gramatical que tantas vezes já testemunhei. Nota-se que a intenção era escrever "Recheado". Foram duas tentativas falhadas para acertar na palavra. E este menu é de um sítio com origens supostamente portuguesas, que ostenta orgulhosamente um mapa de Portugal como se isso significasse alguma coisa importante.

Aqui escreve-se sem cuidados. Não há esmero. Ninguém se importa. As facturas vêm com moradas escritas de formas diferentes, em nome de pseudónimos (ou heterónimos), porque pedir para soletrar nomes não parece ser costume aqui, então às vezes escreve-se só como o nome soa. Já vi gralhas e erros em cartazes e em panfletos. É, aliás, muito raro, encontrar algo escrito em público que não contenha pelo menos um erro.

Muitos dos nomes portugueses perderam acentos ou letras. São agora um fantasma dos originais. Tudo o que é de inspiração portuguesa não passa de um espírito. Ficam as intenções. Mas não há apreço. Há coisas mais importantes para ocupar a categoria das preocupações. A ortografia e a gramática são luxos.

Vanessa

O meu pai perguntou se já tinha visto esquilos


Ver, já vi. Mas eles não são propriamente modelos fotográficos, que sorriem para a câmara e ficam quietos num só sítio. Segundo o Branco, são os piores inquilinos de sempre.

Vanessa

Egoísmo

Escrevo mais para mim do que para uma audiência. Escrevo para reviver, pelo menos recordar, e para me lembrar. Escrevo aquilo que não me importo que seja público. Não quer dizer que o que publico seja algo que não me importa. Também não quer dizer que o que publico seja para um público. O que escrevo é 90% para mim, 10% para quem quiser ler. A proporção vai-se alterando, mas o egoísmo é sempre esse: escrevo primeiro para mim. Um dia vai apetecer-me ler o que escrevi.

Vanessa

domingo, 3 de janeiro de 2016

Vou ser ruim para quem está em Portugal

Tenho saudades de tardes de chuva, de roupa quente para tapar o frio, de mantas e chocolate, de leituras à luz do sol gélido, de chá reconfortante, de botijas de água quente, de ficar com o nariz frio, de estar na rua e depois de chegar ao calor de casa, de usar o forno, de mantas polares, de chinelos confortáveis, de ver filmes uma tarde inteira enquanto a chuva não pára, de passear junto ao mar em dias cinzentos.

São só saudades domingueiras. Isto passa.

Vanessa

Texturas de Goa

O bom do coco.

É sempre bom olhar para cima. Nunca se sabe o que podemos encontrar.

Maré vazia no rio Mandovi.

Caution: Weak Structure.

A caminho de casa.

Foram três de uma vez.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição. A visita ficou guardada para mais tarde.

Vanessa

Leituras em dia

Tinha-me custado a decidir trazer o Dr. Sleep, de Stephen King, para cá, principalmente porque na última semana em Portugal tinha conseguido encontrar livros bons, baratos, e compridos o suficiente para talvez durarem meses. Mas este era compacto e interessante, porque o The Shining tinha sido um fascínio na adolescência, e agora este, a sequela, tão disponível, tão apetecível, à espera que eu a lesse.

Depois das atribulações, o livro ficou de lado, porque a temática podia não estar a ajudar à festa e porque se calhar já era altura de ler livros mais optimistas, especialmente porque ia desfrutar de férias depois de muito tempo, e porque ia ter muito tempo livre, e porque livros com entretantos felizes além de finais felizes também fazem falta, e porque já que ia ser uma mudança, que fosse em grande.

Seguiu-se Paper Towns, que encontrei na biblioteca aqui em Nagoá de Vernã. Não foi assim tão optimista, mas foi um bom começo. Por coincidência, sabia sobre a temática porque tinha ouvido o próprio autor falar de como tinha encontrado a ideia para a estória, mas desconhecia que o livro se debruçava tanto sobre uma pessoa desaparecida. Simplesmente vi-o, lembrei-me de que o queria ler, e levei-o.

Terminado esse, voltei à biblioteca para o devolver e escolhi outro. Desta vez foi mais às cegas. Escolhido. A Place Called Here, de Cecelia Ahern. Lembrei-me de que recorro a esta autora quando me apetece uma leitura despreocupada e sentimental. Também faz falta de vez em quando. Extrema coincidência. Também este livro se encaixa na temática de pessoas desaparecidas. Mais do que o anterior, até.

O balanço aqui tem sido positivo em termos de leituras e parece-me que também me vou dedicar mais ao passatempo de escolher livros assim ao calhas, a ver se me calha um seguimento interessante. Até ao momento, não sei bem o que quer o acaso dizer-me, mas fico preocupada. É que tenho ideias de explorar um pouco mais esta terra onde estou e dar com livros sobre desaparecimentos não me parece bom augúrio.

Vanessa

sábado, 2 de janeiro de 2016

Em Goa também há taxas e taxinhas


A qualidade aqui paga-se e a preceito. Esta taça no Café Coffee Day (cadeia de cafés famosa na Índia), por exemplo, custava inicialmente 156 rupias, o que já de si é caro. O funcionário perguntou se queria chantili e eu aquiesci sem perguntar quanto seria cobrado. Foram 41 rupias a mais. Pelos vistos o IVA é à parte. Daí foram 12.50%, ou seja, 24,62 rupias. Em cima disso, o service tax, que eu presumo ser o equivalente à gorjeta americana. Estava a 5,800%, ou seja, 11,43 rupias. 

Total: 233 rupias. Por. Uma. Taça. De. Gelado.

Valeu pelo café limpo, o ar condicionado, a clientela selecta e, pronto, pelo gelado de chocolate com sabor a chocolate a sério (tema para mais tarde), circundado por brownies com sabor a chocolate a sério e com um molho de chocolate com sabor a chocolate a sério. Mas foi uma experiência a não repetir.

Foi neste café que um rapaz se aproximou de mim com a sua Nikon ("Ai, que ele me vai perguntar coisas técnicas, tipo abertura do diafragma ou balanceamento de brancos, ou vai querer comparar a sua câmara com a minha Canon e iniciar uma disputa".) para me perguntar como se activava o foco manual e eu portei-me bem, e consegui responder mesmo sem perceber muito de coisas técnicas e depois senti o ego a apanhar o avião e a ultrapassar as primeiras camadas da atmosfera. Foi um dia caro, mas bom.

Vanessa

Cu-chiku chiku


O chiku parece ser o filho de um casamento imaginário entre um pêssego e uma castanha. É uma fruta difícil de descrever, por não existir um equivalente em Portugal. Digamos que é uma nêspera, mas muito doce, muito fibrosa, que se esfarela em vez de se desfazer em sumo, e que contenta mais por ser mais carnudo. 

Por fora parece um kiwi, mas por dentro assemelha-se a um bloco de açúcar mascavado, que é mais ao menos ao que sabe assim que a língua toca o fruto. O chiku, também chamado de sapota, é rico em muitos nutrientes e micronutrientes que fazem muito bem à saúde, excepto a frutose. Já perdi a conta às vitaminas que contém, mas são muitas, e daquelas fazem bem à pele, ao cabelo, aos olhos, ao cérebro, ao lado direito, ao lado esquerdo, ao cimo e ao baixo e aos entretantos. O melhor de tudo aqui, é que o chiku existe em extrema abundância. 

Vanessa

A Clotilde

Mantemos uma certa distância uma da outra. De vez em quando os nossos caminhos cruzam-se, mas eu faço por manter uma zona de conforto confortável entre nós. De vez em quando ela aparece, aparentemente vinda do nada, e eu tento não me assustar, porque isso seria uma falta de respeito.

É que a Clotilde provavelmente já cá estava há algum tempo. É natural que não saiba lidar com pessoas, uma vez que tem estado sozinha e não é muito de sair. Pelo menos, eu vejo-a sempre por casa.

Não se pode dizer que eu gosto da Clotilde. É uma relação assim-assim, por assim dizer. 

Se ela não me chatear, eu não a chateio a ela. Fica cada uma no seu canto, a olhar pelo canto do olho para ver se a outra não se mexeu e atravessou a linha imaginária que torna a relação mais confortável do que seria se tivéssemos de lidar de perto uma com a outra.

Admito que temos coisas em comum. Só assim a título de exemplo, eu sou portuguesa, mas nasci em Moçambique, mas sou daqui de Goa também. A Clotilde é uma espécie de barata, mas pode também ser um gafanhoto (ou os dois, se isso for possível), mas ao mesmo tempo é uma criatura doméstica.

Vanessa

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Book Review | Paper Towns by John Green

I didn't see the movie, but I just finished the book. Paper Towns, by John Green, is a charming novel that transported me to my high school years, with all that nostalgia that only a skillful writer can make us feel.

The story follows this young guy known as Q, who is obsessed with this girl called Margo Roth Spiegelman, their short adventure, her disappearance, and his need to search for answers, because this girl is keen on leaving clues whenever she decides to disappear, and he likes her too much to let her go.

I will not explain the book's title, as part of the magic of reading it is finding out about paper towns. It was a lot of fun getting into all of that, understanding the meanings and hidden meanings behind everything, falling in love and getting intrigued with the characters, and following their paths.

I like John Green as a vlogger, although I sometimes struggle to keep pace with his quick dialog, and as a writer. His ideas are always carefully detailed and based on facts, even if everything else is fiction. He has a sharp ability to merge it all into an enthralling story.

The book is wonderfully enjoyable for its complexity disguised into simple philosophical questions with many down to earth explanations and possibilities. I spent some hours delighted at this.

7/10

Vanessa

Aqui não há piropos

Os homens aqui observam, mas não abordam. Não há piropos ao estilo do trolha português, pelo menos que eu tivesse testemunhado. Mesmo que tivesse, provavelmente não ia perceber palavra.

Por outro lado, os homens aqui são bem mais descarados a olhar. Se for preciso, de cima a baixo à nossa frente. Muitas vezes, viram-se para trás, só da cintura para cima, e procedem ao exame visual.

Alguns são activados pelo som de uma voz feminina, especialmente num café ou numa caixa de supermercado, a pedir alguma coisa chocante (tipo cigarros), a solicitar informações com um sotaque estrangeiro ou simplesmente a agradecer ao funcionário. Penso que por vezes são também activados pelo odor, especialmente o de um perfume ou champô ou mesmo um creme. 

Acho que talvez até sintam pela brisa que atrás deles vai a caminhar uma mulher.

É um autêntico fenómeno. Dir-se-ia que os homens aqui não têm internet, para poderem olhar para mulheres à vontade, e que por isso usam a rua como browser.

Vanessa

Wishing Upon The Stars

I was used to a New Year's Eve brightened by fireworks and this time it was so much different. There were no crowds gathering and pushing, no loud drunks spilling alcohol everywhere, no live music at a plaza, no traffic, no amazement at the sheer amount of money being exploded above my head into tiny specs of glowing dust and awful smell. There was also no amount of time being really amazed at the work of art being splashed on the air, coloring the sky and bringing a strange sense of hope that there would be no place for darkness next year. 

This time, it was quiet, on a backyard. Some fireworks went off nearby, but it was mostly the stars shining above me. I didn't have champagne, but I did have a glass of red wine. I didn't have most of my loved ones with me, but I did feel them, almost on the other side of the world, getting ready for midnight. I was five and a half hours ahead, but I felt like time had stopped when I crossed from the old year to the new one.

It was quiet and dark, but I could see the stars like never before, because it seems like here I can see better and feel better and wish better. So I wished upon the stars to bring all of this with me when I go back.

Vanessa

Modo introspectivo


Há muitas coisas que aqui sabem bem. Encontrar um pedaço de paisagem que não esteja manchado pelo lixo. Provar um petisco desconhecido. Sentir a profundidade do silêncio. Acordar cedo (sou mesmo eu que estou a escrever isto?). Passear sem destino. Desfrutar do sol, mesmo nas horas de mais calor. Funcionar a uma velocidade diferente. Sentir um aroma gostoso do nada e não perceber de onde vem. Ouvir uma palavra que claramente teve origem no português. Encontrar diferenças, memorizar diferenças entre cá e lá. Estar cinco horas e meia à frente (sim, ultimamente tem sabido bem). Falar por video-chamada com quem ficou em Portugal. Saber que posso desfrutar de quase seis meses de descobertas. Encontrar sentido em algumas das palavras locais que oiço. Encontrar expressões, interjeições e trejeitos iguais do konkani para o português. Estar numa aventura.

Vanessa

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Desejos para 2016


Que o novo ano seja como a água de coco: não muito doce, não muito salgado, não muito ácido, não muito azedo. Que 2016 seja mesmo como a água de coco: leve, refrescante, fluída, generosa, saborosa. Que o ano que aí vem seja como um coco, de tamanho considerável, mas que caiba numa mão, com o interior suculento de fruto cremoso e saciante, e verde, como se houvesse ainda tanto para acontecer.

São estes os meus desejos para mim e para vocês.

Vanessa

Sweet Lassi


I have no problem trying out new things, even if that means throwing cautionary tales, like not drinking tap water and avoiding cheap looking bars when traveling, out the window. I mean, lassi is a good enough reason to do so.

If you do not like yogurt, it's best to stay away from it. Lassi is a refreshingly delicious drink made with yogurt and spices. The sweet version of lassi is usually seasoned with fruit juice or rose water (my favorite) and probably a generous pinch of sugar, and preferably lots of ice cubes. I do not even mind if they're made out of tap water.

This is also a local variation of a smoothie if one is lucky enough to find a place that uses real fruit in it. Those are usually the places where the savory lassi (chaas) is also available, and where hygiene meets international standards. I'm sorry if I sound a little snobby here.

I've tried lassi in a couple of different places. It's usually when I'm kind of hungry, but not starving, or when I'm craving dessert. Lassi is like a drinkable dessert, actually.

Vanessa

O acto de panicar

O dia em que o médico me disse que eu andava a ter ataques de pânico e ansiedade deixou-me um pouco... em pânico. Afinal de contas, sintomas físicos tão desesperantes tinham de ter uma causa física, não? Para começar, sim. Houve uma infecção respiratória. Mas depois disso, não. Estava tudo na minha cabeça.

Depois, duas semanas sem um sono seguido não melhoraram o quadro.

Passaram dez dias desde o diagnóstico e eu tomei um ansiolítico. Quem me conhece sabe que sou aversa a tomar comprimidos para funcionar. Mas durante dez dias tomei um comprimido, porque aquilo que estava na minha cabeça transformava o corpo num frenesim que só quem já sentiu pode perceber.

Amigos e familiares perguntavam a medo se achava que queria ir embora. 

O quê? Voltar para Portugal quando ainda nem tinha conseguido desfrutar daquela que me têm vindo a dizer (desde que nasci) que é a minha terra? Ir embora, quando o problema se manifestava principalmente à noite, no escuro, e não na rua, não a observar as paisagens, não a interagir, não a passear?

Fui ficando, porque me parecia que qualquer que fosse o problema, ele tinha viajado comigo de Portugal para Goa e era meu, não do sítio onde estava. 

A sensação de pânico e a ansiedade eram-me familiares, mas nunca com esta gravidade literalmente sufocante, que atacava a eito e já começava a querer fazer parte dos meus dias, além das noites.

O que se passa, não sei. Há ainda a possibilidade de existir uma causa física e isso vai ser esclarecido. Da mesma forma como tenho a quase certeza de que o problema veio comigo, sei que aqui tenho mais probabilidades de o resolver. Se não se resolver, será acalmado e/ou terei de me habituar ao acto de panicar de vez em quando.

Este não é um tópico digno de orgulho, mas enquanto não souber mais sobre ele, faz parte da experiência. Não é assim uma coisa muito normal, mas normalidade também nunca foi comigo.

Também não há que ter vergonha do acto de panicar sem razão aparente. A internet serve para este tipo de coisas. Encontrar outras pessoas que sentem ou sentiram o que sentimos.

Vanessa

O melhor animal de estimação


No terreno da família Sena mora uma jibóia. Ainda não a vi, mas ao que parece, é aqui que ela mora. Segundo relatos dos familiares, a jibóia conhece todos os Sena e é por isso que nunca os atacou. 

Algures na sua residência, que é esta árvore, ela própria com um aspecto réptil, a jibóia observa atentamente quem por aqui passa. De animais de estimação só tive peixes, um cão e uma gata. Aqui, pelos vistos, tenho uma jibóia que nunca vi, mas que todos juram que existe.

Vanessa