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terça-feira, 1 de março de 2016
Cenas dos próximos episódios
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Memória portuguesa
Fui ao supermercado com o meu primo, comprei petiscos e na caixa, depois de termos estado a conversar, o funcionário perguntou-me se estava a falar francês. Primeiro ri-me. Cá fora, já quase em casa, lembrei-me novamente do comentário e ri ainda mais, às gargalhadas. Depois, veio a tristeza.
O português, a cultura e o idioma, são apenas espíritos que pairam sobre Goa e que apenas de vez em quando são lembrados pelos entes queridos.
Conheci hoje um senhor goês no Mr. Baker em Pangim, junto ao Clube Vasco da Gama. Já esteve em Portugal e agora está aqui. Quem sabe português, disse ele, reza em português.
Pouco oiço falar português na rua. É uma ocasião tão rara também para os outros, que de vez em quando somos abordados por quem sabe também, porque quem sabe e cá vive fica sedento de diálogos na língua de Camões, e quer saber novidades de Portugal e de onde somos e para onde vamos e porque aqui estamos.
O português aqui é uma memória, já aqui o tinha dito, e para quem sabe e gosta do português, é uma memória nostálgica, como o fado, porque de português pouco tem Goa neste momento.
O primo Joaquim fala orgulhosamente de como houve leis portuguesas que ficaram mesmo depois de vir um governo hindu. De como, em raras instâncias, o senso comum e a racionalidade ultrapassaram a religião.
Mas agora, por agora, o português é uma memória. Um fantasma que paira sobre Goa e que se faz lembrar em pequenos detalhes como apelidos, nomes de lojas, hábitos. Há por aí galos de barcelos e azulejos e gastronomia de fusão. Há pessoas como a minha família, que vão mantendo vivo o idioma aqui.
Ainda assim, há quem oiça falar português e pense que está a ouvir francês.
Vanessa
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
O tabu da menstruação
Aqui para nós, que somos todos adultos: todos os meses as mulheres passam por um período chato. Perceberam? Usei a palavra período no sentido de tempo num post sobre o período no sentido de menstruação. Isto para dizer que em Goa e decerto em toda a Índia há assuntos normais que são abordados de forma cautelosa. A menstruação é um desses assuntos. No fundo, é um tabu.
Exemplo: muitos supermercados e mercados oferecem (sim, aqui ainda não se paga) sacos de plástico transparentes. Para quem não sabe, uma coisa transparente não abona a favor da privacidade. Uma pessoa vai pela rua e toda a gente fica a saber o que vai ser o jantar e o segredo para ter uns dentes brancos.
Um dia destes comprei um certo produto indispensável ao tal período chato: fraldas pensos higiénicos. E não é que na caixa, a funcionária me embrulha a embalagem de pensos em papel de jornal? Curiosamente, na mesma compra resolvi trazer um rolo de papel higiénico (aqui vendem-se também às unidades) e aguardei pela altura em que veria tal rolo ser também escondido em papel de jornal. Afinal de contas, ninguém tem de saber que eu sofro desse mal que são as necessidades fisiológicas. Não. O rolo veio à vista mesmo.
Sucede que a prática de enrolar pensos higiénicos em papel de jornal é muito comum na Índia, segundo o que encontrei ali pelo Google. Aqui ninguém gosta de se lembrar que as mulheres são seres altamente reprodutores grandemente responsáveis pela continuação da raça humana no planeta e que isso traz alguns inconvenientes tipo o tal período chato que implica o uso de produtos específicos. Por isso, toca de esconder as embalagens para que ninguém se lembre da mensalidade feminina.
A meu ver, sai-lhes o tiro pela culatra. É que se só os pensos (presumo que também os tampões, que os há aqui, ainda que com pouca variedade e frequência) são embrulhados em jornal antes de serem colocados no saco, quem vir o tal papel de jornal no saco fica logo a saber que ali vai um produto de higiene feminina. Papel de jornal no saco = pensos higiénicos ou tampões. Duh!
Vanessa
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Três razões pelas quais o tempo parece passar mais depressa em Goa
A minha família diz que o tempo em Goa parece passar muito, muito depressa. Depressa do tipo, uma pessoa acorda, despacha-se, toma o pequeno-almoço, sai de casa e de repente já o dia passou.
Eu não sinto que o tempo passe muito mais depressa em Goa. É verdade que sempre disse que com o passar dos anos parece que o tempo sofre ali uma mudança qualquer e deixamos de ter tempo suficiente para tudo, mas sei que isso é apenas uma ilusão causada pela intensidade da vida de hoje em dia.
Quando vimos para Goa estamos mais sujeitos a perceber fenómenos como este do tempo, porque nos tornamos mais observadores. Isso acumula-se às três razões pelas quais o tempo passa mais depressa. É um efeito cumulativo que depois se manifesta na forma como sentimos e vemos o que nos rodeia.
Que três razões são essas? A meu ver:
1. Ninguém percebe nada à primeira. Além de familiares que beneficiariam a sua qualidade de vida se fizessem um rastreio auditivo, há ainda uma outra barreira mais difícil do que a dos tímpanos quando falo com locais que não são familiares: o idioma. Salvo duas ou três excepções, as pessoas nunca, mas N-U-N-C-A me percebem à primeira tentativa. Primeiro porque estão à espera de ouvir falar concani ou hindi ou marathi. Levam comigo a falar inglês e ficam baralhadas. Segundo porque o inglês que conhecem é diferente do meu. Diferente no sentido em que o inglês delas é apenas um mecanismo de ligação entre frases numa outra língua. Terceiro porque o meu sotaque é assim para o europeu e com um toque de pessoa latina que aprendeu inglês há pouco tempo.
Conclusão: uma pessoa repete e acaba por perder tempo assim, a repetir e a tentar fazer-se entender.
2. É tudo longe para burro. Aqui o que me dizem que é perto é longe para mim. Nos meus termos, mais de 15 minutos de caminho é longe e 30 minutos é bastante longe. Na minha mente 30 minutos são uma hora, porque conto com a ida e com a volta. Uma hora dá para fazer muita coisa. Só que não. Aqui uma hora não dá para esticar por diversas actividades, mas uma hora em viagem é muito tempo desperdiçado. Já para não falar que as estradas parecem carreiros de cabras com alcatrão atirado ao calhas por cima. Já para não falar que por onde quer que vamos há sempre o risco de haver um acidente que causa filas intermináveis, não haver espaço suficiente na estrada para passarem dois carros, o que gera aquele pára-arranca que dura vários minutos, ou outra coisa qualquer. Já para não falar na falta de sinalização.
Junte-se a isso o cansaço que é qualquer viagem aqui. Só de saber que vamos andar 10 minutos de carro já cansa. É as buzinas, é os buracos, é as ultrapassagens loucas, é as vacas e os porcos e as galinhas. O cansaço causa lentidão. Lentidão atrasa qualquer actividade. E assim passa o tempo.
3. O subdesenvolvimento. Aqui não há hipermercados. Como tal não há um sítio para comprar todas as coisas que precisamos. Claro que há um ou outro mini-mercado mais composto e bazares, mas não dá para tudo. Comprar peixe, carne, congelados tem de ser bem orquestrado por causa do calor. Tem de ser planeado e executado à risca sob risco de se apanhar uma intoxicação alimentar. É também preciso estômago para ir ao bazar, levar com o cheiro da carne de dias anteriores e dos dejectos dos animais que esperam pela carne desse dia, e ver a carne pendurada sem refrigeração. Com o peixe é a mesma coisa. Aqui não há embalagens com coisas já prontas a consumir excepto batatas fritas e fritos indianos e outras comidas processadas. Por isso perde-se algum tempo a comprar e a arranjar os alimentos e a cozinhá-los.
Quando não sabemos onde comprar algo ou onde fazer algo ou onde cumprir burocracias temos de andar a perguntar. Lá está o ponto 1. Muitas vezes não nos percebem, muitas vezes nem sequer sabem, muitas vezes nem sequer há num raio de 10 quilómetros. Aí vem o ponto 2. Quando lá descobrimos os sítios há a demora do processo ou da compra. Ponto número 3. Aí estão as três razões pelas quais o tempo parece passar mais depressa em Goa. Como podem ver, amigos e familiares, não é à toa que eu me queixo da falta de tempo.
Vanessa
Conclusão: uma pessoa repete e acaba por perder tempo assim, a repetir e a tentar fazer-se entender.
2. É tudo longe para burro. Aqui o que me dizem que é perto é longe para mim. Nos meus termos, mais de 15 minutos de caminho é longe e 30 minutos é bastante longe. Na minha mente 30 minutos são uma hora, porque conto com a ida e com a volta. Uma hora dá para fazer muita coisa. Só que não. Aqui uma hora não dá para esticar por diversas actividades, mas uma hora em viagem é muito tempo desperdiçado. Já para não falar que as estradas parecem carreiros de cabras com alcatrão atirado ao calhas por cima. Já para não falar que por onde quer que vamos há sempre o risco de haver um acidente que causa filas intermináveis, não haver espaço suficiente na estrada para passarem dois carros, o que gera aquele pára-arranca que dura vários minutos, ou outra coisa qualquer. Já para não falar na falta de sinalização.
Junte-se a isso o cansaço que é qualquer viagem aqui. Só de saber que vamos andar 10 minutos de carro já cansa. É as buzinas, é os buracos, é as ultrapassagens loucas, é as vacas e os porcos e as galinhas. O cansaço causa lentidão. Lentidão atrasa qualquer actividade. E assim passa o tempo.
3. O subdesenvolvimento. Aqui não há hipermercados. Como tal não há um sítio para comprar todas as coisas que precisamos. Claro que há um ou outro mini-mercado mais composto e bazares, mas não dá para tudo. Comprar peixe, carne, congelados tem de ser bem orquestrado por causa do calor. Tem de ser planeado e executado à risca sob risco de se apanhar uma intoxicação alimentar. É também preciso estômago para ir ao bazar, levar com o cheiro da carne de dias anteriores e dos dejectos dos animais que esperam pela carne desse dia, e ver a carne pendurada sem refrigeração. Com o peixe é a mesma coisa. Aqui não há embalagens com coisas já prontas a consumir excepto batatas fritas e fritos indianos e outras comidas processadas. Por isso perde-se algum tempo a comprar e a arranjar os alimentos e a cozinhá-los.
Quando não sabemos onde comprar algo ou onde fazer algo ou onde cumprir burocracias temos de andar a perguntar. Lá está o ponto 1. Muitas vezes não nos percebem, muitas vezes nem sequer sabem, muitas vezes nem sequer há num raio de 10 quilómetros. Aí vem o ponto 2. Quando lá descobrimos os sítios há a demora do processo ou da compra. Ponto número 3. Aí estão as três razões pelas quais o tempo parece passar mais depressa em Goa. Como podem ver, amigos e familiares, não é à toa que eu me queixo da falta de tempo.
Vanessa
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
A preferida
Já me deliciei com muitas iguarias aqui na casa Sena. Muitas mesmo. Mas esta foi a refeição que melhor me soube e lembro-me porque fiz questão de tirar esta fotografia tosca. À esquerda, lentilhas (dhal) cor-de-laranja estufadas, em cima, apas (roti) quentinhas e, por fim, chetnim (ou chutney ou chatni) de coco fresco e piri-piri verde. Foi a minha refeição preferida até ao momento aqui em casa.
Vanessa
Presente imperativo
As pessoas com quem falo na internet dividem-se em duas categorias: aquelas que me perguntam se tenho saudades de Portugal e aquelas que me perguntam se quero ficar em Goa.
Vamos lá esclarecer as coisas.
Portugal para mim é passado. Goa é presente, mas eu só cá estou há pouco mais de dois meses e, verdade seja dita, tenho lidado com o pior que Goa e a Índia têm para oferecer, com algumas excepções.
Ainda não tive tempo (pai, esta é dedicada a ti) para ter saudades de Portugal, mas também ainda não o tive para sequer imaginar viver em Goa. Por outro lado, não gosto de viver no passado e por isso duvido que vá perder tempo (muito) precioso a pensar noutro país, o qual me emprestou uma nacionalidade que até prezo, para o qual vou ter mesmo de voltar quando se me acabar a validade do visto.
Entretanto, adoptei um dos princípios budistas que é o de viver no presente.
Claro que quando lido com as dificuldades da vida indiana sinto falta das facilidades portuguesas, algumas por comparação, outras pelo privilégio que é ser um país desenvolvido. É claro que há paisagens goesas que fazem uma pessoa pensar duas vezes no motivo pelo qual vai ter de sair.
No entanto, para quê pensar muito agora? A saudade é uma palavra muito portuguesa que eu vou fingir que esqueci. Ficar seja onde for é uma decisão muito cheia de coisas para pensar nela neste momento.
Não vou chegar ao cliché de citar aquela frase em latim que virou moda na minha adolescência e servia para qualquer dedicatória. Pronto, está bem. Não me ocorre frase melhor. Carpe diem.
Vanessa
Este calor de 30º graus...
... dá uma soneira que nem vos digo. Boa segunda-feira e boa semana para quem está a passar calor e também para quem está a passar frio e chuva.
Foto tirada no museu Big Foot em Loutolim.
Vanessa
domingo, 21 de fevereiro de 2016
(Con)templando II
O Shri Mangeshi Temple fica perto da estrada Panaji-Ponda em Priol.
De longe quase que não se consegue vê-lo e, para variar, certas áreas estavam em remodelação. A estrada de terra batida que antecede o templo está cercada de comércio. Roupa, bijuteria, comida, souvenirs variados; cores e aromas e ruído que com certeza contrariam o intuito de um templo.
O templo principal é dedicado a Bhagavan Manguesh, uma encarnação de Shiva.
O templo original estava em Kushasthali Cortalim, em Salcete, Goa, que foi invadido pelos Portugueses em 1540 (diz a Wikipédia em 1543); 20 anos mais tarde, quando os portugueses começaram a implementar o cristianismo, o templo foi movido para onde está agora, por ser um local governado pelo hinduísmo.
O templo é agora um local de oração e também uma atracção turística.
Este é um templo ao qual gostava de voltar, uma vez que a tour deu apenas 15 minutos para visitá-lo e 15 minutos foi só tempo suficiente para ir do parque de estacionamento ao templo e voltar.
Ainda assim, o Shri Mangeshi Temple foi um oásis num dia quente.
À entrada do templo, a grande atracção são os bezerros que por lá andam.
Quem quiser visitar outro templo em Goa, siga este caminho. Não há que enganar.
Vanessa
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
O direito à doçura
Em Goa, e provavelmente em toda a Índia, os cafés e restaurantes dão-se ao direito de escolher o grau de doçura do chá que consumimos. É também comum termos de pagar se quisermos o chá sem açúcar, porque implica que se tenha de fazer uma dose de chá só para pessoa com a tamanha petulância de querer decidir sobre o que quer consumir. E mais. Chá aqui é açucarado a preceito e contém leite. Muitas vezes tem tantas especiarias como um caril, porque pelos vistos uma refeição bem condimentada tem de ser terminada com uma bebida quente também bem temperada. Há coisas que aqui são assim: em excesso. Lembro-me bem daquele filme, A Viagem dos Cem Passos, no qual há um diálogo interessante entre o senhor indiano e a senhora francesa:
Senhor indiano: "You seduced his mind with your awful, tasteless, empty sauces! With your pitiful little squashed bits of garlic!"
Senhora francesa: "That is called subtlety of flavor."
Senhor indiano: "It's called meanness of spirit! If you have a spice, use it! Don't sprinkle it. Spoon it in!"
Resumo: para os indianos, o tempero está bom quando é às colheradas e os franceses não percebem nada de culinária. Obviamente que isto é um filme (uma sátira, até), mas por vezes aqui é mesmo assim. O que é bom é para se abusar. Por isso mesmo, o chá é incrivelmente doce para quem, como eu, não costuma usar açúcar em nenhuma bebida (nem na bica). Depois, é claro, uma pessoa habitua-se à doçura e fica viciada.
A verdade é que aqui o chá sabe bem é com açúcar e leite. Nunca me soube tão bem quando a minha família fazia o chá assim em Portugal. Aqui, podia beber uma ou duas chávenas todos os dias, mas restringi o consumo às idas à cidade e a passeios. É que aqui, como em Portugal, muitas vezes prefiro ficar em casa a sair. O chá sempre é um bom incentivo para sair e até querer sair.
Vanessa
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Um pedaço de Portugal em Goa: uma escultura na Basílica do Bom Jesus
"Made in Gaya Portugal by A. Fonseca Lapa in 1906" diz a "legenda". Escultura encontrada na Basílica do Bom Jesus, em Goa Velha, já de si um local que testemunha a influência portuguesa em Goa. Estava num dos vestíbulos da basílica. Presumo que Gaya seja Gaia, no Porto. Infelizmente não encontrei quase nada no Google sobre o escultor. Achei curiosa, a escultura.
Vanessa
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Igualdade
Pode não ser em proporção igual, mas em locais de construção vêem-se muitas mulheres hindus a trabalhar em pé de igualdade com os homens. Sempre que as estradas são alargadas, vejo homens e mulheres a trabalhar ao longo das vias, a carregar pedras, a demarcar limites e a cavar. Só não vi ainda mulheres a manobrar máquinas e outros equipamentos. Não percebo se este lado da igualdade de géneros é um sinal de evolução ou se é um sinal de extrema necessidade. Não percebo se é paralelo à igualdade em outras áreas ou se é um caso isolado.
A meu ver, Goa é ainda retrógrada em relação às mulheres. Exemplo: mais depressa as pessoas se importam com o meu estado civil do que com o facto de ter tirado um curso superior, perguntando frequentemente se tenciono casar e ter filhos. Mais depressa as pessoas parecem importar-se com o meu aspecto físico, comentando sobre a minha silhueta ou detalhes da minha aparência geral, do que com o meu trabalho ou outra coisa qualquer.
Já fui aconselhada, por família, a sorrir mais, a usar adornos no pescoço e nas orelhas e a ter filhos o mais rápido possível. São tudo aspectos que certamente enervam as mais feministas que conhecem bem o carácter preconceituoso de tais sugestões e que me enervam a mim também, a mim, pessoa que tenta não se deixar afectar pelo movimento feminista mais radical porque insatisfeita no geral já é, mas que não consegue esconder um certo nojo por saber que essas coisas são ditas por ser mulher.
Aqui não se vêem mulheres indianas a beber ou a fumar em público. Não há mulheres de mini-saia ou decotes acentuados. Certamente que não há mulheres a amamentar em público. Aliás, quase não vejo bebés. Os programas de televisão indianos que vi, daqueles estilo os Óscares, mostram um país que não parece este em que estou, com mulheres a dançar sensualmente com roupas justas ou estrategicamente recortadas para mostrar mais pele do que as mulheres que andam pelas ruas de Goa mostram.
Há certamente alturas em que se nota que estou perante uma cultura diferente, mas há outras em que me parece que as coisas estão a mudar mesmo à frente dos meus olhos. Não me parece que a igualdade chegue ainda durante a minha geração. Nem em Portugal há igualdade total, quando mais aqui, um país ainda em desenvolvimento. Espero poder observar mais numa cidade maior. Sempre gostei de estudos antropológicos. Mumbai vai certamente trazer-me mais respostas.
Vanessa
(Con)templando I
Vamos a uma rápida visita pelo Shree Shantadurga Temple em Kavlem, distrito de Ponda, no norte de Goa.
O sol estava a pique e o templo, que fica também a pique, com uma subida que mantém em forma os hindus mais devotos, foi como um país estrangeiro para mim. Como estava numa tour, limitei-me a seguir os outros e a observar os costumes de oração. Tudo fascinante. Infelizmente foi também muito, muito rápido porque numa tour o tempo é contado ao segundo e os acessos cortam muito do tempo.
Ao longo do caminho há vendedores de flores, de talismãs e de bebidas.
O chão é normalmente acidentado. Por isso nas fotos, os templos parecem tortos e inclinados devido a um peso invisível. Na verdade é o chão, que é muito desnivelado. Há também quase sempre algo em construção. Neste caso, estavam a preparar um evento e, por isso, parte do exterior estava em processo de decoração.
O aspecto pode não ser o melhor por fora, mas dentro é um festival de cores.
À entrada consegui surripiar uma foto do corredor inicial. Não é permitido fotografar dentro dos templos hindus que já visitei. Tendo em conta o que vi em locais turísticos, o abuso é tanto, que é normal que um local de oração e prostração não permita fotografias. Eu cá fui muito discreta.
Um pormenor do lado de fora.
A maioria dos templos hindus tem um lago à entrada. Este é o deste Shree Shantadurga Temple.
A vista da rua. É difícil conseguir tirar uma foto num ângulo onde não existam cabos, postes, letreiros, árvores a tapar e etc. Esta foto aqui foi mesmo um golpe de sorte, porque a seguir fomos a correr para o local de almoço.
Vanessa
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Tempos modernos
Estivemos sem internet e sem telefone por mais de um dia aqui na casa Sena. Felizmente eu tinha mais de metade de um livro para ler e (hoje) tempo suficiente para ir buscar outro à biblioteca. Por fazer ficaram as ligações para Portugal, a socialização digital e até o uso do dicionário. A minha vizinha que é também prima esteve sem internet por três dias. Também ela sobreviveu sem mazelas.
Eu fiz batota e usei os dados do telemóvel para ler emails. Para o Facebook quase não deu. Na verdade, por estranho que pareça, o tempo passou rápido. Parece que antes do aparecimento da internet havia vida. Ouvi dizer. O que se ouve não fica guardado para sempre nas clouds se ninguém tiver gravado. Depois é assim. Uma pessoa tem de se fiar na memória e é o que é.
Aqui parece que voltei atrás no tempo. Como quem diz, voltei atrás na internet, que é a mesma coisa.
Parece que tenho de novo dezasseis ou dezassete anos. Lanço olhares de frustração para o router, como em adolescente olhava para o modem, como se a internet tivesse medo das consequências da sua irregularidade e decidisse estabilizar-se de uma vez por todas para eu não andar a ver a coisinha a rodar.
O problema é que aqui e hoje em dia a internet serve para mais do que andar em fóruns, ver vídeos, pesquisar coisas loucas e essas coisas que em adolescente fazia.
Aqui a internet serve para coisas adultas (não, não é ver vídeos pornográficos ou andar pelo Facebook), como comunicar com o resto do mundo (muito importante hoje em dia), andar atrás das burocracias de Portugal (ai, e-fatura e em breve IRS, e ainda estar a par das coisas do banco) e, acima de tudo, trabalhar.
Tempos modernos é isto. É eu estar em Goa a fazer coisas de Portugal ou estar em Goa e falar e escrever português na internet. É eu poder trabalhar sem ser aos soluços ou comunicar por vídeo-chamada sem cortes.
Os tipos da BSNL (a operadora indiana) é que podiam meter isso na cabeça. Parece-me que ainda estão ocupados lá na sede deles, a pintar gravuras rupestres. Ouvi dizer.
Vanessa
Eu fiz batota e usei os dados do telemóvel para ler emails. Para o Facebook quase não deu. Na verdade, por estranho que pareça, o tempo passou rápido. Parece que antes do aparecimento da internet havia vida. Ouvi dizer. O que se ouve não fica guardado para sempre nas clouds se ninguém tiver gravado. Depois é assim. Uma pessoa tem de se fiar na memória e é o que é.
Aqui parece que voltei atrás no tempo. Como quem diz, voltei atrás na internet, que é a mesma coisa.
Parece que tenho de novo dezasseis ou dezassete anos. Lanço olhares de frustração para o router, como em adolescente olhava para o modem, como se a internet tivesse medo das consequências da sua irregularidade e decidisse estabilizar-se de uma vez por todas para eu não andar a ver a coisinha a rodar.
O problema é que aqui e hoje em dia a internet serve para mais do que andar em fóruns, ver vídeos, pesquisar coisas loucas e essas coisas que em adolescente fazia.
Aqui a internet serve para coisas adultas (não, não é ver vídeos pornográficos ou andar pelo Facebook), como comunicar com o resto do mundo (muito importante hoje em dia), andar atrás das burocracias de Portugal (ai, e-fatura e em breve IRS, e ainda estar a par das coisas do banco) e, acima de tudo, trabalhar.
Tempos modernos é isto. É eu estar em Goa a fazer coisas de Portugal ou estar em Goa e falar e escrever português na internet. É eu poder trabalhar sem ser aos soluços ou comunicar por vídeo-chamada sem cortes.
Os tipos da BSNL (a operadora indiana) é que podiam meter isso na cabeça. Parece-me que ainda estão ocupados lá na sede deles, a pintar gravuras rupestres. Ouvi dizer.
Vanessa
A maior escultura de laterita da Índia
Chama-se The Natural Harmony e mostra Sant Mirabai ou Meerabai (um santo-cantor devoto de Krishna) ao longo de catorze metros de altura por cinco metros de largura. Foi esculpida por Maendra Jocelino Araújo Álvares, responsável ainda pela criação da área Ancestral Goa, da qual faz parte o museu Big Foot.
Todo o local presta homenagem à influência portuguesa em Goa através de representações da vida quotidiana em tempos coloniais.
Aquela que é a maior escultura de laterita da Índia (detendo por isso um lugar no Guinness World Records) começou a ser construída em Agosto de 1994 e em 30 dias estava pronta. Foi à sua volta que foi crescendo o parque temático agora chamado Ancestral Goa, que acabou por desenvolver a vila de Loutolim.
A estátua fica num local afastado da zona comercial do parque, ao lado do local de homenagem a Big Foot.
Reza a lenda que Mahadar era um senhor muito rico que empobreceu a ajudar os desfavorecidos. Os deuses garantiram-lhe um desejo, pelo seu carácter e dedicação e Mahadar pediu apenas um local para rezar. Os deuses deram-lhe uma rocha, onde ele colocou um joelho e um pé para proceder à oração. Os deuses, admirados com a sua devoção, levaram-no para o céu. Ficou apenas a sua pegada (Big Foot) como recordação. O local agora é considerado milagroso e recebe centenas de devotos.
Talvez tenha sido para enaltecer um local lendário que o escultor Araújo Álvares criou depois a escultura de Sant Mirabai, que se juntou à aura de misticismo do local.
Quem viu esta foto no meu Facebook, na qual eu dizia que os meus braços não eram longos o suficiente para fotografar a escultura, e não acreditou, aqui está a prova:
Isto foi o melhor que consegui.
Ainda tive tempo para uma selfie. Havia tantas outras pessoas a tirar selfies que eu fui contagiada.
Vanessa
sábado, 13 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Why Don't I Just Write In English?
A friend asked me if wouldn't it be better for me to just write in English, especially since probably more Indians speak English rather than Portuguese. The truth is I enjoy writing in Portuguese.
First of all it's my mother tongue. It comes naturally to me. I like the sound of it in my brain. I like the looks of it when I see the words. It sounds beautiful and looks beautiful to me.
When I created this blog I let go of boundaries and decided I should write in whatever format suits me at the time. That's why I've been writing in English from time to time, at random.
Book reviews, for example, seem a logical choice since I read mostly in English. My opinion on those books comes naturally in English. They even start forming while I'm reading.
Second reason, I'm not good at making choices. I don't like closing doors. I like options. I enjoy expressing many things in many ways. One day I might include graphics, videos, drawings. Who knows? I enjoy variety, diversity, richness of content, clashes of culture, having readers from all over.
Third, why not? I know it's weird answering a 'why' question with a 'why' answer, but that's my best explanation. Why not? There are many, many blogs in English. There are many, many blogs in Portuguese. I'm mixing it up. It fits my purpose, which is to write whatever, whenever. It suits the place I'm at, which was a Portuguese colony, which is now not exactly Portuguese, but not exactly Indian.
It's a mix, just like me, just like my blog... just like the internet.
Vanessa
Amendoins com areia
O título é sensacionalista. Para ser realista seria "Amendoins assados com areia", que é como os amendoins que aqui são vendidos são cozinhados. O sabor levou-me de imediato à infância logo com o primeiro amendoim que comi aqui. Lembrei-me das senhoras de capulana que vendiam pacotinhos de amendoins assados nas beiras de estrada batida em Maputo e até me lembrei do aroma desses amendoins. A memória sensorial tem destas coisas de vez em quando. Os amendoins assados em areia ficam muito mais saborosos porque é usada areia da praia, que contém vestígios de sal, e porque a areia a ferver distribui o calor pelos amendoins, o que os deixa tostados de forma uniforme e aromáticos como nenhuns outros. Só quem já provou amendoins areados é que sabe. Sim, há o inconveniente ocasional de sermos brindados com uma ou outra pedra de areia que nos acorda para a vida, mas tudo aquilo que vale muito a pena conta sempre com uma pequena dose de risco, não é verdade?
Vanessa
Obsessão
Aqui os indianos parecem obcecados por fotografar todos os momentos. Desconfio que compram telemóveis topo de gama para isso mesmo. Numa visita ao Big Foot Museum numa área chamada Ancestral Goa, em Loutolim, fiquei espantada pela quantidade de cliques e flashes que testemunhei.
Vi pessoas que entravam num espaço e nem sequer olhavam em volta. Pegavam logo no telemóvel, raramente numa máquina fotográfica, e desatavam a olhar para tudo através da lente e a fotografar.
Depois disso, em casas-museu, em galerias, em igrejas e templos, o que eu vi só seria acreditável se fosse filmado e eu não queria ser mais uma indiana obcecada em reproduzir as coisas em formato digital.
Um casal fez-me rir, com a constante escolha de um local para ela tirar uma foto, sempre séria (realmente séria, sem um meio sorriso sequer), junto aos objectos mais banais. Devem ter centenas de milhares de fotos assim, com ela junto a tachos e panelas ou imagens sagradas (sim, eu testemunhei tais coisas), sem sequer fazer uma pose original ou esboçar um sorriso. Deve ter álbuns de fotos bastante interessantes, este casal.
Se em Portugal, nos poucos concertos aos quais vou, já me irritam as constantes luzes de aparelhos quando é permitido fotografar e filmar, ou pelo menos quando não há ninguém a controlar a multidão, então aqui deve ser bem pior, se pegarmos na escala da obsessão fotográfica a que já assisti.
Não estou a exagerar. Nesta visita em específico, eu preferi seguir as crianças do que ir com os adultos e os seus flashes e as suas poses e as suas selfies e as suas paragens para verificar se as fotos tinham ficado ao seu gosto. É claro que acabei por imitar os adultos em algumas ocasiões, mas as crianças eram um constante lembrete para que eu aproveitasse a visita e visse tudo com olhos de ver.
E só porque também eu às vezes sou um pouco obcecada com a reprodução digital das minhas visitas, cá vai uma foto destas criaturas fantásticas que são as crianças indianas:
Vanessa
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
O meu pequeno-almoço preferido: poori bhaji
Na verdade, poori bhaji parece ser o pequeno-almoço preferido de todos os indianos. É o equivalente ao nosso... à nossa... bom, em Portugal não há equivalente. Aqui é habitual o pequeno-almoço ser uma refeição parecida ao almoço ou ao jantar. É normal ser constituído pelas sobras dessas duas refeições, por exemplo.
Quando se come fora, o poori bhaji e os salgados, como chamuças (ou samosas) e folhados de vegetais ou de carne, são os itens mais badalados dos menus. São os best sellers.
A maior parte dos cafés e restaurantes não tem muitas escolhas doces. Há bebidas doces como a falooda ou o lassi, que até alimentam, mas não há folhados e bolos com creme de ovo, como em Portugal (até porque ovo e calor não combinam), croissants e a variedade que vemos nas nossas pastelarias.
Às vezes há bebinca, ladhu, halwa. Em estabelecimentos mais ocidentalizados há bolos à fatia ou miniaturas dessas bolos e, com muita sorte uns cupcakes, muffins, tortas ou tartes.
Mas voltemos ao poori e ao bhaji:
Este foi o pequeno-almoço do meu dia de anos. Para mim um mix bhaji (normalmente misturam o de batata, mais comum, com outro que tenham no menu; neste caso misturaram o de batata e o de dhal) por recomendação da senhora do lado, que viu o meu prato de batata bhaji e apontou para o dela, com um aspecto bem melhor, mais três pooris, e uma chamuça para a minha mãe acompanhada de dois molhos.
O poori é uma espécie de apa ou bakri frito, ligeiramente crocante se estiver fresco, e oco por dentro. Serve para molhar no bhaji, pegar nos pedaços do caril sem sujar os dedos e ainda limpar o prato no fim. Serve também para aconchegar o estômago como nenhum pão o consegue fazer. Aqui as pessoas mais jovens parecem gostar mais de pão do que bakri ou poori. O pão daqui é demasiado branco e sabe demasiado a produto refinado.
O poori sabe muito, muito melhor com o bhaji ou até sem molho. Deixo sempre um pedaço para depois de o bhaji estar terminado. Depois do picante alivia a boca ardida.
Quem visita a Índia devia ter poori bhaji na lista de iguarias a provar e devia experimentar pelo menos umas três variedades ou uma em locais diferentes. É o pequeno-almoço "da casa", assim como em Portugal temos o "prato da casa" ou sobremesa "à casa". O que é da casa é normalmente muito bom.
Vanessa
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
"Então, já passeaste muito?"
As pessoas estão constantemente a perguntar-me se já passeei muito aqui por Goa. Pessoas de Portugal, pessoas que conheci cá, pessoas que conheci cá e que são meu familiares.
Apetece-me pedir-lhes que definam esse muito.
Muito tempo? Muito longe? Muito longe por muito tempo? Muitas vezes? Muitas vezes, muito longe, por muito tempo? Passear muito é o quê, afinal? Às vezes sinto que perdi a minha capacidade de compreensão porque há perguntas assim deste género às quais não consigo responder prontamente.
Para esta pergunta, a do se já passeei muito, fica sempre a resposta afirmativa.
Não é mentira. Já passeei bastante. Se foi muito ou pouco, não sei.
A abundância é algo que se mede melhor no final ou por comparação à escassez. Nesse sentido, já passeei muito, muito mais do que, pelo menos, nos últimos três ou quatro anos. Mas não ando aqui a fazer contas nem comparações. Já fui onde os meus familiares me levaram e conheci por isso os sítios-chave. Para mim, até agora, foi o suficiente. Essa coisa do muito depende do dicionário de cada um.
Senão vejamos: tenho aqui familiares para quem Goa é tudo, é muito. Já estiveram noutros países, de Portugal aos Estados Unidos. Depois dessas andanças, estar aqui é muito, por comparação, por concretização, seja lá por que razão for. Talvez um dia eu sinta que Goa, Nagoá de Vernã, sejam muito. Mas assim um dia lá mais à frente, depois de objectivos cumpridos, outros objectivos estabelecidos e talvez cumpridos, umas quantas surpresas, e sobretudo depois de já ter passeado mesmo muito por outros locais. Que muito é esse? É o meu muito.
Vanessa
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